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sempre-lendo, o melhor grupo de troca de livros da internet!


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Anne Rice


VIOLINO

Traduo de              
 MARIO MOLINA








 


















PARA
Annelle Blanchard, M.D.
PARA
Rosrio Tafaro
PARA
Karen 
e como sempre e para sempre
PARA
Stan, Christopher e Michele Rice,
John Preston
e
Victoria Wilson
e
em tributo
ao talento de
Isaac Stern
e
Leila Josefowicz


















E o Anjo do Senhor revelou-se a Maria,
e ela concebeu do Esprito Santo.










  
  
  PRLOGO

 O que procuro fazer aqui talvez no possa ser feito em palavras. Talvez s possa ser feito em musica. Quero tentar faz-lo em palavras. Quero dar  histria uma 
arquitetura que s uma narrativa pode proporcionar - o comeo, o meio e o fim, o denso desenrolar de eventos em frases que reflitam fielmente seu impacto sobre o 
escritor.
    No creio que se precise conhecer os compositores que menciono freqentemente nestas pginas, Beethoven, Mozart, Tchaikovsky, nem o arranhar selvagem dos que 
tocam rabeca na msica country ou a msica lgubre dos violinos galicos. Minhas palavras devem ser capazes de transmitir a essncia mesma do som.
    Se isso no acontecer,  porque existe aqui alguma coisa que efetivamente no pode ser escrita.
    Mas como  a histria de que fao parte, a histria que sou forada a desenrolar - minha vida, minha tragdia, meu triunfo e seu preo -, a nica sada  tentar 
fazer este registro.
    Ao comearmos, no procure ligar os acontecimentos passados de minha vida em uma cadeia coerente como as contas de um rosrio. No fiz assim. As cenas aparecem 
em exploses, em desordem, como contas atiradas tumultuadamente para a luz. E fossem elas unidas, formando um rosrio (e minha idade tem exatamente o mesmo nmero 
das contas do rosrio, 54), o passado no formaria uma fileira de mistrios: A Agonia, O Jbilo, A Glria - nada disso. Nenhum crucifixo na ponta redime esses 54 
anos. Por isso dou-lhes a chama dos momentos realmente importantes, aqui.
    No precisa me ver como uma velha senhora. Hoje em dia 54 anos no  nada. Tente me imaginar, se for o caso, como uma mulher de l,55m de altura, gorducha, com 
um tronco sem curvas que tem sido a runa de minha vida adulta, mas com um rosto de menina, cabelo preto e solto, farto e comprido, com pulsos e tornozelos finos. 
A gordura no alterou a expresso facial de meus 20 anos. Quando me cubro com roupas leves, de bom caimento, pareo uma pequena jovem na forma de um sino. 
     
    Minha fisionomia foi uma generosa ddiva de Deus, ainda que no de todo extraordinria.  tipicamente teuto-irlandesa, quadrada. Tenho olhos grandes, castanhos, 
e o cabelo, cortado reto logo acima das sobrancelhas (minhas franjas, se preferirem), disfara o pior trao - uma testa pequena. "Que belo rosto",  o que costumam 
dizer de mulheres atarracadas como eu. Escondidos pela carne, meus ossos so visveis apenas para reluzirem discretamente sob a luz. Minhas feies so insignificantes. 
Consigo chamar a ateno do passante pela agudeza visvel em meu olhar, uma sagacidade penetrante e cultivada: porque, quando sorrio, nesse exato instante, pareo 
verdadeiramente jovem.
    No  incomum, na poca de hoje, ser to jovem aos 54 anos, mas  bom lembrar isso aqui porque, quando eu era criana, uma pessoa que tivesse vivido mais de 
meio sculo era considerada velha. Agora no  mais sim.
    Na faixa dos 50, dos 60, no importa a idade, todos ns circularemos por enquanto a sade deixar: livres, firmes, vestidos, se preferirmos, como gente jovem, 
sentando com os ps para cima, descontrados. Somos os primeiros beneficirios de um surto de sade sem precedentes, preservando com freqncia at o verdadeiro 
fim da vida uma f na descoberta de coisas novas.
    Essa , ento, a herona, se  que serei mesmo uma herona.
    E o heri? Ah, ele tinha vivido um sculo antes.
    A histria comea quando ele chega, como a imagem que uma jovem faz do sedutor atormentado e sombrio (Lord Byron num penhasco sobre o abismo), como a melanclica 
e furtiva encarnao de um romance - o que e de fato era, mais do que merecidamente. Era fiel a esse tipo, encantador misterioso, trgico e cativante, como uma Mater 
Dolorosa. E pagou por tudo que foi. Ele pagou.
    Foi isso... que aconteceu.
  
  
  
  
  
  1
  
  
 Ele chegou um dia antes de Karl morrer.
    Era trfego na avenida St. Charles roncava como sempre e, l fora, as grandes folhas da magnlia haviam coberto as lajotas porque eu no sara para varr-las.
    Vi-o descer a avenida e, quando chegou  minha esquina, no atravessou a Third Street. Parou diante da floricultura, virou-se, empinou a cabea e olhou para 
mim.
    Eu estava na janela da frente, atrs das cortinas. Nossa casa tem muitas dessas janelas compridas e varandas amplas, muito abertas. Estava apenas parada ali, 
como tenho feito a vida inteira, contemplando a avenida, as pessoas, os carros, sem nenhum motivo especial.
    Dificilmente algum me veria. A esquina  movimentada e a renda das cortinas, embora rasgada, torna-se grossa aos olhos daquele mundo que est sempre ali, fluindo 
bem  volta de quem passa.
    Aparentemente, ele no trazia qualquer violino, apenas um saco atirado no ombro. S parou e olhou para a casa; depois se virou, como se tivesse chegado ao fim 
do passeio e fosse voltar, lentamente, a p como viera. Mais um que gostava de passear  tarde na avenida.
    Era alto e magro, mas sem dvida no de um jeito desagradvel. O cabelo preto, despenteado, comprido como o de um msico de rock, estava amarrado em duas tranas 
para no bater no rosto, e lembro que, quando deu meia-volta, gostei do modo como elas caram em suas costas. Lembro do casaco por causa disso - um velho casaco 
preto empoeirado, tremendamente empoeirado, como se ele tivesse dormido em algum lugar no meio do p. Lembro disso por causa do brilho do cabelo preto e da forma 
como ele brotava spero e desgrenhado, comprido, to bonito. 
    Apesar da distncia at a esquina, reparei que tinha olhos escuros, de um tipo profundo, esculpidos no rosto, debaixo de sobrancelhas em arco, olhos para serem 
furtivos at que se chegue realmente perto e veja o calor dentro deles. Era magricela, mas tinha seu encanto.
    Olhou para mim e olhou para a casa. Depois foi embora, com o passo tranqilo, regular demais, eu acho. Mas na poca, o que sabia eu sobre fantasmas? Ou sobre 
o modo de caminharem quando atravessam um lugar?
    No voltou at duas noites aps a morte de Karl. Eu no dissera a ningum que Karl morrera e a secretria eletrnica estava mentindo por mim.
    Aqueles dois dias foram s meus.
    Nas primeiras e poucas horas depois da partida de Karl, isto , depois que ele se fora de verdade, realmente, com o sangue esvaindo-se para baixo do corpo, com 
o rosto, as mos, as pernas ficando muito brancos, eu experimentara o tipo de exaltao que se pode experimentar aps uma morte: eu tinha danado e danado Mozart.
    Mozart foi sempre meu alegre guardio, o "Pequeno Gnio", como eu o chamava, "Maestro de Seu Coro de Anjos", esse  Mozart; mas Beethoven  o "Maestro de Meu 
Corao Sombrio", o capito de minha vida despedaada e de todos os meus fracassos.
    Naquela primeira noite, quando Karl tinha morrido h apenas cinco horas, depois que troquei os lenis, depois que limpei o corpo de Karl e estendi-lhe as mos 
ao lado do corpo, no consegui mais ouvir os anjos de Mozart. Que Karl estivesse com eles, por favor, depois de tanto sofrimento. E o livro que Karl compilara... 
Quase terminado, mas no de todo; as pginas, as ilustraes espalhadas na mesa dele. Que o livro esperasse. Tanto sofrimento.
    Voltei-me para meu Beethoven.
    Deitei-me no cho da sala de estar no andar de baixo - a sala do canto, que recebe a luz da avenida pela frente e pelo lado, e botei para tocar a Nona de Beethoven. 
Toquei a parte da tortura. Toquei o Segundo Movimento. Mozart no conseguiria me transportar alm da morte e para fora dela; era tempo de angstia, e Beethoven sabia, 
e o Segundo Movimento da sinfonia sabia.
    No importa quem morre ou quando, o Segundo Movimento da Nona Sinfonia sempre funciona.
    Quando eu era criana, adorava o ltimo movimento da Nona Sinfonia de Beethoven, como acontece com todo mundo. Adorava o coro cantando a "Ode  Alegria". No 
posso contar quantas vezes fui assisti-lo - uma vez aqui, outra em Viena, vrias em San Francisco durante os anos frgidos, quando eu estava longe da minha cidade.
    Mas nesses ltimos poucos anos, mesmo antes de conhecer Karl, foi o Segundo Movimento que realmente me acompanhou.
     como uma msica caminhante, a msica de algum que sobe obstinadamente, quase raivoso, uma montanha.  ir em frente, sempre em frente, em frente, como se a 
pessoa nunca fosse parar. Ento a msica chega a um lugar tranqilo, como se entrasse nos Bosques de Viena, como se a pessoa ficasse repentinamente imvel e exultante 
e tivesse a vista que esperava da cidade e pudesse atirar os braos para o alto - danar em crculos. A trompa est l, o que sempre nos faz pensar em bosques, vales 
e pastores; podemos sentir a paz, a quietude dos bosques, o plat de felicidade daquela pessoa ali parada, mas de repente...
    ... de repente entra o tambor. E a caminhada recomea, montanha acima, a determinao de andar e andar. De andar e andar.
    Quem quiser pode danar essa msica, jogando o corpo a partir da cintura de um lado para o outro ( o que fao), como se estivesse maluco, at ficar tonto, deixando 
o cabelo bater  esquerda e depois  direita. Pode-se marchar, dando voltas e voltas na sala, num feroz crculo marcial, os punhos cerrados, o passo cada vez mais 
e mais rpido. Pode-se tambm interromper a marcha de vez em quando e rodopiar. Pode-se jogar com fora a cabea para frente e para trs, para frente e para trs, 
deixando o cabelo voar para cima, para o lado, para baixo, e escuro diante de seus olhos, antes de desaparecer e enxergar-se novamente o teto.
     uma msica implacvel. E a pessoa no vai desistir. Para a frente, para o alto, avante, isso no importa agora (bosques, rvores, no importam). Tudo que importa 
 que se caminha... e quando vem outra vez aquele pedao pequeno de felicidade - a doce e exultante felicidade do plat - ela  alcanada, desta vez, no meio do 
avano dos passos. Porque no h parada.
    No antes de a msica parar.
    Esse  o fim do Segundo Movimento. E agora posso rolar no cho, e bater de novo no boto, e arquear a cabea, e deixar o movimento continuar, independente de 
tudo o mais, mesmo das grandiosas, imponentes garantias que Beethoven, ao que parece, tentava dar a todos ns, a certeza de que tudo seria um dia compreendido e 
esta vida valia a pena.
    Naquela noite, a noite aps a morte de Karl, toquei o Segundo Movimento por muito tempo, entrando pela manh, at a sala ficar cheia de sol e o parquete do assoalho 
comear a brilhar. O sol atirava grandes raios atravs dos buracos nas cortinas. L no alto, o teto, com aqueles faris perdidos do trfego da longa noite, transformou-se 
num branco suave, como uma nova pgina onde no h nada escrito.
    Uma vez,  meia-noite, deixei a sinfonia ir at o fim. Fechei os olhos. A noite estava vazia, s tinha os carros do lado de fora, os carros que no terminam, 
que aceleram e reduzem na avenida St. Charles, carros demais para as pistas estreitas, rpidos demais para os velhos carvalhos e os lampies ligeiramente curvos 
da rua. Eles abafam, com seu extico trovo, at o belo e regular estrpito do velho bonde. Um clangor. Um fragor. Um barulho que poderia ser de festa, e foi o que 
uma vez achei que fosse. Em toda minha vida, que j passa de meio sculo, no me lembro de ter visto uma nica vez a avenida verdadeiramente silenciosa, exceto nas 
primeiras horas da madrugada.
    Fiquei em silncio naquele dia porque no conseguia me mexer. No conseguia fazer nada. S fui para o andar de cima quando escureceu de novo. Os lenis ainda 
estavam limpos. O corpo estava duro; eu sabia que era rigor mortis. Havia pouca alterao no rosto dele. Para mant-lo de boca fechada, eu amarrara em muitas voltas 
um pano branco e limpo no rosto dele. Eu mesma tinha fechado os olhos. Ficar ali a noite inteira, enroscada perto dele, com a mo naquele peito frio, no foi a mesma 
coisa de antes, quando ele era macio.
    A maciez voltou no meio da manh. Um simples relaxamento do corpo inteiro. Os lenis ficaram sujos. Havia cheiros ftidos. Mas eu no tinha a menor inteno 
de identific-los. Foi fcil, agora, levantar os braos dele. Lavei-o de novo. Troquei tudo como faria uma enfermeira, rolando o corpo para o lado e estendendo uma 
parte do lenol limpo, depois trazendo o corpo de volta para acabar de cobrir a cama, prendendo o lenol limpo debaixo do colcho.
    Ele estava branco, e ttrico, mas outra vez malevel. Embora a pele estivesse afundando, afastando-se dos traos do rosto, aqueles ainda eram os traos dele, 
os de meu Karl; pude ver, inalteradas, as minsculas rachaduras nos lbios e as pontas claras, descoradas das pestanas quando o sol as atingiu.
    O quarto de cima, o quarto do poente - era l que ele queria que dormssemos (e foi onde morreu), pois o sol atravessa tarde as pequenas janelas embutidas no 
telhado.
    Esta imensa casa de um chal, com seis colunas corntias e grades de ferro. Realmente s um chal, com grandes espaos num nico andar e pequenos quartos improvisados 
num sto, que antigamente era cavernoso. Quando eu era muito pequena havia apenas o sto, que cheirava muito gostoso, sempre como bosque, como bosque e sto. 
Os quartos vieram quando minhas irms mais novas chegaram.
    Esse quarto da esquina do poente era um belo quarto. Ele teve razo em escolh-lo, em prepar-lo com tanta liberalidade, em arrumar tudo. Fizera tudo de modo 
muito natural.
    Eu nunca soube onde guardava o dinheiro, quanto dinheiro ou o que seria feito dele mais tarde. Estvamos casados h poucos anos. No parecia conveniente perguntar. 
Estava velha demais para ter filhos. Alm disso Karl me dava tudo com muita generosidade - qualquer coisa que eu desejasse. Ele era assim.
    Passava os dias trabalhando nas descries, nos comentrios em torno de um santo, um santo que tomava conta de sua imaginao: So Sebastio. Esperava acabar 
o livro antes de morrer. E quase conseguiu. Tudo que faltava eram retoques eruditos. Eu pensaria nisso mais tarde.
    Telefonaria para Lev e lhe pediria conselho. Lev foi meu primeiro marido. Lev ia ajudar. Lev era professor universitrio.
    Fiquei um longo tempo ao lado de Karl e pensei quando a noite chegou: "Bem, ele j est morto h dois dias e provavelmente voc j transgrediu a lei."
    Mas isso tem realmente alguma importncia? O que podem fazer? Sabem do que morreu, sabem que estava com AIDS e que no havia esperanas; quando chegarem, destruiro 
tudo. Vo levar o corpo e queim-lo.
    Acho que foi essa a principal razo que me levou a conserv-lo por tanto tempo. No tive medo dos fluidos ou de qualquer coisa do gnero, e ele prprio tinha 
sido sempre muito cuidadoso nos ltimos meses, exigindo mscaras e luvas. Mesmo com a sujeira aps sua morte, eu ficara a seu lado num grosso robe de veludo, com 
minha pele intacta fechando-me dentro dela e me protegendo de qualquer vrus que ainda continuasse por perto.
    Nossos momentos erticos haviam sido manuais, pele contra pele, tudo isso podia ser lavado - nunca houve a temerria unio.
    A AIDS nunca me pegara. E s aps os dois dias, quando achei que devia avis-los, que devia inform-los, s ento percebi que desejava que ela tivesse me pegado. 
Ou pelo menos foi o que pensei.
     to fcil desejar a morte quando no h nada errado com voc!  to fcil apaixonar-se pela morte. Em toda minha vida tive essa paixo, mas vi seus mais fiis 
devotos fraquejarem no fim, esbravejarem simplesmente para viver, como se todos os vus escuros, os lrios, o cheiro das velas e as grandiosas promessas do tmulo 
nada significassem.
    Eu sabia disso. Mas sempre desejei estar morta. Era um meio de continuar vivendo.
    A noite chegou. Observei algum tempo, pela pequena janela, como os lampies se acendiam na rua. Como as luzes da floricultura foram ligadas exatamente quando 
suas portas se fecharam para o pblico.
    Vi o cho ainda mais coberto pelas folhas grossas e crespas da magnlia. Vi como as lajotas ao longo da grade estavam quebradas; era preciso consertar a calada 
antes que algum tropeasse. Vi os carvalhos cobertos com a fuligem que saa dos carros barulhentos.
    Bem, d um beijo nele e diga adeus, foi o que pensei. Sabe-se o que vem a seguir. Se est mole  porque entrou em decomposio, e tem um cheiro que nada tem 
a ver, que nada deve ter a ver com ele.
    Curvei-me e beijei-o nos lbios. Beijei, beijei e beijei aquele parceiro de no mais que poucos e curtos anos, que definhou to generosamente rpido. Beijei-o 
e, embora quisesse voltar para a cama, desci, abri um po de forma, comi algumas fatias, tirei uma lata da embalagem de papelo que havia no cho e tomei a soda 
diet, que estava quente; tudo com absoluta indiferena, ou melhor, com a certeza de que o prazer, sob qualquer forma, estava proibido.
    Msica. Podia experimentar de novo. S mais uma noite sozinha, ouvindo meus discos, todos s para mim, antes que eles chegassem, aos berros. Antes que a me 
dele telefonasse soluando de Londres: "Graas a Deus o beb nasceu! Ele esperou, esperou at o beb da irm nascer!"
    Eu sabia que era exatamente isso o que ia dizer, e era verdade, eu acho; tinha esperado pelo beb da irm, mas no o suficiente para ela voltar para casa. Essa 
era a parte que faria sua me continuar chorando desesperada por mais tempo do que eu tinha pacincia de ouvir. Pobre senhora. Voc iria para o lado da cama de quem, 
da filha em Londres, dando  luz, ou do filho agonizante?
    A casa estava coberta de lixo.
    Ah, que liberdade eu tomara. De qualquer modo os enfermeiros no queriam mesmo vir nos ltimos dias. H santos por toda parte, santos que ficam com os moribundos 
at o ltimo momento, mas neste caso eu estava l e no havia necessidade de santos.
    Todo dia meus velhos empregados, Althea e Lacomb, batiam aqui, mas eu no alterava o bilhete na porta: "Est tudo bem. Deixe um recado."
    E assim o lugar ficou cheio de lixo, migalhas de biscoito, latas vazias, poeira e at folhas, como se houvesse uma janela aberta em algum lugar (provavelmente 
no quarto principal, que nunca usamos) e o vento tivesse trazido as folhas at o tapete laranja.
    Fui para a sala da frente e me deitei no assoalho. Quis estender o brao para tocar no boto e dar incio, outra vez, ao Segundo Movimento (s Beethoven comigo, 
o capito desta dor), mas no consegui.
    Talvez para Mozart, o "Pequeno Gnio", tudo parecesse estar bem, com o claro brilhante e tranqilizador de anjos batendo as asas, rindo e dando saltos mortais 
sob a luz celeste. Eu quis estender... Mas no consegui me mexer... durante horas. Ouvia Mozart em minha cabea; ouvia seu violino disparando. Comigo era sempre 
o violino, o violino acima de tudo, que eu amava.
    Ouvia Beethoven de vez em quando. A carga mais intensa de felicidade de seu nico Concerto para Violino, que h muito eu decorara - as fceis melodias solo, 
 claro. Mas nada tocou na casa onde eu jazia com o morto no andar de cima. O assoalho estava frio. Era primavera e, naqueles dias, o tempo variava de muito calor 
a uma friagem de inverno. Bem, est ficando frio, pensei comigo, e isso vai conservar melhor o corpo, no?
    Algum bateu. Foram embora. O trfego alcanou seu pico. Veio uma paz. A secretria eletrnica dizia uma mentira atrs da outra, da outra, da outra... Clique 
e clique e clique clique.
    Ento adormeci, talvez pela primeira vez.
    E o mais belo dos sonhos tomou conta de mim.
    
    
    
    
  
  2
  
  
 Sonhei com o mar em plena luz do sol, mas um mar que nunca conhecera. A terra era um grande bero onde este mar se movia, como o mar em Waikiki ou ao longo da costa 
sul de San Francisco. Isto , eu podia ver distantes braos de terra  esquerda e  direita, estendendo-se desesperadamente para conter a gua.
    Que mar selvagem e cintilante era ele, sob um sol to imenso, to puro, embora eu no pudesse ver o sol propriamente dito, apenas sua luz. As grandes ondas vinham 
rolando, imbricando-se umas nas outras, enchendo-se de claridade verde um instante antes de quebrarem. E ento cada onda executava uma dana (uma dana) a que eu 
nunca assistira.
    De cada onda que morria vinha uma grande e frgil quantidade de espuma, mas a espuma se dividia aleatoriamente em grandes picos, cerca de seis a oito para cada 
onda, e esses picos pareciam nada menos que pessoas (pessoas feitas das borbulhas cintilantes da espuma) estendendo os braos para a verdadeira terra, para a praia, 
para o sol, talvez.
    No parava de ver o mar em meu sonho. Sabia que estava olhando de uma janela. Estava maravilhada e tentava contar os vultos que oscilavam antes que eles se dissipassem, 
como inevitavelmente ocorria. Estava assombrada por ver como ficavam bem formados de espuma, com cabeas que acenavam, com braos em desespero, antes de se desintegrarem, 
como que atingidos por um golpe mortal do ar, para que tudo fosse lavado, para que, no enrolar da prxima onda verde, houvesse uma coleo inteiramente nova de graciosos 
movimentos suplicantes.
    Gente de espuma, fantasmas sados do mar -  assim que eles apareciam para mim. Estavam em toda a extenso da praia, pois at onde eu podia ver, da segurana 
de minha janela, todas as ondas faziam o mesmo; enrolavam-se, verdes e cintilantes, depois quebravam, transformando-se nas figuras em splica. Algumas ondas se enroscavam 
entre si, outras ficavam  parte; depois recuavam todas, dobrando sobre si mesmas em direo ao grande e violento oceano.
    Mares eu vi, mas nunca um mar onde as ondas formassem danarinos. E mesmo quando o sol de fim de tarde caiu, uma claridade artificial inundou a areia lisa e 
os danarinos continuaram a vir, com as cabeas erguidas, com as longas espinhas e os braos arremessados para a terra num gesto de rogo.
    Oh, aqueles seres espumantes me pareciam muito com fantasmas -espritos fracos demais para adquirirem uma forma no mundo concreto, ainda que suficientemente 
fortes para se revestirem, por um momento, de uma espuma selvagem e dissolvente, forando-a a tomar um contorno humano antes que a Natureza a levasse embora.
    Como gostei daquilo. Ao longo de toda a noite vi a coisa acontecer, ou pelo menos foi o que o sonho me revelou, do modo como fazem os sonhos. E ento vi a mim 
mesma no sonho e era dia claro. O mundo estava vivo e atarefado. Mas o mar era decididamente to vasto e azul que quase chorei ao olhar para ele.
    Vi a mim mesma na janela! Em meus sonhos, um ponto de vista desses quase nunca acontece. Nunca! Mas l estava eu, eu me conheo, meu prprio rosto frgil e quadrado, 
meu prprio cabelo preto com franjas num corte rude, e todo o resto comprido, reto. Estava numa janela quadrada, na fachada branca do que parecia ser um grande prdio. 
Vi minhas prprias feies, pequenas, ainda no definidas por um sorriso, no interessantes; s ordinrias e sem qualquer trao de perigo ou desafio, o rosto com 
franjas caindo quase at as pestanas e os lbios que sorriam com tanta facilidade. Tenho um rosto que vive nos sorrisos. E mesmo no sono eu pensei: "Ah, Triana, 
voc deve ser muito feliz!" Mas na realidade nunca foi preciso muita coisa para me fazer sorrir. Conheo intimamente a angstia e a felicidade!
    Pensei tudo isto no sonho. Pensei em ambos, na angstia e na felicidade. E estava feliz. Vi, no sonho, que eu estava na janela segurando com o brao esquerdo 
um grande buqu de rosas vermelhas e que, com meu brao direito, acenava para as pessoas l embaixo.
    Mas onde podia ser isso, pensei, chegando cada vez mais perto da beira da viglia. Nunca durmo muito tempo. Nunca tenho o sono muito profundo. A terrvel suspeita 
j se tinha dado a conhecer. Isto  um sonho, Triana! Voc no est l. Voc no est num lugar luminoso e quente com um vasto mar. Voc no tem rosas.
    Mas o sonho no se quebrava, nem ia se apagando, nem mostrava a menor falha ou ruptura.
    Eu me via l em cima, na janela, sempre acenando, sorrindo, segurando o grande buqu de hastes cadas. Ento reparei que acenava para rapazes e moas que estavam 
parados na calada l embaixo - apenas crianas altas, no mais que isso, garotos de 25 anos ou menos, s garotos, e percebi que eles  que tinham me mandado as 
rosas. Eu os amava. Dava adeus e adeus e eles tambm, pulando de um lado para o outro em sua exuberncia. Depois atirei beijos.
    Com os dedos da mo direita, atirei um beijo atrs do outro queles admiradores, enquanto atrs deles o grande mar azul brilhava e a noite chegava, severa e 
repentina. Alm daqueles jovens danarinos, nas lajotas com motivos em preto e branco, danava mais uma vez o mar, os flocos de formas se erguendo na espuma das 
ondas. Aquilo parecia um mundo to real que eu no conseguia afirmar que fosse apenas um sonho.
    "Est acontecendo com voc, Triana. Voc est l."
    Tentei ser esperta. Conhecia esses truques hipnaggicos que os sonhos podem fazer, conhecia os demnios que ficam frente a frente com voc na prpria margem 
do sono. Eu sabia e me virei e tentei ver o quarto onde me encontrava. "Onde fica isso? Como eu podia imaginar isso?"
    Mas vi apenas o mar. E o escuro da noite estava cheio de estrelas. O delrio dos fantasmas de espuma estendia-se at onde eu podia ver.
    Oh, Alma, oh, Almas Perdidas, entoei em voz alta, oh, vocs esto felizes, esto mais felizes que na vida com suas pontas to duras e tamanha agonia? No deram 
resposta aqueles fantasmas; esticavam os braos e logo eram puxados novamente para a gua ofuscante e corredia.
    Acordei. To bruscamente.
    Karl dizia em meu ouvido: "No desse jeito! Voc no compreende. Pare com isso!"
    Sentei-me. Era chocante recordar dessa maneira a voz dele, imaginar a voz to perto de mim. Mas a coisa no chegou a ser terrivelmente incmoda. No havia medo 
dentro de mim.
    Estava sozinha na sala da frente grande e suja. Os faris atiravam a renda por todo o teto. Na pintura de So Sebastio, sobre o console da lareira, a aurola 
dourada cintilava. A casa rangia e o trfego se arrastava perto dela, roncando em segundo plano.
    "Voc est aqui. E estava, estava, era um sonho vivo, Karl estava bem ali a meu lado!"
    Pela primeira vez percebi um aroma no ar. Estava sentada no cho, com as pernas cruzadas e tudo ainda continuava cheio at a borda com o sonho e a exatido da 
voz de Karl: "No desse jeito! Voc no compreende. Pare com isso!" E com tudo cheio disso, percebi um cheiro na casa indicando que seu corpo comeava a apodrecer.
    Conhecia o cheiro. Todos ns o conhecemos. Mesmo se nunca estivemos em necrotrios ou campos de batalha ns o conhecemos. Percebemos quando o rato morre dentro 
da parede e ningum consegue encontr-lo.
    Reconheci-o naquele momento... Fraco, mas enchendo tudo, na casa inteira, todos os grandes aposentos decorados, sem excluir aquela sala de visitas, onde So 
Sebastio sobressaa da moldura dourada e a caixa acstica se encontrava a poucos centmetros. O telefone fazia mais uma vez aquele clique, hora da mentira, clique. 
Uma mensagem talvez.
    Mas o fato, Triana,  que voc sonhou. E esse cheiro no seria admissvel. No, no este, porque no era Karl, esse cheiro medonho. Esse no era seu Karl. Era 
apenas um corpo morto.
    Achei que devia me mexer. Ento alguma coisa me prendeu. Era msica, mas no vinha dos discos espalhados no cho e era uma msica que eu no conhecia, embora 
conhecesse o instrumento.
    S um violino podia soar assim, s um violino podia suplicar e se lamentar na noite assim. Oh, como eu ansiava, quando era criana, ser capaz de fazer aquele 
som num violino.
    Algum, l fora, tocava um violino. Eu ouvia. Ouvi-o se erguer suavemente por cima dos sons confusos da avenida. Ouvi-o desesperado e pungente, como se Tchaikovsky 
estivesse regendo; ouvi uma perfeita torrente de notas, to rpidas e geis que pareceram mgicas.
    Equilibrei-me nos ps e fui para a janela do canto.
    Ele estava l. O sujeito alto com o cabelo preto brilhante de msico de rock e o casaco empoeirado. O homem que eu vira antes. Agora estava parado no meu lado 
da esquina, na calada de lajotas quebradas diante da grade de ferro. Estava tocando o violino quando baixei os olhos sobre ele. Empurrei a cortina para o lado. 
Tive vontade de soluar com a msica.
    "Vou morrer disso", pensei. Vou morrer da morte e do fedor nesta casa e da beleza cabal dessa msica.
    Por que ele tinha vindo? Por que para mim? Por qu - e para tocar dentre todas as coisas o violino, que eu amava tanto, com o qual lutara com tanta determinao 
quando era criana (mas quem no ama o violino)? Por que viera toc-lo junto de minha janela?
    Ah, minha garota, voc est sonhando!  ainda e apenas a mais pastosa, a pior das armadilhas, a mais hipnotizante. Ainda est sonhando. Voc absolutamente no 
acordou. Volte, encontre a si mesma, sinta-se onde voc sabe que est: deitada no cho. Encontre-se.
    "Triana!"
    Rodopiei.
    Karl estava na porta. A cabea estava enrolada no pano branco, mas o rosto era uma pedra branca e o corpo quase um esqueleto no pijama de seda preta com que 
eu o vestira.
    "No, no faa isso!", disse ele.
    O som do violino cresceu. O arco veio com estardalhao para as cordas mais graves, o r, o sol, provocando aquela palpitao veemente e dolorosa, quase dissonante, 
que se tornou naquele momento a mais pura expresso do meu desespero.
    - Ah, Karl! - clamei. Acho ter dito isso.
    Mas Karl se fora. No havia mais Karl. O violino continuava cantando; cantava e cantava e vi-o de novo quando me virei e olhei pela janela - o cabelo preto lustroso, 
os ombros largos, o violino marrom e sedoso na luz da rua. Ele fez o arco descer com tamanha violncia que senti os calafrios me subindo na nuca e descendo pelos 
braos.
    -        No pare, no pare! - gritei.
    Ele brandiu o arco como se estivesse fora de si, sozinho na esquina, no claro vermelho das luzes da floricultura, nos raios foscos dos lampies curvos da rua, 
na sombra dos galhos da magnlia emaranhados sobre as lajotas. Tocou. Tocou o amor, a dor, a perda e tocou e tocou todas as coisas em que eu mais queria acreditar 
neste mundo. Comecei a chorar.
    Pude sentir outra vez o mau cheiro.
    Estava acordada. Tinha de estar. Bati no vidro, mas no com a fora necessria para quebr-lo. Olhei para ele.
    Ele se virou em minha direo, o arco parado no ar, e ento, levantando os olhos e me olhando de frente por sobre a grade, iniciou uma cano mais suave, num 
tom muito baixo, quase abafada pelos carros que passavam.
    Um rudo alto me fez estremecer. Algum batendo na porta dos fundos. Algum batendo com a fora necessria para quebrar o vidro.
    Fiquei ali, no queria me mexer, mas sabia que, quando as pessoas batem daquele jeito, esto decididas a entrar. Com certeza algum percebera que Karl havia 
morrido. Eu teria de atender e manter uma conversa sensata. No havia tempo para msica.
    No havia tempo para aquilo? Ele tirava notas baixas das cordas, mas de repente o gemido se tornava novamente alto e spero, depois agudo, lancinante.
    Afastei-me da janela.
    Havia um vulto na sala; mas no era Karl. Era uma mulher. Vinha do vestbulo e eu a conhecia. Era minha vizinha. Seu nome era Hardy. Miss Nanny Hardy.
    - Triana, querida, aquele homem est aborrecendo voc? - ela perguntou. Foi at a janela.
    Miss Hardy era to alheia  cano dele. Reconheci minha vizinha com uma pequena parte da mente, pois todo o resto movia-se com ele e, de um modo radicalmente 
brusco, percebi que ele era real.
    -        Triana, querida, durante dois dias voc no atendeu  porta. Mas s tive de empurrar com fora. Estava preocupada com voc, Triana. Com
voc e com Karl. Quer que eu faa esse homem horrvel ir embora? Quem
ele pensa que ? Olhe para ele. No saiu da frente da casa. Est ouvindo?
Tocando violino a esta hora da noite. No sabe que aqui h um homem
doente...
    Mas esses sons, essas palavras, eram muito pequenos, minsculos. Como pedrinhas caindo da mo de algum. A msica continuava, doce, discreta, ganhando intensidade 
para um final pattico. "Eu conheo sua dor. Conheo. Mas a loucura no  para voc. Nunca foi. Voc  aquela que nunca enlouquece."
    Olhei fixamente para ele e depois de novo para miss Hardy. Ela usava um penhoar. Viera de chinelos. Nada mau para uma senhora to distinta. Miss Hardy me olhou. 
Depois olhou em volta da sala, discreta e circunspecta, como fazem as pessoas bem-educadas, mas certamente viu os discos espalhados, as latas de soda vazias, o saco 
amassado do po de forma, a correspondncia sem abrir.
    No foi isso, porm, que fez sua expresso se alterar quando olhou de novo para mim. Alguma coisa a pegava desprevenida; alguma coisa a assaltava. Alguma coisa 
desagradvel de repente a tocava.
    Tinha sentido o cheiro. O corpo de Karl.
    A msica parou. Eu me virei.
    -        No o deixe ir embora! - pedi.
    Mas o homem alto e magro, com o cabelo preto sedoso, j comeara a se afastar, carregando nas mos o violino e o arco. Depois de atravessar a Third Street, ainda 
parou diante da floricultura, virou a cabea, olhou para mim e acenou. Acenou. Ento ps cuidadosamente o arco na mo esquerda, que j segurava o brao do violino, 
e levantando a direita me atirou um beijo, estudado, carinhoso.
    Atirou-me um beijo como aqueles garotos tinham feito no sonho, os garotos que me trouxeram rosas.
    Rosas, rosas, rosas... Quase cheguei a ouvir algum dizendo essas palavras, e numa lngua estrangeira, o que quase me fez rir ao pensar que uma rosa, mesmo falada 
em qualquer outra lngua,  sempre uma rosa.
    - Triana - miss Hardy falava muito suavemente, a mo estendida para tocar-me no ombro. - Deixe eu chamar algum - acrescentou, e isso no era um pedido.
    - Sim, miss Hardy, eu devia participar s pessoas - tirei a franja dos olhos. Pisquei, tentando puxar um pouco mais de luz da rua para v-la melhor no penhoar 
florido, muito elegante. -  o cheiro, no ? A senhora pode senti-lo.
    Ela concordou muito devagar com a cabea.
    - Por que, em nome de Deus, a me dele a deixou aqui sozinha!
    - Um beb, miss Hardy, nascido h poucos dias em Londres. Pode saber de tudo ouvindo a secretria eletrnica. A mensagem est l. Insisti para que a me dele 
fosse embora. Ela no queria sair de perto de Karl. As coisas so assim, a senhora entende, ningum pode dizer exatamente quando um homem agonizante vai morrer ou 
um beb vai nascer. Era o primeiro da irm de Karl e Karl tambm disse que ela podia ir, e eu insisti que ela fosse, e ento... ento eu simplesmente fiquei cansada 
de ver tanta gente vindo aqui.
    No consegui decifrar sua expresso. No consegui sequer imaginar seus pensamentos. Talvez ela prpria ainda no os conhecesse num momento como aquele. Achei 
que estava bonita de penhoar; era branco, com flores claras, pregueado na cintura, e os chinelos tambm eram de cetim, exatamente como uma dama do Garden District 
devia se apresentar. Era muito rica, sempre diziam isso. O cabelo grisalho estava cuidadosamente cortado em pequenos anis em volta do rosto.
    Virei-me e olhei para a avenida. O homem alto e magro tinha sado de vista. Ouvi de novo aquelas palavras. "Voc  aquela que nunca enlouquece!" No conseguia 
lembrar a expresso do rosto dele. Tinha sorrido? Tinha mexido os lbios? E a msica. S em pensar nela eu sentia as lgrimas correrem.
    Para falar francamente, era a mais vergonhosamente sentimental das msicas, assim como a de Tchaikovsky. Mas ao diabo com o que as pessoas acham e que continuasse 
jorrando a dor mais doce, a mais triste, de um jeito que meu Mozart e meu Beethoven jamais se permitiriam.
    Contemplei o quarteiro deserto, as casas ao longe. Um bonde vinha sacolejando lentamente em direo  esquina. Por Deus, ele estava l! O violinista. Tinha 
atravessado para o canteiro central e estava parado no ponto do bonde, mas no subiu no bonde. Estava muito longe para que eu pudesse ver seu rosto ou mesmo ter 
certeza que ele ainda poderia me ver. Agora se virava e se distanciava ainda mais.
    A noite era a mesma. O fedor era o mesmo.
    Miss Hardy continuava em alarmante imobilidade.
    Parecia to triste. Pensava que eu estava louca. Ou talvez simplesmente odiasse o fato de ter sido ela a me encontrar naquele estado, a pessoa que teria, talvez, 
de fazer alguma coisa. No sei.
    Ela saiu, em busca do telefone, imaginei. No teve mais nada para me dizer. Pensou que eu estava fora de mim e no valia a pena insistir numa conversa sensata. 
Quem poderia censur-la?
    Pelo menos eu falara a verdade sobre o beb nascido em Londres. Mas teria deixado o corpo de Karl estendido l em cima mesmo se a casa estivesse cheia de gente. 
Ia ser mais difcil,  claro.
    Dei meia-volta, sa apressada da sala de visitas, cruzei a sala de jantar. Depois atravessei a pequena copa e subi correndo a escada.  pequena essa escada - 
no  uma escadaria como nas casas de dois andares de antes da guerra, mas um conjunto de degraus pequenos e curvos, delicados, levando at o tico de um chal neoclssico.
    Bati a porta do quarto onde ele estava e virei a chave dourada. Ele insistia sempre para que cada porta estivesse com a chave correta no lugar e pela primeira 
vez isso me alegrou.
    Agora ela no poderia entrar. Ningum podia.
    No quarto fazia um frio glacial, pois as janelas estavam escancaradas. O cheiro impregnava tudo, mas eu tragava profundamente o ar, prendia a respirao, soltava 
e tragava de novo. Foi assim que rastejei por baixo dos cobertores e me deitei pela ltima vez ao lado dele, s mais uma vez, s alguns minutos a mais antes que 
queimassem todos e cada um dos dedos das mos e dos ps, seus lbios, seus olhos. Que eu ficasse em paz ao lado dele.
    Que eu ficasse ao lado de todos eles.
    De muito longe l fora veio o clamor da voz de miss Hardy e mais alguma coisa. Era a pavana reverente e abafada de um violino. "Voc l fora, tocando."
    "Para voc, Triana."
    Enrosquei-me contra o ombro de Karl. Estava radicalmente morto, muito mais morto do que na vspera. Fechei os olhos e puxei sobre ns o grande acolchoado dourado 
(ele tinha tanto dinheiro, gostava tanto de coisas bonitas) nessa nossa cama de quatro colunas, naquela cama estilo Prncipe de Gales que Karl me deixara possuir 
e onde agora eu sonhava com ele pela ltima vez: o sonho do tmulo.
    A msica estava no sonho. To dbil que eu no podia ter certeza se no seria apenas uma lembrana do andar de baixo, mas estava l. A msica.
    Karl. Pousei a mo nas faces ossudas, onde toda a suavidade se desfazia.
    Uma ltima vez deixem-me chafurdar na morte e desta vez com a msica de meu novo amigo. Ela chegava at mim como se o Demnio, para atender queles que esto 
realmente "quase apaixonados pelo conforto da Morte", tivesse mandado aquele homem do Inferno, o violinista.
    Pai, me, Lily, dem-me seus ossos. Dem-me o tmulo. Levemos Karl para dentro dele conosco. O que interessa para ns, para aqueles dentre ns que esto mortos, 
o fato dele ter morrido de uma doena maligna; estamos todos juntos aqui, na terra mida; estamos juntos na morte.
    
    
    
  3
  
  
 Cave fundo, fundo, minha alma, para encontrar o corao - o sangue, o calor, o lugar de venerao e repouso. Cave fundo, sempre fundo, no solo mido at onde esto 
aqueles que eu amo; ela, me, que se fora com o cabelo preto e solto, os ossos h muito tempo lanados no fundo do ossrio, enquanto outros caixes vm repousar 
no lugar dela (mas neste sonho eu arranjo os ossos perto de mim e eles se apresentam como se ela, me, estivesse ali, num vestido vermelho-escuro, com o cabelo preto...) 
- e ele, meu pai, recentemente morto, provavelmente ainda cera, enterrado sem uma gravata porque no quis nenhuma e eu a tirei bem ali, do lado do caixo, desabotoando 
a camisa, sabendo que ele no suportava as gravatas, e seus membros estavam inteiros e limpos pelos fluidos dos agentes funerrios embora, quem sabe, j houvesse 
vida por dentro deles, com todas as bocas ternas da terra, vindas para prantear, devorar e depois ir embora - e ela, a menor de todas, minha menininha, calva pelo 
cncer e ainda adorvel como um anjo nascido perfeito e sem cabelos; deixe-me devolver-lhe o longo cabelo dourado que caiu por causa dos remdios, um cabelo to 
gostoso de pentear e pentear, louro-avermelhado, a mocinha mais bonita do mundo, carne de minha carne, minha filha morta h tantos anos, que seria uma mulher feita 
se estivesse viva...
    Cave fundo... Deixem-me ficar com vocs, deixem-nos ficar aqui, todos ns, juntos.
    Fique conosco, com Karl e comigo. Karl j  um esqueleto!
    Aberto fica este tmulo, com todos alegre e carinhosamente juntos. No h palavras para descrever uma unio to meiga e total; nossos corpos, nossos cadveres, 
nossos ossos to intensamente enroscados.
    No conheo qualquer separao. Nem da me, nem do pai, nem de Karl, nem de Lily, nem de todos os vivos e todos os mortos, j que somos uma s famlia neste 
tmulo viscoso e esfarelante, neste lugar que nos pertence, ntimo e secreto, nesta cmara que penetra na terra, onde podemos apodrecer e nos misturar quando as 
formigas vierem, quando a pele estiver coberta de fungos.
    Isso no importa.
    Fiquemos juntos, nenhum rosto esquecido e o riso de cada um com a nitidez de 20 anos atrs ou o dobro disso, um riso feliz e melodioso como a msica de um violino 
fantasma, um violino incerto, um violino perfeito, nosso riso nossa msica que combina mentes e almas e nos ata, a todos, para sempre.
    Cai suavemente nesse grande, macio, secreto e aconchegante tmulo minha chuva quente e melodiosa. O que seria este tmulo sem chuva? Nossa doce chuva que vem 
do sul.
    Cai com carinho, com beijos, para no dispersar este abrao em que estamos vivendo - eu e eles, os mortos, como uma coisa s. Esta fenda  nossa casa. Que as 
gotas sejam lgrimas e cano, que sejam antes som e estiagem do que gua, pois quero que tudo aqui, entre vocs todos, seja eternamente amvel e purificador, jamais 
motivo de perturbao. Lily, enrosque-se agora em mim, e me deixe eu esconder o rosto em seu pescoo. Logo seremos uma s coisa e Karl tem os braos em volta de 
todos ns, assim como o pai.
    Flores chegando. No  preciso espalhar os caules quebrados nem as ptalas rubras. No  preciso trazer grandes buqus bem amarrados com fitas brilhantes.
    A prpria terra celebrar esse tmulo; trar sua relva silvestre e delicada, suas flores pendendo de simples rannculos, e as margaridas, as papoulas; tudo colorido 
de azul, de amarelo, de cor-de-rosa e das ricas gradaes de um jardim luxuriante, selvagem, eterno.
    Que eu me enrosque em voc, repouse em seus braos e lhe assegure que, em comparao com o amor, nenhum sinal exterior da morte tem para mim qualquer significado. 
Se eu vivia com voc quando ns dois, quando todos ramos vivos, onde poderia estar agora seno aqui, a seu lado, nessa lenta, pegajosa e definitiva corrupo?
    A conscincia me acompanhar at este abrao final  uma bno! Sou ntima da morte e vivo para conhec-la, sabore-la.
    Que as rvores se curvem para esconder este lugar, que as rvores formem sobre meus olhos uma teia espessa, que se torne cada vez mais densa, no verde mas negra, 
como se tivesse capturado a noite, tapando de vez o ltimo olhar  espreita, ou ponto de observao, quando a vegetao crescer diante dela. Para que possamos ficar 
sozinhos, s ns, voc e eu, e aqueles que eu tanto adorava e sem os quais no posso viver.
    Afunde. Mergulhe profundamente na terra. Sinta a terra envolv-lo. Que os torres de terra selem nossa quietude. Nada mais quero.
    E agora, segura e atada a voc, posso falar: para o Inferno com todos que tentam se intrometer entre ns.
    Passos de gente estranha subindo na escada.
    Quebrem a fechadura, sim, quebrem a porta, puxem as mangueiras e bombeiem o ar com fumaa branca. No vo machucar meus braos porque no estou aqui, mas no 
tmulo. S perturbaro uma rgida e indignada imagem de mim. Sim, como vem os lenis esto limpos, eu podia ter dito isso a vocs!
    Enrolem-no completamente, enrolem firme, firme nos lenis, no tem importncia nenhuma - esto vendo, no h sangue, nem coisa maligna que possa sair dele e 
apanh-los; ele no morreu de feridas abertas, definhou por dentro, como os que tm AIDS costumam fazer, que lhe custava at mesmo tomar flego. O que acham que 
sobrou agora para temer?
    No estou com vocs nem com os que fazem perguntas sobre tempo e lugar, sangue, sanidade e nmeros a serem chamados; no posso responder aos que querem prestar 
socorro. Estou a salvo no tmulo. Aperto os lbios contra o crnio de meu pai. Estendo o brao para a mo descarnada de minha me. Deixe-me segur-la!
    Ainda posso ouvir a msica. Oh, Deus, que este violinista solitrio atravesse o mato denso, a chuva caindo e a densa fumaa da noite imaginada, da visionria 
escurido, para continuar comigo e tocar a cantiga de pesar, dando voz a estas palavras dentro de minha cabea, enquanto o solo fica cada vez mais mido, enquanto 
todas as coisas que nele vivem comecem a parecer muito naturais, benignas e no de todo feias.
    Todo o sangue em nosso tmulo escuro e doce sumiu, sumiu e sumiu, exceto o meu. Em nossa morada de terra eu sangro to simplesmente como suspiro. Se o sangue, 
por qualquer razo, for agora exigido sob a vontade de Deus, tenho o bastante para todos ns.
    O medo no chegar aqui. O medo sumiu. Remexam nas chaves e empilhem as xcaras. Batam com as panelas no fogo de ferro l embaixo. Encham, se quiserem, a noite 
com sirenes. Deixem a gua correr, correr, correr e encher a banheira. No vejo vocs. No os conheo.
    Nem a menor preocupao chegar aqui, no a este tmulo onde jazemos. Como a prpria juventude e toda aquela antiga angstia, o medo se foi quando vi como vocs 
foram entregues  terra, caixo aps caixo - o do pai de uma madeira to boa, o da me, que no consigo lembrar, o de Lily, to pequeno e branco (e o cavalheiro 
idoso no querendo nos cobrar um tosto porque era s uma menininha). No, toda essa preocupao foi embora.
    A preocupao nos fecha os ouvidos para a verdadeira msica. A preocupao no nos deixa curvar os braos ao redor dos ossos daqueles que amamos.
    Estou viva e com vocs agora. Realmente s agora percebo o que isto significa: que terei vocs sempre comigo!
    Pai, me, Karl, Lily, segurem-me!
    Oh, parece um pecado pedir compaixo aos mortos, aos que pereceram na dor, aos que no pude salvar, queles para quem no tive os gestos adequados de despedida 
nem os sortilgios para afastar o pnico ou a agonia, queles que, nos momentos descuidados e dissonantes do fim, talvez no tenham visto lgrimas nem ouvido qualquer 
promessa de que eu os prantearia para sempre.
    Estou aqui agora! Com vocs! Sei o que significa estar morto. Deixo o lodo me cobrir, deixo o p avanar profundamente para o lado esponjoso do tmulo.
    Isto  uma viso, minha casa. Eles no importam.
    - Essa msica, no esto ouvindo?
    - Acho que ela devia entrar de novo no chuveiro! Acho que devia ser inteiramente desinfetada!
    - Tudo que h naquele quarto devia ser queimado...
    - Oh, no aquela bonita cama de quatro colunas, isso  ridculo. No explodem um quarto de hospital quando algum morre assim, no  mesmo? 
    -... e no toque no manuscrito dele.
     No, no se atreva a tocar no manuscrito!
    - Xiii, no na frente...
    - Ela est louca, no est vendo?
    -... a me dele est no avio que sai de manh de Gatwick.
    -... absolutamente desvairada e ensandecida.
    - Oh, por favor, vocs duas, se gostam de sua irm, pelo amor de Deus, fiquem caladas. A senhora chegou a conhec-la bem, miss Hardy?
     - Beba isso, Triana.
    Esta  minha viso; minha casa. Estou em meu living, lavada, esfregada, como se quem iria ser queimada fosse eu, a gua pingando de meu cabelo. Deixem o sol 
da manh bater nos espelhos. Abram a urna prateada e espalhem pelo assoalho as penas brilhantes do pavo. No cubram com um vu horroroso todas as coisas claras. 
Olhem no fundo para encontrar o fantasma no espelho.
    Esta  minha casa. E este  meu jardim, minhas rosas trepando naquelas grades do lado de fora e tambm em nosso tmulo. Estamos aqui, estamos l e somos um s.
    Estamos no tmulo e estamos na casa; o resto  falta de imaginao.
    Neste reino ameno e chuvoso, onde a terra cai l de cima, das beiradas fora de nvel, e a gua  canta ao cair das folhas que vo murchando, sou a noiva, a filha, 
a me; tenho todos os ttulos venerveis a formarem as preciosas expectativas que coloco diante de mim.
    Tenho sempre vocs! Que eu nunca, nunca, deixe vocs me abandonarem, nunca, nunca, os deixe partir.
    Tudo bem. E assim cometemos novamente um erro. Assim fizemos nosso jogo. Demos um toque na loucura, como se ela fosse uma porta grossa, e depois nos atiramos 
com violncia sobre ela, como eles se atiraram contra a porta de Karl, mas a porta da loucura no quebrou e esse tmulo no localizado  o sonho.
    Bem, posso ouvir a msica atravs dele.
    Realmente no acho que possam escut-la. Isso  minha voz em minha cabea e o violino  a voz dele l fora. Juntos guardamos o segredo de que este tmulo  uma 
viso e que, na verdade, no posso estar agora com vocs, meus mortos. Os vivos precisam de mim.
    Os vivos precisam de mim agora, precisam mesmo de mim, porque sempre precisam dos desolados pela morte, precisam muito dos que administraram a parte mais dura 
e ficaram o maior tempo possvel no silncio. Esto cheios de perguntas, sugestes, afirmaes, declaraes e documentos a serem assinados. Precisam que eu levante 
os olhos para os sorrisos mais estranhos e encontre um meio de receber com elegncia os mais desastrados gestos de solidariedade.
    Mas chegarei a tempo. Vou chegar. E quando eu chegar, o tmulo vai abraar a todos ns. E sobre todos ns a relva vai crescer.
    Amor, amor, amor eu dou a vocs. Que a terra seja mida. Que meus membros vivos afundem. Dem-me crnios, para fazerem presso como pedras contra meus lbios, 
ossos para meus dedos segurarem. No faz mal se o cabelo foi embora como seda fina e esfiapada - tenho cabelos compridos para amortalhar a todos, no acham? Olhem 
para ele, este longo cabelo. Que eu cubra a todos ns.
    A morte no  a morte como eu achava antigamente, quando o medo era esmagado com os ps. Coraes partidos fazem isso melhor batendo eternamente contra as vidraas 
no inverno.
    Segurem-me aqui - segurem, segurem. No me deixem nunca, nunca tardar em outra parte.
    Esquea a renda extravagante, as paredes habilidosamente ornamentadas, as incrustaes reluzentes da escrivaninha aberta, as porcelanas que levam agora com tanto 
cuidado, pea por pea, para cobrir toda a mesa com elas, xcaras e pires decorados com rendilhados azuis e motivos dourados. Coisas de Karl. Vire para o outro lado. 
No sinta esses braos vivos.
    A nica coisa importante sobre o caf sendo despejado de um bico prateado  o modo como as primeiras luzes do dia brilham de encontro a ele, o modo como o marrom-escuro 
do caf se torna mbar, dourado, amarelo, serpenteando e girando como um danarino enquanto enche a xcara, parando depois, como um gnio recolhido  lmpada.
    V de novo at onde o jardim avana para a runa. Vamos nos encontrar todos juntos. Voc nos encontrar por l.
    De memria, um retrato perfeito: crepsculo, capela do Garden District - Nossa Senhora do Perptuo Socorro -, nossa pequena igreja dentro de uma velha casa. 
S  preciso andar uma quadra de meu porto da frente at l. Fica na rua Prytania. As janelas altas esto cheias de luz cor-de-rosa. H velas pequenas e gotejantes 
numa redoma vermelha. Esto na frente de um santo com expresso sorridente, que amamos e reverenciamos como "A Pequena Flor". Nesse lugar, a escurido  densa como 
a poeira. Mas ainda  possvel se mover dentro dele.
    Eu, a me e minha irm Rosalind nos ajoelhamos no mrmore frio diante do parapeito do altar. Depositamos nossos buqus, pequenas flores que colhemos nos muros 
aqui e ali e em grades como a nossa: a selvagem flor-de-noiva, a plumbagina de bonito azul, a pequena lantana dourada e marrom. Nunca as flores dos jardineiros. 
Apenas o livre emaranhado que ningum podia deixar escapar num porto vinceo. So nossos buqus e no temos com que amarr-los, salvo nossas mos. Pousamos os buqus 
sobre o parapeito do altar e, ao fazer o sinal-da-cruz e dizer nossas preces, eu tive uma dvida.
    - Voc tem certeza que Jesus e Nossa Senhora vo pegar essas flores?
    Embaixo do altar  nossa frente, as figuras da Santa Ceia, esculpidas em madeira, esto colocadas em seu nicho envidraado e fundo. No alto, sobre o pano adornado, 
ficam os buqus normais da capela, aqueles de prestgio, tamanho definido, flores com botes brancos como neve e caules gigantescos que lembram lanas. So flores 
convincentes! To convincentes quanto as velas altas de cera.
    - Oh, sim - diz a me. - Depois de sairmos, vem o Irmo, leva nossas pequenas flores e as coloca num vaso. Depois coloca o vaso na frente de Nossa Senhora ou 
do Menino Jesus ali.
    O Menino Jesus fica na ponta direita, escuro agora, ao lado da janela. Mas ainda consigo ver o mundo que Ele segura nas mos, o ouro que reluz em sua coroa e 
sei que seus dedos esto erguidos numa bno, e que ele  o Menino Jesus de Praga, com sua exuberante e chamejante capa rosada e bochechas encantadoras e viosas.
    Mas com relao s flores, no acho que seja assim. So flores humildes demais. Quem vai se interessar por flores assim, largadas desse jeito num final de tarde, 
com a capela cheia das sombras que percebo porque minha me est com um pouco de medo? Ela est segurando a mo de suas duas meninas, Rosalind e Triana, vamos, enquanto 
elas fazem a genuflexo antes de se virarem para sair. Eu e minha irm estamos usando aqueles sapatos Mary Janes que estalam num assoalho de sinteco preto. A gua 
benta est quente na pia. A noite respira com luzes, mas ainda no o bastante para penetrar l dentro entre os bancos.
    Estou preocupada com as flores.
    Bem, no estou mais preocupada com coisas desse tipo.
    Acalento apenas a memria de que estivemos l. Mas se posso ver e sentir a coisa, se posso ouvir o violino tocando esta cano, ento estou l de novo e  como 
eu disse: me, estamos juntas.
    Todo o resto no me aflige. Teria ela, minha filha, sobrevivido se eu tivesse movido cus e terra para lev-la a uma clnica longnqua? Ser que ele, meu pai, 
no teria morrido se o oxignio tivesse sido regulado desse jeito e no de outro? Ser que minha me estava com medo quando disse "estou morrendo" s primas que 
cuidavam dela? Queria um de ns a seu lado? Bom Deus, faa isso parar!
    No vou desenterrar as recriminaes. Nem pelos vivos, nem pelos mortos, nem pelas flores de 50 anos atrs!
    Na meia luz da capela, os santos no respondem. A imagem de Nossa Senhora do Perptuo Socorro s bruxuleia numa sombra solene. O Menino Jesus de Praga conserva 
a majestade com uma coroa cheia de jias e olhos com glria no menor.
    Mas vocs, meus mortos, minha carne, meus tesouros, a quem eu amei de forma completa e absoluta, todos vocs esto comigo agora, no tmulo (sem olhos, sem carne 
para esquentar-me); vocs esto do meu lado!
    Todas as separaes eram ilusrias. Tudo  perfeito. 
    - A msica parou. 
    - Graas a Deus.
    - Pensa mesmo assim? - era a voz ligeiramente grave de Rosalind, minha irm, que falava sem rodeios. - O sujeito era incrvel. Aquilo no era uma msica qualquer.
    - Ele  muito bom. Tenho de admitir isso - era Glenn, marido dela e meu cunhado querido.
    - Estava aqui quando eu cheguei - miss Hardy falando. - Na verdade, se ele no tivesse aparecido tocando o violino, eu jamais a teria encontrado. Podem v-lo 
l fora?
    Minha irm Katrinka:
    - Acho que agora ela devia ser levada para o hospital e ser submetida a uma bateria de testes; temos de ter certeza absoluta que ela no contraiu...
    - Cale a boca, no vou admitir que fale desse jeito! - obrigada, perfeita estranha.
    - Triana,  miss Hardy, querida, pode me ver? Perdoe, querida, por eu falar assim com sua irm. Perdoe, querida. Mas agora quero que beba isso.  s uma xcara 
de chocolate. Lembra daquela tarde em que foi me visitar e tomamos chocolate e voc disse que adorava chocolate? Tem muito creme e eu gostaria que voc bebesse...
    Ergui os olhos. Como a sala estava bonita e fresca no primeiro sol da manh. Como a porcelana brilhava em cima da mesa! Mesas redondas. Sempre gostei de mesas 
redondas. Todos os discos, pacotes de biscoito e latas tinham sido tirados dali. No teto, as flores brancas de gesso formavam sua admirvel grinalda, no mais degradadas 
por detritos.
    Levantei, fui at a janela e puxei a cortina pesada, que ia amarelando. O grande mundo estava do lado de fora, subindo para o cu, e as folhas rolavam na varanda 
seca bem  minha frente.
    A corrida matutina para o centro da cidade havia comeado. Caminhes faziam barulho. Vi as folhas do carvalho tremerem sob o trovo de tantas rodas. Senti a 
prpria casa vibrar. Mas ela j vibrava h 100 anos ou mais; no cairia. As pessoas sabiam disso agora. No havia mais ningum disposto a reduzir a cinzas as esplndidas 
casas com colunas brancas. J no vomitariam mentiras sobre ser impossvel salvar essas casas ou restaur-las. Lutariam para preserv-las.
    Algum me sacudiu. Era minha irm Katrinka. Parecia muito agitada, com a raiva estampada no rosto. A raiva era sua eterna companheira; pulava de um lado para 
o outro dentro dela, esperando a menor oportunidade para explodir. E a oportunidade chegara. Mal conseguia falar, estava furiosa.
    - Quero que suba agora.
    - Para qu? - indaguei friamente. H anos e anos no tenho medo de voc, pensei. Acho que desde a partida de Faye. Faye era nossa irm caula. Faye era aquela 
que todos ns amvamos.
    - Quero que tome outro banho, um banho completo, e depois v para o hospital.
    - Voc  uma tola - retruquei. - Sempre foi. No tenho de atur-la.
    Olhei para miss Hardy.
    A certa altura daquela noite longa e cheia de dissonncias, ela fora em casa e vestira um de seus bonitos conjuntos de saia e blusa. O cabelo tinha sido penteado 
h pouco tempo. O sorriso estava cheio de consolo.
    - J o levaram? - perguntei a miss Hardy.
    - Seu livro, o livro sobre So Sebastio, guardei todo ele, exceto as ltimas pginas. Elas estavam na mesa perto da cama. Elas...
    - Eu as trouxe para baixo - disse Glenn, meu amvel cunhado. - Esto a salvo, junto com o resto.
    Est certo. Eu tinha mostrado a Glenn onde o trabalho de Karl ficava guardado, para o caso de... queimarem tudo no quarto!
    Atrs de mim, as pessoas discutiam. Pude ouvir Rosalind tentando acalmar a mais jovem e sempre ansiosa Katrinka, que no parava de reclamar trincando os dentes. 
Um dia ela ainda ia quebrar os dentes no meio de uma briga.
    - Est louca! - exclamava Katrinka. - E provavelmente pegou o vrus.
    - Agora pare, Trink, por favor, estou implorando a voc. - Rosalind no sabia mais ser indelicada. Qualquer rudeza que tivesse aprendido na infncia fora h 
muito suprimida e substituda.
    Virei-me e olhei para Rosalind. Estava sentada  mesa, de cabea baixa, com olhos sonolentos pousados em mim, as sobrancelhas pretas erguidas. Acenou levemente 
com a cabea e falou em tom franco e grave.
    -        Vo crem-lo - suspirou. -  a lei. No se preocupe. J me assegurei que no vo desmontar o quarto e carreg-lo tbua por tbua - riu, um riso vistoso, 
convencido, que pareceu perfeito. - Se deixasse Katrinka tomar a frente, ela faria demolir todo o quarteiro - Rosalind tremia de rir.
    Katrinka comeou a resmungar.
    Sorri para Rosalind. Tive vontade de saber se ela estava preocupada com dinheiro. Karl fora to generoso. Todos, sem dvida, estavam pensando em dinheiro. Nos 
fceis donativos de Karl.
    Haveria uma discusso em torno dos preparativos para o funeral.  o que sempre acontece, no importa o que tenha sido feito antes, e Karl tinha feito tudo. Cremao. 
No podia conceber uma coisa dessas! Em meu tmulo, entre aqueles que eu amo, no existem cinzas indiferenciadas.
    Rosalind nunca o confessaria, mas tinha de estar pensando em dinheiro. Era Karl quem dava a Rosalind e ao marido, Glenn, dinheiro para viver, para manter a pequena 
loja de livros e discos raros, que nunca, pelo menos que eu tivesse conhecimento, rendera um tosto. Estaria com medo que o dinheiro parasse? Gostaria de tranqiliz-la.
    Miss Hardy elevou a voz. Katrinka bateu a porta. S conheo dois adultos que batem realmente as portas quando esto com raiva. Katrinka  um deles; o outro est 
a quilmetros de distncia, h muito tempo fora de minha vida, e  lembrado com carinho por coisas melhores que um gesto de violncia infantil.
    Rosalind, nossa irm mais velha, a mais corpulenta, j bem gordinha e com o cabelo todo branco, mas lindamente cacheado como sempre foi - dentre ns era a que 
tinha o cabelo mais farto e gracioso -, continuava ali sentada, mostrando aquele sorriso pretensioso e dando de ombros. 
    - No precisa correr para o hospital - disse. - Voc sabe disso. - Rosalind fora muito tempo enfermeira, arrastando tanques de oxignio e limpando sangue. - 
No tem pressa nenhuma - me garantiu com autoridade.
    Conheo um lugar melhor, disse ou pensei. Tinha apenas de fechar os olhos, a sala rodopiava e o tmulo entrava, o doloroso prodgio acontecia: o que  sonho 
e o que  realidade?
    Encostei a testa na vidraa da janela, e estava fria, e a msica dele... a msica de meu violinista errante... Chamei. "Voc est a, no est? Vamos, sei que 
no foi embora. Achou que eu no estava ouvindo..?" Veio de novo, o violino. Floreado, mas suave; angustiado, mas cheio de ingnua celebrao.
    Atrs de mim Rosalind comeou a cantarolar com a boca fechada, em tom baixo, mais ou menos uma frase musical atrs dele... E continuou murmurando, juntando sua 
voz  distante voz do violino.
    - Est ouvindo agora? - perguntei.
    -  - respondeu, com seu caracterstico abanar de ombros. - Voc tem um amigo l fora, como um rouxinol. E o sol no o afugentou.  claro que estou ouvindo.
    Meu cabelo estava pingando gua no cho. Katrinka soluava no vestbulo, mas eu no conseguia identificar as outras duas vozes; s sabia que eram de mulheres.
    -        Simplesmente no posso suportar mais isto, no posso suportar - replicava Katrinka -, e ela est louca. No est vendo? No posso, no posso, no posso.
    Parecia uma bifurcao na estrada. Eu sabia onde ficava o tmulo e a que profundidade; podia ir l. Por que no ia?
    A msica tinha evoludo para uma lenta e majestosa melodia, alguma coisa se fundindo com a prpria manh, como se estivssemos saindo juntos do cemitrio. Num 
perturbador, mas ntido claro, olhei para trs e vi nossos pequenos buqus sobre o mrmore branco do parapeito do altar da capela.
    -        Vamos, Triana! - minha me parecia to bonita, o cabelo numa boina, a voz to paciente, os olhos to grandes. - Vamos, Triana!
    "Voc vai morrer separada de ns, me. Bonita e sem um fio de cabelo grisalho na cabea. Quando chegar a hora, na ltima vez em que a vir, no terei sequer o 
bom senso de lhe dar um beijo de despedida. S ficarei satisfeita por voc estar indo embora, porque voc  to bbada, to doente e estou to cansada de tomar conta 
de Katrinka e de Faye. Me, voc vai morrer de um modo terrvel, terrvel; uma mulher embriagada, enrolando a lngua. E eu darei  luz uma menininha parecida com 
voc, que ter seus grandes olhos redondos, suas lindas tmporas e testa, mas ela vai morrer, me, morrer antes dos seis anos de idade, cercada de mquinas durante 
os poucos minutos, os pouqussimos minutos, me, em que eu tentava pegar no sono e ela morreu, eu..."
    Vens tu atrs de mim, todo esse tormento. Eu e Rosalind corremos na frente; a me pisa lentamente no lajedo atrs de ns.  uma mulher sorridente; no est com 
medo do escuro agora, o cu est muito cintilante. Essa  nossa poca. A guerra no acabou. Os carros que passam devagar na rua Prytania parecem grilos corcundas 
ou besouros.
    "Eu j disse: pare com isso!" falei com minha prpria cabea. Pus as mos no cabelo molhado. Como  horrvel estar nesta sala com todo este rudo e pingando 
gua. Presto ateno na voz de miss Hardy. Ela est assumindo o comando.
    L fora, o sol caiu sobre as varandas, sobre os carros que passam como um raio, sobre os velhos bondes abertos de madeira que atravessam bem  minha frente. 
O que sobe para a parte alta da cidade vai tocando o sino, com todo o aparato de um bonde de San Francisco.
    -        Como pde fazer isto conosco? - soluou Katrinka. Mas foi do outro lado da porta. A porta que ela batera. Estava berrando no vestbulo.
    A campainha tocou. Eu estava do outro lado da casa e nem de relance pude ver quem havia subido a escada.
    O que vi foram as azalias brancas correndo pela grade at o canto do terreno e fazendo a volta com ela. Era lindo, de uma beleza sublime. Tudo fora pago com 
o dinheiro de Karl: jardineiros, mudas, carpinteiros, martelos, pregos, tinta branca para as colunas. Olhe os capitis corntios restaurados, as folhas do acanto 
subindo para se agarrar no telhado, e olhe, o telhado da varanda pintado de azul-claro, para que os marimbondos achem que  o cu e no faam um ninho l em cima.
    - Vamos, querida - era uma voz de homem, um homem que eu conhecia, mas no muito bem; um homem em quem confiava, mas agora no conseguia me lembrar do nome dele, 
talvez porque, em segundo plano, Katrinka no parasse de gritar.
    - Triana, querida - ele disse. Grady Dubosson, meu advogado. Estava muito elegante, com terno, gravata e no parecia de modo algum sonolento. Mantinha perfeito 
controle sobre o rosto srio, como se ele tambm, como tanta gente ali, soubesse muito bem como lidar com a morte sem recorrer a uma falsa expresso de dor ou perplexidade.
    - No se preocupe, Triana, minha cara - disse num tom extremamente natural e confiante. - No os deixarei tocar num garfo de prata. Voc vai para o centro da 
cidade com o dr. Guidry. Descansar. No pode haver qualquer cerimnia antes que os outros cheguem de Londres. 
    - O livro de Karl, havia algumas pginas l em cima.
    De novo a voz confortadora de Glenn, profunda, meridional.
    - J as peguei, Triana. Trouxe seus papis para baixo e ningum vai queimar qualquer coisa l em cima...
    - Lamento o problema que causei - murmurei.
    - Completamente pirada! - era Katrinka.
    - Ele nem parecia que tinha sofrido - retrucou Rosalind com um suspiro. - Era como se tivesse adormecido - dizia isso para me consolar. Virei-me de novo, com 
um olhar discreto e cmplice de agradecimento. Ela entendeu e deu-me seu sorriso carinhoso.
    Gostava extremamente dela. Ela empurrou para cima do nariz os culos de armao grossa. Quando era jovem, meu pai sempre berrava para Rosalind endireitar os 
culos no nariz, o que nunca realmente funcionou porque, ao contrrio do meu, seu nariz era um tanto pequeno. Rosalind tinha aquele jeito que o pai sempre detestara: 
sonhadora, negligente e dcil, com os culos caindo, fumando, com cinzas no casaco, mas cheia de amor. A idade tornara seu corpo pesado e deselegante. Gostava muito 
de Rosalind.
    - No acho que Karl tenha realmente sofrido - ela disse. - No d
ateno  Trink. Ei, Trink, j pensou em todas as camas de hotel onde voc dorme com Martin? J pensou quanta gente dormiu como vocs ali, quero dizer, com AIDS?
    Tive vontade de rir.
    -        Vamos, querida - disse Grady.
    Dr. Guidry pegou minha mo com as duas mos dele. Era um homem muito jovem. No consigo me acostumar a mdicos que sejam mais novos que eu. Dr. Guidry era muito 
louro e absolutamente distinto. Trazia sempre uma Bblia no bolso de cima do casaco. Sabemos que quem carrega uma Bblia daquele jeito no pode ser catlico. Devia 
ser batista. Sentia-me to sem idade. O que acontecia porque estava morta, certo? Porque estava no tmulo.
    No. A coisa nunca funciona por muito tempo.
    - Quero que siga minhas recomendaes - disse o dr. Guidry, carinhoso como se fosse me beijar. - E deixe Grady cuidar de tudo.
    - J parou - retrucou Rosalind.
    - O qu? - perguntou Katrinka. - O que parou? - Estava na porta do vestbulo. Assoava o nariz. Depois apertou o Kleenex e atirou-o no cho. Olhou-me com ar feroz. 
- J pensou o que esse tipo de coisa faz com todos ns? 
    No respondi.
    - O violinista - replicou Rosalind. - Seu trovador. Acho que foi embora.
    - No ouvi qualquer maldito violinista - disse Katrinka, cerrando os dentes. - Por que esto falando de um violinista? Acham que ele  mais importante do que 
o que estou tentando dizer?
    Miss Hardy entrou, passando por Katrinka como se ela no existisse. Miss Hardy usava um imaculado sapato branco. Devamos estar na primavera, pois as senhoras 
do Garden District s usam sapatos brancos na poca adequada do ano. Mas eu tinha certeza que estava frio.
    Ela me trazia um casaco e um cachecol.
    - Vamos agora, querida. Vou ajud-la a se vestir.
    Katrinka continuava me olhando fixamente. Seu lbio tremia e lgrimas corriam pelos olhos vermelhos, inchados. Como sua vida fora miservel, sempre! Mas pelo 
menos a me no estava bbada quando ela nasceu. Katrinka era bonita e saudvel, enquanto o diminuto e especial encanto de Faye nunca fora muito digno de crdito, 
ela mal conseguira sobreviver; fora uma minscula coisa sorridente que deixaram semanas numa mquina.
    - Por que no vai embora? - perguntei a Katrinka. - J h bastante gente aqui. Onde est Martin? Telefone e pea que venha busc-la. Martin era seu marido, um 
mestre na venda de imveis que j fora advogado de pessoas de considervel renome local.
    Rosalind riu, um riso gostoso, convencido, meio para si mesma, mas na realidade para mim. E ento eu sabia.  claro.
    E assim fez Rosalind, que cruzou os braos e puxou a cadeira para a frente, os seios pesados descansando na mesa. Ela empurrou os culos para cima.
    - O seu lugar  numa casa de loucos - falou Katrinka, tremendo. -
Ficou maluca quando sua filha morreu! Karl no precisava de toda aquela
extrema assistncia de papai! Voc tinha uma enfermeira aqui dia e noite.
Os mdicos iam e vinham. Voc est louca e no pode permanecer nesta
casa...
    Parou; ela prpria estava envergonhada de sua deselegncia.
    - Tenho de admitir que voc  uma jovem bastante franca - comentou miss Hardy. - Se me do licena...
    - Miss Hardy, quero que aceite meus agradecimentos - falei. - Estou to terrivelmente, terrivelmente...
    Ela fez um gesto para eu ficar tranqila; tudo estava perdoado.
    Olhei para Rosalind, uma grande e bonita mulher a quem a idade e o peso davam um ar de autoridade. Ela ainda ria baixo, mexendo a cabea de um lado para o outro, 
espreitando Katrinka por cima dos culos.
    E Katrinka, to assombrosa e atleticamente magra, com os seios apontando ameaadoramente pela seda da blusa de manga curta. Braos to pequenos. De certa forma, 
de ns quatro, Katrinka conseguira o corpo perfeito e era a nica com cabelo louro, verdadeiro cabelo louro.
    Um silncio. O que era? Rosalind se empinara na cadeira e levantara o queixo.
    - Katrinka - disse Rosalind a meia voz, enchendo toda a sala com a
solenidade do tom -, voc no vai ficar com esta casa. - Deu um tapa na
mesa e soltou uma gargalhada.
    Desatei a rir. No muito alto,  claro. Era engraado demais, sem dvida.
    - Como se atreve a me acusar de uma coisa dessas! - Katrinka exclamou e se virou para mim. - Voc fica com um cadver dois dias aqui dentro e tento faz-las 
perceber que est doente, tem de ser internada, ser examinada, ficar na cama, e voc acha que estou querendo esta casa, acha que vim aqui, num momento desses, como 
se no tivesse minha prpria casa, no importa se toda hipotecada, meu prprio marido, minhas prprias filhas, e voc acha, vocs se atrevem a me dizer uma coisa 
dessas na frente de pessoas que mal...
    Grady falou com Katrinka. Foi um lento, mas urgente fluxo de palavras. O mdico tentava lev-la pelo brao. Rosalind abanou os ombros.
    - Pense. Detesto ter de lembr-la.  a casa de Triana at ela morrer.  dela e de Faye se Faye estiver viva. E Triana pode estar louca, mas no est morta.
    No pude deixar de rir outra vez, um risinho maldoso, e Rosalind tambm riu.
    - Queria que Faye estivesse aqui - falei para Rosalind.
    Faye era a irm mais nova feita por mame e papai. Faye era apenas um fiapo de mulher, um anjo, nascida de um tero doente, extenuado.
    H dois anos ningum via minha querida Faye, nem tivera uma nica palavra sua por telefone ou por carta. Faye!
    - Voc sabe, talvez o problema fosse todo tempo esse - confessei, quase chorando, enxugando os olhos.
    - O que est querendo dizer? - perguntou Rosalind. Parecia carinhosa e calma demais para ser uma pessoa normal. Levantou-se com deselegncia, iando o corpanzil 
da cadeira, aproximou-se de mim e beijou-me no rosto.
    - Na hora dos problemas, sempre sentimos falta de Faye - comentei. - Sempre. Sempre precisamos de Faye. Chame Faye. Pea a Faye para ajudar nisto ou naquilo. 
Todos sempre precisaram de Faye, esperaram por Faye, dependeram de Faye.
    Katrinka surgiu em minha frente. Foi como um choque, a repugnncia absoluta na expresso do rosto, o absoluto desprezo pessoal. Ser que nunca, nunca eu me acostumaria 
a isso? Via desde criana aquele desprezo raivoso, ansioso, aquela intensa averso pessoal, aquela amargura! A averso que me fazia querer murchar, ceder, desviar 
os olhos, ficar em silncio e no levar a melhor em qualquer troca de palavras, briga ou ponto controverso.
    - Bem, Faye podia estar viva agora - disse Katrinka -, se voc no tivesse financiado sua fuga e seu desaparecimento sem deixar trao. Voc e seu falecido marido.
    Rosalind mandou-a sem rodeios calar a boca. Faye? Morta?
    Era demais. Sorri para mim mesma. Todos sabiam que era demais. Faye tinha desaparecido, sim, mas morta? E, no entanto o que eu, a nobre irm, senti? Um medo 
protetor com relao a Trink, medo que ela tivesse realmente ido longe demais e que fossem agora realmente insult-la, pobre Katrinka. Ela ia chorar, chorar e nunca 
compreenderia. Todos a desprezariam por isso e ela ficaria muito magoada.
    - No... - comecei a dizer.
    Dr. Guidry fez sinais para me tirarem rapidamente da sala. Grady me pegou pelo brao.
    Eu estava confusa. Rosalind estava a meu lado.
    As imprecaes de Katrinka no cessavam. Estava se descontrolando inteiramente. Algum precisava ajud-la. Talvez Glenn. Glenn sempre ajudava as pessoas, mesmo 
Katrinka.
    A implicao das palavras me atingiu de novo: "podia estar viva".
    -        Faye no morreu, no ? - perguntei. Se tivesse certeza, aps a agonia daqueles anos de espera, que ela tinha morrido, bom, eu a teria convidado a descer 
conosco para o tmulo mido. Todos ns podamos ter ficado l: eu, Faye, Lily, a me, o pai e Karl. Faye teria sido includa em minha ladainha. Mas Faye no podia 
estar morta. No a preciosa Faye.
    Isso transformaria numa mentira toda a minha excentricidade, minha aparentemente excessiva sabedoria, minha refinada emoo.
    - No Faye.
    - No temos qualquer notcia de Faye - sussurrou Rosalind, perto de meu ouvido. - Provavelmente est tomando tequila numa parada de caminhoneiros do Mxico. 
- Beijou-me outra vez. Senti seu brao pesado e carinhoso.
    Paramos na porta da frente, Grady e eu - a viva louca e o gentil e maduro advogado da famlia.
    Gosto muito da porta da frente.  uma grande porta dupla, bem no meio da casa, e voc sai na ampla varanda da frente e pode andar para a esquerda ou para a direita, 
seguindo o telhado que circunda os lados da casa.  muito bonito. No passei um nico dia de minha vida sem pensar nessa casa e em como  bonita.
    Anos atrs, eu e Faye costumvamos danar na varanda. Oito anos mais nova que eu, ela era pequena o bastante para se segurar como um macaco em meus braos. E 
cantvamos: "Casey, ele valsava com a moa que adorava e a banda tocava..."
    E veja as azalias nas trilhas junto aos degraus, o tom vermelho-sangue, to grandes! Naturalmente era primavera e essas plantas mimosas floresciam por toda 
parte. ... Uma verdadeira casa do Garden District, com suas colunas brancas como neve.
    E olhe, miss Hardy no calava absolutamente sapatos brancos. Eram cinza.
    De volta para dentro de casa, Rosalind berrava com Katrinka.
    -        No fale sobre Faye, no agora! No fale sobre Faye!
    E as palavras de Katrinka chegaram num daqueles rosnados dramticos, sufocados, longos...
    Algum levantara meu p. Era miss Hardy, me pondo um chinelo. O porto l embaixo estava aberto. Grady segurava meu brao.
    Dr. Guidry estava ao lado da porta aberta de uma ambulncia.
    Grady falou novamente, dizendo que, se eu fosse para o Hospital da Misericrdia, poderia sair de l quando bem entendesse. Mas era bom tomar algum soro e umas 
gotinhas de remdio.
    - Est desidratada, Triana - disse o dr. Guidry segurando minha mo. - No tem comido. Ningum est falando em intern-la onde quer que seja. Quero que v at 
o hospital,  s isso. Quero que descanse. E prometo que ningum far qualquer coisa ou teste de qualquer coisa.
    Suspirei. Tudo estava ficando mais claro.
    - Anjo de Deus - murmurei -, meu querido guardio, a quem o amor de Deus me confiou aqui...
    De repente vi-os nitidamente  minha volta.
    - Oh, sinto muito - falei -, sinto muitssimo... Estou to sentida com tudo isso, eu... sinto muito - chorava. - Podem fazer o teste. Sim, o teste. Faam o que 
tem de ser feito. Sinto muito... Sinto muito...
    Parei na entrada do porto.
    L estavam meus queridos Althea e Lacomb, muito preocupados. Talvez todas aquelas pessoas brancas - mdico, advogado, senhora de sapatos cinza - os intimidassem.
    Althea, com os braos fortes cruzados, esticou o lbio como se fosse chorar e inclinou a cabea.
    - Estamos aqui, patroa - alertou Lacomb com sua voz grave.
    Eu estava prestes a responder.
    Mas vi alguma coisa do outro lado da rua.
    - O que foi, querida? - disse Grady. Adorvel o toque do Mississipi em seu sotaque.
    -  o violinista.
    S um vulto distante no escuro, j bem longe da avenida, na metade da quadra da Third Street, indo na direo de Carondelet e olhando de relance para trs.
    Agora havia sumido. Ou pelo menos o trfego e as rvores deram a impresso que desaparecera. Eu o vislumbrara, no entanto, ntido por um segundo, segurando o 
instrumento. Estranha sentinela da noite, olhando para trs e caminhando com aqueles passos largos e regulares.
    Entrei na ambulncia e deitei na maa, o que evidentemente no  o procedimento normal. Foi um tanto deselegante, mas foi assim que aconteceu, sem dvida, porque 
subi na ambulncia antes que algum pudesse me segurar. Cobri-me com o lenol e fechei os olhos. Hospital da Misericrdia. As tias que foram freiras ali por tantos 
anos no existiam mais. Queria saber se meu violinista errante seria capaz de encontrar o Hospital da Misericrdia.
    - Voc sabe, aquele homem no  real! - Sa chocada de meu torpor. A ambulncia estava entrando no movimento do trfego.
    - Mas ento... Rosalind e miss Hardy. Elas o ouviram tocar.
    Ou aquilo seria tambm um sonho numa vida onde sonho e realidade tinham se entrelaado com tanta fora que um inevitavelmente teria de triunfar sobre o outro?
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
     
    
  
  4
  
  
 Foram trs dias mal dormidos em um hospital de sono, superficial e cheio de contrariedades e horrores.
    J teriam cremado Karl? Tinham certeza absoluta de que estava morto quando o puseram naquela horrvel fornalha? No conseguia tirar isso da cabea. Meu marido 
virara cinzas?
    De volta da Inglaterra, a me de Karl, mrs. Wolfstan, lamentou sem parar, na cabeceira de minha cama, ter me deixado sozinha com o filho moribundo. Fiquei repetindo 
que tinha gostado muito de cuidar dele e que ela no tinha por que se afligir. Havia uma beleza no nascimento da nova criana to perto da morte de Karl.
    Sorrimos vendo as fotos do beb nascido em Londres. Meus braos doam com as agulhas. Uma esfrega.
    - Voc nunca, nunca vai ter de se preocupar com mais nada - comentou mrs. Wolfstan.
    Sabia o que ela queria dizer. Quis agradecer, dizer que Karl j me explicara tudo, mas no consegui. Comecei a chorar. Eu voltaria a me preocupar. A me afligir 
com coisas que a generosidade de Karl no poderia alterar.
    Tinha irms para amar e perder. Onde estava Faye?
    Eu me deixara adoecer - uma pessoa que passa dois dias apenas com goles de soda e eventuais fatias de po pode criar um batimento irregular em seu prprio corao.
    Meu cunhado Martin, marido de Katrinka, veio me visitar e disse que ela estava muito preocupada, mas simplesmente no conseguia pr os ps num hospital.
    Os testes foram realizados.
    Durante a noite, acordei agitada, pensando: "Isto  um quarto de hospital e Lily est na cama. Estou dormindo no cho. Tenho de me levantar e ver se minha menina 
est bem." E ento veio uma daquelas lembranas de estilhaar os vidros. To brusca que me sugou todo o sangue. Eu saa da chuva, entrava embriagada e a via deitada 
na cama, com cinco anos de idade, sem cabelos, esqueltica, quase morta, e irrompia em lgrimas, uma torrente de lgrimas.
    - Mame, mame, por que est chorando? Mame, voc est me assustando!
    Como pde fazer isso, Triana?
    Uma noite - alta de Percodan, Fenergan e outros soporferos para me deixar calma, me fazer dormir e parar de fazer perguntas estpidas sobre se a casa estava 
bem trancada e segura, e o que tinha sido feito do estudo de Karl sobre So Sebastio - achei que a desgraa da memria  esta: tudo est sempre presente.
    Perguntaram se podiam chamar Lev, meu primeiro marido. Absolutamente no, disse eu, no se atrevam a incomodar Lev. Vou telefonar para ele. Quando achar que 
devo.
    Mas drogada eu no podia realmente descer para telefonar.
    Fizeram novamente os testes. Certa manh, eu andava e andava no corredor, at que a enfermeira disse:
    - Tem de voltar para a cama.
    - E por qu? O que h de errado comigo?
    - Absolutamente nada - respondeu -, se pararem de bombarde-la com todos esses tranqilizantes. Eles tm de diminu-los gradualmente.
    Rosalind ps uma pequena vitrola para discos de vinil ao lado de minha cama. Ps os fones nos meus ouvidos e chegaram suavemente as vozes de Mozart - os anjos 
cantando sua loucura na Cosi Fan Tutte. Doces sopranos em unssono.
    Vi um filme com o olho da minha mente. Amadeus. Um filme esplndido, vigoroso. Nele, o mau compositor Salieri, admiravelmente interpretado por F. Murray Abraham, 
arrastara para a morte um Mozart risonho e inocente. Havia um momento em que, num aparatoso camarote de teatro forrado de veludo, Salieri baixava os olhos para os 
cantores de Mozart e para o prprio Mozart, maestro histrico que os regia como um pequeno querubim. F. Murray Abraham dizia ento: "Ouvi a voz dos anjos."
    Ah, sim, por Deus. Sim.
    Mrs. Wolfstan no queria ir embora. Mas tudo estava feito, as cinzas no mausolu Metairie, e todos os testes para o HIV e para qualquer outra coisa tinham dado 
negativo. Eu era a prpria imagem da sade e s perdera dois quilos. Minhas irms estavam comigo.
    - Sim, pode ter certeza que fico muito bem, mrs. Wolfstan, e a senhora sabe que eu o amava. Amava de todo o corao, e isso nunca teve nada a ver com o que ele 
dava a mim ou a outras pessoas.
    Beijos, o cheiro do perfume dela.
    Sim, disse Glenn. Agora, pare de falar nisso. O livro de Karl estava nas mos de estudiosos que ele prprio designara em seu testamento. Graas a Deus, nenhuma 
necessidade de recorrer a Lev, pensei. Que Lev ficasse com os vivos.
    Tudo mais estava nas mos de Grady. Althea, minha querida Althea, comeara logo a dar um jeito na casa, assim como Lacomb, polindo as pratarias para "miss Triana". 
Althea arrumara minha velha cama no trreo, no grande quarto da ala norte. Estava toda cheia de belos travesseiros, como eu gosto.
    No, a cama de casal Prncipe de Gales no andar de cima no fora queimada! Realmente no. S o colcho, os travesseiros e a roupa de cama. Mrs.Wolfstan mandara 
o rapaz encantador da Hurwitz Mintz trazer novos travesseiros lustrosos de seda, alguns acolchoados de veludo e fazer uma nova banda de tecido pregueado correndo 
pelo encosto.
    Eu voltaria para meu velho quarto. Para minha velha cama, com as quatro colunas de palhinha de arroz, smbolo da fertilidade. O quarto do trreo era o nico 
verdadeiro quarto que o chal tinha.
    Assim que eu estivesse pronta.
    Certa manh, quando acordei, vi Rosalind que havia adormecido perto de mim. Cochilava numa daquelas grandes cadeiras de encosto inclinado, com braos de madeira 
em declive, que h em quartos de hospital para a viglia dos familiares.
    Sabia que tinham se passado quatro dias, que comera na noite anterior uma refeio completa e que as agulhas pareciam insetos em meu brao. Tirei o esparadrapo, 
removi as agulhas, sa da cama, fui at o banheiro, encontrei minhas roupas no armrio e me vesti completamente antes de chamar Rosalind.
    Rosalind despertou atordoada e sacudiu as cinzas de cigarro da blusa preta.
    - Voc  HIV-negativa - ela falou de imediato, como se estivesse morrendo de vontade de me contar e no conseguisse lembrar que todo mundo j o fizera. Arregalava 
os olhos atrs dos culos. Atordoada. Empinou-se na cadeira. - Excluindo remover um de seus dedos, Katrinka obrigou-os a fazer tudo.
    - Venha - disse eu. - Vamos sair daqui, nem que seja para o inferno.
    Samos apressadas pelo corredor. Estava vazio. Passou uma enfermeira que no nos conhecia ou no se importou.
    - Estou faminta - disse Rosalind. - Voc no est? Quero dizer, de comida de verdade?
    - S quero ir para casa - respondi.
    - Bem, voc vai ficar muito contente.
    - Por qu, o que est querendo dizer?
    - Oh, voc conhece o cl dos Wolfstan. Compraram uma enorme limusine para voc e contrataram um novo empregado, Oscar. Este sabe ler e escrever, sem querer ofender 
o Lacomb... 
    - Lacomb sabe escrever - repliquei. Era uma coisa que j tivera de dizer mil vezes, pois Lacomb sabe escrever mas, quando abre a boca, sai um brabo dialeto negro 
de msico de jazz, do qual quase ningum consegue entender uma s palavra.
    -... e Althea que est de volta. Sempre tagarelando de um lado para o outro, dizendo palavres  copeira e proibindo Lacomb de fumar dentro de casa. Ser que 
algum entende o que ela diz? Ser que os filhos entendem o que ela diz?
    - Nunca tive a menor idia - falei.
    - Mas precisa ver a casa - comentou Roz. - Vai ador-la. Tentei dizer a eles.
    - Dizer a quem?
    O elevador chegou; entramos. Um choque. Elevadores de hospital so sempre to imensos, grandes o bastante para levar os vivos ou os mortos esticados numa maa, 
alm de dois ou trs enfermeiros. Estvamos sozinhas naquele vasto compartimento de metal que deslizava para baixo.
    - Dizer o qu a quem?
    Rosalind bocejou. Descamos rapidamente para o trreo.
    -        Dizer  famlia de Karl que sempre vamos para casa aps a morte de algum, que sempre voltamos, que voc no ia querer se mudar para algum edifcio 
pomposo mais perto do centro ou para uma sute na Corte de Windsor. Ser que os Wolfstans so assim to ricos? Ou s malucos?
Deixaram comigo dinheiro para voc, deram dinheiro para Althea, dinheiro para Lacomb, dinheiro para Oscar...
    As portas do elevador se abriram.
    - Est vendo aquele carro grande preto?  seu, essa maldita coisa. Aquele ali  o Oscar, voc conhece o tipo, um motorista da velha guarda; Lacomb levanta as 
sobrancelhas quando Oscar vira as costas e Althea no pretende cozinhar para ele.
    - No ter de faz-lo - comentei, com um ligeiro sorriso.
    Eu conhecia o tipo, uma pele de caramelo no to clara quanto a de Lacomb, a voz cheia de mel, cabelo grisalho e reluzentes culos de armao prateada. Muito 
velho, talvez velho demais para estar dirigindo, mas to distinto e to tradicional.
    - Agora  s entrar, miss Triana - disse Oscar. - Descanse e deixe que eu a levo para casa.
    - Sim, senhor.
    Rosalind relaxou assim que a porta foi fechada.
    - Estou faminta. - O vidro que nos separava de Oscar l na frente fora levantado. Gostei daquilo. Seria bom ter um carro. Eu no sabia guiar. Karl no gostava 
de guiar. Ele sempre alugara limusines, mesmo para as menores coisas.
    - Roz - perguntei com a maior gentileza de que fui capaz -, ele no poderia lev-la para almoar depois de me deixar em casa?
    - Ora, isso seria timo. Tem certeza que quer ficar sozinha l?
    - Como voc disse, sempre vamos para casa depois, no ? No fugimos. S no vou dormir na cama l em cima porque ela nunca foi minha. Era a nossa cama, minha 
e de Karl, na doena e na sade. Ele quis ficar onde o sol da tarde batia nas janelas. Eu perderia toda a naturalidade naquela cama. Prefiro ficar sozinha.
    - Eu j imaginava - respondeu Roz. - Katrinka foi silenciada por algum tempo. Grady Dubosson apresentou um documento dizendo que tudo que Karl tinha lhe dado 
era seu e reafirmando que ele abrira mo de qualquer direito que pudesse ter sobre a casa no dia em que a ocupou. Isso tapou a boca de Katrinka.
    - Ela achou que a famlia de Karl tentaria ficar com a casa?
    - Alguma coisa maluca desse tipo, mas Grady mostrou-lhe o papel onde ele renuncia ou denuncia o direito adquirido pelo casamento.  renuncia ou denuncia?
    - Sinceramente no lembro.
    - Voc sabe o que ela est querendo,  claro.
    - No se preocupe, Rosalind - respondi sorrindo. - Absolutamente no se preocupe.
    Ela se virou para mim, inclinou-se e assumiu sua expresso mais sria. A mo que segurou a minha era ao mesmo tempo carinhosa e spera. O carro subia a avenida 
St. Charles.
    - Escute - disse ela -, no se preocupe com o dinheiro que Karl nos dava. Sua velha me ps uma pilha em meu colo, e alm disso ser que j no est na hora 
de Glenn e eu tentarmos levantar aquela loja, voc sabe, faz-la realmente vender livros e discos??? - riu. Seu riso era grave e rouco. - Voc conhece Glenn, mas 
vamos viver por nossa prpria conta. No me importo se tiver de voltar a trabalhar como enfermeira.
    Minha mente se dispersou. Era irrelevante. Eram apenas mil por ms para mant-los  tona. Ela no sabia. Ningum sabia quanto Karl realmente
    De um alto-falante oculto veio uma voz educada.
    - Miss Triana, madame, quer passar pelo cemitrio Metairie, madame?
    - No, obrigada, Oscar - respondi, vendo o pequeno alto-falante no teto.
    Temos nosso tmulo, ele e eu, e Lily e a me e o pai.
    - Agora s quero ir para casa, Roz. Voc  minha irm querida, sempre. Telefone para Glenn. V peg-lo, feche a loja e v at o Commander's Palace. Faa por 
mim o banquete do funeral, o que acha? Faa isso por mim. Coma por ns duas.
    Tnhamos cruzado a avenida Jackson. Os carvalhos estavam frescos com o verde da primavera.
    Dei-lhe um beijo de despedida e mandei Oscar lev-la, ficar com ela, fazer o que ela pedir. Era um belo carro, uma grande limusine cinza, forrada de veludo, 
como as que se usam nos cortejos fnebres.
    "E acabei, afinal, subindo numa delas", pensei quando eles partiram. "Embora tenha perdido o funeral."
    Minha casa parecia radiante. Minha casa. Oh, pobre, pobre Katrinka!
    Os braos de Althea so como seda preta e, sempre que nos abraamos, penso que nada no mundo pode nos magoar.  intil tentar escrever aqui o que ela disse, 
pois Althea no  mais compreensvel que Lacomb e talvez no pronuncie mais de uma slaba de cada polisslabo. Senti as boas-vindas da casa e a aflio. Perdera 
Karl daquele jeito e, naqueles ltimos dias, teria feito qualquer coisa que ele me pedisse. Como lavar os lenis. No teria medo de lavar os lenis. "Descanse, 
deixe eu lhe fazer um chocolate quente, meu bem."
    Lacomb estava furtivo na porta da cozinha. Era um homem baixo e calvo que passaria por branco em qualquer lugar, menos em Nova Orleans, onde a voz traria sempre 
a revelao certeira.
    - Como vai, patroa? Parecendo magra, patroa, eu acho.  melhor
comer alguma coisa. Althea, no se atreva a cozinhar para esta mulher uma de suas coisas. Vou sair e trazer a comida. O que a senhora quer? Esta casa est cheia 
de flores, patroa. Eu podia vend-las na calada e ganhar uns trocados para ns.
    Eu ri. Althea, com apropriadas elevaes e quedas de tom, alm da clareza de meia dzia de gestos, advertiu-o severamente contra a perturbao da ordem domstica.
    Fui para o andar de cima. Queria me certificar que a cama Prncipe de Gales de quatro colunas ainda estava l. Estava, e com novos e lindos arremates de cetim.
    A me de Karl pusera ao lado da cama um retrato do filho numa moldura; no do esqueleto que puxaram daqui, mas do homem de olhos castanhos e corao generoso 
que sentara comigo na escada da biblioteca do bairro, falando sobre msica, falando sobre a morte, falando sobre se casar, o homem que me levou a Houston para ver 
a pera e a Nova York, o homem que tinha cada retrato de So Sebastio que j fora pintado por um artista italiano ou  maneira italiana, o homem que tinha feito 
amor com as mos, com os lbios e no tolerava elucubraes sobre isso.
    A escrivaninha estava limpa. Todos os papis tinham sado dali. No se preocupe com isso agora. Voc tem a palavra de Glenn, e Glenn e Roz nunca desapontaram 
ningum.
    Desci novamente a escada.
    - A senhora sabe, eu podia ter ajudado a cuidar do homem - explicou Lacomb. E Althea replicou que j chegava de repetir aquilo, que eu estava de volta, que ficasse 
calado ou fosse dar uma esfregada no cho. Por conseguinte, x!
    Meu quarto estava limpo e silencioso, a cama pronta para dormir, os mais delicados e perfumados lrios Casablanca no vaso. Como eles sabiam?  claro, Althea 
disse a eles. Lrios Casablanca.
    Enfiei-me na cama, minha cama.
    Como j disse, este  o quarto principal do chal e o nico verdadeiro. Fica no trreo, no lado da casa onde o sol bate pela manh - uma ala octogonal, que se 
estende at um arvoredo muito escuro, um pomar de cerejeiras, que esconde o mundo l fora.
     a nica salincia que a casa tem, pois fora isso ela  retangular. E as galerias circulares, as grandes, grandes varandas que tanto amamos vm rodear este 
quarto, enquanto do outro lado da casa elas simplesmente se interrompem antes de chegar s janelas da cozinha.
     gostoso pular da cama e olhar por uma janela alta, que d para uma varanda afastada da rua.  gostoso contemplar as folhas das cerejeiras, sempre lustrosas, 
numa relaxante agitao. Elas nem do conta que voc existe.
    No trocaria a avenida pelos Champs lyses, pela via Veneto, pela Yellow Brick Road, pela Via Expressa para o Cu. Mas s vezes  bom ficar aqui atrs, neste 
quarto do levante, encostar no parapeito da janela, longe demais da rua para algum reparar, e prestar ateno na animao das luzes que passam por perto.
    - Althea, querida, puxe as cortinas para eu poder olhar pela janela.
    - Est frio demais para a senhora abri-la.
    - Eu sei, s quero ver... 
    - No quer um chocolate, livros, no quer sua msica, seu rdio? Peguei os discos que estavam no cho e guardei todos eles. Rosalind veio aqui e colocou em ordem. 
Disse que Mozart devia ficar com Mozart, Beethoven com Beethoven. Ela me mostrou onde...
    - No, s quero descansar, me d um beijo.
    Ela se abaixou e encostou o rosto sedoso no meu.
    - Minha menina - disse ela.
    Cobriu-me com dois grandes acolchoados, todos de seda, e sem dvida cheios de penas. Fazia parte do estilo de mrs. Wolfstan e do estilo de Karl, amantes dos 
pesos sem peso, que tudo tivesse autnticas penas de ganso. Ajeitou-os em volta de meus ombros.
    - Miss Triana, por que a senhora nunca chamou Lacomb nem a mim
quando aquele homem estava morrendo? A gente podia ajudar.
    - Eu sei. Quis poupar vocs. No queria que ficassem assustados.
    Althea balanou a cabea. Seu rosto era muito bonito, muito mais escuro que o de Lacomb, com grandes e belos olhos, o cabelo macio e ondulado.
    - A senhora vira a cabea para a janela - disse - e depois dorme.
Ningum vai entrar nesta casa, eu garanto.
    Deitei de lado olhando para a janela, vendo, atravs de doze pequenas vidraas, brilhando de to limpas, as rvores ao longe, os carvalhos, os reflexos coloridos 
do trfego.
    Gostaria de ver de novo as azalias l fora, rosadas, vermelhas, brancas, florescendo por todo lado, luxuriantes ao longo da grade. Gostaria de ver a delicada 
grade de ferro pintada recentemente de preto e a prpria varanda, imaculadamente limpa.
    To maravilhoso que Karl tivesse me dado aquilo antes de morrer, a casa restaurada! Minha casa com fechaduras funcionando, com cada porta fazendo o clique adequado 
e cada torneira correndo na temperatura certa da gua.
    Talvez eu tenha olhado pela janela por cinco minutos, sonhadora; talvez mais. Os bondes passavam. Minhas plpebras ficavam pesadas.
    E foi s pelo canto do olho que percebi o vulto parado na varanda, meu alto magricela, o violinista, com o cabelo sedoso caindo escorrido no peito.
    Postado na beira da janela, como uma trepadeira. Dramaticamente magro, quase elegantemente cadavrico, mas bem vivo. Desta vez, nenhuma pequena trana nas costas. 
Era s cabelo. S o cabelo negro que pendia to reto, lustroso.
    Vi o olho esquerdo escuro, a forte e lisa sobrancelha negra por cima. A face muito branca, demasiado branca, mas os lbios eram corados, atraentes, muito atraentes, 
lbios vivos.
    Fiquei um minuto assustada. S um minuto. Sabia que aquilo era errado. No, no errado, mas perigoso, antinatural, no uma coisa possvel.
    Sabia quando estava sonhando e quando no estava, por mais dura que fosse a luta para me mover entre os dois casos. E ele estava ali, em minha varanda, aquele 
homem. Parado ali me olhando.
    Ento no fiquei mais assustada. No me importei. Foi um belo surto de extrema indiferena: no me importo. Ah,  to divino o vazio que se segue  desero 
do medo! E era uma atitude bem prtica, foi o que pareceu no momento.
    Porque de uma maneira ou de outra, fosse ele real ou no, a coisa era bonita e prazerosa. Senti calafrios nos braos. Assim o cabelo fica mesmo em p, mesmo 
quando voc est deitada, toda imprensada contra seu prprio cabelo no travesseiro, com um brao caindo do lado da cama, olhando por uma janela. Sim, meu corpo entrou 
em sua guerrinha com a mente. Cuidado, cuidado, gritava o corpo. Mas minha mente  muito obstinada.
    Minha voz interior veio bastante determinada e enrgica. Fiquei maravilhada comigo mesma vendo como uma pessoa pode ouvir um som dentro da cabea.  possvel 
gritar ou murmurar sem mover os lbios. Falei para ele:
    "Toque para mim. Senti a sua falta."
    Ele chegou mais perto do vidro, os ombros crescendo em minha direo. Era to alto e fino, com um cabelo to torrencial e sedutor - tive vontade de senti-lo 
nos dedos, de pente-lo melhor. Fitou-me atravs das vidraas mais altas, no com o olhar inflamado, feroz, de um fictcio Peter Quint procurando um segredo atrs 
de mim, mas olhando diretamente para o que queria. Para mim.
    As tbuas do assoalho rangeram. Algum abria caminho em direo  porta.
    Althea entrou de novo. To  vontade como se aquele fosse um momento comum.
    No me virei para olh-la. Ela meramente entrou de mansinho como sempre fazia.
    Ouvi-a atrs de mim. Ouvi-a pousar uma xcara. Pude sentir o cheiro do chocolate quente.
    Mas no tirei os olhos dele, de seus ombros altos, das empoeiradas mangas de l que pareciam feitas sob medida. E ele tambm no tirou de mim os olhos profundos, 
brilhantes; me olhava fixamente, sem interrupo, atravs da janela.
    - Oh, Senhor Deus, voc a  de novo! - exclamou Althea.  
    Ele no se mexeu. Eu tambm no.
    Ouvi as palavras de Althea num fluxo a meia voz, quase ininteligvel. Perdoem a traduo:
    - Bem aqui na janela de miss Triana. Muita cara de pau. Sei como adora me deixar morta de medo. Miss Triana, ele ficou esperando esse tempo todo, dia e noite, 
dizendo que ia tocar para a senhora, dizendo que no conseguia chegar perto da senhora, mas que a senhora gostava muito dele tocando e que no ia se arranjar sem 
ele,  isso que ele diz. Quero ver agora, que ela voltou para casa, o que voc vai tocar! Acha que pode tocar alguma coisa bonita para ela, do jeito que est? Olhe 
para esta mulher, acha que vai fazer com que se sinta bem?
    Althea se aproximou, circundando os ps da cama, imponente, os braos cruzados, o queixo empinado.
    - Vamos l, toque alguma coisa para ela - disse. - Sei que est me
ouvindo atravs do vidro. Ela est em casa agora, est muito triste, e voc, olhe para voc, est pensando que vou limpar esse seu casaco, no ? E tem outro pensamento 
entrando em sua cabea...
    Devo ter sorrido. Devo ter mergulhado um pouco mais fundo no travesseiro.
    Ela o via!
    Em momento algum os olhos do violinista se afastaram de mim. No dera qualquer importncia a Althea. Sua mo estava pousada no vidro como uma grande aranha branca. 
Mas ao lado dele, na outra mo, estava o violino com o arco. Vi as elegantes curvas pretas da madeira.
    Sorri para Althea sem mexer a cabea, pois agora ela estava entre ns, destemida, me encarando, ignorando-o. Traduzo de novo o que  mais uma cano do que um 
dialeto:
    - Ele fala, fala como sabe tocar e toca para a senhora. E como a senhora gosta! A senhora o conhece. Eu nunca o tinha visto aqui na varanda. Lacomb deve ter 
visto ele chegar. No tenho medo dele. Lacomb pode despach-lo agora mesmo. Pelo menos  o que diz. A mim, no incomoda nada. Uma noite veio aqui e tocou um pouco 
de msica. Olhe o que estou dizendo: a senhora nunca escutou uma msica daquelas. A eu pensei: Senhor, a polcia vem vindo e no pode encontrar ningum aqui, s 
eu e Lacomb. A eu disse pra ele: agora voc puxa o carro! Mas estava to perturbado, a senhora devia ter visto os olhos. A olhou pra mim e disse: voc no gosta 
do que eu toco. A eu disse gosto, s no quero escutar. Ento ele falou um monte de coisas loucas que tive de ouvir, era como se soubesse tudo de mim e falava como 
um maluco, uma doideira atrs da outra. A Lacomb disse: se est procurando um prato de comida, podemos lhe dar o arroz e o feijo-manteiga de Althea. S que vai 
morrer envenenado! Agora, miss Triana, a senhora sabe!
    Ri em voz alta, mas no um riso dos mais barulhentos. Ele ainda estava l; s podia ver um pouco da sombra grande e magra atrs de Althea. Eu no me mexera. 
A tarde caa.
    - Gosto muito de seu arroz e de seu feijo-manteiga, Althea - comentei.
    Ela desfilou em torno do quarto, endireitou a velha renda Battenburg na mesa-de-cabeceira, encarou de forma ostensiva o violinista e depois me deu um sorriso, 
tocando meu rosto por um momento com a mo de cetim. To doce, meu Deus, como poderia viver sem ela?
    - No, est tudo muito bem - disse eu. - V agora, Althea. Eu realmente j o conheo.Talvez ele toque, quem sabe? No se preocupe com isso. Vou ter cuidado com 
ele.
    - Parece um vagabundo - Althea resmungou em voz baixa e, quando comeou a sair do quarto, cruzou novamente os braos, com uma fora ainda mais significativa. 
Continuou falando, compondo sua prpria cantiga. Quem dera eu encontrasse a maneira de dar  posteridade uma viso mais ntida de sua fala rpida, com tantas slabas 
comidas e, acima de tudo, com seu ilimitado entusiasmo e sabedoria.
    Ajeitei-me no travesseiro, curvei o brao sob ele, me enrasquei com os olhos levantados e fixos no violinista, em seu vulto  janela, espreitando-me do alto 
das vidraas, atravs de dois quadrados de vidro.
    As canes esto por toda parte, na chuva, no vento, no gemido do sofredor, canes.
    Althea tinha fechado a porta. Um duplo clique, o que significa, numa porta de Nova Orleans, invariavelmente empenada, que ela realmente a fechara.
    O silncio voltou ao quarto como se nunca tivesse sofrido a menor interrupo. A avenida produziu um sbito crescendo de seu ronco contnuo.
    Atrs dele (do amigo que me fitava com olhos negros e me mostrava uma boca sem sorrisos), os pssaros cantavam naquela atividade de fim de tarde que se repetia 
a cada dia, precisa como um relgio, o que sempre me espantava. O trfego fazia o animado ritual da hora do rush.
    O vulto alto e desgrenhado se deslocou para o meio da janela. Camisa branca, suja, desabotoada, cabelo escuro caindo no peito como sombra ou mancha. Um colete 
de l preta, aberto porque os botes tinham cado todos.
    Pelo menos foi isto o que eu acho que vi.
    Ele se inclinou, quase encostado nos doze quadrados de vidro. Como era magro, talvez doente. Como Karl? Sorri ao pensar que tudo podia se desenrolar mais uma 
vez. Mas no, aquilo parecia muito distante agora. Baixava os olhos para mim cheio de vigor, muito longe da verdadeira fraqueza da morte.
    Um olhar de reprovao me atingiu, como para dizer: voc sabe melhor do que eu. Ento ele sorriu e os olhos, que me encaravam possessivamente, emitiram um brilho 
ainda mais luminoso e cmplice.
    Havia uma testa lvida e ossuda em cima das plpebras, mas isso dava aos olhos uma encantadora profundidade, furtiva e inexplorvel. No bonito contorno do couro 
cabeludo, o cabelo negro brotava to espesso, com uma ponta cada na frente e bem distribudo dos lados, que lhe proporcionava, apesar da magreza, uma beleza intensa. 
As mos eram como aranhas! Bateu nos caixilhos superiores com a mo direita. Deixou marcas que eu vi na poeira quando a luz fez pequenas e inevitveis ondulaes, 
quando o jardim, com seu denso arvoredo de cerejeiras e magnlias, mexeu-se atrs dele, respirando com a brisa e com o trfego.
    O punho grosso e branco da camisa estava manchado e o casaco cinza cheio de p.
    Ento uma lenta mudana se deu em sua expresso. O sorriso desaparecera, mas no havia hostilidade (e nunca haveria, foi o que percebi naquele momento). Antes 
o marcara um ar de superioridade, de dissimulada superioridade, mas agora a expresso era espontnea, as defesas se abriam.
    Um sentimento meio sem jeito de carinho passou em seu rosto, dominou-o por um instante e depois o liberou para dar vazo ao que parecia raiva. A ele ficou triste, 
no ostensiva ou artificialmente triste, mas profundamente, intimamente triste, como se perdesse o interesse por aquele pequeno espetculo de assombrao na varanda. 
Deu um passo atrs. Ouvi as tbuas. Minha casa proclama qualquer movimento.
    E ento ele escapuliu.
    Exatamente assim. Sumindo da janela. Sumindo da varanda. No conseguia ouvi-lo alm das vidraas num canto distante da casa. Sabia que no estava l. Sabia que 
tinha ido embora e tive a mais pura convico que, de fato, ele se dissipara no ar.
    Meu corao batia alto demais.
    "Se pelo menos no fosse um violino", pensei. "Quero dizer, graas a Deus  um violino, pois no h qualquer outro som sobre a terra como esse, no h..."
    Minhas palavras se extinguiram. 
    Msica baixa, a msica dele.
    No fora muito longe. Apenas escolhera um parte escura e distante do jardim, nos fundos da casa, quase atrs da velha capela Mansion na rua Prytania. Minha propriedade 
faz fronteira com os terrenos da capela. A quadra nos pertence,  capela e a mim, da rua Prytania at a avenida St. Charles, seguindo a Third Street. Naturalmente 
existe o outro lado da quadra, onde ficam outros prdios, mas esta grande metade do quarteiro  nossa, e provavelmente ele apenas caminhara at os velhos carvalhos 
atrs da capela.
    Pensei que fosse chorar.
    Por um momento, a dor de sua msica e meu prprio sentimento estiveram to perfeitamente unidos que pensei: no vou conseguir suportar isso. S um louco no 
pegaria um revlver, no o poria na boca e apertaria o gatilho - uma imagem que me assediava freqentemente em anos passados, quando eu era uma bbada incorrigvel, 
e depois mais tarde, quase continuamente, at a vinda de Karl.
    Era uma cano galica, em tom menor, profunda, vibrante, cheia de paciente desespero e desejos sem avidez. Tinha uma sonoridade de rabeca irlandesa, a rouca 
e triste harmonia das cordas inferiores tocadas juntas, um rogo que soava mais puramente humano que qualquer som feito por criana, homem ou mulher.
    Ocorreu-me - um grande pensamento informe, incapaz de assumir um contorno definido naquela atmosfera de msica lenta, fascinante, acariciante - que aquilo era 
o poder do violino, que ele soava humano de um modo que ns, humanos, no conseguamos atingir! Falava para ns de um modo que ns mesmos no conseguamos falar. 
Ah, sim, e  disso que sempre se ocuparam toda a poesia e toda a reflexo do homem.
    Sua cano fez minhas lgrimas rolarem - as velhas e novas frases musicais galicas, o doce escalar de notas que tombavam inexoravelmente num perptuo testemunho 
de aceitao. Uma solicitude com tamanha ternura. Uma simpatia to perfeita.
    Rolei sobre o travesseiro. A msica era admiravelmente lmpida. Por certo, toda a quadra a ouvia: os transeuntes, Lacomb e Althea na mesa da cozinha, jogando 
cartas ou xingando um ao outro. Com certeza os prprios pssaros estariam embalados.
    O violino, o violino.
    Lembrei de um dia de vero, uns 35 anos atrs. Trazia meu violino no estojo, entre mim e Gee, que guiava a moto. Eu me apertava contra ele na garupa, mantendo 
o violino a salvo. Vendi o violino por US$5 para o homem da rua Rampart.
    - Mas eu o comprei de voc por vinte e cinco dlares - disse eu -, e foi s h dois anos.
    Foi embora no estojo preto, meu violino; os msicos devem ser o esteio principal das lojas de penhores. H instrumentos  venda pendurados por toda parte. Talvez 
a msica atraia os mais ferrenhos sonhadores, como era meu caso, com projetos grandiosos e nenhum talento.
    S chegara perto de um violino duas vezes desde essa poca - fora mesmo h 35 anos? Quase. Exceto por um momento de deslumbramento e embriaguez, e outro no incio 
da ressaca, nunca mais peguei um violino, nunca mais quis encostar na madeira, nas cordas, na resina, no arco, no, nunca mais.
    Mas por que me dei ao trabalho de pensar nisso? Era apenas uma velha decepo de adolescente. Vira o grande Isaac Stern tocar o Concerto para Violino de Beethoven 
em nosso Auditrio Municipal. Queria ser capaz de fazer aqueles sons esplndidos! Queria ser aquela imagem balanando no palco. Queria ser capaz de fascinar! Fazer 
sons como os que penetravam agora nas paredes do quarto...
    O Concerto para Violino de Beethoven - a primeira pea de msica clssica. Mais tarde passei a conhec-la intimamente graas aos discos da biblioteca.
    Eu me tornaria uma Isaac Stern. Tinha de conseguir!
    Por que pensar nisso? Quarenta anos atrs, eu soube que no tinha dom, nem ouvido, que no conseguia distinguir quartos de tom, que no tinha a destreza nem 
a disciplina. Foi o que me disseram, da forma mais branda possvel, os melhores professores.
    E alm disso havia o coro da famlia: "Triana est fazendo barulhos horrveis com o violino!" E a severa advertncia de meu pai de que as aulas saam muito caras, 
especialmente para algum to indisciplinada, preguiosa e dispersiva por natureza.
    Devia ser fcil esquecer isso.
    Ser que, no caminho trilhado desde essa poca, a tragdia ordinria ainda no se fizera ouvir o bastante para fazer esquecer? Me, filha, primeiro marido h 
muito perdidos, a morte de Karl, o desenrolar do tempo, a compreenso cada vez mais ntida das coisas...
    Mas como parece claro esse dia de tantos anos atrs, a expresso do dono da loja de penhores e meu ltimo beijo no violino, meu violino, antes dele deslizar 
pela suja tampa de vidro do balco. US$5.
    Tudo bobagem. Lamentar-se por no ser alta, no ser bem-feita de corpo e graciosa, no ser bonita, no ter uma voz boa para cantar ou no ter sequer a determinao 
necessria para dominar o piano no nvel exigido pelas cantigas de Natal.
    Peguei os US$5, adicionei a eles US$50, com a ajuda de Rosalind, e fui para a Califrnia. Escola estava fora de cogitao. Minha me tinha morrido. Meu pai encontrara 
uma nova amiga, uma protestante que nos acompanhava em "almoos eventuais". Ela cozinhava enormes refeies para minhas irmzinhas desamparadas.
    "Voc nunca tomou conta delas!"
    Pare com isso. No vou pensar mais naquela poca, no vou. Nem na pequena Faye nem em Katrinka na tarde em que fui embora - Katrinka pouco interessada, mas Faye 
sorrindo to satisfeita e atirando beijos... No, de jeito nenhum. No posso. No vou.
    Toque seu violino para mim, est timo, mas agora vou calmamente esquecer do meu.
    Apenas ouvi-lo.
    E era como se estivesse disputando comigo! Safado! A melodia se repetia sem parar, concebida na tristeza, destinada a ser executada com tristeza e a tornar a 
tristeza doce, lendria ou ambas as coisas.
    O mundo presente recuava. Eu tinha 14 anos. Isaac Stern tocava no palco. O grande concerto de Beethoven subia e descia sob os candelabros do auditrio. Quantas 
outras crianas estavam embevecidas ali? Oh, Deus, ser assim! Ser capaz de fazer aquilo!...
    Como era estranho que um dia eu tivesse crescido, vivido uma vida, que um dia tivesse me apaixonado por meu primeiro marido, Lev, depois conhecido Karl, que 
Karl tivesse um dia vivido ou morrido, ou que eu e Lev tivssemos um dia perdido uma menininha chamada Lily, ou que eu tivesse segurado nos braos algum to pequeno 
que sofria, a cabea calva, os olhos fechados - ah, no, existe certamente um ponto onde a memria se transforma em sonho.
    Deve haver alguma legislao mdica contra isso.
    Nada podia ter acontecido de mais terrvel que aquela criana de cabelos dourados morrer como uma menina de rua, ou Karl gritando, Karl que nunca se queixava, 
ou a me na trilha do jardim, suplicando para que no a levassem embora naquele ltimo dia, e eu, a filha egocntrica de 14 anos, totalmente inconsciente que nunca 
mais sentiria o calor de seus braos, nunca mais poderia beij-la, nunca mais poderia dizer: "Me, no importa o que acontea, eu amo voc. Eu amo voc. Eu amo voc."
    Meu pai sentara na cama com o corpo empinado, rebelando-se contra a morfina, gemendo com horror: "Triana, estou morrendo!"
    Veja como ficou pequeno o caixo branco de Lily no tmulo da Califrnia. Olhe para ele. V l fora onde queimvamos nosso fumo, tomvamos nossa cerveja, lamos 
nossos poemas em voz alta. Beatniks, hippies, transformadores do mundo, pais de uma criana to tocada de encanto que gente estranha parava (mesmo quando o cncer 
j tomara conta dela) para dizer como era bonito seu rosto redondo, pequeno e branco. Vejo de novo sobre o tempo e o espao. Aqueles homens pem o pequeno caixo 
branco dentro de uma arca de sequia e enfiam no buraco. Mas no pregaram as tbuas.
    A me de Lev no parava de chorar. O pai de Lev, um texano tranqilo e cordial, pegou um punhado de terra e jogou no tmulo. Outros, ento, fizeram o mesmo (eu 
nunca ouvira falar daquele costume) e meu prprio pai, solene, acompanhou-os. Imagino o que estaria pensando: punio para meus pecados, eu que abandonara minhas 
irms, que me casara fora de minha religio, que deixara minha me morrer sem amor!
    Ou ser que pensava em coisas mais triviais? Lily no foi uma neta a quem ele tivesse dado seu carinho. Trs mil quilmetros os separavam e raramente a vira 
antes de o cncer tirar-lhe as longas ondas douradas de cabelo e tornar suas pequenas bochechas inchadas e plidas, ainda que no houvesse medicamento conhecido 
pelo homem que pudesse embotar seu olhar ou sua coragem.
    Que interessa agora seu pai, quem ele amava ou deixava de amar?
    Virei-me na cama, amassando o travesseiro, achando maravilhoso que, mesmo com o ouvido esquerdo enterrado nas penas, ainda pudesse ouvir o violino.
    Em casa, em casa, voc est em casa e um dia todos eles voltaro para casa. O que isso significa? No tem de significar nada. Voc s tem de murmur-lo, murmurar... 
ou cantar uma cano sem palavras com o violino dele.
    E ento a chuva caiu.
    Meu humilde agradecimento.
    A chuva caiu.
    Exatamente como eu podia ter desejado. E caiu nas velhas tbuas da varanda e sobre o telhado de amianto que apodrece em cima deste quarto. Salpicou nos largos 
peitoris das janelas e gotejou pelas fendas.
    Mas ele continuava tocando. Com seu cabelo de cetim e seu violino de cetim, como se fosse desenrolando pela atmosfera um rastro de ouro, to fino que se diluiria 
em bruma assim que tivesse sido ouvido, conhecido, amado e tivesse abenoado o mundo inteiro com sua minscula frao de reluzente glria.
    "Como pode estar to contente", perguntei a mim mesma, "por se encontrar entre esses mundos? A vida e a morte. A loucura e a sanidade."
    Sua msica falava; as notas fluam baixas, graves e ansiosas antes de ascender para os ares. Fechei os olhos.
    Ele entrava agora numa esplndida dana, com animao, dissonncia e extrema seriedade. Tocava de forma to intensa e febril que cheguei a pensar que certamente 
algum atenderia quele chamado. Era o que as pessoas chamam de "o tipo de msica que o Diabo gosta".
    Mas a chuva caa, caa e ningum o detinha. Ningum conseguiria.
    Aconteceu como um choque! Eu estava em casa, em segurana, e a chuva rodeava como um vu este longo quarto octogonal, mas eu no estava sozinha:
    - Agora tenho voc.
    Murmurei em voz alta para ele, embora,  claro, ele no estivesse no quarto.
    Podia ter jurado que longe, e ao mesmo tempo perto, bem  mo, ele riu. Deixou que eu ouvisse o riso. A msica no ria. A msica estava destinada a seguir seu 
andamento impetuoso, spero, posto com perfeio na altura devida, como se devesse levar  exausto um grupo agitado e louco de danarinos. Mas ele riu.
    Comecei a cair no sono, no no sono pesado, negro e sem comeo das drogas do hospital, mas num sono de verdade, profundo, doce sono. E a msica cresceu, tornou-se 
mais severa, e depois produziu um dilvio monumental, como se ele tivesse me desculpado.
    Parecia que a chuva e aquela msica iam me matar. Eu morreria em silncio, sem um protesto. Mas eu apenas sonhava, resvalando cada vez mais fundo para uma iluso 
completamente madura, como se ela estivesse esperando por mim.
    
    
    
    
  
  5
  
  
 Era novamente aquele mar, aquele oceano luminoso, azul, espumando bravio naqueles fantasmas que oscilam, que se equilibram em cada onda alcanando a praia. Tinha 
o fascnio dos sonhos claros. E diz que no, no se pode estar sonhando, no est, est aqui!  o que sempre dizem os sonhos claros. Gira-se e gira-se em volta deles 
e no se consegue acordar. Eles dizem: no se pode ter imaginado isso.
    Mas tnhamos de sair agora da suave brisa do mar. A janela estava fechada. A hora chegara.
    Vi rosas espalhadas num tapete cinza, rosas de caules compridos e cada uma enfiada no gargalo de um frasco de gua para manter-se fresca, rosas com ptalas escurecidas 
e macias, e vozes que falavam numa lngua estrangeira, uma lngua que eu devia conhecer mas no conhecia, uma linguagem inventada, assim parecia, especialmente para 
esse sonho. Pois com certeza eu estava sonhando. Tinha de estar. Mas estava ali, aprisionada naquilo, com corpo e alma para ali transportados. E alguma coisa cantava 
dentro de mim: no deixe que seja um sonho.
    - Est bem! - assentiu a bonita Mariana, de pele morena. Tinha cabelo curto, uma blusa branca que no lhe escondia os ombros, um pescoo de cisne e um ronronar 
de gato na voz.
    Abriu as portas de um lugar imenso. No podia acreditar no que meus olhos viam. No podia acreditar que coisas slidas pudessem ser to fascinantes quanto o 
mar e o cu, e aquilo - aquilo era um templo de mrmore policromtico.
    No  um sonho, pensei. Voc no pode sonhar uma coisa dessas! No tem as imagens necessrias para construir uma coisa assim. Voc est aqui, Triana!
    Veja as paredes marchetadas com um mrmore de Carrara leitoso e cheio de veios, as placas com moldura de ouro, a pedra no espao entre as placas de um marrom 
mais escuro, embora no menos polido, no menos cheio de matrizes, no menos esplndido. Veja as pilastras quadradas com os capitis dourados e cheios de volutas.
    E agora, quando chegamos  frente do edifcio, esse mrmore se altera para verde, em longas faixas ao longo do cho, formando o prprio cho um mosaico complexo 
e sempre mutante. Olhe. Vejo o antigo desenho da chave grega. Vejo os padres caros a Roma e  Grcia, cujos nomes no lembro, mas que conheo.
    E agora viramos e nos detemos na frente de uma escada como eu nunca tinha visto em lugar algum. No  meramente a escala, a grandiosidade que impressionam, mas 
de novo o colorido: admire, oh Senhor, a radincia do mrmore rosado de Carrara!
    Mas primeiro preste ateno nessas figuras, nesses rostos de bronze numa postura atenta, corpos profunda e cuidadosamente esculpidos na madeira, desdobrando-se 
em patas e garras de leo nas bases de nix.
    Quem construiu este lugar? Com que objetivo?
    De repente sou atrada pelas portas de vidro do outro lado, h realmente muita coisa para ser vista, estou abismada, olhe, trs grandes portas neo-clssicas 
de vidro chanfrado, bandeiras em semicrculo, painis pretos e guarnecidos de raios na parte de cima. So aberturas para a luz, embora o dia ou a noite, qualquer 
um dos dois, esteja vedado atrs delas.
    A escada est  espera. Venha, diz Mariana. Lucrcia  to generosa. A balaustrada  de mrmore verde, verde como jade e com veios ondulantes como o mar. Os 
balastres so de tom mais leve e cada parede est revestida de mrmore rosa ou creme emoldurado em ouro.
    Admire essas colunas redondas e lisas de mrmore rosa, com a exuberante reproduo de folhas de acanto no dourado dos capitis. Bem l em cima, veja os arcos 
quebrados da abbada, com uma pintura entre cada um deles; veja o ornamento da moldura ao redor daquela alta janela com vitrais.
    Sim,  dia.  a luz do dia que flui pelos vitrais! Brilha sobre as ninfas pintadas com esmero em painis l no alto, danando para ns, danando tambm no prprio 
vidro. Fecho os olhos. Depois abro. Toco no mrmore. Real, real.
    Voc est aqui. No pode ser despertada ou tirada deste lugar;  verdade, voc est vendo!
    Pisamos na escada, subimos cada vez mais, cercadas por aquele palcio de pedra italiana, at pararmos num mezanino, defronte a trs gigantescas janelas com vitrais. 
Cada uma tem sua prpria deusa ou rainha em tnicas difanas, sob uma arquitrave, com querubins de planto e flores respirando em cada canto, em grinaldas, em guirlandas, 
ofertadas em mos estendidas. Que smbolos so esses? Escuto as palavras, mas tambm vejo;  isso que me faz tremer.
    E em cada ponta deste longo espao e sonho h uma cmara oval. Venha ver. Olhe aqui esses murais, olhe as pinturas que vo at l em cima. Sim, so fertilmente 
narrativas, e mais uma vez danam as ousadas figuras clssicas, cabeas cingidas com louro, contornos perfeitos e exuberantes. Tm a magia dos pr-rafaelistas.
    No h fim aqui para a combinao, para a beleza que se entrelaa em beleza? No h fim para as arestas, o movimento gil, os soberbos arremates das cornijas 
e frisos? Nem para aquelas paredes revestidas de madeira? Devo estar sonhando.
    Mariana e a outra, Lucrcia, falavam na linguagem dos anjos, uma lngua cantante e amvel. E ali, apontei: as reluzentes mscaras douradas daqueles que eu amava. 
Medalhes fixados l no alto da parede: Mozart, Beethoven; outros..., mas o que  isso, um palcio para cada melodia que voc j ouviu e foi incapaz de suportar 
sem lgrimas? O mrmore brilha no sol. Uma riqueza como esta no pode ser feita por mos humanas. Este  o templo do Cu.
    Vamos descer a escada, descer, descer, e agora sei, com um aperto crescente no corao, que isto tem de ser um sonho.
    Mesmo que um sonho desses no possa ser medido pelas profundezas de minha imaginao.  um parmetro to improvvel que chega a ser impossvel.
    Samos do templo de mrmore e msica para uma grande sala persa com ladrilhos azuis, vitrificados. Estava repleta de ornamentos orientais que, pela suntuosidade, 
podiam rivalizar com a beleza que eu vira antes. Oh, que eu no acorde. Se isso pode estar vindo de minha mente, ento que venha.
    Que esse esplendor babilnico devesse vir depois daquela arrojada glria barroca no podia ser, mas eu adorei.
    No alto das colunas, com suas expresses de fria, esto os venerveis touros usados em sacrifcios, e olhe a fonte, foi na fonte que Dario matou o leo que 
pulava sobre ele. Isso, porm, no  um santurio, no  um memorial fnebre para coisas passadas.
    Olhe, as paredes cobertas de cintilantes prateleiras que exibem os mais elegantes cristais. E montaram um bar no meio desses decorativos relevos. Vejo mais uma 
vez um cho de incomparvel mosaico. Pequenas e graciosas cadeiras douradas cercando uma multido de mesinhas. As pessoas conversam, se mexem, andam, respiram, como 
se aceitassem com absoluta naturalidade toda essa magnificncia.
    Que lugar  este, que pas, que terra, onde estilo e cor puderam ser to audaciosamente reunidos? Onde o convencional foi ultrapassado por mestres de todos os 
ofcios. At o desenho dos candelabros  persa, grandes lminas de metal prateado esculpidas com intricados motivos.
    Sonho ou realidade! Eu me viro e bato com o punho na coluna. Maldio, que eu acorde logo se no estou aqui!... E ento veio a confirmao. Voc est aqui, isso 
no se discute. Est de corpo e alma neste lugar, no salo babilnico sob o templo de mrmore.
    -        Venha, venha - a mo dela em meu brao. Mariana ou a outra figura adorvel, com rosto redondo, olhos grandes e generosos... Lucrcia? As duas se compadecem 
de mim; falam numa lngua derivada do latim, cantante.
    "Nosso mais profundo segredo."
    As coisas se movimentam. Estou aqui, tudo bem, pois eu nunca tinha sonhado com isso.
    No sei como sonh-lo. Vivo para a msica, vivo para a luz, vivo para as cores, sim, verdade, mas o que  isso, esta passagem repelente, com azulejos brancos 
e sujos? Tem gua no cho, um cho escuro, mais do que escuro de to imundo. E olhe, os motores, as caldeiras, os gigantescos cilindros com tampas e fechos amassados; 
to sinistros, cobertos com uma tinta que descasca, entre um fragor de rudos que  quase silncio.
    Ora, isto parece a sala de mquinas de um velho navio, do tipo que visitei quando era criana e Nova Orleans ainda era um porto movimentado. Mas no, no estou 
a bordo de um navio. As propores deste corredor so imponentes demais.
    Quero voltar. No quero sonhar esta parte. Mas a essa altura j sei que no  sonho. Por alguma razo fui trazida para c!  alguma punio que mereo, algum 
terrvel ajuste de contas. Quero ver novamente o mrmore, o belo mrmore com tons carregados de prpura nos painis laterais da escada; quero guardar na memria 
as deusas no vidro.
    Mas caminhamos nesta galeria mida, nojenta, cheia de ecos. Por qu? Cheiros ftidos sobem por todo lado. H velhos armrios metlicos de vestirio, quem sabe 
abandonados pelos soldados de uma base militar desativada. Os armrios esto amassados, cobertos dos recortes de revistas masculinas de anos atrs, e mais uma vez 
fitamos a vastido deste Inferno de mquinas, espumando, esmerilhando, fervendo e fazendo barulho enquanto atravessamos a passarela de ao.
    -        Mas para onde estamos indo?
    Minhas companheiras sorriram. Acham que isso  um segredo engraado, este lugar para onde esto me levando.
    Portes! Grandes portes de ferro nos vedam a passagem, mas nos vedam a passagem para onde? Um calabouo? 
    - Uma passagem secreta - confessa Mariana com indisfarvel prazer. - Avana por baixo da rua! Uma passagem secreta subterrnea...
    Fiz fora para ver atravs dos portes. No podemos entrar. Os portes esto presos com uma corrente. Mas olhe, l embaixo, onde a gua brilha, olhe.
    -        H algum l, no esto vendo? Meu Deus, h um homem cado no
cho. Est sangrando. Est morrendo. Tem cortes nos pulsos, mas as mos no foram decepadas. Est morrendo?
    Onde esto Mariana e Lucrcia? Correram de novo para os tetos abobadados do templo de mrmore onde os danarinos gregos fazem seus alegres e graciosos crculos 
nos murais?
    Estou vulnervel.
    O mau cheiro  insuportvel. O homem est morto! Oh, Deus! Sei que est. No, ele se mexeu, levanta uma das mos, o sangue gotejando do punho. Meu Deus, ajude-o!
    Mariana ri o mais brando e doce dos risos e suas mos se sacodem no ar quando ela fala.
    - Meu Deus, voc no est vendo ningum morrer. Ele s est deitado na gua suja...
    -... a passagem secreta que usvamos para ir daqui at o palcio e... 
    - No, escutem, senhoras, ele est ali. Ele precisa de ns. - Agarrei os portes. - Temos de chegar at aquele homem! - Os portes que barram nosso caminho so 
como tudo aqui... imensos. So de ferro macio, vo do cho at o teto e esto cheios de correntes e fechaduras.
    "Acorde! No quero ver isso!"
    Uma torrente de msica mergulhou no silncio!
    Sentei em minha cama.
    -        Como se atreve?
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
  
  6
  
  
 Sentei na cama. Ele estava sentado a meu lado, as pernas to compridas que, mesmo naquela cama alta de quatro colunas, podia ficar com os ps no cho e cruzar as 
pernas  maneira masculina. Tinha os olhos fixos em mim e o violino estava molhado. Ele tambm estava molhado, com o cabelo ensopado.
    - Como se atreve? - repeti. Recuei e levantei os joelhos. Tentei pegar as cobertas, mas o peso dele as prendia.
    - Entra em minha casa, em meu quarto! Entra neste quarto e me diz o que vou ou no vou sonhar!
    Ele ficou surpreso demais para responder. Ergueu o queixo. A gua pingava do cabelo. E o violino, pelo amor de Deus, ser que no tinha a menor preocupao com 
o violino?
    - Calada! - disse ele.
    - Calada? - gritei em seu rosto. - Vou acordar a cidade inteira! Este quarto  meu! E quem  voc para me dizer o que sonhar? Voc... o que voc quer?
    Ficou espantado demais para encontrar palavras. Pude sentir-lhe a hesitao, a consternao. Virou a cabea para o lado e tive a chance de observ-lo mais de 
perto, ver as faces esqulidas, a pele macia, os ns enormes dos dedos e o formato delicado do nariz comprido. Mesmo sujo e pingando gua, ele era, sob qualquer 
ponto de vista, muito bonito de se ver. Vinte e cinco. Foi essa a idade que calculei, mas ningum podia dizer com certeza. Um homem de 40, se tomasse os comprimidos 
certos, corresse os quilmetros certos e visitasse o cirurgio plstico certo, podia ter aquela aparncia jovem.
    Virou bruscamente a cabea para me encarar!
    -        Gosta mesmo de trastes como esse onde estou sentado? - A voz era forte e profunda, a voz de um homem jovem. Se vozes que falam tivessem nomes, ele seria 
um poderoso tenor.
    - Trastes como esse? - exclamei. Olhei-o de cima a baixo. Era um belo homem, magro ou no. Isso no importava.
    - Saia da minha casa! - falei. - Saia de meu quarto e saia agora da minha casa! Vai ter de esperar que eu o convide para uma visita.V! No sabe como me deixou 
furiosa essa sua coragem de vir aqui sem minha autorizao. E entrar em meu quarto!
    Algum bateu com fora na porta. Era a voz de Althea, tomada pelo pnico.
    -        Miss Triana! No consigo abrir a porta! Miss Triana!
    Ele fitou a porta atrs de mim, depois voltou a me olhar e sacudiu a cabea, resmungando alguma coisa. Ento passou a mo direita pelo cabelo viscoso. Quando 
abriu de todo os olhos, vi que eram grandes, enquanto a boca... essa era a parte mais bonita. Nenhum desses detalhes, porm, esfriou minha raiva.
    -        No consigo abrir a porta! - Althea gritava.
    Gritei para ela ouvir. Estava tudo bem. Que fosse embora. Precisava ficar um pouco sozinha. Era o amigo msico. Estava tudo bem. Devia ir agora. Ouvi seus protestos 
e, sob eles, os cochichos do sbio Lacomb, mas, graas  minha insistncia, tudo aquilo finalmente cessou e fiquei outra vez sozinha.
    O rangido das tbuas do assoalho denunciou a retirada dos dois.
    -        Ser que voc a pregou? - perguntei me virando para ele. Referia-me  porta,  claro, que nem Lacomb nem Althea conseguiram abrir.
    A fisionomia dele estava serena. Com o tipo de serenidade, talvez, que Deus e sua me tivessem concebido como a melhor possvel: jovem, sria, sem vaidade ou 
ironia. Os grandes olhos escuros moviam-se curiosos sobre mim, como se quisessem descobrir, nos detalhes mais insignificantes de minha aparncia, algum segredo crucial. 
Mas ele no julgava. A investigao parecia honesta.
    - No est com medo - ele sussurrou.
    - E claro que no. Por que haveria de estar? - Era uma bravata. Por um instante senti realmente medo; ou no, no era medo. Era aquilo! A adrenalina em minhas 
veias tinha se saciado; sentia uma exultao!
    Estava olhando para um fantasma! Um fantasma de verdade. Sabia disso. Sabia e nada me livraria de tal conhecimento. Sabia disso! Todas as vezes em que perambulei 
entre os mortos, tinha conversado com memrias, com despojos; tinha inventado suas respostas, como se fossem bonecos que eu levasse enfiados nos dedos.
    Mas ele era um fantasma.
    Ento veio um grande e natural alvio. "Sabia desde o incio", disse para mim mesma. Sorri. No havia modo de definir aquela convico. Disse para mim mesma 
que sabia, por fim, que havia mais vida para viver, que existia aquela coisa que no podamos mapear nem tirar do pensamento. A fantasia do Big Bang e o "Universo 
sem Deus" eram agora to substanciais quanto as histrias da "Ressurreio dos Mortos" ou os "Milagres".
    Sorri.
    - Achou que ficaria com medo? Era isso que queria? Apareceu quando meu marido estava morrendo l em cima e tocou o violino para me assustar? Ser que  o mais 
tolo de todos os fantasmas? Como uma coisa dessas ia me assustar? Por qu? Voc vive do medo...
    Fiz uma pausa. No foi apenas a vulnervel suavidade do rosto dele, o tremor sedutor de sua boca, o modo como as sobrancelhas se juntaram para franzir a testa 
(mas no para condenar ou proibir); foi outra coisa, algo analtico e crucial que me ocorrera. Aquela criatura tinha de viver de alguma coisa, e o que era?
    Percebi que a pergunta era um tanto fatal. Falhou uma batida em meu corao, o que sempre me assustava. Levei a mo  garganta como se o corao estivesse ali, 
onde ele sempre parece estar, fazendo suas danas na garganta em vez de no peito.
    - Vou entrar em seu quarto - ele murmurou - quando quiser. - A voz adquiriu um vigor masculino, jovem, seguro de si. - No h meio de voc me impedir. Acha que 
pelo fato de passar cada hora de viglia fazendo a Dana Macabra com toda sua tripulao assassinada... sim, sim, sei que acha que assassinou todos eles, sua me, 
seu pai, Lily, Karl; um culto do eu to estpido e monstruoso, que voc se julga a causa de todas essas mortes espetaculares, trs delas horrveis e prematuras... 
voc acha que por causa disso pode dar ordens a um fantasma? Um verdadeiro fantasma, um fantasma como eu?
    - Traga meu pai e minha me - repliquei. - Voc  um fantasma. V busc-los para mim. Tente convenc-los do outro lado da linha divisria. Traga minha pequena 
Lily. Se for mesmo esse grande fantasma que diz que , traga-os pelo menos numa forma espectral. Faa com que virem fantasmas, me devolva Karl livre de sofrimentos, 
s por um momento, um simples momento solitrio, sagrado. Deixe eu segurar Lily nos braos.
    Isto o ofendeu. Fiquei discretamente espantada, mas inflexvel.
    -        Momento sagrado - falou num tom mordaz.
    Sacudiu a cabea e tirou os olhos de mim. Como se tivesse ficado desconcertado, e principalmente chocado, pelos comentrios. Mas logo tornou a me olhar, com 
ar pensativo. E eu me vi presa pelas mos dele, pela delicadeza dos dedos, pelo rosto cavado, mas de perfeita juventude.
    - No posso lhe dar nada disso - disse com ar srio, ponderado. - Pensa que Deus me ouve? Acha que minhas preces so levadas em conta por santos e anjos?
    -E voc reza mesmo? Acha que acredito nisso? - perguntei. - O que est fazendo aqui? Por que est aqui? Por que veio? Pouco me importa que esteja sentado ao 
lado de minha cama, com esse jeito preguioso e arrogante. Quero saber por que, afinal, est aqui... debaixo dos meus olhos, ao alcance de meus ouvidos!
    - Porque eu quis vir! - respondeu num tom de mau humor, parecendo por um instante um tanto constrangedoramente juvenil e provocador. - Vou onde quero ir e fao 
o que quero fazer, como voc talvez j tenha percebido. Caminhei pelo corredor de seu hospital at que um bando de mortais idiotas fez tamanho barulho que fui obrigado 
a sair de l e esperar que voltasse para casa! Podia ter entrado em seu quarto, subido em sua cama.
    - Voc quer  estar em minha cama!
    - Eu estou! - declarou. Depois, apoiou-se na mo direita e inclinou-se para a frente. - Oh, no leve isso em conta. No sou um incubo! No conceber um monstro 
por minha causa. Quero algo muito mais essencial para sua vida do que simplesmente brincar entre suas pernas. Quero voc!
    Fiquei muda de espanto.
    Furiosa, sim, ainda furiosa, mas muda de espanto.
    Ele endireitou o corpo e baixou os olhos. Seus joelhos pareciam estar inteiramente  vontade na beira da cama to alta. Os ps tocavam realmente o cho. Os meus 
nunca conseguiriam. Sou uma mulher pequena.
    Deixou o cabelo preto e oleoso cair em tiras em volta do rosto branco. Quando olhou de novo para mim, tinha um ar zombeteiro.
    - Achei que isso seria muito mais fcil - disse.
    - Isso o qu?
    - Enlouquec-la. - Simulou um sorriso cruel. No foi convincente. - Achei que j estava louca. Achei que seria no mximo... uma questo de dias.
    - Por que diabo ia querer me enlouquecer? - perguntei.
    - Gosto de fazer essas coisas - respondeu. A tristeza lampejou sobre ele, carregou suas sobrancelhas antes que pudesse repeli-la. - Achei que estivesse louca. 
Voc  quase... o que algumas pessoas chamariam de uma louca.
    - E no entanto dolorosamente s - retruquei. - Esse  o problema.
    Eu estava fascinada ao extremo. No podia parar de estud-lo em todos os detalhes, o casaco velho, a poeira molhada que se transformara em lodo nos ombros, o 
modo como os grandes olhos sonhadores ora se aguavam, ora se abrandavam no ritmo de seus pensamentos, o modo como os lbios eram de vez em quando umedecidos pela 
lngua, como se ele fosse um ser humano.
    De repente um pensamento me ocorreu. Brotou estrondosamente claro.
    - O sonho! O sonho que tive do...
    - No fale nisso! - disse ele, curvando-se ameaadoramente em minha direo. Ficou to perto que o cabelo molhado caiu sobre o cobertor, bem junto de minhas 
mos.
    Empurrei-me contra a cabeceira da cama e depois, com toda a fora de minha mo direita, dei-lhe um tapa. Esbofeteei duas vezes, antes mesmo que ele pudesse entender 
o que estava acontecendo! Afastei as cobertas.
    Ele se levantou e recuou desajeitadamente, me olhando com um desprezvel ar de espanto.
    Estendi o brao. Ele no se esquivou. Fechei o punho e acertei-o em cheio no queixo. Ele recuou um ou dois passos, to preocupado quanto poderia ficar um homem 
humano com um soco to fraco.
    - O sonho veio de voc! - eu disse. - O lugar que eu vi, o homem com...
    - Estou lhe avisando, no! - ameaou com o dedo voando, apontando para meu rosto, o corpo recuando, empinando-se como um grande pssaro. - Silncio sobre isso. 
Ou trarei tamanha destruio para seu cantinho fsico do mundo que voc vai amaldioar o dia em que nasceu... - A voz se dissipou. - Acha que conhece o sofrimento, 
se orgulha tanto de seu sofrimento...
    Ergueu os olhos e afastou-os de mim. Depois puxou o violino para o peito, cruzando os braos em volta dele. Tinha dito alguma coisa que desagradou a ele prprio. 
Os olhos vasculhavam o quarto como se pudessem realmente ver.
    - E vejo mesmo! - exclamou com raiva.
    - Ah, eu quis dizer como um homem mortal, isso  tudo que eu quis dizer.
    - E isso  tudo que eu quero dizer, tambm - respondeu.
    A chuva diminua l fora, passava a ligeira, chuvisco, por isso a gua que caa das calhas e pingava dos telhados ganhava destaque. Parecamos estar num mundo 
molhado - molhado, mas quente e seguro, ele e eu.
    Eu sabia, to claramente como sabia que ele estava ali, que raramente estivera to viva em minha vida como naquele momento. A simples viso dele, sua simples 
presena me devolvera uma febre de viver como h dcadas eu no sentia. H muitos, muitos anos, antes de tantas derrotas, quando era jovem e estava apaixonada, talvez 
tenha tido aquela febre. Naqueles primeiros anos, cheios de energia, quando tudo era to luminoso e to bom de experimentar, conseguia superar meus fracassos e perdas. 
Talvez ento tivesse aquela febre.
    Na dor mais furiosa no havia esse tipo de vitalidade, que era mais semelhante  alegria,  dana,  pureza da fora penetrante e hipntica da msica.
    E ele continuava ali, parecendo perdido, de repente me olhando como se quisesse perguntar alguma coisa, depois afastando os olhos, franzindo as sobrancelhas 
pretas.
    - Diga o que est querendo - falei. - Voc disse que queria me enlouquecer. Por qu? Por que razo?
    - Bem, voc sabe - respondeu rapidamente, embora suas palavras fossem lentas -, estou confuso. - Falava com as sobrancelhas erguidas e um ar de franqueza; era 
um jeito indeciso, mas calmo. - J no sei mais o que quero! Enlouquecer voc? - Abanou os ombros. - Agora que sei como voc , como voc  forte, j no encontro 
as palavras certas. Talvez haja alguma coisa melhor a fazer aqui do que meramente faz-la perder a cabea, presumindo,  claro, que eu pudesse mesmo fazer isso. 
Sei que se sente superior a esse respeito, pois j segurou a mo de muita gente no leito de morte e viu Lev, seu antigo, seu jovem marido, viajar com as drogas acompanhado 
dos amigos dele enquanto voc meramente bebia goles do vinho. Tinha medo das drogas, tinha medo das vises! Vises como eu! Voc me assombra.
    - Viso? - murmurei.
    Passei a mo esquerda em volta da coluna da cama. Meu corpo tremia. O corao disparava. Todos esses sintomas de medo me faziam lembrar que havia de fato alguma 
coisa ali para temer. Mas afinal o que, em nome de Deus, podia ser pior que tudo que j acontecera? Medo do sobrenatural? Medo da luz trmula das velas e dos sorrisos 
dos santos? No, acho que no.
    A morte j basta para o medo. Fantasmas, o que so fantasmas?
    - Como enganou a morte? - perguntei.
    - Voc  debochada, cruel - murmurou. Falava acelerado, um jato de palavras. - Voc com esse vu de cabelo preto, esse rosto doce, esses olhos muito grandes. 
Parece angelical! - Era espontneo. Estava atormentado e curvou a cabea para mim. - No enganei nada nem ningum. - Olhou-me com desespero. - Voc quis que eu viesse, 
voc quis...
    - Acha mesmo? Quando me pegou pensando nos mortos? Foi isso que achou? E veio para qu? Consolar? Aumentar minha dor? O que foi?
    Ele sacudiu a cabea e recuou vrios passos. Quando olhou pela janela dos fundos, deixou a luz revelar o lado de seu rosto. Parecia terno.
    Virou-se para mim num acesso de raiva.
    - Muito bonita apesar da idade, apesar de gorducha, mesmo assim. Suas irms a detestam por causa desse rosto bonito, sabe disso, no ? Katrinka, a bela, de 
corpo bem-feito e belo marido, e antes dele uma fileira de amantes que no consegue contar. Acha que voc tem uma graa que ela nunca conseguiu merecer, nem produzir, 
nem imitar, nem se dizer possuidora. E Faye, Faye a amava, sim, Faye gostava muito de todo mundo, mas Faye tambm no podia perdoar a graa que voc tem.
    - O que sabe sobre Faye? - perguntei, incapaz de me conter. - Minha irm Faye ainda est viva? - Tentava parar, mas no conseguia. - Onde est Faye? E como sabe 
o que Katrinka pensa, o que voc sabe sobre Katrinka ou sobre algum de minha famlia?
    - Digo o que voc sabe - ele respondeu. - Vejo os corredores escuros de sua mente, conheo os pores onde voc mesma ainda no entrou. Vejo a, nessas sombras, 
que seu pai a adorava porque voc era parecida com sua me. O mesmo cabelo castanho, olhos castanhos. Vejo que uma noite Katrinka foi animadamente para a cama com 
Lev, seu jovem marido.
    - Pare com isso! Aonde quer chegar? Veio at aqui para ser meu demnio pessoal? Ser que mereo uma coisa dessas? E o interessante  que ao mesmo tempo diz que 
no devo me julgar responsvel por todas essas mortes! Como vai me enlouquecer, eu gostaria de saber! Como? Nem voc mesmo sabe muito bem o que quer. Olhe-se no 
espelho. Est tremendo. E quem  o fantasma  voc. Quem era quando estava vivo? Um homem jovem? Talvez de bom temperamento e agora todo desorientado...
    - Pare - ele implorou. - Sei o que tem em mente.
    - E o que ?
    - Est querendo me dizer que pode me ver claramente, assim como eu a vejo - respondeu num tom frio. - Que a memria e o medo no vo fazer voc vacilar. Eu estava 
completamente errado a seu respeito. Voc parecia uma criana, uma eterna rf, voc parecia to...
    - Diga logo. Eu parecia to fraca? - perguntei.
    - Voc  amarga.
    - Talvez - repliquei. - Embora no goste da palavra. Por que voc quer que eu sinta dor ou medo? Para qu? Por qu? O que o sonho significava? Onde ficava aquele 
mar?
    Seu rosto ficou lvido com o choque. Ergueu as sobrancelhas e tentou falar outra vez, mas mudou de idia ou no conseguiu achar as palavras.
    -        Voc podia ser bonita - falou suavemente. - Quase foi. Por isso passou a comer sucata alimentar, a tomar cerveja, a deixar as formas que Deus lhe deu 
irem para o lixo? Foi magra quando criana, magra como Katrinka e Faye, magra por natureza. Mas voc se cobriu de um corpo imenso, no foi? Para se esconder de quem? 
Como pde dar de bandeja seu prprio marido, Lev, a mulheres mais mocas e mais divertidas? Jogou-o na cama com Katrinka.
    No respondi.
    Senti uma energia tomando flego dentro de mim. Mesmo ao estremecer, senti aquela energia, aquele incitamento. J se passara muito tempo desde a ltima vez que 
fora tocada por uma emoo como aquela, mas agora, vendo o espanto nos olhos dele, eu a estava sentindo.
    - Talvez voc ainda tenha um resto de beleza - murmurou, sorrindo, como se pretendesse, de forma plenamente consciente, me atormentar. - Mas ser que no vai 
ficar to volumosa e disforme como sua irm Rosalind?
    - Se conhece Rosalind e  incapaz de ver sua beleza, no vou perder tempo com voc. E quanto a Faye, ela  um abuso de beleza, algo que est alm de sua compreenso.
    Ele suspirou. Sorriu de modo zombeteiro. Olhava obstinadamente para mim.
    - No pode reconhecer a fora de algum to puro como Faye em
minha memria. Mas ela est l. Faye era jovem o bastante para danar e
danar, por mais completa que fosse a escurido. Quanto a Katrinka, eu sou solidria. Katrinka sabia das coisas. E amo Rosalind de todo o corao. O que acha disso?
    Olhou-me como se procurasse ler meus pensamentos mais profundos. No disse nada.
    - Onde isso vai nos levar? - perguntei.
    - No fundo uma garotinha - retrucou. - Perversa, cruel como as garotinhas podem ser. S amarga at agora, precisando de mim, mas negando isso. Sabe que enxotou 
sua irm Faye, no ?
    - Pare.
    - Foi... quando se casou com Karl. Fez com que fosse embora. No foram aquelas pginas dolorosas que ela leu nos dirios do pai depois que ele morreu. Voc tinha 
introduzido um novo senhor na casa que compartilhava com ela.
     - Pare.
    - Por qu?
    - Por que estamos falando nisso agora? O que voc tem a ver com isso? Voc est pingando da chuva. Mas no est com frio. Tambm no est com calor, no ? Parece 
um roqueiro adolescente, daqueles que vo atrs de bandas famosas com uma guitarra na mo, implorando para conseguir um lugar nas entradas das salas de concerto. 
Onde conseguiu aquela msica, aquela incrvel msica de partir o corao...?
    Ele estava furioso.
    -        Lngua de cobra - resmungou. - Sou mais velho do que pode imaginar. Sou mais antigo em minha dor. Sou mais especial. Antes de morrer aprendi a tocar 
este instrumento com perfeio. Nem com todas as suas recordaes, sonhos e fantasias voc poderia compreender o talento para o violino que eu possua em meu corpo 
vivo. Estava dormindo quando sua Lily, sua filhinha, morreu; est lembrada disso, no ? No fundo, voc foi ao hospital de Paio Alto para dormir e...
    Tapei os ouvidos! O cheiro, a luz, todo o quarto de hospital de 20 anos atrs me cercou. Eu disse: No!
    - Voc adora essas acusaes! - falei. O corao batia com muita fora, mas a voz estava sob meu comando. - Por qu? O que significo para voc e voc para mim?
    - Ah, mas pensei que voc gostasse.
    - Do qu? De dar explicaes?
    - Pensei que voc adorasse as acusaes. Pensei que era assim que voc se acusava, e exultava com isso, misturando as acusaes com medo, aviltamento, calafrios, 
indolncia. Achei que nunca ficava sozinha, jamais. Estava sempre segurando as mos de algum morto querido, cantando mentalmente seus poemas de penitncia, mantendo 
os mortos por perto, alimentando a recordao deles para no enfrentar a verdade: voc nunca tocar a msica, a msica que voc adora. A emoo que ela arranca de 
sua alma nunca vai encontrar satisfao plena.
    No consegui responder.
    Encorajado, ele continuou.
    - Voc se saciou de tal forma de acusaes, para usar suas prprias palavras, se nutriu a tal ponto de culpa que achei que no seria nada demais faz-la perder 
o juzo, fazer isso para que voc... - Parou. Fez mais do que parar. Ele se conteve e se aprumou.
    - Vou embora - disse. - Mas virei quando tiver vontade, pode ter certeza.
    - No tem esse direito. Quem quer que o tenha mandado, que o leve de volta. - Fiz o sinal-da-cruz.
    Ele sorriu.
    -        Essa pequena prece lhe fez algum bem? Est lembrada daquela missa miservel no funeral de sua filha, na Califrnia? Como tudo estava complicado, deslocado, 
todos aqueles amigos, brilhantes intelectuais da Costa Oeste forados a assistir a uma coisa to francamente estpida quanto um verdadeiro funeral numa verdadeira 
igreja, est lembrada? E o padre aborrecido, apressado, sabendo que voc nunca tinha pisado na igreja antes de ela morrer. E agora faz o sinal-da-cruz. Por que no 
toco um hino para voc? O violino pode tocar melodias de canto gregoriano. No  comum, mas posso encontrar o Veni Creator em sua mente e toc-lo. Podemos rezar 
juntos.
    -        Se costuma rezar - repliquei -, isso no tem lhe trazido qualquer benefcio. - Tentei colocar a voz de maneira decidida, mas suave, para deixar claro 
o que eu dissera: - Ningum o mandou. Voc vaga.
    Ele estava perplexo.
    - Tire o inferno de meu quarto!
    - Mas no  isso que voc quer - retrucou com uma encolhida de ombro -, e no me venha dizer que seu pulso no est palpitando como um relgio com corda demais. 
Voc est no xtase infatigvel de ficar comigo! Karl, Lev... seu pai. Em mim, encontrou um homem como nunca tinha visto. E no sou sequer um homem.
    -  arrogante, rude e sujo - respondi. - E no  um homem.  um fantasma, o fantasma de algum jovem, mas moralmente tosco e torpe!
    Isso o machucou. Seu rosto mostrou um talhe bem mais fundo que o da simples vaidade ferida.
    - Sim - disse ele, lutando para se controlar -, e voc me ama, pela msica, a despeito de tudo.
      -Pode ser verdade - respondi secamente, balanando a cabea. - Mas me levo tambm na mais alta conta. Como voc mesmo disse, calculou mal. Fui casada duas 
vezes, me uma vez, talvez uma rf. Mas fraca, no. E amarga? Nunca. Eu no tinha a compreenso que a amargura requer...
    - Que compreenso?
    - Uma espcie de reivindicao de direitos, achando que as coisas deviam ter sido melhores. Mas  a vida,  s isso, e voc se alimenta de mim porque estou viva. 
Mas no to roda pela culpa para que entre aqui e me faa perder o juzo. No, de maneira alguma. Acho que no entende plenamente a culpa.
    - No? - Tinha um ar de sinceridade. 
    - O terror selvagem - falei -, o "mea culpa, mea culpa"  apenas o primeiro estgio. Depois vem uma coisa mais dura, uma coisa que pode conviver com erros e 
limitaes. A fase de remorso no  nada, absolutamente nada...
    Agora era eu quem deixava as palavras se dissiparem porque minhas memrias mais recentes voltavam a me entristecer. Minha me se afastando naquele ltimo dia, 
Oh, me, deixe-me peg-la nos braos. O cemitrio no dia do sepultamento. O cemitrio de So Jos, todos aqueles pequenos tmulos, tmulos dos pobres irlandeses 
e dos pobres alemes, e as flores amontoadas. Eu olhava para o cu e pensava como aquilo nunca, nunca se altera; aquela agonia jamais ia acabar; jamais haveria novamente 
qualquer luz neste mundo.
    Livrei-me disso. Levantei os olhos!
    Ele me estudava, mas ele prprio parecia estar quase sofrendo. O que me estimulou.
    Voltei  questo, procurando arduamente por ela, colocando de lado qualquer outra coisa, a no ser o que era preciso conceber e transmitir.
    - Acho que agora eu entendo - disse eu, sentindo-me pacificada por um grandioso alvio, uma sensao de amor. - E voc no,  uma pena. Voc no.
    Abri ao extremo minhas defesas. S me preocupei com o que estava tentando esquadrinhar, no em agradar ou desagradar algum. S queria, naquele instante, estabelecer 
um verdadeiro dilogo com ele. E ele ia querer saber; ele podia e certamente iria entender. Bastava que estivesse disposto a admitir.
    -        Por favor me ilumine - ouvi-o dizer num tom zombeteiro.
    Uma terrvel dor deslizou sobre mim; era grande e completa demais para ser aguda. Tomou conta de mim. Ergui os olhos e encarei-o com ar de splica. E entreabri 
os lbios, prestes a falar, prestes a fazer confidencias, prestes a tentar descobrir em voz alta, a seu lado, o que era aquilo, aquela dor, aquele senso de responsabilidade, 
aquela conscincia de que a pessoa realmente provocou sofrimento e destruio desnecessrios e que o fato no pode ser anulado, no, no ser nunca desfeito; so 
momentos para sempre perdidos, sem registro, sero lembrados de modo cada vez mais distorcido e doloroso. H, no entanto, algo muito mais delicado, mais significativo, 
algo simultaneamente devastador e complicado que ambos conhecemos, ele e eu...
    Desapareceu.
    Desapareceu da forma mais bvia e completa. Com um sorriso, deixando-me com as emoes  flor da pele. Foi astucioso. Queria me deixar sozinha naquele momento 
de dor e, pior ainda, sozinha com a terrvel, apavorante necessidade de compartilh-lo!
    Dei um momento s sombras. O leve balano das rvores do lado de fora. A chuva ocasional.
    Ele se fora.
    -        Conheo seu jogo - falei em voz baixa. - Conheo muito bem.
    Fui para a cama, pus a mo sob o travesseiro e peguei o rosrio. Era um rosrio de cristal com uma cruz em prata de lei. Estava na cama porque a me de Karl 
sempre dormira naquela cama quando vinha nos visitar, assim como minha querida madrinha, tia Bridget, quando pernoitava conosco aps meu casamento com Karl. Ou talvez 
o rosrio estivesse na cama porque fosse realmente meu. Eu o teria colocado distraidamente ali. Meu. Da primeira comunho.
    Baixei os olhos para apreci-lo. Depois da morte de minha me, eu e Rosalind tivemos uma briga terrvel.
    Foi por causa do rosrio de nossa me e literalmente despedaamos os elos e as prolas falsas. Era uma coisa barata, mas fora eu quem o montara para a me e 
achei que devia ficar com ele; eu, a pessoa que fizera o rosrio. Depois que o destroamos, Rosalind veio atrs de mim e bati a porta com tanta fora no rosto dela 
que os culos fizeram-lhe um corte profundo na testa. Toda aquela raiva. Sangue no cho outra vez.
    Sangue outra vez, como se a me ainda estivesse viva, embriagada, caindo da cama, batendo com a testa no aquecedor a gs como aconteceu duas vezes, sangrando, 
sangrando. Sangue no cho. Oh, Rosalind, minha triste, raivosa irm Rosalind! O rosrio partido no cho.
    Olhei para aquele rosrio. Fiz a coisa infantil e irrefletida que me veio  mente. Beijei o crucifixo, o corpo minsculo, minucioso do Cristo angustiado, e empurrei 
de novo o rosrio para baixo do travesseiro.
    Estava febrilmente alerta. Como que preparada para a batalha. Foi como aquela bebedeira precoce, a primeira, em que a cerveja subiu divinamente para minha cabea 
e corri pela rua com os braos estendidos, cantando.
    Os poros de minha pele vibraram e a porta se abriu sem absolutamente qualquer esforo.
    Os objetos de decorao do hall e da sala de jantar pareciam novos em folha. As coisas brilham para quem est a um passo da batalha?
    Althea e Lacomb estavam parados no fundo da sala de jantar, na entrada da copa, esperando por mim e sem saber o que fazer. Althea parecia realmente assustada 
e Lacomb, como sempre, ao mesmo tempo cnico e curioso.
    -        Achei que a qualquer momento ia ouvir a senhora gritar - disse
Lacomb.
    -        No precisava da ajuda de ningum. Mas sabia que estavam a.
    Olhei de relance para as manchas midas na cama, para a gua no cho. Era pouca coisa e no valia a pena incomod-los por isso, pensei.
    - Acho que vou andar na chuva. H anos e anos que no caminho na chuva.
    - Est falando em sair agora  noite, na chuva? - Lacomb perguntou, aproximando-se.
    - Voc no precisa ir - respondi. - Onde est minha capa? Althea, est frio l fora?
    Sa de casa e comecei a subir a avenida St. Charles.
    A chuva agora era apenas ligeira e bonita de se ver. H anos no fazia aquilo, andar pela minha avenida, s andar, como fizemos tantas vezes, quando crianas 
ou adolescentes, subindo na direo da drugstore K&B para comprar uma casquinha de sorvete. S uma desculpa para passar por belas casas com portas de vidro e para 
conversar enquanto caminhvamos.
    Andava e andava, na direo da parte alta da cidade, passando por casas que eu conhecia e por terrenos baldios, cheios de mato, onde antigamente havia casares. 
Estavam sempre tentando acabar com aquela rua, atravs do progresso ou do abandono, e como ela parecia estar sempre perigosamente equilibrada entre os dois! Cada 
novo homicdio, cada novo tiro, cada nova casa incendiada pareciam ir definindo irremediavelmente seu destino.
    Casa incendiada. Tremi. Casa incendiada. Quando eu tinha cinco anos, uma casa pegou fogo. Era uma velha casa vitoriana, sombria, que brotava como um pesadelo 
na esquina da St. Charles com a Philip. Lembro que meu pai me carregou nos braos "para ver o fogo" e que fiquei histrica olhando as chamas. Por cima da multido 
e dos carros dos bombeiros havia uma labareda to grande que parecia engolir a noite.
    Livrei-me daquilo, daquele medo.
    Vaga lembrana de pessoas banhando minha cabea, procurando me acalmar. Rosalind achou o incndio uma coisa tremendamente empolgante. Para mim foi uma descoberta 
de tal magnitude que mesmo saber da mortalidade no foi pior.
    Uma sensao agradvel roou em mim. Aquele velho e horrvel medo (esta casa tambm pegar fogo), como muitos outros medos semelhantes, se fora com os anos de 
infncia. Veja as grandes baratas negras, cascudas, que costumavam correr por essas caladas: eu recuava aterrorizada. Agora esse medo tambm quase se fora, assim 
como as baratas, nessa poca de sacos plsticos e apartamentos frios como gelo.
    Ocorreu-me de repente o que ele dissera. Sobre Lev, meu jovem marido, e sobre Katrinka, minha irm ainda mais jovem. Dissera que ele, o marido que eu amava, 
e ela, a irm que eu amava, estiveram na mesma cama. Sempre me culpei por isso ter acontecido. Maconha hippie e vinho barato, conversa sofisticada demais para mim. 
Minha culpa, minha culpa. Fora uma esposa covardemente fiel, profundamente apaixonada. Katrinka era a ousada.
    O que ele, meu fantasma, dissera? Mea culpa. Ou fui eu que disse?
    Lev me amava. Eu ainda o amava. Mas me sentia to feia, deslocada, e ela, Katrinka, era to animada, e os tempos to exuberantes, com msica indiana e liberao.
    Meu Deus, seria real aquela criatura? Aquele homem com quem eu acabara de falar, aquele violinista que tambm outras pessoas viram? Agora ele no estava em nenhum 
lugar por perto.
    Do outro lado da avenida, me acompanhando enquanto eu caminhava, o carro enorme estava  minha disposio, mantendo a marcha. Pude ver Lacomb resmungando quando 
colocou a cabea pela janela de trs para soprar na brisa a fumaa do cigarro.
    Tive vontade de saber o que Oscar, o novo motorista, estaria pensando. Eu me perguntava se Lacomb ia querer dirigir o carro. Lacomb no faz o que no gosta.
    Aquilo me fazia rir, os dois, meus guardies, no grande e rastejante carro preto de Wolfstan, mas tambm me dava a liberdade de ir to longe quanto quisesse.
    Era bom ser rica, pensei com um sorriso. Karl, Karl.
    Senti como se estivesse estendendo os braos para a nica coisa que podia me impedir de cair, e ento parei, "ausentando-me um pouco daquela rida felicidade", 
para pensar em Karl, s em Karl, to recentemente metido num forno.
    "Voc sabe, no  absolutamente certo que eu desenvolva os sintomas." A voz de Karl, to protetora. "Quando me notificaram na hora da transfuso, bem, a coisa 
j tinha quatro anos e at hoje so mais dois..."
    Oh, sim, e com meus amorosos cuidados voc viver para todo o sempre! Faria msica sobre isso se eu fosse Handel, Mozart ou algum que pudesse compor... ou tocar.
    "O livro...", eu dissera, "o livro  maravilhoso. So Sebastio, todo cravado de flechas, um santo enigmtico."
    "Acha mesmo? Sabe alguma coisa sobre ele?" Como Karl ficou deliciado quando contei as histrias dos santos.
    "Nosso catolicismo", eu explicara, "era muito rgido, muito voltado para os rituais, estava submetido a muitas regras naqueles primeiros tempos. ramos to ortodoxos 
quanto os hassidim."
    Cinzas, este homem! Cinzas! E seria um livro para a mesinha na frente do sof, para o presente de Natal. Uma preciosidade nas bibliotecas, que os estudantes 
de arte acabariam destruindo ao cortar as ilustraes. Mas faramos com que vivesse para sempre. So Sebastio, de Karl Wolfstan.
    Mergulhei na tristeza. Mergulhei na sensao do pequeno alcance da vida de Karl, uma vida pura e digna, mas no uma grande vida, no uma existncia repleta de 
ddivas como eu, por exemplo, imaginava quando tentava com tanto empenho aprender violino, como tambm Lev, meu primeiro marido, imaginava quando ainda tentava se 
manter com cada poema que escrevia.
    Parei. Prestei ateno.
    Ele, o violinista, no estava por perto.
    No ouvi nenhuma msica. Olhei para trs, depois para a rua que subia  minha frente. Via os carros passarem. Nada de msica. Nem o menor e mais fraco som de 
msica.
    Voltei conscientemente o pensamento para ele, meu violinista, detalhe por detalhe. Com aquele nariz comprido e estreito, com olhos to encravados nas rbitas, 
talvez outra pessoa o achasse menos sedutor - talvez. Mas talvez no houvesse outra pessoa. E como sua boca era bem desenhada, e como os olhos pequenos, as plpebras 
fundas, delicadas, ao se abrirem num olhar arregalado ou baixarem em astucioso mistrio, davam intensidade  sua expresso!
    Velhas memrias me ameaavam repetidas vezes; os mais torturantes, excruciantes fragmentos de memria corriam em minha direo - o pai, transtornado e morrendo, 
arrancando o tubo plstico do nariz e empurrando a enfermeira... Todas essas imagens chegavam como que trazidas pelo vento. Sacudi a cabea. Olhei em volta. Ento 
todos os fios do presente quiseram me enredar.
    Recusei.
    Pensei de novo, muito especificamente nele, o fantasma, fazendo reviver em minha imaginao o perfil alto, esguio, o violino que segurava. Minha mente pouco 
musical fez o melhor que pde para recordar as melodias que ele havia tocado. Um fantasma, um fantasma, voc viu um fantasma, pensei.
    Andei e andei, embora meus sapatos tivessem ficado primeiro midos, depois encharcados. A chuva veio grossa outra vez, o carro se aproximou, mandei-o embora. 
Andei. Andei. Porque sabia que, enquanto andasse, nem sonho nem memria poderiam realmente tomar conta de mim.
    Pensei muito nele. Lembrei o que pude. Que usava mais facilmente roupas formais e comuns, dessas que se compram em lojas de roupas baratas, roupas descontradas 
ou na moda. Que era muito alto, com pelo menos l,85m - calculei ao lembrar como tinha de erguer os olhos para conversar com ele, embora isso no me fizesse sentir 
como an nem me deixasse de modo algum intimidada.
    J devia passar da meia-noite quando finalmente cheguei em casa. Ao pisar na escada da frente, ouvi atrs de mim o carro deslizar para o meio-fio.
    Althea trazia uma toalha nas mos.
    - Entre, minha menina - disse ela.
    - Devia ter ido dormir - respondi. - Viu o violinista? Aquele meu amigo msico com o violino?
    - No, madame - ela falou, enxugando-me o cabelo. - Acho que a senhora deu uma corrida nele para sempre. S Deus sabe como eu e Lacomb estvamos prontos para 
derrubar aquela porta, mas a senhora fez o que tinha de fazer. Ele foi embora!
    Tirei a capa e entreguei a ela; depois subi a escada.
    A cama de Karl. Nosso quarto l em cima, sempre iluminado (por meio de rendas e rendas e rendas) pela luz vermelha da floricultura do outro lado da rua.
    Colcho e travesseiros novos,  claro. Nenhum ltimo fragmento de cabelo a descobrir, nenhuma marca de meu marido. A no ser a delicada armao de madeira em 
que fizemos amor, a cama que ele comprou naqueles dias felizes, quando comprar coisas para mim fora um prazer imenso. Por qu, por qu, eu perguntara, aquilo era 
to divertido? Ficara envergonhada ao perceber como o fino mvel com entalhes em madeira e forros de timo tecido na cabeceira me deixara feliz.
    Vi com nitidez em minha mente o fantasma violinista, embora ele no estivesse ali. Estava to sozinha naquele quarto quanto qualquer outra pessoa poderia estar.
    - No, voc no foi embora - sussurrei. - Sei que no foi.
    Mas por que no teria ido? Que obrigao tinha ele para comigo, um fantasma que eu xingara, que amaldioara? E meu ltimo e falecido marido queimado h apenas 
trs dias. Ou seriam quatro?
    Comecei a chorar. Nenhum doce cheiro do cabelo ou da gua-de-colnia de Karl sobrara no quarto. Nenhum cheiro de tinta e papel. Nenhum cheiro do Balkan Sobranie, 
o tabaco de que ele no abria mo, aquele que meu primeiro marido, Lev, sempre lhe mandava de Boston. Lev. Telefone para Lev. Fale com Lev.
    Mas por qu? De que pea teatral vinha aquilo, aquela linha obcecante com Lev?
    "Mas isso foi em outro pas; e alm disso, a meretriz est morta."
    Uma linha de Marlowe, que inspirou Hemingway, James Baldwin e quem sabe quantos outros...
    Comecei a sussurrar para mim mesma um verso de Hamlet: "... a terra desconhecida, de cujo limite nenhum viajante retorna."
    Houve um singelo movimento no quarto, de incio no mais que a agitao das cortinas, depois aqueles rangidos e estalos no assoalho, que podem resultar pura 
e simplesmente do movimento da brisa contra as janelas no telhado deste sto.
    Ento veio o silncio. Chegou bruscamente, como se tivesse apenas esbarrado de modo teatral por ali. E o vazio, a solido daquele momento foram insuportveis. 
    Todas as certezas racionais que eu j tivera tinham se dissipado. Estava sozinha. Estava sozinha. Era pior que a culpa, a mgoa e talvez fosse o que... no, 
eu no podia pensar.
    Deitada na nova colcha de cetim branco, busquei uma completa escurido de corpo e alma. Expulsando todos os pensamentos. Que a noite fosse, uma vez pelo menos, 
o teto l em cima e, alm dele, um cu puro e tranqilo, com estrelas inexpressivas, meramente fora de alcance. Mas foi to impossvel deter a mente quanto a prpria 
respirao.
    Estava aterrada pelo fato de meu fantasma ter ido embora. Eu o enxotara! Chorei, fungando e limpando o nariz. Achava apavorante que nunca mais pudesse encontr-lo 
(nunca, nunca, nunca mais), que ele tivesse ido embora to irremediavelmente como vo os vivos, que eu tivesse lanado no vento um tesouro to assombroso!
    Oh, Deus, no, no assim, no, deixe-o voltar. Compreendo, sempre compreendi que tenha ficado com os outros para guard-los para todo o sempre, mas ele  apenas 
um fantasma, meu Deus. Deixe-o voltar para mim...
    Senti que afundava para alm do nvel das lgrimas e dos sonhos. E ento... o que posso dizer? O que sabemos quando sabemos e nada sentimos? Se ao menos acordssemos 
desses estados de esquecimento com um certo senso de que no existe absolutamente qualquer mistrio na vida, que a crueldade  puramente impessoal, mas no  assim.
    Por algumas horas, isso no haveria de me preocupar.
    Adormeci.
     tudo que sei. Adormeci, afastando-me o mais que podia de todos os medos e perdas, agarrada a uma prece desesperada. "Deixe-o voltar, meu Deus."
    Ah, a blasfmia disso.
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
  
  7
  
  
 No dia seguinte, a casa estava cheia. Todas as portas foram abertas, para que duas salas de visitas da frente, flanqueando o amplo vestbulo, fossem vistas claramente 
da comprida sala de jantar e as pessoas pudessem circular  vontade sobre os diferentes tapetes, conversando num tom animado, como fazem as pessoas de Nova Orleans 
aps uma morte, como se fosse isso que a pessoa morta quisesse.
    Uma pequena nuvem de silncio me cercava. Todos achavam que eu estava mentalmente sobrecarregada, digamos assim, tendo passado dois dias com um corpo morto, 
fora o fato de escapulir do hospital sem uma palavra, fato pelo qual Rosalind era reiteradamente censurada por Katrinka, como se ela tivesse selado minha sentena 
de morte, embora nada pudesse estar mais longe da verdade.
    Com aquele tom sonolento e grave, Rosalind no parava de perguntar se eu estava bem, ao que eu no parava de responder que sim. Katrinka conversava com o marido, 
explicitamente a meu respeito. Glenn, o cunhado querido, marido de Rosalind, parecia um objeto quebrado, profundamente ferido por minha perda, mas incapaz de fazer 
qualquer coisa a no ser ficar, de preferncia, perto de mim. Num devaneio, pensei no quanto gostava dos dois, Rosalind e Glenn, sem filhos, proprietrios da Rosalind's 
Livros e Discos, onde se podia encontrar Edgar Rice Burroughs em brochura ou uma cano, num disco de 78 rotaes, gravada por Nelson Eddy.
    A casa estava quente e brilhante, como s esta casa sabia brilhar, com seus inmeros espelhos, janelas e vista em todas as direes. Era o que havia de realmente 
genial no chal: parada na sala de jantar, como eu estava, era possvel olhar, atravs das portas e janelas abertas, para os quatro cantos do terreno, embora eles 
estivessem parcialmente obstrudos pelas rvores e pela tarde tempestuosa. Era fascinante ter feito uma casa to arejada.
    Fora preparado um grande jantar. Veio um buf, cujos fornecedores eu conhecia. Veio uma mulher famosa por sua torta de chocolate. E l estava Lacomb, as mos 
atrs das costas, olhando com ar zombeteiro para o garom negro, de terno, que servia as bebidas. Lacomb, no entanto, faria amizade com ele. Lacomb fazia amizade 
com todo mundo, pelo menos com todos que conseguiam entender o que ele dizia. A certa altura, se aproximou to silenciosamente de mim que fiquei assustada.
    - Deseja alguma coisa, patroa?
    - No - respondi, lanando-lhe um breve sorriso. - No fique embriagado cedo demais.
    - A senhora j no tem mais graa, patroa - retrucou, escapulindo com seu sorriso tpico e manhoso.
    Reunimo-nos ao redor da comprida e estreita mesa oval.
    Rosalind, Glenn, assim como Katrinka, suas duas filhas, o marido e muitos de nossos primos comeram com vontade, carregando os pratos de um lado para o outro, 
pois havia muito, muito mais gente que cadeiras. Meu pessoal misturou-se facilmente com a gregria famlia Wolfstan.
    Karl tinha implorado que os parentes no o visitassem durante os meses finais. Sabia que estava doente quando nos casamos e j ento quis manter uma certa reserva. 
E agora que a me voltara para a Inglaterra, que tudo estava resolvido e arranjado, os Wolfstan (eram todos simpticos, de rosto um tanto vermelho e ntida descendncia 
alem) pareciam um pouco espantados com as coisas, como quando a pessoa acorda de um sono profundo e experimenta uma surpresa de tipo atordoante. Apesar de tudo, 
sentiam-se em casa no meio dos belos mveis que Karl comprara para mim: as cadeiras de p curvo, as mesas marchetadas de madreprola, as cmodas e escrivaninhas 
com entalhes feitos de metal e casco de tartaruga, os autnticos tapetes Aubusson, j gastos pelo tempo, to finos sob nossos ps que s vezes pareciam feitos de 
papel.
    Tudo isso, todo aquele luxo, era o estilo Wolfstan.
    Todos tinham dinheiro. Sempre possuram casas na avenida St. Charles. Descendiam dos ricos alemes que emigraram para Nova Orleans antes da Guerra Civil e fizeram 
fortuna com fbricas de charutos e cerveja. Isso foi muito antes que as turbas maltrapilhas, tangidas pela Praga das Batatas, chegassem s nossas costas, aqueles 
irlandeses e alemes famintos que foram meus ancestrais. Essa famlia Wolfstan tinha quarteires inteiros em reas privilegiadas e possua os contratos de arrendamento 
de velhos armazns e pontos comerciais.
    Minha prima Sarah sentou-se com os olhos fixos no prato. Era a neta mais moa da prima Sally, em cujos braos minha me morreu. Sua imagem ainda no existia 
em minha mente. Na poca, Sarah nem era nascida. Os outros primos Becker, e os que tinham nomes irlandeses em minha famlia, pareciam um pouco constrangidos com 
aquele meticuloso esplendor.
    Achei a casa dramaticamente bela durante toda a tarde. Continuei me virando para ver o reflexo das pessoas ali reunidas no grande espelho da parede da sala de 
jantar, o espelho que ficava bem no eixo da porta da frente, abarcando assim, para todos os fins prticos, a totalidade da cerimnia.
    Era um velho espelho; minha me adorava aquele espelho. No conseguia parar de pensar nela e vrias vezes me ocorreu que fora a me, no Lily, a primeira pessoa 
que eu realmente ferira e desapontara. Tinha cometido um erro de clculo, um erro terrvel, o erro de uma sucesso no curso da vida.
    Mergulhei profundamente em pensamentos, sussurrando, s vezes, coisas totalmente absurdas para que as pessoas parassem de conversar comigo.
    No conseguia tirar aquilo da mente. A me saindo de casa naquela ltima tarde, contra sua vontade, levada por meu pai para a casa da madrinha e prima irlandesa. 
No queria ser humilhada. Mas passara semanas e semanas embriagada e no podamos ficar com ela, pelo menos naquele momento, pois Katrinka, uma criana de oito anos, 
tivera um apndice estrangulado e, embora na poca eu no soubesse disso, estava tecnicamente  beira da morte no hospital da Misericrdia.
    Katrinka no morreu,  claro. s vezes me pergunto se o fato de estar completamente ausente no momento da morte da me (que aconteceu durante o longo perodo 
em que Katrinka ficou internada) no foi suficiente para deix-la emocionalmente perturbada e eternamente indecisa acerca de tudo. Mas no conseguia pensar em Katrinka. 
As inseguranas de Katrinka s me preocupavam de uma forma superficial; algo que eu carregava no mximo como um colar pesado. Sabia o que ela estava cochichando 
pelos cantos das salas. Pouco me importava.
    Pensei na me, sendo levada por meu pai, pela trilha ao lado do jardim, para a Third Street. Implorava que ele no a obrigasse a ir para a casa das primas. No 
queria que a querida prima Sally a visse naquele estado. E eu nem sequer fora lhe dizer adeus, beij-la, dizer alguma coisa! Tinha 14 anos. Nem mesmo sabia por que 
estava subindo a trilha no momento em que o pai a levava embora. No podia encarar aquela lembrana de frente, cujo horror continuava me golpeando. Morrera com Sally, 
Patsy e Charlie, seus primos, e embora gostasse muito deles e eles gostassem dela, no tivera nenhum de ns a seu lado!
    Achei que ia parar de respirar.
    As pessoas vagavam pelo espao esparramado do chal. Cruzavam as portas abertas, saam nas varandas. Via aquelas pessoas que se reuniam, com atraso, em considerao 
a mim (pois era isso que eu achava que estava acontecendo) como uma coisa estimulante, fascinante. Cheguei a saborear o brilho das cmodas envernizadas, de pernas 
altas, e a beleza das cadeiras de veludo, de encosto alto, que Karl espalhara por toda parte.
    Karl tinha legado ao velho parquete uma superfcie extremamente polida, com camadas e camadas de sinteco. Em cima, o volume esmagador dos lustres Baccarat que 
meu pai se recusara a vender nos velhos tempos, mesmo quando "no tnhamos nada".
    A prataria de Karl fora trazida para a refeio. Nossa prataria, acho melhor dizer, pois eu era sua esposa e o padro que decorava as peas fora escolhido para 
me agradar. Chamava-se Amor Pacfico e fora executado pela primeira vez pela Reed & Barton, logo no incio do sculo. Uma antiga companhia. Um antigo padro. Desde 
que sara da preferncia das noivas em algum ponto de sua trajetria, mesmo as peas recentes eram finamente gravadas. Era indiferente comprar peas novas ou antigas. 
Karl tinha bas dessa prataria, pois passara a colecion-la.
    Era um dos poucos padres que retratavam uma imagem completa, no caso uma bela mulher nua em cada pea (no importava o tamanho) de prata de lei.
    Eu adorava aquela prataria. Possuamos mais peas do que tnhamos conseguido usar. Tive vontade, em memria de Karl, de dizer alguma coisa s pessoas sobre cada 
pea de que se serviam no centro da mesa, mas desisti da idia.
    S comi e bebi porque, quando se faz isso, no  preciso conversar tanto. Mas me importar realmente com a comida parecia uma monstruosa traio.
    Sentira nitidamente a mesma coisa aps a morte de minha filha Lily. Depois que a enterramos em Oakland, no cemitrio de Santa Maria, um lugar perdido e sem importncia, 
a meio mundo de quilmetros daqui, samos para comer com minha sogra e meu sogro, os pais de Lev. Quase tive uma congesto. Lembro distintamente: o vento comeara 
a soprar, as rvores a sacudir e eu no conseguia parar de pensar em Lily no caixo.
    Lev pareceu, ento, ser a pessoa forte. Bonito e corajoso Lev, rebelde-poeta-professor, o cabelo comprido, flutuando. Ele me mandara comer e ficar calma. Depois 
conduziu a conversa com os desolados avs e tambm com meu pai, deprimido, que disse pouca coisa ou nada.
    Katrinka gostava muito de Lily. Eu me lembrava disso! Como podia esquecer? Seria vergonhoso esquecer! E como Lily gostava da loura e bonita tia Katrinka!
    Com a morte de Lily, Katrinka sofrer o mximo que uma pessoa podia sofrer. Faye ficara alarmada como todo o desenrolar da doena e a morte de Lily, generosa 
e doce Faye. Mas Katrinka tinha estado l, o corao consciente de tudo que acontecia no quarto do hospital, nos corredores. Sempre  disposio. Eram os anos da 
Califrnia, postos em relevo pelo fato de que todos ns tnhamos finalmente voltado.
    Todos tnhamos deixado nossa vida na Califrnia, nas cidades junto  baa, e navegado para casa ou para longe. Faye tinha ido agora, ningum sabia para onde, 
e talvez para sempre.
    Mesmo Lev tinha finalmente deixado a Califrnia, muito tempo depois de ter se casado com Chelsea, sua bonita namorada e minha amiga ntima. Acho que tiveram 
o primeiro filho antes dele passar a dar aulas numa universidade da Nova Inglaterra.
    Senti uma sbita felicidade pensando em Lev. Porque tinha trs filhos, todos meninos, porque embora Chelsea ligasse freqentemente se queixando que Lev era insuportvel, 
ele no era nada disso, porque embora me telefonasse s vezes e chorasse, dizendo que ns dois devamos ter insistido, eu no lamentava e sabia que, na realidade, 
ele tambm no. Gostava de ver as fotos dos seus trs filhos e gostava de ler seus livros - finos, elegantes volumes de poesia, publicados aproximadamente a cada 
dois ou trs anos para concorrer aos prmios literrios e aos elogios da crtica.
    Lev. Meu Lev foi o garoto que encontrei em San Francisco e com quem me casei apenas no cartrio, o estudante rebelde e bebedor de vinho, o cantor de malucas 
canes improvisadas e o homem que danava ao luar. Estava apenas comeando a dar aulas na universidade quando Lily ficou doente, e a verdade  que nunca superou 
a sua morte. Nunca, nunca voltou a ser o mesmo. O que buscara em Chelsea fora o consolo e, em mim, uma aprovao fraternal do ardor de Chelsea e da sexualidade de 
que ele desesperadamente precisava.
    Mas por qu, por que pensar em tudo isso? Seria to diferente das tragdias de qualquer outra vida? A morte seria mais agressiva entre ns do que em qualquer 
outra famlia grande?
    Lev era um professor cheio de motivao, realizado, feliz. Teria vindo se eu pedisse. Sem dvida na noite passada, quando andei na chuva na avenida, estpida 
e doida, podia ter telefonado para Lev. No o informara da morte de Karl. H meses no falava com Lev, embora houvesse agora, sobre uma escrivaninha da sala de estar, 
uma carta dele, fechada.
    No conseguia me livrar de tanta coisa. As lembranas eram incontrolveis como tremores. E quanto mais fundo mergulhava nesses pensamentos (Lily, a me, meu 
perdido esposo Lev), mais comeava novamente a me lembrar da msica dele, o desesperado violino. Sabia que estava me lembrando de todas essas coisas, extremamente 
insuportveis, de modo compulsivo, como algum forado a olhar para as feridas das prprias vtimas que assassinou. Era um xtase.
    Talvez xtases desse tipo devam sempre acompanhar a morte quando morte se empilha sobre morte. Lamentando um, lamento todos. E de novo pensei como fora tola 
ao acreditar que Lily fora meu primeiro e terrvel crime: deix-la morrer. Ora, estava perfeitamente claro que anos antes da morte de Lily, eu abandonara minha me!
    Bateram 17:00h. Estava um tanto escuro l fora. A avenida ficava mais barulhenta. Todos os grandes aposentos da casa tinham agora uma atmosfera mais festiva. 
As pessoas j haviam tomado boa quantidade de vinho, o suficiente para conversarem livremente, como fazem as pessoas em Nova Orleans aps uma morte, como se fosse 
um insulto ao morto andar sussurrando de um lado para o outro como acontece na Califrnia.
    Califrnia. Lily l fora na colina, por qu? No havia ningum para visitar aquele tmulo. Meu Deus, Lily! Mas sempre que pensava em trazer o corpo de Lily para 
casa, tinha a horrvel percepo de que, quando o caixo chegasse a Nova Orleans, eu teria de olhar dentro dele. Lily, morta antes do sexto aniversrio, estava enterrada 
h mais de 20 anos. No podia imaginar uma tal viso. Uma criana embalsamada coberta de mofo esverdeado?
    Tremi. Pensei que ia gritar.
    Chegara Grady Dubosson, meu amigo e advogado, conselheiro de confiana de Karl e da me de Karl. Miss Hardy estava l, estava h muito tempo l, e o mesmo acontecia 
com vrias outras mulheres da Liga de Preservao, todas elas criaturas elegantes e refinadas. Connie Wolfstan disse:
    - Queremos alguma coisa, s uma lembrancinha, voc entende, no ? Algo que voc no se importasse se guardssemos conosco para que ele fosse recordado por... 
eu no sei... por ns quatro, isso basta.
    No tive qualquer dvida.
    - A prataria - respondi. - H muita e ele a adorava. Vocs sabem, Karl se correspondia com negociantes de prataria de todo o pas para comprar o Amor Pacfico. 
Olhem, vejam isso, este pequeno garfo. Na realidade,  o que chamam de garfo de morangos.
    - Realmente no se importaria se cada uma de ns levasse...
    - Oh, Deus, eu estava com medo... com medo que vocs  que ficassem com medo por causa da doena dele. H muita. O suficiente para todas vocs.
    Um barulho alto nos chamou a ateno. Algum cara. Sabia que aquele primo era um dos poucos aparentados tanto com os Beckers de minha famlia quanto com os 
Wolfstans de Karl, mas no consegui lembrar o nome dele.
    Pobre sujeito, estava embriagado e reparei que sua mulher estava furiosa. Ajudaram-no a se levantar. Tinha grandes manchas molhadas na cala cinza.
    Eu queria falar, articular palavras sobre a prataria. Ouvi Katrinka dizer:
    - O que esto tentando levar? - e a coisa saiu de minha boca para Althea, que passava:
    - A prataria dele, voc sabe, as baixelas e as outras coisas de prata. Deixe cada um da famlia dele levar uma pea.
    Senti meu rosto colorir quando Katrinka me encarou. Ela dizia que a prata era propriedade comunitria.
    Percebi pela primeira vez que, mais cedo ou mais tarde, todas aquelas pessoas iriam embora. Ficaria sozinha ali e talvez ele no voltasse. Percebi, desesperada, 
como sua msica tinha me confortado, como tinha me guiado memria aps memria. Agora eu estava atormentada, sacudindo a cabea e obviamente parecia estranha.
    O que estava usando? Olhei para baixo. Uma saia comprida de seda pura, uma blusa com babados e o colete de veludo que disfarava meu peso - o uniforme de Triana, 
como diziam.
    Houve grande comoo na copa. A prataria fora trazida. Katrinka dizia alguma coisa terrvel, mordaz,  pobre e triste Rosalind. Com os culos escorregando pelo 
nariz e repuxando as sobrancelhas negras, Rosalind parecia perdida e necessitada de ajuda.
    Minha prima Barbara se inclinou para me beijar. Tinham de ir. O marido no podia mais dirigir  noite; no era bom arriscar. Eu compreendia. Segurei-a com fora 
por um instante, apertando os lbios contra seu rosto. Beij-la foi como beijar sua me, minha tia-av, h muito falecida, e minha av, que fora irm daquela mulher.
    De repente Katrinka me virou, machucando-me o ombro.
    -        Esto saqueando a copa!
    Levantei e fiz um gesto para ela ficar calada, o dedo nos lbios, que eu sabia, positivamente sabia, ser capaz de deix-la fervendo de raiva. Foi o que aconteceu. 
Ela recuou. Uma das tias de Karl veio me beijar e me agradecer pela colherinha de ch que segurava.
    -        Oh, isto o deixaria to feliz... - disse eu. Ele estava sempre presenteando as pessoas com peas de Amor Pacfico e escrevendo: "Agora no se esquea 
de me dizer se no gosta deste padro, porque posso inund-lo com ele." Acho que tentei explicar isso, mas tinha muita dificuldade em pronunciar claramente as palavras. 
Afastei-me, de certo modo usando aquela pessoa como meio de fuga, acompanhando-a at a porta. Embora houvesse outros descendo a escada e acenando, desviei-me e segui 
pela varanda, contemplando a avenida.
    Ele no estava l. Ele provavelmente nunca existira. Pensei em minha me com uma fora devastadora, mas no naquele dia pouco antes de sua morte. Era outra poca, 
quando dei uma festa de aniversrio para uma de minhas amigas. A me estava bebendo h semanas e vivia mais ou menos trancada no quarto lateral da casa, completamente 
tonta, como sempre. S ficava sbria tarde da noite quando, ento, comeava a perambular de um lado para outro. E foi assim que vagou at a festa!
    Chegou perambulando  varanda, transtornada, parecendo, aos olhos de todos, a estranha rival de Jane Eyre, a louca do tico de Rochester. Ns a fizemos entrar, 
mas ser que fui gentil, ser que a beijei? No pude lembrar. Era muito desagradvel me colocar na pele daquela jovem, daquela cabea de vento. E ento a coisa me 
atingiu novamente, com uma fora enorme: que ela fosse embora, que morresse de bebedeira sozinha, com primos diante dos quais se sentia envergonhada.
    O que fora o assassinato de Lily, a incapacidade de salvar Lily, comparado com isso?
    Agarrei a grade. A casa ia se esvaziando.
    O violinista fora um momento de loucura: msica imaginada! Louca,
fascinante, confortadora msica, desfiada do subconsciente por uma pessoa desesperada, sem talento, medocre, prosaica demais a respeito de tudo, at mesmo para 
desfrutar a fortuna que lhe era deixada.        
    Oh, Deus, eu queria morrer. Sabia onde estava o revlver e pensei: se esperar s algumas semanas, todo mundo se sentir melhor. Se fizer isso agora, cada um 
vai pensar que foi culpa sua. E se Faye estiver viva em algum lugar? Ela volta para casa e descobre que sua grande irm fez uma coisa dessas! E se Faye acabasse 
assumindo a culpa? Nem pensar!
    Beijos, mos acenando. Uma chuva repentina de delicioso perfume - Gertrude, tia de Karl, e depois a mo leve e enrugada do marido.
    "Pelo menos nunca vou saber o que significa estar velho, no , Triana?", era o que Karl murmurava em meu ouvido quando no conseguia mais se virar sem ajuda.
    Eu me virei e contemplei o gramado ao lado do jardim. As luzes da floricultura brilhavam na grama mida e nos tijolos midos mais adiante. Tentei descobrir onde 
ficava a trilha por onde minha me passou no ltimo dia em que a vi. A trilha sumira. Durante os anos da Califrnia, quando meu pai se casou com a esposa protestante 
(fora de qualquer igreja, embora ele rezasse toda a noite o tero; uma alma danada que, sem dvida, tornou a mulher perfeitamente infeliz), construram uma garagem. 
A onda do automvel chegara at mesmo a Nova Orleans. E agora j no existia um velho porto de madeira para ser o santurio da me, sua entrada para a eternidade.
    Eu me engasgava tentando prender a respirao. Virei-me. Contemplei a varanda comprida. Gente por toda parte. Mas podia imaginar perfeitamente minha me, na 
noite em que perambulou do lado de fora. A me fora bonita, com uma estampa muito melhor, sob todos os aspectos, do que qualquer uma de suas filhas. Semanas antes 
de morrer, perdida entre tantos adolescentes festeiros, acordada de um sono de embriaguez, sem saber onde estava, sem amigos, tinha uma expresso bastante selvagem 
no rosto.
    Tentava prender a respirao.
    -... tudo que voc fez por ele - uma voz falava.
    - Por quem? - perguntei.
    - Papai - disse Rosalind -, e depois tomar conta de Karl.
    - No fale mais nisso. Quando chegar a hora de morrer, quero estar vagando sozinha nos bosques - ou usar rapidamente o revlver, pensei.
    - E no  o que todos ns queremos? - indagou Rosalind. - Mas as coisas no acontecem assim. Voc cai e quebra os quadris, como papai, e a jogam na cama com 
agulhas e tubos. Ou ento, como no caso de Karl, informam sobre mais um coquetel de drogas que talvez...
    Ela continuou. Rosalind, a enfermeira. Rosalind que compartilhava comigo as coisas mrbidas. Tnhamos nascido em anos diferentes, mas ambas no ms de outubro.
    Vi nitidamente Lily num caixo, imaginado agora com o mofo verde: a pequenininha mo adorvel, o rostinho redondo, gorducha, o colo bonito e o vestido rodado, 
cheio de enfeites, o ltimo vestido que passei para ela. Vi meu pai dizendo quando da morte da me: "Vo fazer isso na funerria, mas eu mesmo queria ter passado 
o ltimo vestido, o ltimo vestido..."
    Lev disse mais tarde de sua nova noiva, Chelsea: "Preciso muito dela, Triana, preciso dela.  como se Lily voltasse para mim.  como se eu tivesse Lily."
    Eu dissera que compreendia. Acho que estava entorpecida.  o nico meio de descrever como me sentia enquanto Chelsea e Lev faziam sexo no outro quarto. Depois 
eles entraram, me beijaram e Chelsea disse que eu era a mulher mais extraordinria que ela tinha conhecido.
    Hoje isso  realmente engraado!
    Ia comear a chorar. No deu certo. Havia portas de carro fechando, sombras escuras de gente me dando adeus na frente da loja de flores.
    Grady me chamou de dentro de casa. Ouvi a voz de Katrinka. Portanto, o momento chegara.
    Virei-me, atravessei toda a varanda molhada, passando pelas cadeiras de balano salpicadas com gotas de chuva, e dei uma olhada no amplo vestbulo. Era a mais 
fascinante viso, pois o grande espelho do fundo, na parede da sala de jantar, refletia os dois lustres, o pequeno da entrada e o grande da sala de jantar, dando 
a impresso que a pessoa estava olhando para uma enorme galeria.
    Meu pai fizera muitos discursos sobre a importncia daqueles lustres, como minha me os adorava, como eles jamais seriam vendidos! Nunca, nunca, nunca. O engraado 
 que eu no conseguia lembrar quem lhe pedira para fazer aquilo, nem quando ou como lhe pedira. Porque aps a morte de minha me, e depois que todos ns finalmente 
nos mudamos da casa, ele andou muito bem de vida e, antes disso, minha me jamais teria deixado algum tocar naqueles tesouros.
    A casa estava quase vazia.
    Entrei. No era mais eu mesma. Estava congelada dentro de uma forma estranha e a voz que surgia no era digna de confiana. Katrinka chorava e transformara seu 
leno em um n.
    Acompanhei Grady at a sala da frente, onde ficava a escrivaninha de tampo alto, entre as janelas frontais.
    - Continuo lembrando coisas, aquelas coisas - comentei. - Talvez seja escorraar o presente... mas ele morreu em paz, sofreu menos do que temamos, ele e todos 
ns...
    - Sente-se, querida - disse Grady. - Sua irm est determinada a discutir esta casa aqui e agora. Parece que ficou realmente melindrada pelo testamento de seu 
pai, como voc mesma disse, e acha que tem direito a uma parte da venda da casa.
    Katrinka o olhava com ar de espanto. O marido, Martin, abanava a cabea e atirava olhares para Glenn, o generoso marido de Rosalind.
    -        Bem, Katrinka tem direito - respondi -, quando eu morrer. - Levantei os olhos. As palavras tinham silenciado todo mundo. Pelo fato de a palavra "morrer" 
ter sido atirada com tamanha desenvoltura, eu acho.
    Katrinka ps as mos no rosto e virou-se na cadeira. Rosalind tinha apenas se encolhido.
    -        No quero nada! - declarou Rosalind com sua voz baixa, mas de
extrema ressonncia.
    Glenn fez, em surdina, alguma observao rspida para Katrinka, que Martin, seu marido, rebateu energicamente.
    - Olhem, senhoras, vamos direto ao assunto - disse Grady. - Triana, eu e vocs j tnhamos conversado sobre a possibilidade de enfrentarmos uma situao dessas. 
Estamos preparados. Na verdade, estamos bem preparados.
    - Estamos? - eu estava sonhando. No me encontrava ali. Podia ver todos eles. Sabia que no havia perigo de algum vender a casa. Sabia disso. Sabia de coisas 
que nenhum deles sabia, exceto Grady, mas no era o que importava. Importante era como meu violinista me consolara enquanto eu pensava em todos os mortos na terra 
fofa. Mas tinha imaginado aquilo, imaginado!
    Houve alguma conversa; certamente a evidncia de loucura. E era loucura o que ele disse que queria, mas estava mentindo. O que me trouxe foi um blsamo, um ungento, 
uma capa de beijos. Sua msica sabia! A msica no mentia. A msica...
    Grady tocou minha mo. O marido de Katrinka, Martin, disse que a hora no era adequada, e Glenn disse tambm que a hora no era adequada, mas essas palavras 
no surtiram efeito.
    Meu Deus, nascer sem nenhum talento j  muito ruim, mas ter ainda por cima uma imaginao macabra e febril  uma maldio. Fitei a grande imagem de So Sebastio 
em cima da lareira. Um dos mais valiosos pertences de Karl - o original da gravura que seria colocada na capa do livro.
    O santo sofredor era maravilhosamente ertico, amarrado na rvore, perfurado com tantas flechas.
    E na outra parede, sobre o sof, o grande quadro das flores. Diziam que lembrava bastante Monet.
    A pintura fora um presente que Lev me mandara de Providence, Rhode Island, quando estava lecionando em Brown. Lev e Katrinka. Lev e Chelsea.
    Katrinka s tinha 18 anos. Nunca, nunca eu devia ter deixado a coisa chegar quele ponto; foi minha culpa se Katrinka se envolveu com Lev. Ele ficou muito envergonhado 
e ela, o que disse depois... que quando uma mulher estava grvida como eu, essas coisas... No, eu  que tinha lhe dito isso, para ela achar que estava tudo bem, 
que eu era incompetente, que eu, que ele...
    Levantei a cabea para olh-la. Aquela mulher ansiosa e elegante estava to distante de minha sria e calada irmzinha Katrinka. Um dia, ao chegar em casa bbada 
com a pequena Katrinka, minha me desmaiou na varanda com as chaves da casa na bolsa. Katrinka, com apenas seis anos, ficou cinco horas ali, esperando que eu chegasse, 
com vergonha de pedir ajuda a algum. Ficou sentada ao lado da mulher cada na varanda. Era s uma criancinha sentada ali, esperando. "Ela caiu quando saltou do 
bonde, mas se levantou."
    Vergonha, culpa, degenerao, dor, intil!
    Baixei a cabea para a superfcie da mesa. Vi minhas mos. Vi o talo de cheques pousado ali, num estojo de vinil azul ou de algum outro material igualmente 
feio, de uma resistncia abjeta e feroz. Era um comprido estojo retangular, sem adornos, com as capas do talo enfiadas em placas finas e forradas.
    Sou uma pessoa que nunca se preocuparia em enfiar um talo de cheques num estojo. Mas isso no tinha mais qualquer importncia. Nenhum talento para nmeros, 
nenhum talento para msica. Mozart podia tocar a partitura do fim para o incio. Mozart provavelmente era um gnio matemtico. Beethoven, no entanto, nada possua 
de to nitidamente inslito; era um tipo inteiramente diferente de...
    - Triana.
    - Sim, Grady.
    Tentei prestar ateno s palavras de Grady.
    Katrinka queria a casa vendida, dizia ele, a herana dividida. Queria que eu renunciasse ao direito de permanecer na casa at morrer, ao uso da casa at minha 
morte ("usufruto"  o termo legal), um direito, na realidade, compartilhado por mim e por Faye. Mas como poderia fazer isso se Faye estava em local completamente 
ignorado, pensei, e Grady fazia essa observao de maneira franca, longa e num tom de voz admiravelmente arrastado. Falava das inmeras tentativas que tinham sido 
feitas para localizar Faye, sob a suposio,  claro, de que nada de grave acontecera com ela. O sotaque de Grady, em parte do Mississipi e em parte da Louisiana, 
era sempre melodioso.
    Um dia Katrinka me contou que a me pusera Faye na banheira antes dela completar dois anos de idade, onde s conseguiria ficar sentada. A me acabou "dormindo", 
o que significa que acabou se embriagando, e Katrinka encontrou Faye sentada na banheira, uma banheira cheia de excrementos, de cocs flutuando na gua, onde Faye 
chapinhava feliz. Bem, isso acontece, no ? Katrinka era to pequena na poca! Eu tinha chegado em casa, estava cansada. Joguei longe os livros da escola. No queria 
saber! No queria. A casa estava to escura e fria. As duas eram muito pequenas para ligar os aquecedores a gs, principalmente os desta casa, que no tinham pilotos 
e se acendiam abrindo as grades. Eram to perigosos que podiam, a qualquer momento, pr fogo na casa. No havia aquecimento! No! S o perigo do fogo com elas sozinhas 
e a me bbada... No.
    Agora no  assim!
    -        Faye est viva - sussurrei. - Est... em algum lugar.
    Ningum ouviu.
    Grady j tinha preenchido o cheque e colocou-o em minha frente.
    -        Quer que eu diga o que me pediu para dizer? - perguntou. Foi uma atitude gentil e cmplice da parte dele.
    De repente a coisa me sacudiu.  claro. Eu tinha planejado, com gravidade e frieza, num dia escuro, sombrio, em que Karl estava com dificuldade de respirar. 
Se um dia minha irm fizesse aquilo, minha pobre irm Katrinka, perdida e rf, era assim que eu ia agir. Tnhamos planejado. Eu contara a Grady, que no tivera 
alternativa a no ser seguir meu conselho e consider-lo, alm disso, extremamente prudente. Grady tinha uma pequena declarao a fazer.
    - Quanto a senhora calcula que valha esta casa, mrs. Russell? - ele perguntou a Katrinka. - O que a senhora me diz?
    - Bem, pelo menos US$1 milho - respondeu Katrinka, o que era absurdo, pois estavam  venda, em Nova Orleans, um bom nmero de casas maiores e mais bonitas por 
menos que isso. Karl, alis, costumava se espantar com esse fato. Katrinka e Martin, seu marido, que vendiam imveis, sabiam disso melhor do que ningum, pois eram 
muitssimo bem-sucedidos na cidade alta e possuam sua prpria companhia.
    Encarei Rosalind. Antigamente, nos anos negros, ela lia seus livros e sonhava. Dava uma olhada na me deitada embriagada na cama e ia para o quarto com os livros. 
Leu John Carter de Marte, de Edgar Rice Burroughs. Era ento muito bem-feita de corpo. O cabelo preto e ondulado era encantador. No formvamos um mau conjunto, 
e cada uma possua um tom diferente de cabelo.
    -        Triana.
    Minha me foi bonita at o momento da morte. A funerria telefonou. "Essa mulher engoliu a lngua", avisaram. O que isso significava? Os primos com quem ela 
morreu j no a viam h anos, e foi nos braos deles que faleceu, com o longo cabelo castanho ainda castanho, sem um nico fio grisalho, eu me lembro, a testa alta 
- no  fcil ser bonita com uma testa alta, mas ela era. Naquele ltimo dia, quando desceu a trilha, seu cabelo estava escovado e preso com grampos. Quem fizera 
aquilo por ela?
    Usou-o curto s uma vez. Mas tinha sido h anos. Eu chegara da escola. Katrinka ainda era beb, correndo nas lajotas de um lado para o outro com cales cor-de-rosa, 
como faziam as crianas naquela poca, expostas todo dia ao calor sulista. Ningum pensava em apront-las com roupinhas de grife. E minha me me contou calmamente 
que cortara o cabelo, que o vendera.
    O que eu disse a ela? Garanti que estava bonita, que estava tima? No conseguia, de modo algum, lembrar-me dela com o cabelo curto. E s anos mais tarde eu 
compreendi; ela vendeu o cabelo, vendeu o cabelo para comprar a bebida. Oh, Deus!
    Queria perguntar a Rosalind o que ela pensava, se fora um pecado imperdovel no dizer adeus  nossa me. Mas no podia fazer uma coisa to egosta! Rosalind 
estava atormentada, olhando de Grady para Katrinka.
    Rosalind j tinha suas prprias memrias, que a magoavam profundamente, que eram suficientemente terrveis para faz-la beber e chorar. Um dia Rosalind esbarrara 
na me quando subia a escada da frente. Nossa me tinha na mo um embrulho de bebida, um frasco achatado e acondicionado numa embalagem de cartolina com papel pardo, 
como aquelas que se vendiam nas lojas de bebidas finas. Rosalind mais tarde me confessou que a chamara de bbada e eu lhe disse vrias vezes: "Ela nem tomou conhecimento, 
ela perdoou, ela compreendeu, esquea isso, Rosalind." Nessa triste histria, minha me, que sempre sabia encontrar o que dizer, apenas sorriu para a jovem Rosalind, 
que tinha ento 17 anos, s dois a mais que eu.
    Me! Eu vou morrer!
    Traguei o ar.
    - Quer que eu leia o documento? - Grady perguntou. -- Voc queria uma declarao da cessionria. Talvez voc queira...
    - Uma palavra moderna essa: cessionria... - disse eu.
    - Voc  louca - replicou Katrinka. - Estava louca quando deixou Lev ir embora; simplesmente deu seu marido de mo beijada para Chelsea e sabe disso. Estava 
louca quando cuidou do pai. Achou melhor no lhe dar todos aqueles remdios, no queria as mquinas de oxignio nem as enfermeiras, achava errado que para se tratar 
ele lanasse mo de todo o dinheiro que tinha, at o ltimo centavo; no queria cuidar dele e s se disps a isso por causa da culpa e voc sabe que foi assim, uma 
culpa evidente por causa de Lily... - Sua voz fraquejou quando ela falou no nome de Lily.
    Olhe as lgrimas dela.
    Ainda hoje ela mal podia suportar dizer o nome de Lily.
    -        Voc enxotou a Faye - ela continuou, o rosto vermelho, inchado,
acrianado, frentico - e estava louca quando se casou com um homem condenado! Trazer um homem condenado para c, pouco importa se tinha dinheiro, pouco importa 
se fez obras na casa, pouco importa se... Voc no tinha o direito, nenhum direito de fazer essas coisas...
    Um rugido de vozes se ergueu para silenci-la. Parecia to indefesa! At o marido, Martin, ficou furioso e berrou com ela; Katrinka no podia suportar sua desaprovao. 
Como parecia pequena; ela e Faye eram eternas crianas abandonadas. Gostaria que pelo menos Rosalind tivesse se levantado para lhe dar apoio, apert-la entre os 
braos. Eu  que no podia... no podia encostar nela.
    -        Triana - disse Grady. - Voc quer ir em frente e fazer esta declarao agora, como combinamos?
    - Que declarao? - Olhei para Grady. Era uma coisa mesquinha, cruel e terrvel. Eu me lembrava agora. O documento. O importantssimo documento; os rascunhos 
e mais rascunhos que eu fizera do documento.
    Katrinka no fazia idia de quanto dinheiro Karl me deixara. Katrinka no fazia idia de quanto dinheiro eu poderia um dia repartir com ela, com Rosalind e com 
Faye. Eu tinha jurado que se ela fizesse aquilo, aquela coisa execrvel, se tivesse coragem, ns lhe passaramos um cheque, o impressionante cheque de 1 milho de 
dlares e nenhum centavo. Com isso eu exigiria que endossasse uma promessa de nunca mais voltar a me dirigir a palavra. Um plano traado na parte implacvel e escura 
do corao.
    Saberia um dia como fora esperta para dinheiro trocado e tola em matria de libras. Sim, e eu a olharia diretamente nos olhos por todas as coisas cruis que 
havia me dito, pelas coisas mesquinhas, as pequenas e odiosas coisas entre irms. E tambm por sua benevolncia para com Lev, pelo "consolo" que dera a Lev enquanto 
Lily morria, to certamente quanto Chelsea... mas no.
    -        Katrinka - murmurei. Encarei-a. Ela se virou para mim, o rosto vermelho, esguichando lgrimas como uma criana de colo, todas as cores lavadas do rosto, 
a no ser o vermelho; era o prprio beb. Imagine, uma criana que pouco se encontrava com a me no ptio da escola, a me bbada, e todo mundo sabendo disso, sabendo 
disso, sabendo disso, e aquela criana agarrada a ela, e depois indo para casa de bonde com aquela mulher embriagada e...
    Certa vez entrei no quarto do hospital e Katrinka estava assim, com aquele vermelho no rosto, com aquele choro. "Contaram a Lily, vinte minutos antes, que iam 
fazer o teste de sangue. Por que agem assim? Este lugar  uma cmara de torturas. Jamais deviam ter falado a ela, com tanta antecedncia, de uma coisa que nem chegaram 
a fazer..." - Como chorara por minha filha!
    O rosto de Lily tinha sido virado para a parede. Minha pequenina criana de cinco anos estava quase morta, coisa de poucas semanas. Katrinka a amava demais.
    -        Grady, quero que lhe d o cheque - falei rapidamente, erguendo a
voz. - Katrinka,  um presente. Karl providenciou-o para voc. Grady, no ha mais o que dizer, o assunto acabou, no h o que discutir, simplesmente d o presente 
que ele queria lhe dar.
    Pude perceber que Grady arrancou do peito um enorme suspiro de alvio, pois no teria de enfrentar palavras speras e melodramticas, embora soubesse muito bem 
que Karl nunca pusera os olhos em cima de Katrinka e Jamais lhe providenciara um tal presente...
    - Mas no quer que ela saiba que o presente  seu?
    - No quero - sussurrei. - Ela no o aceitaria, no poderia aceitar. Voc no entende. D tambm o cheque de Rosalind, por favor - insisti. Ele no imporia condies, 
seu significado se reduzia  esplndida surpresa que ele representava. Karl tinha amado muito Rosalind e Glenn e alugara para eles a pequena loja: Rosalind's Livros 
e Discos.
    - Diga que  de Karl - falei. - Faa isso.
    Katrinka estendeu a mo sobre a mesa e pegou o cheque. Suas lgrimas eram ainda uma torrente infantil e reparei como emagrecera, lutando agora contra a idade 
como todos ns. Com olhos grandes, levemente estufados, e o nariz pequeno e bonito, mas em forma de gancho, lembrava muito a famlia de nosso pai, os Becker. Possua 
o toque da beleza semita, aquela gravidade no rosto manchado de lgrimas. O cabelo era louro e os olhos azuis. Tremia e balanava a cabea. Os olhos se fechavam, 
bem apertados, e as lgrimas gotejavam. Meu pai dissera inmeras vezes que, dentre todas ns, ela era a nica verdadeiramente bonita.
    Devo ter perdido o equilbrio.
    Senti Grady me segurar. E Rosalind murmurou alguma coisa que ficou inaudvel, pois lhe faltou a necessria confiana em si prpria. Pobre Roz, ter de suportar 
aquilo.
    -        No pode fazer um cheque desses - disse Katrinka. - Simplesmente no pode emitir um cheque de US$1 milho!
    Rosalind levantou o cheque que Grady pusera em suas mos. Pareceu estupefata. A mesma reao de Glenn quando, ao se debruar sobre ela, espreitou como a stima 
maravilha do mundo um cheque de US$1 milho.
    O documento. A declarao. Todas aquelas palavras repassadas com raiva por Katrinka, "que nunca mais procure minha companhia, que nunca ultrapasse a soleira 
desta porta, que nunca..." Todas morreram e foram levadas pelo vento.
    Era o corredor do hospital. Katrinka chorava. No quarto, o estranho padre da Califrnia batizava Lily com a gua que caa de um copo de papel. Ser que Lev, 
meu amado ateu, julgou-me uma perfeita covarde? E naquele momento Katrinka estava chorando como chorava agora, lgrimas reais por minha filha perdida, nossa Lily, 
lgrimas reais por nossa me, nosso pai.
    - Voc sempre foi... - disse eu - to boa para ela.
    - Do que est falando? - exclamou Katrinka. - Voc no tem US$1 milho! O que ela est dizendo? O que  isso? Ser que pensa...
    - Mrs. Russell, se a senhora me der licena... - Grady comeou. Ele me olhou e passou adiante antes mesmo de eu concordar com a cabea.
    - Sua irm foi deixada numa situao extremamente confortvel por seu falecido marido, com todas as providencias tomadas antes da morte e com o conhecimento 
da me dele, providncias que no envolvem qualquer testamento ou qualquer instrumento semelhante que possa, sob qualquer pretexto, ser contestado por algum da 
famlia.
    "E de fato mrs. Wolfstan assinou inmeros documentos, algum tempo antes da morte de Karl, para garantir que as disposies de seu filho, Karl Wolfstan, no seriam 
de modo algum questionadas aps seu desaparecimento, que poderiam ser e seriam efetivadas com absoluta presteza."
    Ele continuou.
    -        No h o que discutir sobre a validade ou a integridade do cheque
que a senhora tem nas mos. E o presente que sua irm gostaria que aceitasse como sua parte do que possa valer esta casa. Devo dizer, mrs. Russell, que no acredito 
que a casa, por mais encantos que tenha, pudesse ser vendida por US$1 milho, e de fato a senhora tem em mos um cheque no valor integral da suposta importncia, 
embora, como bem sabe, tenha trs irms.
    Rosalind ensaiou uma pequena queixa.
    - Voc no tem de... - disse ela.
    - Foi Karl - interrompi. - Karl queria que eu pudesse...
    - Ah, sim, tornar isso possvel - falou Grady, tropeando agora para cumprir o ltimo encargo que eu lhe dera, percebendo que falhara ao executar as instrues 
que lhe confiara em segredo, passando por um momento de confuso e tentando retomar o fio da meada. - Era vontade de Karl que Triana pudesse proporcionar um presente 
a cada uma de suas irms.
    - Escute - interveio Roz -, de quanto seria esse presente? Voc no precisa nos dar coisa alguma. No precisa dar coisa alguma a ela, a mim, ou a quem quer que 
seja. Voc no... Olhe, se ele deixou para voc...
    - Voc no faz idia - repliquei. - Foi realmente bastante. Foi tanto que no me custa nada fazer isso.
    Rosalind se recostou, suspirou com a mo na boca, ergueu as sobrancelhas e espreitou o cheque atravs dos culos. Glenn, seu marido alto e em forma, no sabia 
o que dizer. Estava emocionado, atnito, confuso pelo que via ao redor.
    Levantei os olhos para a ofendida e trmula Katrinka.
    - No precisa mais se preocupar, Trink - falei. - No precisa se preocupar nunca mais... com coisa alguma.
    - Voc  insana! - exclamou Katrinka. O marido estendeu o brao para pegar-lhe a mo.
    -        Mrs. Russell - Grady dirigiu-se a Katrinka --, permita-me sugerir que leve o cheque amanh ao Whitney Bank, endosse e deposite-o como faria com qualquer 
outro cheque. Tenho certeza de que ficar feliz quando descobrir que a importncia ficara imediatamente disponvel.  um presente e ao implica qualquer nus para 
a senhora. Nenhum imposto ou gravame, qualquer que seja. Agora, eu gostaria muito de obter uma declarao com respeito a esta casa, garantindo que no futuro a senhora 
no...
    - No  preciso - interrompi. - Isso no importa.
    - Quero saber quanto foi - disse Rosalind, inclinando-se novamente em minha direo. - Quero saber o que est custando a voc fazer isto por mim e por ela.
    - Mrs. Bertrand - Grady virou-se para Rosalind -, acredite, sua irm foi amplamente favorecida. Alm disso, e talvez por essa razo meus encargos possam ser 
executados da forma mais agradvel possvel, o falecido mr. Wolfstan tambm doou um novo salo ao museu da cidade, que dever ser inteiramente destinado a pinturas 
de So Sebastio.
    Glenn, bastante angustiado, abanou a cabea.
    -        No, no podemos.
    Katrinka apertou os olhos como se suspeitasse de um compl.
    Tentei articular as palavras. Estavam alm de meu alcance. Fiz um gesto para Grady e declamei a palavra "explique". Depois abanei ostensivamente os ombros com 
ar de indiferena.
    -        Senhoras - disse Grady -, quero lhes assegurar que mr. Wolfstan deixou sua irm muito bem de vida. Na realidade esses cheques, falando literalmente 
e com toda a franqueza, no fazem a mnima diferena.
    E assim a coisa foi feita.
    Exatamente assim. Estava feita.
    A terrvel declarao no fora lida para Katrinka (pegue esse milho e nunca...) e ela no fora atingida por qualquer percepo de que, com sua raiva, se privaria 
para sempre da possvel partilha de uma coisa muito maior.
    A hora tinha passado. A chance tinha passado.
    Mas a coisa foi feia, mais feia at do que eu podia ter planejado porque agora ela se levantava, alucinada de raiva, querendo cuspir em minha cara, mas por nada 
no mundo ia se arriscar a perder US$1 milho.
    - Bem, eu e Glenn estamos muito agradecidos - falou Roz num tom baixo, srio. - Sinceramente nunca esperei receber um centavo de Karl Wolfstan. Foi generosidade, 
muita generosidade ele ter chegado a este ponto. Mas tem certeza, Grady? Est nos dizendo realmente a verdade? 
    - Oh, sim, mrs. Bertrand, sua irm est bem de vida, muito bem de vida...
    Tive uma viso de notas de dlares. Uma verdadeira viso em que elas voavam em minha direo, cada uma com pequenas asas do lado. A mais insana viso, mas acho 
que, pela primeira vez na vida, tive a agradvel percepo do Grady estava dizendo: aquele tipo de preocupao no existia mais, aquele tipo de angstia no participava 
mais do quadro maior, a mente podia agora voltar-se em perfeita paz e silncio para si mesma. Karl cuidara de tudo e deixara tudo resolvido com a famlia dele. A 
mente podia voltar-se para coisas de melhor qualidade.
    -        Ento foi assim - disse Katrinka me encarando, olhos cansados e
sem brilho, do modo como ficam os olhos aps horas de fria.
    No respondi. Katrinka continuou:
    -        Tudo no passou de um frio arranjo financeiro entre voc e Karl, e
nunca teve sequer a decncia de nos contar.
    Ningum falou.
    -        Com ele morrendo de AIDS, podia ter tido a decncia de nos informar.
    Balancei a cabea. Abri a boca, comecei a dizer no, no,  uma abominao o que voc est dizendo, eu... Mas me ocorreu de repente que aquilo era perfeitamente 
o que se podia esperar de Katrinka. Ento comecei a sorrir, depois a rir.
    - Querida, querida, no chore - disse Grady. - Tudo vai ficar bem.
    - Oh, mas voc est vendo,  perfeito, ...
    - Todo esse tempo - retrucou Katrinka, as lgrimas de volta - nos deixou preocupadas, arrancando os cabelos! - a voz de Katrinka sobrepujava os apelos de Rosalind 
por silncio.
    - Gosto muito de voc - comentou Rosalind.
    - Quando Faye voltar - murmurei para Roz, como se ns duas, como irms, tivssemos de nos esconder de tudo que havia naquela mesa redonda, naquela sala da frente 
-, quando Faye voltar, ela vai adorar o modo como a casa ficou, voc no acha? Tudo isso, tudo que Karl fez,  to bonito!
    - No chore.
    - Oh, no estou chorando, estou? Achei que estava rindo. Onde est Katrinka? - Vrias pessoas haviam sado da sala.
    Levantei-me e sa tambm. Fui para a sala de jantar, o corao e a alma da casa, a sala em que, h tanto tempo, tivera aquela terrvel briga com Rosalind por 
causa do rosrio. Meu Deus, s vezes penso ser o excesso de memria que leva as pessoas a beber. A me devia lembrar coisas terrveis, terrveis demais. Despedaamos 
o rosrio da me! Um rosrio.
    - Tenho de ir para a cama - falei. - Minha cabea di, continuo me lembrando. Estou me lembrando de coisas ms. No posso tir-las da cabea. Tenho de lhe perguntar 
uma coisa, Roz, minha querida...
    - Sim - ela respondeu de imediato, estendendo as mos, os olhos negros pousados firmemente em mim com extrema simpatia.
    - O violinista, voc se lembra dele, na noite em que Karl morreu? Havia um homem l fora, na avenida St. Charles, e...
    Os outros tinham se reunido sob o pequeno lustre do vestbulo. Havia uma discusso furiosa entre Katrinka e Grady. Martin estava sendo severo com Katrinka e 
ela estava quase gritando.
    -        Oh, ele - disse Roz -, aquele sujeito com o violino... - Rosalind riu. -, me lembro. Estava tocando Tchaikovsky.  claro, voc entende, estava enrolando 
um pouco, como algum que improvisa em cima de Tchaikovsky, mas era... - Empinou a cabea. - Estava tocando Tchaikovsky.
    Avancei com Rosalind pela sala de jantar. Ela falava... e eu no conseguia entender. De fato era to estranho que achei que Roz estava inventando. Ento me lembrei... 
Mas era um tipo inteiramente diferente de recordao, sem a vivacidade e o carter pungente de outras memrias; era plida, fora escondida intencionalmente sob o 
p ou tirada h muito tempo do arquivo e deixada em liberdade, para se escoar, eu no sabia. Mas naquele momento no lutei contra ela.
    - Aquele piquenique em San Francisco - falou Rosalind. - Voc sabe, todos os seus beatniks e hippies estavam l, e eu morrendo de medo que fssemos metralhados 
e despejados na baa de San Francisco. Ento voc pegou aquele violino e comeou a tocar, a tocar, enquanto Lev danava! Foi como se tivesse o Diabo no corpo e foi 
como da outra vez, quando era pequena e se apoderou daquele pequeno violino em Loyola, est lembrada? Voc tocava sem parar, sem parar, sem parar, mas...
    - Sim, mas nunca consegui fazer de novo. Tentei inutilmente aps essas duas vezes...
    Rosalind abanou os ombros e me apertou com fora entre os braos.
    Virei-me e vi a ns duas no espelho, no as meninas magras, com fome, amargas, lutando pelo rosrio. Vi a ns duas agora. Mulheres de Rubens. Rosalind beijava 
meu rosto. Vi a ns duas no espelho, as duas irms, ela com seu bonito cabelo branco e ondulado, com um penteado fofo e natural em volta do rosto, o corpo grande 
e macio numa seda preta que lhe caa bem; eu com minha franja, o cabelo liso, a blusa pregueada e os detestveis braos grossos. Mas isso no importava, as imperfeies 
de nossos corpos; eu simplesmente via a ns duas e queria ficar ali, com ela naquele ponto da sala, em evidncia no espelho, sentindo o magnfico fluir do alvio, 
mas no podia.
    Simplesmente no podia.
    - Acha que a me nos quer nesta casa? - Arregalei os olhos para chorar.
    - Oh, pelo amor de Deus - exclamou Rosalind. - Quem se importa com isso? Voc vai para a cama. Acho que voc nunca devia ter parado de beber. Vou tomar uma embalagem 
com seis latas de cerveja Dixie. Quer que eu v l para cima com voc?
    - No. - Ela sabia que a resposta seria esta. Na entrada do quarto, virei-me e olhei para ela.
    - O que foi?
    - Meu rosto deve t-la assustado.
    - O violinista, voc lembra realmente dele? O que tocava l fora na esquina quando Karl... isto , quando todos...
    - J disse que sim.  claro que sim - e repetiu que era definitivamente Tchaikovsky. Eu podia apostar, pelo modo como ergueu a cabea, que estava muito orgulhosa 
por ter conseguido identificar a msica. Sem dvida estava certa ou pelo menos eu achava que sim. Parecia to sonhadora, to solidria, to carinhosa e gentil comigo. 
Era como se nenhum trao de maldade ou mesquinharia tivesse sobrevivido nela. E l estvamos ns - e no ramos velhas.
    No me sentia mais velha naquele dia do que em qualquer outro da minha vida. No sabia o que significava sentir-me velha. Velha. Os medos vo. A mesquinharia 
vai. Se voc reza, se  abenoada, se voc tenta!
    -        Ele continuou vindo aqui, aquele sujeito do violino -- disse Rosalind -, enquanto voc estava no hospital. Esta noite mesmo eu o vi l fora, s olhando. 
Talvez no goste de tocar para muita gente. Se quer saber, acho que  bom demais! Quero dizer, o sujeito  to bom quanto todos os violinistas que j ouvi em disco 
ou ao vivo.
    -        Sim - comentei. - Ele  mesmo bom, no ?
    Esperei at a porta estar fechada para chorar de novo.
    Gosto de chorar sozinha.  uma sensao to maravilhosa, chorar e chorar, totalmente protegida de qualquer vestgio de censura! Ningum para me dizer sim ou 
no, ningum a implorar por perdo, ningum para intervir.
    Chorar.
    Estiquei-me na cama e chorei. Ouvi as pessoas l fora e me senti de repente muito cansada, como se eu mesma tivesse carregado todos aqueles caixes para o tmulo... 
Pense nisso, assustar Lily daquela maneira, entrar no quarto do hospital e cair em pranto na frente de Lily. E Lily dizendo: Mame, voc est me assustando!" E naquela 
ocasio, quando voltei tarde do bar, estava embriagada, no estava? Passara aqueles anos bbada, mas nunca bbada demais, nunca de modo a no conseguir... E ento 
aquele terrvel, terrvel momento quando vi seu rostinho branco, seu cabelo que se fora, a cabea calva devido ao cncer, mas ainda encantadora como um boto de 
flor, e minha estpida, estpida, inoportuna choradeira. Cruel, cruel. Deus amado.
    Onde estava aquele mar azul brilhante com seus fantasmas de espuma?
    Quando percebi que ele estava tocando, j devia ter passado muito tempo.
    A casa ficara em silncio.
    Ele deve ter comeado baixo e teve, desta vez, a mais pura suavidade tchaikovskiana, a eloqncia civilizada, se poderia dizer assim, no o horror bruto dos 
rabequistas galicos que tanto me fascinaram naquela ltima noite. Mergulhei profundamente na msica  medida que ela se aproximava e se tornava mais ntida.
    - Sim, toque para mim - sussurrei.
    Eu sonhava.
    Sonhava com Lev e Chelsea, com nossa briga no caf e Lev dizendo: "Tantas mentiras, mentiras", e eu percebendo o que ele queria dizer, que ele e Chelsea - e 
ela to transtornada, to essencialmente amvel e to naturalmente gostando dele, precisando dele, minha amiga. E ento as coisas mais terrveis vieram aos trambolhes, 
memrias do pai falando com raiva e da me chorando nesta casa, chorando nesta mesma casa, por ns, e eu no indo a seu encontro, mas tudo isso foi unido com sono. 
O violino tocava e tocava e chamava pela dor, chamava como s Tchaikovsky sabia fazer, mergulhando na angstia, no vermelho vivo de seu ardor, de sua brandura.
    Me enlouquecer, nenhuma possibilidade. Mas por que voc quer que eu sofra, por que voc quer que eu me lembre dessas coisas, por que voc toca to lindamente 
quando eu me lembro?
    A vem o mar.
    A dor se aliou  sonolncia; o poema da noite da me, do velho livro: "As flores sadam, as sombras deslizam, uma estrela avana sobre o outeiro."
    A dor estava aliada ao sono.
    A dor estava aliada  sua esplndida msica.
    
    
    
    
    
  
  8
  
  
  Miss Hardy estava na sala de visitas. Althea servia o caf quando entrei.
    - Normalmente, eu jamais pensaria em incomod-la num momento como esse - disse miss Hardy, levantando-se um pouco quando me inclinei para beij-la. Usava um 
vestido cor de pssego, que lhe caa muito bem, e o cabelo prateado fora penteado para trs numa perfeita armao de cachos disciplinados, mas soltos.
    - Voc entende, ele nos pediu. Perguntou especificamente se ns a convidaramos, pois respeita muito voc, seu gosto pela msica e sua gentileza para com ele.
    - Miss Hardy, estou sonolenta e deprimida. Tenha pacincia comigo. Quem  essa pessoa de quem estamos falando?
    - Seu amigo violinista. No imaginei que o conhecesse. Como j falei, pedir-lhe para sair num momento desses  coisa que eu jamais faria, mas ele disse que voc 
gostaria de ir.
    - Mas ir aonde, desculpe, no estou entendendo bem.
    -  capela no outro lado da quadra, hoje  noite. Para o pequeno concerto.
    - Ah! - Eu me recostei. 
    A capela.
    Abalada, vi todos os objetos familiares da capela, como se uma sbita descarga de memria tivesse liberado detalhes at ento irrecuperveis - a capela. Eu a 
vi, no como era agora aps o Concilio Vaticano II e depois de uma reforma radical, mas como fora nos velhos tempos, quando amos juntas  missa. Quando a me nos 
levava pela mo, a Roz e a mim.
    Minha expresso devia ser de perplexidade. Ouvia o canto em latim.
     - Triana, se isso a deixa transtornada, vou simplesmente dizer a ele que  cedo demais para voc sair de casa.
    - Ele vai tocar na capela? - perguntei. - Esta noite. - Balancei a cabea junto com ela para confirmar. - Um pequeno concerto? Um recital, talvez.
    - Sim, em beneficio das obras. Voc sabe como a igreja esta em mau estado. Precisa de uma pintura, precisa de um teto novo. Tudo isso voc sabe. Foi um tanto 
assombroso. Ele simplesmente entrou na sala da Liga de Preservao e disse que estava disposto a fazer aquilo. Dar um concerto e destinar toda a renda  reforma 
do prdio. Nunca tnhamos ouvido falar dele. Mas como toca! S um russo poderia tocar daquele jeito. Alis, diz que  um emigrado. De qualquer forma nunca viveu 
na Rssia, o que  bastante bvio;  o tpico europeu, mas s um russo poderia tocar assim.
    - Como  o nome dele?
    - Achei que o conhecesse - disse ela espantada, baixando o tom da voz, franzindo a testa com preocupao. - Desculpe, Triana. Ele nos disse que voc o conhecia.
    -  verdade, eu o conheo muito bem. Acho maravilhoso que v tocar na capela. Mas no sei como se chama.
    - Stefan Stefanovsky - ela explicou cuidadosamente. - Decorei, escrevi num pedao de papel, soletrei com ele. Nomes russos. - Miss Hardy o repetiu, pronunciando 
de uma forma simples, sem grande esmero, com o acento na primeira slaba de Stefan. Com ou sem violino, o homem tinha um charme indiscutvel. Sobrancelhas negras, 
muito retas de uma ponta  outra, chamando bastante a ateno, e um cabelo excntrico, pelo menos nos dias de hoje, para um msico clssico.
    - Agora tudo est diferente - comentei sorrindo. - Os astros de rock  que so cabeludos; no mais os msicos clssicos, que estranho! O estranho  que quando 
penso em todos os concertos a que assisti, desde o primeiro, com Isaac Stern, s me lembro de ter visto os msicos de cabelos curtos.
    Estava comeando a preocup-la.
    - Estou embevecida - comentei, pondo os pensamentos em ordem. - Ento o acha bonito?
    - Oh, todo mundo desmaiou quando apareceu na porta! Um porte to impressionante. E o timbre da voz! E quando levantou o violino e o arco e comeou a tocar! Achei 
que o trfego l fora tinha parado.
    Ri.
    - O que tocou para ns - disse ela - foi uma coisa muito diferente do que estava tocando... - Interrompeu-se educadamente e baixou os olhos.
    -... na noite em que me encontrou aqui, com Karl - falei.
    - Sim.
    - Era uma bonita msica.
    - Sim, acho que era, mas realmente no pude prestar ateno, digamos assim.
    -  compreensvel.
    Ficou subitamente confusa, em dvida sobre a convenincia ou a sensatez de tudo aquilo.
    - Depois de tocar, falou muito elogiosamente de voc, disse que era
realmente aquela pessoa especial que compreendia sua msica. E falou isto para uma sala cheia de mulheres deslumbradas, de todas as idades, incluindo metade da Liga 
Jnior.
    Eu ria. No apenas para deix-la  vontade. Era a imagem das mulheres, jovens e velhas, as cabeas arrebatadas por aquele fantasma.
    Oh, Deus, mas uma tal virada dos acontecimentos era um choque de arrepiar. Aquele convite.
    -         Hoje  noite a que horas, miss Hardy? - perguntei. - A que horas ele vai tocar? No quero perder.
    Ela me fitou por um momento com um resto de apreenso e ento, com grande alvio, entrou firme nos detalhes.
    Sa para o concerto cinco minutos antes da hora.
    
    
    Obviamente estava escuro, pois naquela poca do ano escurecia s 20:00h, mas no estava chovendo e o vento era uma brisa gostosa, suave, quase quente.
    Atravessei o porto, virei  esquerda na esquina da Third e completei lentamente, pelas lajes rachadas e velhas das caladas, todo o trajeto at a rua Prytania, 
apreciando cada piso estufado, cada buraco, cada ressalto. Meu corao dava pancadas. De fato, mal podia suportar o tamanho de minha ansiedade. As ltimas reduzidas 
horas tinham se arrastado e eu s pensava nele.
    Tinha at me aprontado para ele! Que estupidez. Naturalmente isso s significou vestir uma blusa branca pregueada melhor, mais rendada e com renda mais fina, 
uma saia de seda preta melhor, chegando at os tornozelos, e uma tnica sem mangas, leve, de veludo preto. O melhor uniforme de Triana. Foi s isso que aconteceu. 
Alm do cabelo solto e desembaraado. S isso.
    Um fosco lampio de rua ardia  minha frente quando me aproximei do fim da quadra, tornando a escurido ainda mais opressiva. Pela primeira vez percebi que no 
existia mais nenhum carvalho na esquina da Third com a Prytania!
    Da ltima vez que caminhei por aquele lado da quadra, anos atrs se no estou enganada, parei ali e tenho certeza que havia um carvalho. Lembrei de como brilhava 
 luz da rua, debruado sobre a alta grade de ferro pintada de preto e sobre a grama. Fortes, pesados, negros galhos de carvalho, contorcidos, mas no grossos demais, 
no to pesados a ponto de quebrar.
    Quem lhe fizera aquilo?, perguntei  terra, no meio da rachadura entre as lajotas. Contemplei o ponto exato onde existira o carvalho, mas todas as razes tinham 
desaparecido. S sobrara terra, a inevitvel terra. Quem arrancara aquela rvore que ainda poderia ter sculos de vida?
     frente, seguindo a rua Prytania, os trechos mais baixos do Garden District pareciam escuros, sombrios, desertos, as manses recolhidas, trancadas.
    Mas  minha esquerda, do outro lado da Prytania, as luzes brilhavam diante da capela e ouvi uma mistura muito agradvel de vozes alegres.
    S a capela ocupava aquele terreno de esquina, exatamente como minha casa ocupava o terreno da esquina diametralmente oposta, que dava para a avenida St. Charles 
l longe. Entre os dois havia cerejeiras, carvalhos, bambus e loendros.
    A capela era o andar trreo de uma grande casa, to antiga quanto a minha, mas muito maior e melhor, uma construo infinitamente mais grandiosa, com a alvenaria 
ornamentada de extravagantes e detalhados trabalhos em ferro.
    Com toda a certeza, tivera antigamente o clssico saguo central com salas de estar em ambos os lados, mas tudo fora modificado muito antes de eu nascer. As 
paredes haviam sido derrubadas e o andar transformado num amplo salo, adornado com imagens, pinturas sacras e um magnfico altar branco, encimado por ornamentos 
que lembravam um tabernculo de ouro. O que mais? Nossa Senhora do Perptuo Socorro, um cone russo.
    Era a Santa Bendita para quem tnhamos trazido nossas flores.
    Irnico, sem dvida, mas sem absolutamente qualquer significado.
    Ele sabia,  claro, como eu amava aquele lugar, aquele prdio, o jardim, a cerca, a prpria capela. E sabia tudo sobre os pequenos e murchos punhados de flores 
no parapeito do altar, caules quebrados por nossas mozinhas, pequenos buqus que deixvamos ali durante os passeios que eu, a me e Rosalind fazamos no final da 
tarde, antes da guerra acabar, antes da chegada de Katrinka e de Faye, antes da chegada da bebida. Antes da chegada da Morte. Antes da chegada do Medo. Antes da 
Dor.
    Sabia. Sabia como tinha sido aquele casaro macio, que por fora ainda parecia uma imponente manso, com as amplas varandas acompanhando a fachada, as pequenas 
pilastras de ferro, as duas chamins geminadas, muito retas, fincadas na alta cumeeira do terceiro andar, dentro do inconfundvel padro de Nova Orleans.
    Chamins pairando juntas sob as estrelas. Chamins para lareiras talvez h muito desaparecidas.
    Naquelas salas de cima, minha me freqentara a escola quando criana. E na capela, seu caixo repousara no estrado. Sozinha na capela eu tocara o rgo no escuro, 
nas noites de vero, quando os padres me deixavam permanecer na igreja fechada e no havia ningum por perto. Eu tentava e tentava tocar.
    S o Santssimo Sacramento seria to paciente com os pobres e acidentados fragmentos de msica que eu tocava, os acordes, os hinos que tentava aprender estimulada 
pela vaga esperana de que um dia, se e quando a senhora do rgo permitisse, pudesse toc-los para a igreja cheia. Isso nunca aconteceu porque nunca fiquei hbil 
o bastante e no tive a fibra necessria para correr o risco.
    As senhoras do Garden District sempre usaram chapus muito bonitos para ir  missa. Acho que ns ramos as nicas que usavam lenos de cabea, como camponesas.
    No seria preciso uma morte para me fazer lembrar, um funeral para que eu tratasse com carinho aquela igreja, nem mesmo as doces visitas no crepsculo com flores 
nas mos ou o retrato da me ao lado de algumas outras moas, as poucas formandas na escola secundria daquela poca (cabelo cortado curto e meias brancas, de p 
com seus buqus  esquerda daquela mesma porta).
    Quem j rezou naquela velha igreja e no se lembra dela?
    O velho catolicismo nunca existiu sem o perfume das velas brancas de cera, sem o incenso de que fica para sempre impregnada qualquer igreja onde o clice sagrado 
tenha sido erguido diante dos fiis. E existiam ainda, nas sombras, os santos de rosto amvel, os artfices da dor como Santa Rita com a ferida na testa e a medonha 
jornada de Cristo para o calvrio registrada em estaes nas paredes.
    O rosrio no era uma prece mecnica, mas um canto atravs do qual retratvamos o sofrimento do Cristo. Era a Prece do Silncio, que nos obrigava a ficar quietas 
no banco, a limpar a mente, a deixar que Deus falasse diretamente conosco. Eu sabia de cor o latim do ritual da missa. Entendia o que os hinos queriam dizer.
    Tudo isso fora abolido. Vaticano II.
    Mas ainda era uma capela. Para catlicos que agora rezavam em ingls.
    Depois que ela ganhou seu estilo moderno, s entrei uma vez ali, para um casamento, h trs ou quatro anos. Tudo que me era querido fora eliminado. O Menino 
Jesus de Praga, com sua coroa dourada, no existia mais.
    "Ah, mas voc tem um motivo.  uma honra para mim. Um concerto em meu benefcio, aqui, dentre todos os lugares onde estive antes de assassin-la, antes de assassin-los: 
aqui, reocupando-me com flores no parapeito do altar."
    Sorri para mim mesma, inclinando-me um instante contra a grade. Virei rapidamente a cabea para ver se Lacomb continuava me vigiando. Mandara que ficasse por 
perto. Como todo mundo, eu tinha medo de gente de carne e osso nas ruas escuras.
    Os mortos, sem dvida, s podem nos assustar at encontrarmos um verdadeiro fantasma, um fantasma capaz de tocar uma msica que parea sada da mente de Deus, 
um fantasma que tenha um nome: Stefan.
    - Voc est planejando alguma coisa - sussurrei. Ergui os olhos e imaginei os galhos de carvalho cercando e obscurecendo a luz, s que no aquela luz.
    A luz flua das janelas sem adornos da capela - janelas como as minhas, at o cho, com muitas divises, algumas ainda com os antigos vidros, ondulados, foscos, 
embora no pudesse v-los daqui. Mas sabia que existiam e pensava neles, examinando mentalmente a casa, apreendendo mentalmente o tempo, apreendendo tudo isso para 
ancorar meus pensamentos nos padres familiares daquele espetculo, daquele drama.
    Ento ele ia tocar violino para todos, no ? E eu devia estar l.
    Virei  esquerda na rua Prytania e caminhei para os portes. Miss Hardy e muitas outras damas tpicas do Garden District estavam de p na frente deles para cumprimentar 
os que chegavam.
    Txis paravam. Vi o uniforme extremamente familiar dos policiais que estavam de guarda, pois aquele paraso discreto era agora perigoso demais para os antigos 
moradores do bairro, que de fato tinham vindo para a audio.
    Conhecia alguns nomes, alguns rostos; outros nunca vira; outros, ainda, simplesmente no conseguia identificar. Mas era um pblico razovel, talvez uma centena 
de pessoas, muitos cavalheiros em ternos claros de l e quase todas as mulheres de vestido, estilo sulista, exceto algumas jovens bastante modernas, que usavam roupas 
unissex. Havia um grupo de estudantes, pelo menos era o que pareciam, provavelmente do conservatrio na cidade alta, onde um dia, aos quatorze anos, eu lutara to 
inutilmente para me tornar violinista.
    "Incrvel como a sua fama se espalhou."
    Enquanto pegava a mo de miss Hardy, cumprimentava Renee Freeman e Mayteen Ruggles, espreitei o interior da capela e vi que ele j estava l, a grande atrao.
    A coisa em si, como a brava governanta de Henry James teria dito, sem qualquer escrpulo, de Quint e miss Jessel, a prpria coisa - de p no corredor entre os 
bancos, na frente do altar, que fora pudicamente coberto para a ocasio. Estava limpo, adequadamente vestido, e o cabelo lustroso fora to bem penteado quanto o 
meu. Usava as duas pequenas trancas, amarradas atrs, para evitar que o cabelo lhe casse a toda hora no rosto.
    Estava distante, mas era inconfundvel. Observei como conversava com as pessoas.
    Pela primeira vez... pela primeira vez desde que aquilo comeara, eu pensei: acho que vou perder o juzo, no quero continuar s, no quero estar presente, nem 
consciente, nem viva. No quero. No quero. Ele est l, entre os vivos, exatamente como se fosse um deles, exatamente como se fosse real e estivesse vivo. Conversa 
com os estudantes. Mostra-lhes o violino.
    E meus mortos se foram! Se foram! Que encantamento poderia fazer Lily ressuscitar? Uma histria perversa me veio  cabea, "A Pata do Macaco", de Kipling, os 
trs desejos, no, voc no quer que os mortos voltem, no  isso que voc pede.
    Mas ele atravessou as paredes do meu quarto e depois desapareceu. Eu tinha visto. Era um fantasma. Estava morto.
    Tente olhar para as pessoas vivas, ou comece a gritar.
    Mayteen usava o mais delicioso perfume. Era a mais antiga amiga viva de minha me. Esforcei-me para entender o que dizia. O corao me enchia os ouvidos.
    -... s para tocar um instrumento desses, um verdadeiro Stradivarius.
    Apertei-lhe a mo. Gostava muito do perfume. Era uma fragrncia muito antiga e comum, algo no muito caro, que vinha em frascos rosados. O p-de-arroz tambm 
vinha em floridas caixas cor-de-rosa.
    Minha cabea zumbia com o som do corao. Articulei uma ou duas palavras, to simples e ligeiras quanto as que algum sofrendo de amnsia conseguiria evocar, 
depois subi apressada os degraus de mrmore, sempre escorregadios quando chovia. Penetrei na desagradvel luminosidade da moderna capela.
    Esquea os detalhes.
    Sou uma pessoa que sempre senta na primeira fila. O que estava fazendo naquele momento, indo para o ltimo banco?
    Mas no consegui chegar mais perto. O lugar era pequeno, realmente muito pequeno, e daquela ponta do ltimo banco podia ser visto perfeitamente.
    Ele se curvou para a mulher a seu lado, sua parceira na conversa (que tipo de coisas dizem os fantasmas em momentos assim?), e estendeu o violino para as moas 
examinarem. Vi o brilho forte e o ressalto do encaixe nas costas do instrumento. Mostrou o violino, mas em nenhum momento chegou a solt-lo, nem a ele nem ao arco. 
No me viu quando me deixei cair no banco de carvalho e me recostei. Olhava para ele.
    As pessoas se agitavam. Fiz diversos acenos de cabea para os que murmuravam cumprimentos. Nada ouvia do que diziam.
    "Voc est aqui, entre os vivos, to slido quanto eles, e eles vo escut-lo."
    De repente, quase sem mover a cabea, ele ergueu os olhos e me encarou.
    "Outros sempre me viram e ouviram."
    Inmeros vultos se mexiam entre ns. O pequeno salo estava quase cheio. Os dois porteiros da igreja estavam l atrs, ao lado de cadeiras que podiam usar se 
quisessem.
    As luzes eram foscas. Um nico mas bem situado spot envolvia o violinista numa nvoa poeirenta, embaada. Mas com que esmero ele se vestira, como era branca 
a camisa, como era limpo o cabelo que as trancas prendiam nas costas - tudo to natural.
    Miss Hardy ficara de p. Disse rpidas palavras de explicao e apresentao.
    Ele permanecia calmo, senhor de si. Entre o formalismo das roupas, de modo um tanto imprevisto, destacava-se um casaco que podia ter duzentos anos ou podia ter 
sido feito na vspera, comprido, um tanto moldado demais a seu corpo. Usava tambm, sobre a camisa branca, uma gravata num tom pastel. No tive certeza se era violeta 
ou cinza.
    Estava vistoso, sem dvida. "Voc est insana", sussurrei para mim mesma, quase nem mexendo os lbios. "Quer um fantasma bem-nascido, sado das novelas, saturado 
de boa carga de romance. Voc sonha."
    Tinha vontade de cobrir o rosto. Tinha vontade de ir embora. E de nunca sair dali. Tinha vontade ao mesmo tempo de ficar ali e correr. Tive vontade, pelo menos, 
de tirar alguma coisa da bolsa, um leno de papel, por exemplo, algo que ajudasse a amortecer a fora de tudo aquilo, mais ou menos como quando se tapa os olhos 
com as mos no meio de um filme e se fica vendo entre a veneziana dos dedos.
    Mas no conseguia me mexer.
    Que porte admirvel! Agradeceu s palavras de miss Hardy e agradeceu a todos ns. Num tom enftico, mas sereno e de todo compreensvel. Era a voz que eu ouvira 
no meu quarto, a voz de um homem jovem. Aparentava a metade de minha idade.
    Aproximou o instrumento do queixo e ergueu o arco. Houve uma palpitao no ar. Mas ningum se moveu, tossiu ou amarrotou um programa.
    Imaginei deliberadamente o mar azul, o mar azul do sonho e os fantasmas danantes; vi-os, fechei os olhos e vi o radiante mar sob a lua invisvel, mas muito 
prxima, e os braos da terra se estendendo na distncia.
    Abri os olhos.
    Ele havia parado. E me olhava fixamente.
    Acho que as pessoas no sabiam o que significava aquela sua expresso, em que direo ele olhava ou por qu. Tinha a seu favor toda a liberdade que a excentricidade 
permite. E era um violinista to lindo de se ver; lindo, lindo, esguio e majestoso como Lev havia sido, sim, de nenhum modo diferente de Lev, apesar do cabelo to 
preto, dos olhos to pretos; Lev, como Katrinka, era louro. Os filhos de Lev eram louros.
    Fechei os olhos. Maldio, perdera a imagem do mar e, quando ele comeou a tocar, vi aquelas velhas coisas horrveis e triviais. Virei-me ligeiramente para o 
lado. Algum tocou em minha mo, como num gesto de solidariedade.
    Uma viva, uma louca, pensei de forma plenamente consciente. Ficou fechada dois dias com um cadver em casa. Todos certamente sabiam. Em Nova Orleans, todos 
sabem de qualquer coisa que valha a pena, e algo to curioso com toda a probabilidade valia a pena.
    Ento a msica adquiriu um andamento rpido.
    O arco desceu e foi imediatamente para o rico mistrio das cordas mais graves, para o tom menor, para uma sugesto de coisas temidas a vir. O som era to refinado 
e to controlado, o diapaso to perfeito, o ritmo to espontneo que no pude pensar em mais nada, em absolutamente mais nada.
    No havia necessidade de lgrimas, tambm no havia necessidade de cont-las. S havia o desdobrar exuberante daquela melodia.
    Ento vi o rosto de Lily. Um pulo de 20 anos. Lily deitada na cama,  morte, naquele exato momento.
    - Mame, no chore, voc est me assustando.
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
  
  9
  
  
 Despachei velozmente a imagem. Abri os olhos e deixei-os vagar pelo reboco, que descascava no teto daquele lugar semi-abandonado, pelas medocres decoraes de 
metal, to modernas e to ostensivamente inexpressivas. Percebi estar, naquele momento, no meio do combate, enquanto era inundada de msica e a voz de Lily chegava 
bem a meu ouvido, entrelaada com a msica, fazendo parte dela.
    Olhei-o diretamente e s pensei nele. Concentrei-me, recusei-me a pensar em qualquer outra coisa. Ele no conseguia parar de tocar. Sem dvida estava eletrizado, 
brilhava. O som, parecendo solto, relaxado, mas sob estrito controle, ultrapassava qualquer descrio. O timbre era pungente.
    Sim, era o concerto de Tchaikovsky que eu sabia de cor graas a meus discos. Fizera um arranjo das partes orquestrais e o transformara numa exuberante pea para 
solista, com o forte tema solo e todas as demais linhas meldicas perfeitamente equilibradas.
    Msica de cortar os pulsos.
    Procurei respirar devagar, procurei relaxar e no apertar as mos.
    De repente algo se alterou. De modo radical, como quando o sol vai para trs de uma nuvem. S que era de noite e foi dentro da capela.
    Os santos! Os velhos santos estavam de volta. O velho cenrio de 30 anos atrs me cercava.
    O banco era antigo, escuro, com um brao que se curvava em espiral sob os dedos de minha mo esquerda e l na frente, no alto, ficava o venervel altar tradicional, 
com as figuras da ltima Ceia gravadas e pintadas na ntegra na parte de baixo e dispostas em sua redoma de vidro.
    Detestei aquele homem. Por causa disso, porque no podia parar de olhar para aqueles santos perdidos, para o Menino Jesus de Praga pintado em gesso e segurando 
o pequenino globo, para as velhas e empoeiradas mas vibrantes imagens do Cristo descendo com a cruz por um dos lados da sala e subindo com ela pelo lado oposto, 
entre aquelas janelas no escuro.
    "Voc  cruel"
    E era isso que elas eram, aquelas janelas de noite - escuras, cheias de um roxo palidamente azulado, e ele surgia no meio de sombras macias, e o antigo parapeito 
de comunho, cheio de ornamentos, embora tivesse sido removido, como todo o resto, h muito tempo, cruzava na sua frente. Ele surgia no meio daquela perfeita reapresentao 
de tudo que eu conhecera, mas que jamais teria conseguido lembrar em detalhe um momento antes!
    Estava trespassada. Cravei os olhos na imagem de Nossa Senhora do Perptuo Socorro, suspensa atrs dele sobre o altar, sobre o resplandecente tabernculo dourado. 
Santos, cheiro de cera. Vi as velas em redomas vermelhas. Vi tudo. Senti o cheiro, a cera e de novo o incenso, e ele continuava tocando, fazendo variaes em torno 
do concerto, mergulhando na msica o corpo delgado e arrancando suspiros do pblico que o escutava. Mas quem eram eles?
    "Isso  o mal. E bonito, mas  o mal, porque  cruel."
    Fechei e abri os olhos. Ver o que est aqui e agora! Consegui por um instante.
    Ento o vu tornou a descer. A me! Ele ia traz-la de volta? A me viria para atravessar comigo e Rosalind, com aquela antiquada sensao de segurana, a nave 
da sombria capela do final da tarde? No, a memria passa por cima de suas invenes.
    A memria era nociva demais, terrvel demais. No era a lembrana da me nos bons tempos, aqui neste lugar sagrado, antes que se envenenasse como a me de Hamlet. 
No. Era a memria de sua embriaguez, de v-la deitada num colcho em chamas, a cabea a poucos centmetros do buraco que ardia. Era o que eu via, eu e Rosalind 
correndo de um lado para o outro com panelas d'gua, e Katrinka, to bonita, cachos amarelos, olhos enormes, azuis, com trs anos de idade, encarando a me em silncio 
enquanto o quarto se enchia de fumaa.
    "Dessa voc no escapa."
    Ele estava mergulhado no concerto. Enchi conscientemente a capela de luzes e imaginei a audincia at ela se converter, como devia, num grupo de gente conhecida. 
Fiz isso e olhei fixamente para ele, mas ele era forte demais para eu tentar qualquer coisa.
    Eu era mentalmente uma criana, aproximando-me do parapeito do altar: "Mas o que fazem com nossas flores depois que vamos embora?", Rosalind queria acender uma 
vela.
    Fiquei em p.
    O pblico estava hipnotizado, estava submetido de forma to completa a seu domnio que passei despercebida. Afastei-me do banco, dei as costas para ele, desci 
a escada de mrmore e caminhei para a rua, para longe daquela msica que no dava trgua, que se tornava cada vez mais fogosa, fogosa, como se ele achasse que podia 
me fazer arder, maldito seja!
    Lacomb, segurando o cigarro, acordou de sua boa vida ao lado do porto e fomos andando quase lado a lado, cruzando rapidamente as lajes das caladas. Eu ainda 
podia ouvir a msica. Procurei olhar atentamente para o cho, mas, quando minha mente se distraa, via de novo aquele mar, aquela espuma. Podia v-lo em bruscas 
arrebentaes de um colorido selvagem; e agora eu ouvia o mar.
    Enquanto caminhava, ouvia o mar e via o mar e via a rua em minha frente.
    -        Devagar, patroa. A senhora d um passo em falso e quebra meu pescoo! - alertou Lacomb.
    Um cheiro to limpo. O mar e o vento juntos fabricando o aroma mais fino, o mais puro, ainda que tudo que se esconde sob a superfcie do mar possa desprender 
o fedor da morte se for dragado para um banco de areia.
    Eu andava cada vez mais depressa, observando cuidadosamente as lajes quebradas e o mato crescendo entre elas.
    Vi as luzes de minha casa, graas a Deus, mas no havia porto aberto na frente da garagem. O porto de minha me se fora, sumira, o velho porto de madeira 
pintado de verde, preso no arco de alvenaria, por onde ela passara direto para a morte.
    Fiquei sem ao. Ainda podia ouvir a msica, mas muito distante, ajustada para os ouvidos humanos que se encontravam perto do violino. Ele parecia obrigado a 
satisfaz-los devido a algum imperativo de sua natureza. Era timo saber disso e seria ainda mais interessante descobrir que imperativo era esse.
    Entramos na avenida e alcanamos o porto da frente. Lacomb abriu-o e segurou-o para que eu passasse, pois era um porto pesado que sempre caa para a frente, 
que podia bater na pessoa e derrub-la na calada. Nova Orleans tem averso aos fios de prumo.
    Subi a escada e entrei na casa. Lacomb devia ter aberto a porta, mas eu no tinha reparado. Disse a ele que ficaria ouvindo msica na sala da frente. Tranque 
todas as portas!
    Lacomb conhecia o ritual.
    - No gosta de seu amigo l do outro lado? - perguntou num tom grave, as palavras se misturando como calda. Demorei um instante para interpret-las.
    - Gosto mais de Beethoven - respondi.
    Mas a musica dele passava como um assobio traves das paredes. Agora no tinha eloqncia, no tinha qualquer significado imperioso. Era como o zumbir das abelhas 
num cemitrio.
    As portas que davam para a sala de jantar estavam fechadas. As portas que davam para o vestbulo estavam fechadas. Dedilhei os discos que tinham sido colocados 
em perfeita ordem alfabtica.
    Solti, a Nona de Beethoven, Segundo Movimento.
    Num instante eu o tinha no aparelho e os tmpanos tinham-no trazido integralmente  tona. Coloquei o volume bem alto, como convinha, e l estava a marcha familiar, 
a caminhada. Beethoven, meu capito, meu anjo da guarda.
    Deitei-me no cho.
    Os lustres das salas de estar eram pequenos, sem ornamentos dourados como os Baccarat do vestbulo e da sala de jantar. Tinham somente vidro e cristal. Era gostoso 
deitar no cho limpo e contemplar o lustre, que tinha apenas os globos foscos das lmpadas.
    A msica os apagava. E a marcha, sem descanso, prosseguia. Bati no boto que fazia o aparelho repetir, mas repetir s aquela faixa do disco. Fechei os olhos.
    Do que voc quer se lembrar? Trivialidades, bobagens, coisas engraadas.
    Nos anos de minha juventude, a msica me fazia sempre sonhar acordada; cada uma delas sempre me inspirava um certo feixe de imagens! Via pessoas, coisas, situaes 
e quase chegava a participar de brigas imaginrias.
    Agora no; agora  apenas a msica, o ritmo arrebatador da msica e um vago apego  idia de escalar a eterna montanha na eterna floresta, mas no uma viso. 
E a salvo dentro daquela melodia retumbante, insistente, fechei os olhos.
    No demorou muito tempo.
    Talvez eu tenha ficado deitada ali uma hora.
    Atravessou facilmente as portas trancadas e se materializou de imediato. As portas tremiam atrs dele, o belo violino e o arco estavam entulhados na sua mo 
esquerda.
    - Voc me virou as costas! - exclamou.
    A voz se ergueu sobre o som de Beethoven. Ento ele caminhou em minha direo com passos barulhentos, ameaadores. Eu me apoiei nos cotovelos e me sentei. Minha 
viso estava embaada. A luz brilhava na testa dele, nas sobrancelhas pretas, bem arrumadas, to ntidas em seu traado reto, e ele me encarava, baixando e estreitando 
os olhos, mas no parecendo, talvez, mais hostil que qualquer outra criatura que eu j tivesse visto.
    A musica marchava sobre ele e sobre mim.
    Foi ento que deu um coice no aparelho. A msica tropeou e roncou. Ele arrancou o fio da tomada.
    - Ah, esperto! - resmunguei, antes que o silncio viesse. Mal pude
esconder o sorriso de triunfo.
    Ele estava ofegante, como se tivesse corrido. Ou seria apenas o esforo de se materializar, de tocar para uma platia, de passar invisvel pelas paredes, de 
se apresentar com vida em lgubre e ardente esplendor?
    -         isso - falou num tom de desprezo e rancor, me observando, o cabelo caindo negro e liso de ambos os lados. As duas pequenas tranas haviam sido desatadas 
e agora se misturavam com as madeixas mais compridas, soltas, brilhantes.
    Caiu sobre mim com toda sua capacidade de assustar, mas s conseguiu evocar a beleza de um velho ator, de nariz pontudo e olhos enfeitiantes. Tinha a beleza 
dark de Lawrence Olivier de muitos anos atrs, numa pea filmada de Shakespeare. Olivier como o rei Ricardo III, corcunda, desfigurado, mau. Irresistvel (truque 
fascinante do retrato) ser ao mesmo tempo bonito e feio.
    Um filme antigo, um amor antigo, um velho poema para nunca ser esquecido. Achei graa.
    - No sou corcunda e no estou desfigurado! - disse ele. - E no estou encarnando um personagem! Estou aqui, em carne e osso!
    - Assim parece! - respondi. Sentei direito, puxando a saia para baixo dos joelhos.
    - Parece? - e usou a fala de Hamlet para zombar de mim: - No parece, senhora, ! O que "parece" no me interessa.
    - Voc se sobrecarrega - retruquei. - Seu talento  para a msica. No se obrigue ao desespero! - usei palavras mais ou menos da mesma pea.
    Segurei na mesa para me apoiar e fiquei de p. Ele se aproximou como uma tempestade. Quase recuei, mas me agarrei firme na mesa sem deixar de encar-lo.
    - Fantasma! - exclamei. - Tinha um mundo inteiro vivo olhando para voc! O que est fazendo aqui se pode ter tudo aquilo? Todos aqueles ouvidos e olhos.
    - No me irrite, Triana!
    - Oh, ento sabe meu nome!
    - Da mesma maneira como voc sabe. - Virou-se para a esquerda, depois para direita. Aproximou-se das janelas, da eterna dana luminosa do trfego atrs dos pssaros 
de renda.
    - No vou mand-lo embora.
    Anda de costas, levantou a cabea.
    - Sou uma pessoa sombria demais para voc! Solitria demais! - confessei. - Quando era jovem, acho que ia gritar e sair correndo se visse um fantasma. Gritar 
e sair correndo! Acreditaria na coisa com a superstio integral de um corao catlico. Mas hoje?
    Ele s escutava.
    Minhas mos tremiam muito. O que era inadmissvel. Puxei uma cadeira. Sentei e me recostei. Havia um crculo embaado no verniz da mesa, reflexo do lustre, e 
cadeiras em volta, com os braos estilo Chippendale, cuidadosamente arrumadas.
    -        Hoje estou ansiosa demais - continuei -, desesperada demais, distrada demais. - Tentei manter a firmeza na voz, mas sem aspereza. - Nem sei o que dizer. 
Sente-se aqui! Sente-se, pouse o violino e me diga o que est querendo. Por que se aproximou de mim?
    Ele no respondeu.
    -        Voc sabe o que voc ? - perguntei.
    Ele se virou, furioso, e chegou perto da mesa. Sim, tinha o mesmo magnetismo de Olivier naquele filme antigo, a pele esbranquiada, os contrastes sombrios, o 
empenho no mal. Tinha a mesma boca comprida, s que mais grossa!
    - Pare de pensar nesse outro homem! - ele resmungou.
    -  um filme, uma imagem.
    - Sei o que , acha que sou bobo? Olhe para mim. Estou aqui! O filme  velho, seu criador morreu, o ator morreu,  p, mas eu sou real.
    - Sei o que voc , no esquea.
    - Diga-me o qu, exatamente. No acha melhor? - virou a cabea para o lado, mordeu um pouco o lbio e segurou com ambas as mos o arco e o brao do violino.
    No estava a mais que dois ou trs metros de distncia. Pude observar melhor a madeira e como fora ricamente laqueada. Stradivarius. Disseram essa palavra na 
capela e l estava ele com o instrumento sagrado e sinistro, segurando-o com naturalidade, deixando a luz atingi-lo e correr para cima e para baixo em suas curvas 
- como se a coisa fosse real.
    -        Sim? - insinuou. - Quer encostar a mo nele ou s ouvir? Sabe muitssimo bem que no  capaz de toc-lo. Mesmo um Strad no conseguiria remediar a infmia 
dos seus erros! Se voc tentasse, acho que o faria guinchar ou se estilhaar com a afronta.
    - Quer que eu...
    - Nem pensar - respondeu. - S quis faz-la lembrar que no possui qualquer dom para um violino. S uma nsia, uma cobia.
    - Uma cobia, ser? Era cobia o que voc queria implantar nas almas daqueles que o escutavam na capela? Era cobia o que estava querendo incitar e alimentar? 
Acha que Beethoven...
    - No fale nele.
    - Quero e vou falar. Acha que foi a cobia que forjou...
    Ele chegou at a mesa, passou o violino para a mo esquerda e pousou a mo direita o mais perto possvel de mim. Achei que o cabelo comprido, caindo de um lado 
para o outro, tocaria meu rosto. As roupas no pareciam ter qualquer aroma, nem mesmo o cheiro de p.
    Engoli em seco e minha viso ficou turva. Botes, a gravata violeta, o brilho do violino. Tudo era fantasmagrico, as roupas, o instrumento.
    - Quanto a isso, voc tem razo. Mas o que eu sou? Qual foi seu piedoso julgamento a meu respeito? Estava  beira de ser pronunciado quando a interrompi...
    - Voc  como um homem doente - disse eu. - Precisa de mim no sofrimento!
    - Sua puta! - xingou, recuando.
    - Oh, isso eu nunca fui - repliquei. - Nunca tive coragem. Mas voc est doente e precisa de mim.  como Karl.  como Lily no fim, embora s Deus saiba... - 
Me interrompi, transtornada. -  como meu pai  beira da morte. Precisa de mim. Seu tormento quer ter uma testemunha em mim. Est impaciente e vido por isso, no 
? Ansioso como qualquer ser humano que esteja morrendo, exceto, talvez, nos momentos finais, quando o moribundo se esquece de tudo e v coisas que no podemos ver...
    - O que a faz pensar que  assim?
    - No foi assim com voc? - perguntei.
    - Eu nunca morri, pelo menos nesse sentido. No preciso explicar, voc sabe. Nunca vi luzes reconfortantes nem ouvi o canto dos anjos. Ouvi tiros, gritos e palavres!
    - Foi desse jeito? - perguntei. - Devia ter uma vida muito irregular para participar de um drama desses, no acha?
    Ele recuou, como se tivesse aberto demais as defesas.
    - Sente-se - falei. - Como sabe, fiquei ao lado de muitos leitos de morte. Foi por isso que me escolheu. Talvez esteja disposto a encerrar sua breve perambulao 
como fantasma.
    - No estou morrendo, minha senhora! - declarou, puxando uma cadeira e sentando-se  minha frente. - Fico mais forte a cada minuto, a cada hora, a cada ano.
    Afundou na cadeira. O que ps mais de um metro de madeira envernizada entre ns.
    Estava de costas para o pisca-pisca das luzes do trfego nas cortinas da janela, mas a nvoa fosca do lustre mostrava bem o seu rosto, jovem demais para ser 
um rei cruel em qualquer espetculo e, pelo menos naquele momento, magoado demais para que pudesse ser apreciado com prazer.
    Mas no desviei o olhar.
    Eu contemplava. Ele mostrava.
    -        E a? - indaguei.
    Acho que engoliu em seco exatamente como um ser humano, depois mastigou novamente o lbio e acabou apertando disciplinadamente um lbio contra o outro.
    - Estamos num dueto - respondeu.
    - Estou vendo.
    - Eu toco e voc escuta. A voc sofre, perde a cabea ou toma qualquer outra providncia que minha msica obrigue voc a tomar. Vira uma imbecil, por exemplo. 
Fica louca como Oflia na sua pea favorita. Pira como o prprio Hamlet. Para mim tanto faz.
    - Mas  um duo.
    - Sim, sim, voc acertou com a palavra, um duo, uma dupla, no um dueto, pois s eu  que toco.
    - No  bem assim. Voc sabe muito bem que eu alimento a coisa. Na capela, fez a festa escorado em mim e em todos que estavam l. Mas s os outros no seriam 
suficientes. Voc se voltava sempre para mim e, de uma forma cruel, trazia imagens que no significavam absolutamente nada para voc, mas que rasgavam meu corao. 
Em seu desejo de provocar sofrimento, fazia isso com a displicncia de um criminoso comum e ignorante. Um sofrimento sobre o qual voc nada sabe, mas de que precisa. 
 um dueto assim como um duo.  essa coisa,  msica feita por dois.
    - Meu Deus, mas voc tem lbia, no ? Mesmo que seja, e sempre tenha sido, uma idiota musical e goste de nadar nas guas profundas do talento das outras pessoas. 
Chafurdando no cho com o Pequeno Gnio, e com o maestro e com aquele manaco russo, Tchaikovsky. E como voc se alimenta da morte, sim,  isso,  isso que faz, 
sabe muito bem que  isso. Precisava de todas elas, de todas aquelas mortes, como precisava!
    Estava verdadeiramente arrebatado, me olhando fixamente, deixando, nos momentos certos, perfeitos, os olhos fundos se alargarem para enfatizar as palavras. Era 
ou tinha sido muito mais jovem que Olivier como Ricardo III.
    -        No seja to estpido - repliquei calmamente. - A estupidez no fica bem num ser que no tem a mortalidade como desculpa. Aprendi a conviver com a morte, 
a sentir-lhe o cheiro, a suport-la, a limp-la depois de seu lento progresso, mas nunca precisei dela. Minha vida podia ter sido uma coisa bem diferente. Eu no...
    Mas no fora eu quem a ferira? Acho que era a pura verdade. A me tinha morrido em minhas mos. No podia ir agora l fora e impedi-la de sair por um porto 
lateral que no existia. No podia dizer: "Olhe, pai, a gente no pode fazer isso, temos de lev-la para o hospital, temos de ficar ao lado dela, voc e Roz vo 
com a Trink e eu fico com a me..." E para que faria isso? Ela podia fugir do hospital como j tinha feito antes, conversando direito com as pessoas, dando a impresso 
de estar lcida e equilibrada, jogando um pouco de charme. Logo estaria de volta para ficar novamente deitada em estado de letargia, para cair de novo em cima do 
aquecedor, dar um talho na cabea e fazer o sangue se espalhar numa poa no cho.
    Meu pai falou: "J ps fogo na cama duas vezes, no podemos ficar com ela aqui..." Ento foi isso? "Katrinka est doente, vai entrar agora na sala de cirurgia, 
preciso de voc!"
    De mim?
    E o que eu queria? Que a me morresse, que aquilo acabasse logo - sua doena, seu sofrimento, sua humilhao, sua angstia. Ela estava chorando.
    - No conte comigo! - Tremi dos ps  cabea. - O que est fazendo  baixo e perverso. No invada minha mente com coisas de que voc no precisa.
    - Elas esto sempre pairando em sua percepo - sorriu. Parecia to esplendidamente, to ostensivamente jovem, solto e exuberante. Sem dvida teria sido golpeado 
em plena juventude.
    - Isso  bobagem - continuou, me olhando irritado. - Morri h tanto tempo que no h mais nada jovem dentro de mim. Me transformei nesta coisa, como voc, que 
no conseguiu suportar a graa nem a elegncia do que estava vendo, me descreveu mentalmente no incio da noite. Eu me converti nesta coisa, nesta abominao, neste 
esprito, quando seu guardio, seu grandioso maestro sinfnico, era vivo e era meu professor.
    - No acredito. Voc fala de Beethoven.  detestvel.
    - Foi meu professor! - Estava furioso. E falava srio.
    - Foi isso que o aproximou de mim, meu amor a Beethoven?
    - No, no preciso que goste de Beethoven, que chore a morte de seu marido ou desenterre sua filha. E vou apertar o pescoo do maestro. Antes que nossa histria 
termine, vou apertar o pescoo do maestro at voc no conseguir mais ouvi-lo. Nem atravs de uma mquina, nem atravs da memria, nem atravs dos sonhos.
    - Oh, que nobreza! Ser que gostou tanto dele quanto gosta de mim?
    - S quis deixar claro que no sou jovem. No falar dele em minha frente com qualquer superioridade possessiva, mas no vou lhe dizer de quem eu gostava ou 
no.
    - Bravo! - exclamei. - Quando parou de aprender, quando se livrou da carne? Seu crebro continuou tapado mesmo quando se transformou num crnio de fantasma?
    Recostou-se na cadeira. Estava assombrado.
    E eu tambm, pelo menos um pouco. Meus improvisos freqentemente me assustavam. Era por isso que estava h anos e anos sem beber.
    Quando bebia costumava falar coisas assim. Agora nem lembrava mais do gosto do vinho ou da cerveja, e no precisava disso. Precisava era da conscincia. Mesmo 
nos sonhos claros, sonhos onde eu apenas perambulava, como no sonho do palcio de mrmore, tinha necessidade de saber, dentro do prprio sonho, que estava sonhando. 
Para continuar sonhando, no melhor dos dois mundos.
    - O que voc quer que eu faa? - perguntou.
    Levantei a cabea. Estava vendo outras coisas, outros lugares. Fixei os olhos no rosto dele. Parecia to slido quanto qualquer coisa na sala, embora integralmente 
animado, cativante, cobivel, admirvel.
    - O que eu quero que voc faa? - tambm perguntei, em tom zombeteiro. - E o que significa isso, o que eu quero?
    - Disse que era solitria demais para mim. Bem, sou a mesma coisa para voc. Mas posso deix-la. Posso ir embora... 
    - No.
    - No pensei em fazer isso - retrucou com um pequeno brilho no sorriso, que se apagou de imediato. Parecia de repente muito srio, com olhos que se alargavam 
quando se descontraam. As sobrancelhas eram perfeitas, muito negras, seguindo retas at a ponta, o que lhe concedia um belo ar de comando.
    - Tudo bem, voc se aproximou de mim - falei. - Como alguma coisa que eu tivesse evocado. Como a meta que um dia desejei de todo o corao atingir, violinista. 
Talvez o nico objetivo que eu tenha procurado alcanar com todas as foras. Voc veio. Mas no  uma criao minha. Veio de um lugar qualquer: vido, ansioso, carente. 
Est furioso porque no pode me fazer perder a cabea, porque est sendo atrado para a prpria complexidade que o derrota.
    - Admito isso.
    - Bem, o que acha que vai acontecer se persistir? Acha que vou deixar voc me enfeitiar e me arrastar para cada tmulo que salpiquei de flores? Acha que vou 
deix-lo jogar fora, abertamente, na minha cara, o marido que perdi, Lev? Oh, sei como tem instigado meus pensamentos na direo dele, principalmente nestas ltimas 
horas. Como se estivesse to morto quanto todos os outros, meu Lev, ele e a esposa, Chelsea, e os filhos. Acha que vou permitir isto? Pode estar certo que vai enfrentar 
uma luta terrvel. E v se preparando para perder.
    - Podia ter conservado Lev - ele respondeu suavemente, pensativo. - Era orgulhosa demais. No podia deixar de dizer: "Sim, case com Chelsea." No podia ser trada. 
Tinha de ser complacente e um exemplo de renncia.
    - Chelsea estava carregando um filho dele.
    - Chelsea quis matar a criana.
    - No, no quis, e Lev tambm no. Nossa filha j morrera, Lev queria aquele filho, e queria Chelsea e Chelsea queria Lev.
    - Ento, orgulhosamente, voc entregou o homem que amara desde garoto e sentiu-se a vencedora, a controladora, a diretora do espetculo.
    - E da? - exclamei. - Ele se foi.  feliz. Tem trs filhos, um muito alto e louro e um par de gmeos. Esto espalhados em retratos por toda a casa. No viu 
no quarto?
    - Vi. Vi tambm no vestbulo, junto da velha foto em spia de sua santa me, quando ela era uma bonita garota de 13 anos, com o buqu da formatura na escola 
e o peito ainda liso.
    - Tudo bem, ento estamos de acordo, no ? No quero que faa isso comigo.
    Ele se virou para o lado. Deixou escapar um breve resmungo. Tirou o violino do colo e pousou-o de costas na mesa, com muito cuidado, o arco ao lado. Segurou 
o brao do violino com a mo esquerda. Seus olhos se ergueram devagar at o quadro das flores na parede acima do sof, presente de Lev, meu marido, poeta, pintor 
(o quadro era dele) e pai de um filho alto e de olhos azuis.
    - No, no vou pensar nisso - falei.
    Fitei o violino. Um Stradivarius? Beethoven seu professor?
    - No zombe de mim, Triana! Foi mesmo, e Mozart tambm, quando
eu era muito novo, um menininho, por isso no me lembro bem dele. Mas o maestro foi realmente meu professor!
    Seu rosto ficou muito vermelho e ele prosseguiu:
    - No sabe nada a meu respeito. No sabe nada do mundo de onde fui arrancado. As bibliotecas esto cheias de estudos sobre esse mundo, seus compositores, pintores, 
construtores de palcios, sim, e nesses estudos no h de faltar o nome de meu pai, patrono das artes, generoso patrono do Maestro e sim, o Maestro foi meu professor.
    Ele se interrompeu e tirou os olhos de mim.
    - Ah, por isso eu tenho de sofrer e recordar, mas voc no - falei. - Estou entendendo. Gosta de se gabar como os homens costumam fazer.
    - No, no est entendendo nada. Voc  tudo que eu quero, voc dentre todas as pessoas, voc que cultua esses nomes, Mozart, Beethoven, como deuses domsticos. 
Quero que saiba que os conheci! No sei onde esto agora, mas eu estou aqui, a seu lado!
    - Sim, as coisas esto claras para ns dois, mas e da? Sabe que pode me pegar desprevenida milhares de vezes, mas no vou mais entrar de cabea no jogo. Sei 
que quando sonho, com o mar, com a arrebentao das ondas, sonho o que voc...
    - No vamos falar disso, desse sonho.
    - E por qu? Porque  uma entrada para seu mundo?
    - No tenho mundo. Estou perdido no seu.
    - Teve um, tem uma histria, tem uma srie de eventos encadeados atrs de voc, seguindo seu rastro, no  verdade? Sei que o sonho veio de voc porque nunca 
vi aqueles lugares.
    Ele bateu na mesa com os dedos da mo direita e curvou a cabea, pensando.
    - Deve lembrar - comentou com malcia, levantando um sorriso, embora fosse muito mais alto, deixando s sobrancelhas a tarefa de serem ameaadoras, enquanto 
a voz era inocente e a boca doce -, deve lembrar que teve uma amiga chamada Susan depois da morte de sua filha.
    - Tive muitas amigas aps a morte de minha filha, boas amigas, e na realidade quatro delas se chamavam Susan, Suzanne ou Sue. Houve a Susan Mandei, que foi minha 
colega de escola, a Susie Ryder, que veio me consolar e acabou se tornando uma grande aliada, houve a Suzanne Clark...
    - No, nenhuma dessas.  verdade o que est dizendo, muitas vezes pde agrupar suas amigas em grupos de nomes. Est lembrada das Annes de seus anos de faculdade? 
Eram trs, e como achavam engraado que voc se chamasse Triana, o que significava trs Annes. Mas no quero falar sobre elas.
    - Por que ia querer? Essas recordaes so todas agradveis.
    - Ento onde esto elas agora, tantas amigas, especialmente a quarta... Susan?
    - Est me tirando de foco.
    - No senhora, tenho voc guardada comigo - retrucou, com um sorriso franco. - To apertada como quando estou tocando.
    - Sensacional! Voc conhece essa palavra antiga?
    -  claro.
    -  isso o que voc , produzindo todas essas ardentes sensaes dentro de mim! Vamos l, por que no conversamos direito? A que Susan est se referindo, no 
consigo...
    -  Aquela do sul, a de cabelo ruivo, aquela que conheceu Lily...
    - Oh, essa Susan era amiga de Lily. Morava no apartamento de cima e tinha uma filha da idade de Lily, ela...
    - Por que no conversa com naturalidade sobre o assunto? Ser que isso a faria perder a cabea? Por que no me conta? Essa mulher gostava muito de Lily. Lily 
gostava de ir para o apartamento dela, sentar a seu lado e desenhar. E essa mulher, essa mulher lhe escreveu anos depois da morte de Lily, quando voc j estava 
aqui, em Nova Orleans; e essa tal de Susan, que gostava tanto de sua filha, essa Susan disse a voc que Lily tinha renascido, reencarnado, est lembrada?
    - Vagamente. Mas  melhor pensar nisso do que na poca em que as duas se encontravam, pois uma est morta. Achei a carta absurda. As pessoas nascem de novo? 
Vai me contar os segredos?
    - Nunca; mesmo porque no sei. Minha existncia  uma contnua estratgia. Sei apenas que estou aqui, aqui e aqui, e isso nunca termina. Aqueles que eu amo ou 
que passo a odiar, todos morrem, mas eu fico. Isso  o que sei. E jamais o brilho de uma alma pulou em minha frente declarando ser a reencarnao de algum que tenha 
me ferido, que tenha me ferido...!
    - Continue, estou ouvindo.
    - Est lembrada do que esta Susan escreveu?
    - Sim, que Lily nascera de novo em outro pas. Ah! - parei, chocada. - Foi isso que me fez ver no sonho, um pas onde nunca estive, mas onde Lily est?  nisso 
que voc quer que eu acredite?
    - No, s quero atirar na sua cara que voc nunca se deu ao trabalho de procur-la.
    - Oh, mais uma diabrura, voc tem um timo repertrio. Quem o feriu? Quem apertava os gatilhos das armas que ouviu quando morreu? No vai me contar?
    - Incrvel o modo como Lev lhe falou das mulheres, de como era consolado por uma garota atrs da outra durante a doena de Lily. Ele, o pai de uma filha agonizante...
    -  um demnio bem srdido - falei. - E no vou entrar numa batalha de palavras com voc. Tudo o que me interessa  que ele fez sexo rpido e sem amor com essas 
garotas. Enquanto eu bebia. Eu bebia. Tinha engordado? Pois que seja. Mas nada significou, se  a que quer chegar. De qualquer forma, no existe um Juzo Final. 
No acredito nisso. E alm dessa f, perdi tambm a que eu tinha na Confisso ou na Legtima Defesa. V embora. Vou ligar de novo o meu som. O que vai fazer? Quebr-lo? 
Tenho outra aparelhagem. Posso cantar Beethoven. Sei de cor o Concerto para Violino.
    - No se atreva.
    -  Por que no? H musica gravada esperando a pessoa no Inferno?
    - Como vou saber, Triana? - perguntou com imprevista suavidade. - Como vou saber o que eles tm no Inferno? Pode ver por si mesma qual  o cenrio de minha danao.
    - , se me perguntasse eu diria que acho muito melhor que o fogo eterno. Vou tocar meu guardio Beethoven sempre que tiver vontade e cantar o que eu puder recordar, 
mesmo atropelando a afinao, a melodia, o tom...
    Ele se inclinou para a frente, timidamente, mas no tive a fora necessria para continuar a encar-lo. Quando baixei a cabea e olhei para a mesa, senti uma 
enorme angstia subindo dentro de mim, uma coisa que me sufocava. O violino. Isaac Stern no auditrio, minha certeza infantil de que conseguiria atingir tamanha 
grandeza...
    No. De jeito nenhum.
    Olhei o violino. Estendi o brao. Ele no se mexeu. Eu no podia cobrir mais de um metro de mesa. Levantei e me aproximei da cadeira a seu lado.
    No parava de me observar e mantinha cuidadosamente a mesma postura, como se desconfiasse que eu pretendia fazer alguma surpresa. Talvez pretendesse. S que 
no sabia como fazer. Seria uma tentativa intil, no ?
    Encostei no violino.
    Ele tinha uma expresso arrogante, de suave beleza.
    Sentei bem na frente do violino e, para que eu pudesse tocar mais facilmente no instrumento, ele encolheu a mo direita, tirando-a do caminho. Na verdade, chegou 
a empurrar um pouco o violino em minha direo, mas sempre segurando firmemente o brao e o arco.
    - Stradivarius - eu disse.
    - Sim. Um dos muitos que j toquei, apenas um dentre muitos. E agora  um fantasma, to certamente quanto eu sou um fantasma;  um espectro, como eu sou um espectro. 
Mas  vigoroso. Tem sua prpria personalidade, como eu tenho a minha. Na esfera onde  um fantasma continua sendo to genuinamente um Stradivarius quanto foi em 
vida.
    Olhou amoroso para o violino.
    - De certa forma, pode-se dizer que morri por ele. - Olhou-me de relance. - Depois da carta de Susan - perguntou -, por que no foi procurar a alma renascida 
de sua filha?
    - No acreditei na carta. Joguei-a fora. Achei uma tolice. Tive pena de Susan, mas no consegui responder.
    Ele deixou que seus olhos brilhassem. O sorriso foi malicioso.
    - Acho que est mentindo. Voc ficou com cimes.
    - Mas cimes de qu? De que uma velha amiga tivesse perdido o juzo? H anos eu no via Susan; e no sei onde est agora...
    - Mas ficou com cimes, com uma raiva tremenda. Teve mais cimes de Susan que de Lev com todas as suas garotas.
    - Bem, vai ter de me explicar como foi isso.
    - Com prazer. Caiu numa agonia de inveja porque sua filha reencarnada revelou-se a Susan e no a voc! O raciocnio foi esse. No podia ser verdade, pois era 
impossvel que o lao entre Lily e Susan fosse mais forte que o lao entre Lily e voc! A coisa lhe parecia um verdadeiro ultraje. Sempre o orgulho, o mesmo orgulho 
que a fez abrir mo de Lev quando ele era incapaz de distinguir a mo direita da esquerda, quando estava arrasado de dor, quando...
    No respondi.
    Estava absolutamente certo.
    Senti-me atormentada pela idia de que algum pudesse reclamar tamanha intimidade com minha filha perdida, que Susan, aparentemente com a cabea fora do lugar, 
pudesse imaginar que Lily, reencarnada, confiaria nela em vez de confiar em mim.
    Ele tinha razo. Fora uma perfeita estupidez de minha parte. E como Lily gostara de Susan. Oh, o lao que havia entre as duas!
    - Ento voc est jogando outra carta. E da? - Estendi a mo. Ele continuou segurando com fora o brao do violino e o arco. Na verdade, apertou-os ainda mais.
    Acariciei o violino, mas ele no deixou que eu o tirasse do lugar. No parava de me observar. O violino parecia real; era slido, era magnfico e lustroso, era 
em si mesmo grandioso, mesmo sem produzir qualquer nota musical. Ah, encostar a mo nele. Tocar num violino to especial e antigo.
    -  um privilgio, posso? - perguntei amargamente. Nada de pensar em Susan e na histria de Lily ter reencarnado.
    - Sim,  um privilgio... mas sem dvida voc o merece.
    - E por que razo?
    - Porque talvez ame o som deste instrumento mais que qualquer outro mortal para quem j toquei.
    - Incluindo Beethoven?
    - Ele era surdo, Triana - respondeu num sussurro.
    Achei muita graa.  claro. Beethoven era surdo! Todo mundo sabia, assim como sabia que Rembrandt era holands ou que Leonardo da Vinci tinha sido um gnio. 
Ri com vontade, mas sem grande espalhafato.
    -  muito engraado que eu esquea uma coisa dessas.
    Ele no estava achando graa.
    - Deixe-me segur-lo.
    - No vou deixar.
    - Mas voc acabou de dizer...
    - No importa o que eu disse. O privilgio no chega to longe. No pode segur-lo. Pode encostar a mo nele, mas s isso. Acha que deixaria uma criatura como 
voc tanger uma corda? Nem tente!
    - Voc deve ter morrido num acesso de clera.
    - Foi isso.
    - E, como discpulo que o Maestro no podia ouvir, o que achava de Beethoven, que juzo fazia dele?
    - Eu o adorava - murmurou. - Adorava como voc o adora sem jamais o ter conhecido. Mas eu o conheci. Tornei-me um fantasma antes dele morrer. Vi o seu tmulo. 
Ao entrar naquele velho cemitrio achei que ia morrer novamente, de mgoa, de horror por ele estar morto, por aquele marco estar ali,  espera dele... Mas no pude 
morrer.
    Perdera totalmente o ar de malcia.
    - E aconteceu to depressa - continuou. -  como costuma acontecer em minha esfera. As coisas so rpidas. Mesmo que s vezes paream se demorar, paream eternas. 
Passei anos numa espcie de atordoamento. Mais tarde, muito mais tarde, soube pela conversa dos vivos do grande funeral, de como o caixo de Beethoven fora conduzido 
pelas ruas. Ah, Viena gosta, Viena gosta muito dos grandes funerais e hoje meu maestro tem um monumento adequado. - O tom de sua voz ficou baixo, chegando quase 
ao silncio. - Como chorei naquele velho tmulo. - Parecia ausente, abismado, mas a mo jamais soltava o violino. - Lembra quando sua filha morreu? Voc queria que 
todo mundo soubesse.
    - Ou que o mundo parasse e me desse um segundo para refletir. Algo assim...
    - Seus amigos da Califrnia no sabiam como se comportar numa missa de corpo presente. E metade deles se perderam do carro fnebre na via expressa.
    - E da? 
    - Bem, o Maestro que voc tanto ama teve um funeral que no a decepcionaria.
    - Sim, ele era Beethoven. Voc o conheceu. Eu o conheo. Mas e Lily? O que sobrou de Lily? Ossos? P?
    Ele assumira um ar de carinho e pesar.
    Minha voz no foi estridente nem raivosa.
    - Ossos, p, um rosto de que posso lembrar perfeitamente, redondo, com a testa alta de minha me, diferente da minha, oh, com o rosto de minha me! Gosto de 
pensar nela. Gosto de me lembrar de como era bonita...
    - E quando o cabelo de Lily caiu e ela chorava?
    - Sempre bonita. Sabe disso. Voc era bonito quando morreu?
    - No.
    O violino parecia sedoso e perfeito.
    - Foi fabricado em 1690 - ele explicou. - Antes de eu nascer, muito antes. Meu pai comprou-o de um homem em Moscou, onde nunca mais fui nem iria absolutamente.
    Fitei carinhosamente o violino. Naquele momento nada no mundo me despertava grande interesse, a no ser aquele instrumento: fantasmagrico, simulado ou real.
    - Real e espectral - ele me corrigiu. - Meu pai tinha vinte instrumentos fabricados por Antonio Stradivari, todos excelentes, mas nenhum to bom quanto este, 
este violino longo.
    - Vinte? No acredito! - falei bruscamente, mas sem saber por que dizia isso. Raiva.
    - Inveja, porque no tem talento - replicou.
    Examinei-o; ele estava sem rumo. No sabia se me odiava ou se me amava. S sabia que precisava desesperadamente de mim.
    - No de voc - rebateu - mas de algum.
    - De algum que ame este violino, no ? - perguntei. - Algum capaz de saber que  "o Strad longo", que o idoso Stradivari fabricou quase no fim da vida. Quando 
se livrou da influncia de Amati.
    O sorriso foi triste e ligeiro, no, pior ainda, no foi to superficial, estava cheio de mgoa... Ou seria apenas seu modo de agradecer?
    - Perfeitos buracos de f - comentei suavemente, de modo reverente, passando os dedos por eles no tampo do violino. No toque nas cordas.
    - De jeito nenhum - disse ele. - Mas pode... pode continuar mexendo.
    - Agora  voc quem est chorando? Lgrimas reais?
    Quis fazer um comentrio maldoso, mas as palavras tinham perdido a fora. S contemplava o violino, pensando no quanto era refinado, no quanto era inexplicvel. 
Tente dizer a algum que nunca tenha escutado um violino como  o som, como  a voz do instrumento, e pense em quantas geraes viveram e morreram sem ter ouvido 
nada igual.
    Suas lgrimas inundavam todo o espao fundo dos olhos. No lutava contra elas. Minha suposio  que ele as fabricava, assim como fabricava toda a imagem de 
si mesmo.
    - Se fosse assim to simples... - confidenciou.
    - Um verniz escuro - comentei, olhando para o violino. - Isso revela a poca de fabricao, no ? Assim como o encaixe das costas; so duas peas, eu j tinha 
reparado. E a madeira  da Itlia.
    - No - respondeu. - Embora seja o caso em grande parte deles. - Teve de limpar a garganta, ou seu simulacro, para conseguir falar.
    -  o violino longo, sim, tem razo quanto a isso; chamam-no stretto lungo. - Falava com espontaneidade e quase num tom generoso. - Todo o conhecimento que tem 
na cabea, todos os detalhes que sabe sobre Beethoven e Mozart, o fato de chorar quando os ouve, agarrada ao travesseiro...
    - Estou acompanhando seu raciocnio. No esquea daquele russo demente como to grosseiramente o chama. Meu Tchaikovsky. Voc o toca bastante bem.
    - Sim, mas que benefcio tudo isso lhe trouxe? Seu conhecimento, sua leitura desesperada da literatura sobre Beethoven ou Mozart, o estudo interminvel dos detalhes 
srdidos da vida de Tchaikovsky... Onde conseguiu chegar, quem  voc?
    - O conhecimento me faz companhia - respondi lenta e calmamente, deixando as palavras falarem tanto a ele quanto a mim. - Mais ou menos como voc me faz companhia. 
- Inclinei-me para a frente, chegando o mais perto possvel do violino. A luminosidade do lustre era fraca, mas consegui ver a marca atravs do buraco de f, o crculo 
redondo, as letras AS e o ano, registrado perfeitamente como ele dissera: 1690.
    No beijei aquele objeto; a simples inteno de faz-lo parecia gratuita e vulgar. S queria pegar no violino, encaix-lo no meu ombro (pelo menos isso eu sabia 
fazer), dobrar os dedos da mo esquerda em volta dele.
    - Nunca.
    - Tudo bem - exclamei com um suspiro.
    - Quando conheci Paganini, ele tinha dois violinos de Antonio Stradivari, e nenhum to bom quanto este...
    - Tambm conheceu Paganini?
    - Oh, sim, pode-se dizer que ele desempenhou, involuntariamente, um papel importante em minha queda. Mas nunca soube o que aconteceu comigo. Quando o tempo no 
teve mais uma medida natural, conheci-o atravs do vu do mistrio, observei-o uma vez ou duas, e foi tudo que pude fazer. Mas ele nunca teve um instrumento to 
bom quanto este...
    - Estou entendendo... e voc tinha vinte...
    - Na casa de meu pai, como eu lhe disse. Tente tirar proveito de suas leituras. Voc sabe o que era Viena naquele tempo. Sabe dos prncipes que unham orquestras 
particulares. No seja estpida.
    - E morreu por causa deste violino?
    - Teria morrido por qualquer um deles - respondeu, deixando os olhos correr pelo instrumento. - Quase morri, alis, por todos... Mas este, este aqui era meu, 
ou pelo menos era o que eu e meu pai sempre dizamos, embora,   claro, eu fosse filho dele e costumasse tocar todos os violinos que havia. - Parecia estar meditando.
    - Morreu mesmo por este violino?
    - Sim! E pela paixo de toc-lo. Se fosse, desde o bero, um idiota sem talento, como  o seu caso, se fosse uma pessoa ordinria como voc, teria enlouquecido. 
 um prodgio que isso no tenha lhe acontecido!
    Instantaneamente pareceu se arrepender do que tinha dito e me olhou quase com um ar de desculpas.
    - Mas admito que poucos conseguiram ouvir como voc.
    - Obrigada - respondi.
    - Poucos conseguiram entender a linguagem pura da msica como voc.
    - Obrigada - murmurei.
    - Poucos conseguiram... vibrar numa escala to vasta. - Ele parecia confuso. Parecia quase indefeso diante do violino.
    No falei nada.
    Ele ficara perturbado e arregalava os olhos para mim.
    - E o arco... - falei, repentinamente com medo que ele fosse embora, que fosse embora de novo, que desaparecesse por despeito. - O grande Stradivari tambm fazia 
o arco?
    - Talvez,  um ponto controverso. No se preocupava muito com arcos. Voc sabe disso. Este arco pode ser dele, pode mesmo, e  claro que voc conhece a madeira. 
- Seu sorriso voltou, ntimo e um tanto maravilhado.
    - Conheo? Acho que no - respondi. - Que madeira ? - Encostei a mo no arco, no arco comprido e largo. -  largo, muito largo, mais largo que os arcos que 
vieram depois ou que aqueles que hoje se usam.
    -  para produzir um som mais apurado - disse, fitando-o. - Oh, voc repara mesmo nas coisas!
    - Mas  bvio. Qualquer um teria notado. Estou certa de que o pblico da capela reparou na largura do arco.
    - No tenha tanta certeza do que repararam ou no. Sabe por que  to largo?
    - Para que a crina de cavalo e a madeira no encostem to facilmente uma na outra, para que se possa tocar com mais estridncia.
    - Estridncia - repetiu com um sorriso. - Estridente. Ah, nunca pensei na coisa nesses termos.
    - Voc ataca com muita freqncia e faz o arco descer com toda a fora. Para isso  preciso um arco ligeiramente cncavo, no ? Qualquer que seja a madeira 
do arco,  sempre uma madeira especial. No consigo lembrar. Eu costumava saber dessas coisas. Diga que madeira ?
     -Com muito prazer. No sei quem foi o fabricante do arco, mas a madeira eu conheo, j conhecia quando era vivo.  pau-de-pernambuco. - Ele me examinou como 
se estivesse  espera de alguma coisa. - No tange nenhuma corda em sua memria o pau-de-pernambuco? No v ressonncia no nome?
    - Sim, mas o que  pau-de-pernambuco? Eu no...
    - E uma madeira originria do Brasil - explicou. - E na poca em que este arco foi feito era s do Brasil que ela vinha. Brasil.
    - Ah, sim. - Estudei seu rosto com ateno.
    - De repente, o vasto mar apareceu, o mar cintilante, brilhante, inundado de luar - e ento, um grande avano de ondas. A imagem foi to forte que o riscou da 
minha mente e me arrebatou, at que o senti pousar a mo na minha mo.
    Via-lhe o rosto. Via o violino.
    - No se lembra? Pense.
    - Em qu? - perguntei. - Vejo uma praia, vejo um oceano, vejo ondas.
    - V a cidade onde a amiga Susan disse que sua filha tinha renascido - ele falou bruscamente.
    - Brasil... - Olhei para ele. - No Rio de Janeiro, no Brasil, oh, sim, foi isso que Susan escreveu na carta, Lily estava...
    - Vivendo de msica no Brasil, exatamente o que voc sempre quis fazer, viver de msica, se lembra? Lily reencarnou como musicista no Brasil.
    - J disse que joguei a carta no lixo. Nunca visitei o Brasil, por que voc quer que eu veja isso?
    - Eu no! - respondeu.
    - Mas  o que faz.
    - No.
    - Ento por que vejo? E por que me acorda quando vejo a gua e a praia? Por que tive o sonho? Por que vi essas coisas justamente agora? No me recordava dessa 
parte da carta de Susan. No sabia o que significava a expresso pau-de-pernambuco. Nunca estive...
    - Est mentindo de novo, ainda que com a mais pura inocncia - retrucou. - Voc realmente no sabe. Sua memria tem algumas falhas piedosas, lugares onde a costura 
da trama se rasga. So Sebastio...  o santo padroeiro da cidade do Rio de Janeiro.
    Levantou a cabea para a obra-prima italiana de Karl, o So Sebastio em cima da lareira, e continuou.
    - Lembre que Karl queria ir ao Brasil para completar o trabalho sobre So Sebastio. Queria reunir as narrativas portuguesas sobre o santo, que ele sabia existirem 
por l. Voc disse que preferia no ir.
    Fiquei chocada e no consegui responder. Fora realmente o que dissera a Karl, uma decepo para ele, que nunca mais voltou a ficar suficientemente bem de sade 
para fazer a viagem.
    - Ah, ela se culpa com tanta certeza - disse ele. - Voc no quis ir porque era o lugar que Susan mencionara na carta.
    - No me lembro.
    - Oh, sim, lembra. Eu no saberia disso se no lembrasse.
    - No posso inventar um mar batendo numa praia do Brasil. Vai ter de encontrar alguma coisa pior, algo mais especfico. Ou extra-lo de voc mesmo, porque voc 
no quer que as imagens sejam minhas, o que pode apenas significar...
    - Pare com essa estpida anlise.
    Recostei-me na cadeira.
    Por ora, a dor tinha triunfado. No conseguia falar. Karl queria ir ao Rio de Janeiro e, quando eu era muito jovem, tambm tive vrias vezes vontade de ir - 
viajar para o sul, para o Brasil, Bolvia, Chile, Peru, todos esses lugares misteriosos. Susan dissera na carta que Lily renascera no Rio e havia mais alguma coisa, 
algum fragmento, algum detalhe...
    - As moas - ele disse.
    Eu recordei.
    Em nosso prdio na universidade de Berkeley, no apartamento acima do de Susan, a bonita brasileira com suas duas filhas e como disseram ao ir embora: "Nunca 
vamos esquecer de voc, Lily." Pessoal universitrio vindo do Brasil. Eram vrias famlias. Fui at o banco, saquei dlares de prata e dei cinco a cada uma. Bonitas 
moas com vozes graves, guturais, e suaves... oh, sim, eram aqueles os tons da fala no sonho! Olhei para ele.
    A lngua do templo de mrmore era o portugus.
    Ele se levantou com raiva. Puxou o violino.
    - No resista, agente, por que no? Deu os dlares de prata, elas beijaram Lily e sabiam que ela estava morrendo, mas voc achava que no. Foi s depois de 
Lily morrer que uma amiga dela, uma maternal amiga dela, Susan, contou-lhe que Lily sabia o tempo todo que ia morrer.
    - No vou permitir, juro que no vou permitir. - Fiquei de p. - Vou exorciz-lo como um demnio ordinrio antes que consiga fazer isso comigo.
    -  voc quem faz com voc mesma.
    - Est indo muito longe, longe demais, e para atender a seus caprichos. Lembro de minha filha. Isso basta. Eu...
    - O qu? Mentir colocando-a num tmulo imaginrio? Como pensa que  meu tmulo?
    - Voc tem um?
    - No sei - respondeu. - Nunca me preocupei com isso. Mas acho que nunca me colocariam num solo consagrado ou me dariam uma lpide.
    - Parece to triste e derrotado quanto eu.
    - De jeito nenhum.
    - Oh, formamos uma boa dupla!
    Ele recuou, como se estivesse com medo de mim, apertando o violino contra o peito.
    Ouvi a deprimente batida de um relgio - a primeira dentre vrias, vindo talvez a mais alta da sala de jantar. As horas tinham passado, horas em que ficamos 
ali sentados, trocando socos.
    Encarei-o e uma terrvel malcia cresceu dentro de mim. Podia me vingar brincando com os segredos que ele conhecia e deixando que se empenhasse sozinho em traz-los 
 superfcie. Procurei alcanar o violino. Ele recuou.
    - No.
    - Por que no? Voc evapora se ele sair de suas mos?
    -  meu! - exclamou. - Levei-o comigo para a morte e comigo ele fica. No pergunto mais por qu. No pergunto mais nada.
    - Entendo. E se quebrar, se for espatifado, danificado de alguma forma?
    - No pode acontecer.
    - Acho perfeitamente possvel.
    - Voc  estpida e louca.
    - Estou cansada - falei. - Voc parou de chorar e agora  a minha vez. 
    Afastei-me. Abri as portas que davam para a sala de jantar. Podia ver atravs delas e pelas janelas do fundo da casa. As altas cerejeiras estavam iluminadas 
contra a cerca da sacristia da capela, folhas brilhando num claro de luzes eltricas, movendo-se como se houvesse vento, e eu no tinha sequer (naquela casa enorme, 
rangente como ela s), no tinha sequer reparado no vento. Agora o ouvia, batendo de leve nos caixilhos das janelas e insinuando-se pelos pores.
    - Oh, Deus! - exclamei. Estava de costas para ele e ouvi quando caminhou em minha direo, cautelosamente, como se quisesse apenas chegar perto.
    - Sim, chore - ele disse. - Que mal h nisso?
    Encarei-o. Parecia bastante humano naquele instante, quase caloroso.
    - Prefiro outra msica! Voc sabe disso. Acho que est transformando este nosso pequeno caso num inferno para ns dois.
    - Acha possvel uma relao melhor? - Soava sincero. Parecia sincero. - Ser que eu, neste estgio avanado, to alienado da vida, poderia ser conquistado por 
algo como o amor? No, no h calor suficiente no amor para mim. No desde aquela noite, no desde que deixei a carne e me associei definitivamente a este instrumento.
    - V em frente, voc tambm quer chorar. Faa isso.
    - No - ele replicou, recuando.
    Virei-me e vi as folhas verdes. De repente, as luzes se apagaram.
    O que tinha um significado. Significava que o relgio marcava 1:00h, a hora que acabava de bater. Nesse momento, l fora, as luzes se apagavam automaticamente 
num lugar e acendiam automaticamente em outro.
    No ouvia barulho na casa. Althea e Lacomb dormiam. Ou melhor, Althea sara naquela noite, s voltaria de manh, e Lacomb fora dormir no quarto do poro, onde 
sabia que o cheiro do cigarro no me incomodava. A casa estava deserta.
    - No, ns dois estamos aqui - ele sussurrou em meu ouvido.
    - Stefan? - pronunciei como miss Hardy, com a nfase na primeira slaba.
    Seu rosto se descontraiu e se iluminou.
    - Voc vive uma vida breve - falou. - Por que no tem pena de mim? Meu fardo  para sempre.
    - Bem, ento, toque. Toque para mim e me deixe sonhar e recordar livremente. Ser que tenho de odiar os sonhos e as memrias? Ser que a angstia cabal que lhe 
foi concedida  suficiente para os dois?
    Ele no pde suportar isso. Parecia uma criana de corao partido. Era como se eu tivesse lhe batido. Quando levantou a cabea, tinha os olhos vidrados e inocentes, 
a boca tremia.
    - Morreu muito jovem - eu disse.
    - No to jovem quanto sua Lily - respondeu amargamente, num tom rancoroso, mas quase no conseguiu tornar as palavras audveis. - O que os padres lhe disseram? 
Que ela nem mesmo atingira "a Idade da Razo"?
    Olhamos um para o outro, eu a segur-la nos braos, prestando ateno  conversa precoce, onde a esperteza e a ironia nasciam da dor e das drogas que soltavam 
a lngua, como o Dilantin. Lily, minha brilhante menina, com um copo levantado no meio das amigas para fazer um brinde, a cabea perfeitamente calva, o sorriso to 
bonito que eu agradecia a Deus, agradecia por ser capaz de lembr-lo com tanta nitidez. Oh, sim, por favor, o sorriso. Quero v-lo, quero ouvir o riso dela como 
algo que rola, divertido, ladeira abaixo.
    Memria de uma conversa com Lev. "Meu filho Christopher ri da mesma maneira, aquele sorriso solto, fcil!" Fora o que tinha dito Lev numa chamada interurbana 
dois filhos atrs, quando Chelsea estava na linha com ele e todos ns gritvamos de alegria.
    Atravessei lentamente a sala de jantar. Todas as luzes da casa tinham sido devidamente apagadas. S a luminria em forma de castial, junto da porta de meu quarto, 
permanecia acesa. Deslizei por baixo dela. Entrei no quarto.
    Ele seguiu cada passo que dei, silencioso mas sempre ali, ntido como uma grande sombra atrs de mim, como um grande manto de pura escurido.
    Virei-me e fitei seu rosto vulnervel, seu desamparo, pensando: Deus, por favor, no o deixe saber, mas ele est como todos os outros, morrendo e precisando 
de mim. No  mero insulto para atorment-lo.  verdade.
    Perplexo, ele me espreitava.
    Tive urgncia de tirar aquelas roupas, a tnica de veludo, a saia de seda. Queria arrancar tudo que me prendia, vestir uma roupa folgada, entrar debaixo das 
cobertas e sonhar, sonhar com os tmulos de sonho, os mortos de sonho e tudo o mais. Estava com calor, desarrumada, mas no cansada, no, nem por um segundo cansada.
    Estava preparada para a batalha como se, pelo menos uma vez na vida, pudesse vencer! Mas como seria isso, vencer? Ele sofreria? Como podia desejar uma coisa 
dessas, mesmo para algum to repelente, grosseiro e literalmente do outro mundo?
    Mas s especulei sobre ele, sobre aquela jovem coisa, para perceber de novo, com uma pancada no peito, que ele se encontrava realmente ali, que se eu estava 
louca, estava seguramente louca num lugar onde ningum alm dele podia me atingir. Continuvamos juntos.
    Comecei a me lembrar de uma coisa, algo to terrvel que no passei um nico ms de minha vida sem pensar naquilo, algo que vinha como um grande caco de vidro 
em minha direo e, contudo, nunca o relatara a pessoa alguma, nunca, nunca, em toda a minha vida, nem mesmo a Lev.
    Estremeci. Sentei na cama e puxei o corpo para trs tentando ficar  vontade, mas a cama era to alta que meus ps no tocavam o cho. Desci e caminhei. Ele 
recuou para me deixar passar.
    Senti a l de seu casaco. Cheguei a sentir seu cabelo. Atingi a porta da pequena saleta que conduzia ao quarto e que se abria para a sala de jantar. Agarrei-lhe 
o cabelo comprido.
    - Ora, so barbas de milho, mas so pretos! - exclamei.
    - Ah, pare com isso! - disse ele, se esquivando. O cabelo pareceu escorregadio e reluzente ao escapar de minha mo.
    Ele fez um movimento na direo da sala de jantar, pulando para bem longe de mim. E ento levantou o arco. Para tocar naquele momento, ao que parece, no foi 
preciso esticar a crina do arco espectral, feito de pau-de-pernambuco.
    Fechei os olhos para ele e para o mundo, mas no para o passado nem para a memria. A memria, a memria seria para ele... To pequena, to difcil de recolher 
e enfrentar. Era como cortar a mo com um caco de vidro...
    Mas fui impelida. O que havia a perder? Nem mesmo aquela coisa banal, feia e inconfessada conseguiria me empurrar para o fim de toda razo. Se eu ainda podia 
fabricar sonhos lcidos, alm de espectros, tudo bem. E que ele viesse atrs de mim.
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
  
  10
  
  
 Comeamos juntos. Deixei-me levar; este momento especfico  pessoal, temperado com vergonha, to aviltado que no se pode sequer associ-lo a tristeza.
    Tristeza.
    Era a mesma casa em que nos encontrvamos agora. Ele tocava uma sonata para mim, numa tonalidade grave, retesando o arco com tanta percia nas notas profundas 
que meus olhos pareciam ver, com a mesma nitidez da mente, uma poca mais antiga.
    Mas eu estava do outro lado da comprida sala de jantar.
    Senti o cheiro do vero antes de terem chegado as mquinas para refrigerar casas como esta, quando a madeira assumia aquele cheiro especial de coisa seca pelo 
calor e o fedor das comidas comuns na cozinha, como repolho e presunto, se prolongava eternamente. Sabia de alguma casa onde no houvesse aquele cheiro de repolho 
cozido? Lembrei-me ento de pequenas casas, pequenas cabanas de caa, ordinrias e vistosas, no litoral da pequena regio irlandesa de origem alem, de onde vieram 
meus antepassados (ou pelo menos alguns deles) e aonde eu ia freqentemente com a me ou o pai. Eles me apertavam bem a mo enquanto eu contemplava as estreitas 
e ridas caladas, ansiando por uma rvore e sentindo falta da agradvel teia de manses do Garden District.
    Esta afinal era uma casa grande; um chal, sim, de apenas quatro grandes cmodos no andar trreo e onde as crianas dormiam em pequenos quartos num sto com 
janelas nos telhados. Mas todos os quatro cmodos do andar principal eram grandes e, naquela noite, na noite de que me lembrava e cuja lembrana ficou para sempre 
gravada dentro de mim, a noite que no pude compartilhar com ningum, a noite feia, naquela noite a sala de jantar que ficava entre mim e o quarto principal parecia 
to vasta que certamente eu no teria mais de oito anos de idade, se tanto.
    Sim, oito, eu me lembro, porque Katrinka j havia nascido, era um beb que sabia engatinhar e dormia em algum lugar no andar de cima. Eu tinha ficado com medo 
durante a noite e quisera ir para a cama de minha me, o que no era to raro acontecer. Tinha acabado de descer a escada.
    Meu pai, que voltara havia muito tempo da guerra, comeara a fazer bicos  noite, assim como seus irmos, todos trabalhando arduamente para manter as famlias. 
Tinha sado naquela noite, no sei para onde.
    S sei que a me comeara a beber, minha av morrera e o medo tinha chegado, a sombria, terrvel angstia do medo; eu a conhecia, conhecia aquela escurido que 
ameaava devorar toda a esperana enquanto eu descia silenciosamente a escada, enquanto avanava pela sala de jantar em busca da luz no quarto dela. Mesmo se estivesse 
"doente", como chamavam a coisa naquela poca, mesmo que seu hlito tivesse o gosto amargo (de bebida), mesmo que dormisse to profundamente que eu pudesse balanar 
sua cabea sem acontecer nada, mesmo assim ela estaria quente e a luz acesa; a me detestava o escuro, tinha medo dele.
    Mas no havia luz, no que eu pudesse ver. "Deixe sua msica falar do medo, do medo esmagador da criana, do medo de que a teia das coisas se rompa e nunca mais 
se refaa." Era possvel, j naquela poca, desejar nunca ter nascido; eu simplesmente no tinha as palavras certas.
    Sabia que fora lanada numa terrvel existncia de ansiedade e risco, vagando muitas vezes alm de toda possibilidade de consolo, fechando os olhos, ansiando 
apenas pelo sol da manh, pela companhia dos outros, buscando esperana no reflexo dos faris dos carros passando, as luzes bem diferentes entre si.
    Descendo os degraus estreitos e curvos, cheguei a esta sala de jantar.
    Olhe, esse era o buf de carvalho preto que tnhamos naquela poca, com entalhes de produo em srie, mas bojudo e majestoso. Foi aquele que o pai deu de presente 
quando a me morreu, dizendo que a moblia da esposa devia ficar com "a famlia dela", como se ns, as filhas, no fizssemos parte dessa famlia. Mas aquela noite, 
aquela noite em especial, aconteceu muito antes da morte da me. E o buf foi um eterno ponto de referncia no mapa do medo.
    Faye ainda estava por vir, pequenina, tirada faminta da gua escura de um tero deteriorado. Amada e pequenina Faye que ainda no chegara como uma coisa enviada 
do Cu para nos trazer calor, para danar, para nos distrair, para nos fazer achar graa; Faye que trazia e traria sempre a beleza do dia, no importa a dor que 
se abatesse sobre ela; Faye que podia ficar horas deitada acompanhando os movimentos das rvores verdes no vento; Faye que nascera intoxicada para oferecer a todos, 
para sempre, uma doura sem limites.
    No, aquilo foi pouco antes de Faye, e foi deprimente, sem salvao. Foi to sombrio, talvez, quanto o mundo ficaria mais tarde. E chegou mais perto do desespero 
que as percepes que vm com a idade, pois no havia, ento, sabedoria para ajudar. Fiquei com medo, com medo.
    Talvez naquela noite Faye j estivesse no tero da me. Podia ser. A me sangrou durante toda a gravidez. Faye no estaria flutuando num mundo cego, contaminado, 
embriagado, quem sabe j penetrada de angstia? Um corao bbado bate to forte quanto qualquer outro? O corpo de uma me bbada  quente o bastante para uma minscula 
partcula de ser? Um ser flutuante,  espera, tateando para uma conscincia dos espaos escuros e frios onde o medo est parado na soleira das portas. O pnico deu 
as mos  ansiedade na frente daquela criana tmida, com sentimentos de culpa, que espreitava no meio de uma sala imunda.
    Veja o complexo entalhe da lareira, rosas na madeira avermelhada, o colorido na beirada de pedras, um aquecedor a gs apagado que podia chamuscar o arco do console. 
Veja os batentes, os umbrais imponentes das grandes portas, as sombras atiradas de um lado para o outro pelo trfego que resvala por ali.
    Uma casa imunda. Era mesmo, quem ia negar? Era antes do aspirador de p ou da lavadora de roupas, e a poeira estava sempre no canto. O vendedor de gelo, um homem 
que no parava de correr, arrastava toda manh pela escada seu fardo mgico e brilhante. O leite fedia na caixa de gelo. Baratas se cruzavam na brancura do metal 
esmaltado da mesa da cozinha. Bater, bater para elas fugirem antes de voc sentar. E sempre passar uma gua no copo antes de beber.
    Andar descala - andvamos sujas do incio ao fim do vero. A poeira ficava pendurada nos ferrinhos dos postigos da janela. Depois de um certo tempo, eles enferrujavam 
e ganhavam um tom muito preto. No vero, quando os postigos eram abertos, a poeira vinha toda para dentro de casa. A sujeira voava durante a noite e, com a naturalidade 
do musgo nos carvalhos do lado de fora, balanava s e salva em cada curva, espiral ou suporte.
    Eram coisas normais; afinal, como poderia ela manter a limpeza em cmodos daquele tamanho? Sem falar em todos os seus sonhos de ler poesia para ns, suas meninas, 
que no deviam ser incomodadas por tarefas domsticas, suas crianas geniais, perfeitamente saudveis. Largava ento os montes de roupa suja no cho do banheiro 
e ficava lendo, e rindo, para ns. Tinha um riso bonito.
    A esfera de ao das coisas era arrasadora. Assim era a vida. Lembro de meu pai no alto da escada, o brao todo levantado para pintar os tetos com mais de quatro 
metros de altura. Imagine o que caa de reboco. Vigas apodrecidas no sto, uma casa afundando, ano aps ano, cada vez mais fundo na terra; uma imagem que dava um 
n no meu peito.
    Nunca ficou tudo limpo nem terminado; a casa nunca ficou cem por cento. As moscas passeavam nos pratos sujos da copa e alguma coisa tinha deixado uma marca de 
queimado no fogo. Azedo, mido, era assim o ar parado da noite atravs do qual eu me movia, descala, desobediente, fora da cama, no andar de baixo, apavorada.
    Sim, apavorada.
    Se aparecesse uma barata? Ou um rato? Se as portas tivessem ficado abertas e algum tivesse entrado? Ela estava l dentro, bbada l dentro. E se no conseguisse 
acord-la? Ou se no conseguisse fazer com que levantasse da cama? E se o fogo comeasse, oh, sim, aquele fogo terrvel, terrvel, do qual tinha um medo to delirante 
que nunca conseguia parar de pensar nele, naquele fogo como o fogo que queimara a velha casa vitoriana na esquina da Philip com a St. Charles, um fogo que tinha 
aparecido muito cedo em minha mente, antes mesmo da memria daquela noite, que tinha vindo no s da escurido e do absurdo da casa incendiada, mas do nosso prprio 
mundo, do nosso mundo na corda bamba onde palavras amveis eram seguidas por entorpecimento, frieza e um tremendo desleixo, onde as coisas se acumulavam eternamente, 
criando um universo de desordem - oh, nunca imaginei que um lugar pudesse ser to sombrio e tristonho quanto a velha casa vitoriana, um monstro chapado na esquina 
daquela quadra, atacado pelas maiores chamas que eu j tinha visto.
    Mas como impedir que uma coisa dessas acontecesse ali, naqueles cmodos mais espaosos, atrs de colunas brancas e grades de ferro? Olhe: pegou fogo o aquecedor. 
Pegou fogo seu aquecedor a gs. Com as pernas grossas, com a chaminha brilhante no ferro trabalhado, sempre armando o bote na ponta do cano de gs muito perto da 
parede. Perto demais. Eu sabia. Sabia que as paredes ficavam muito quentes por causa de todos os aquecedores que havia na casa. Eu j sabia.
    No podia ser vero naquela noite e tambm no era inverno. Ou era? Era o fato de estar conhecendo aquela noite que me fazia bater os dentes.
    Na memria e naquele momento, enquanto Stefan tocava e eu desenrolava aquela velha misria de minha infncia, bati os dentes.
    Stefan executava uma msica lenta, tipo marcha, como a msica do Segundo Movimento da Nona de Beethoven, s que mais sombria, como se ele caminhasse comigo sobre 
o assoalho que no tinha brilho na poca e que todos achavam que no tinha jeito, dadas as possibilidades qumicas e mecnicas daquele tempo. J era 1950? Ainda 
no.
    Vi o aquecedor a gs no quarto dela. S a viso das chamas alaranjadas me fez tremer e tapar os olhos, embora eu estivesse a uma sala e saleta inteira de distncia. 
Imagine o fogo, o fogo e tente tirar Katrinka de l, e pense nela embriagada, e Rosalind, onde estava? No aparecia na memria ou na fobia. Eu estava l sozinha 
e sabia como a fiao era velha; falavam disso distraidamente na hora do jantar:
    "Tudo est pssimo aqui", disse meu pai uma vez. "Arderia como palha."
    "O que voc falou?", eu perguntara.
    A me veio com mentiras tranqilizadoras. Mas as lmpadas foscas de 60 watts daquele tempo piscavam quando ela passava a ferro e, se estivesse embriagada, podia 
deixar o cigarro cair ou esquecer o ferro ligado. Alm disso havia fios desencapados, saam fascas das velhas tomadas e o que ia acontecer se o fogo aumentasse, 
aumentasse, e eu no conseguisse tirar Katrinka do bero, e a me comeasse a tossir, a tossir por causa da fumaa e fosse incapaz de me ajudar, tossindo como estava 
naquele momento.
    E no final das contas, como ns duas sabamos, eu a matara.
    Naquela noite, ouvi-a lutar com a tosse contnua e seca dos fumantes, que nunca parava por muito tempo, mas isso significava que estava acordada do outro lado 
da extenso escura da sala, suficientemente acordada para limpar a garganta, para tossir, para deixar, talvez, eu me enroscar a seu lado, debaixo das cobertas, embora 
ela tivesse dormido o dia inteiro no atordoamento da embriaguez - fora assim, naquele momento eu percebia que tinha sido assim, que ficara meramente deitada ali, 
sem se vestir, debaixo dos cobertores, com a roupa de baixo, calcinha cor-de-rosa sem suti, os seios pequenos e vazios, embora tivesse amamentado Katrinka durante 
um ano. As pernas nuas, caindo da cama, sobre as quais eu puxara as cobertas, estavam to cobertas de veias inchadas na parte de trs que eu nem tinha coragem de 
olhar. Esse mal, essas barrigas de perna transformadas em feixes de veias inchadas, parecia o resultado de "carregar trs filhas na barriga". Era o que um dia, um 
dia... tinha dito  irm Alicia na chamada interurbana.
    Atravessando esse assoalho, tive medo de ser despedaada, medo que algo de muito terrvel sasse do escuro para me fazer gritar, gritar. Mas tinha de chegar 
at ela. Tinha de ignorar as chamas alaranjadas, o constante tum-tum-tum do medo do fogo em meu peito, as imagens que se repetiam dando voltas e voltas, a casa cheia 
de fumaa como eu j tinha visto um dia, quando ela ps aquele fogo no colcho que ela mesma apagou. Eu tinha de chegar at l. Sua tosse era o nico som na casa, 
na casa que a imensa moblia preta de carvalho tornava ainda mais deserta: mesa com cinco cadeiras bojudas, o imponente e velho buf com suas grossas portas de madeira 
trabalhada na parte de baixo e o espelho manchado no alto.
    Quando ramos pequenas, eu e Rosalind nos arrastamos para dentro do buf, por entre a porcelana que sobrara e um ou dois copos do casamento dela. Nessa poca 
a me nos deixava escrever ou desenhar nas paredes e quebrar tudo. Queria que suas filhas fossem livres. Colvamos nossas bonecas de papel na parede com a goma que 
comprvamos no armarinho do Canal. Tnhamos um mundo de sonho com muitos personagens: Maria, Madene, Betty Cabea de Ponte e, mais tarde, o favorito de Katrinka, 
Doan the Stone, de quem ramos e ramos da graa do som - mas isso foi mais tarde.
    No havia ningum naquela memria alm de mim e da me... Ela tossia no quarto e eu me aproximava na ponta dos ps, com medo que estivesse embriagada demais, 
que sua cabea oscilasse e casse em cheio nos tacos do assoalho. Se isso acontecesse, seus olhos rodariam como os olhos das vacas nos desenhos animados, grandes 
e patetas, e seria uma coisa feia, embora eu no me importasse tanto assim, ou seja, valeria a pena correr o risco desde que conseguisse chegar perto dela, subir 
devagarinho na cama e me deitar a seu lado. No fazia mal que o corpo dela fosse barrigudo, tivesse varizes e seios cados.
    Geralmente a me s usava uma calcinha e uma camisa de homem para andar em casa; gostava de se sentir livre. H coisas que nunca, nunca, nunca se conta a ningum.
    Coisas feias e terrveis, como quando sentava no vaso sanitrio com dor de barriga. Deixava a porta do banheiro escancarada, abria bem as pernas e gostava que 
ficssemos ali, a seu lado, enquanto lia para ns. Era uma exibio de plos pubianos, coxas brancas, e Rosalind dizia: "Me, o cheiro, o cheiro." Mas a defecao 
continuava sem parar e nossa me, com o Reader's Digest numa das mos e o cigarro na outra, nossa bonita me de testa alta, imponente e grandes olhos castanhos, 
ria para Rosalind, que queria dar a descarga, e lia mais uma histria engraada da revista. Todas ns achvamos graa.
    Toda minha vida soube que as pessoas tinham seu modo preferido de usar o vaso sanitrio: com as portas trancadas, sem ningum por perto, sem janelas abertas 
no banheiro. Mas ela queria ter algum a seu lado, algum para conversar. Por qu?
    Eu no me importava. Suportaria qualquer viso feia se conseguisse chegar perto dela. De qualquer modo, no importa como estivesse, parecia sempre limpa e acolhedora, 
de pele macia, de cabelo brilhante brotando daquele branco, daquele branco couro cabeludo, por onde eu passava os dedos. Talvez a sujeira que se acumulava  sua 
volta pudesse sufoc-la, mas nunca corromp-la.
    Avancei furtivamente para a saleta na entrada do quarto dela, que agora era o meu. S havia uma cama de ferro, as espirais das molas servindo de estrado sob 
um colcho de listras. De vez em quando ela estendia um acolchoado em cima do colcho, mas na maioria das vezes s havia lenis e cobertores. Parecia o curso normal 
da vida, xcaras brancas de caf, grandes, grossas, sempre lascadas, toalhas rasgando, sapatos com buracos nas solas, restos de comida em nossos dentes at o pai 
dizer: "Ser que nenhuma de vocs escova os dentes?"
    Durante algum tempo podia haver uma escova de dentes, quem sabe duas ou trs, e at mesmo um pouco de creme dental, mas logo essas coisas caam no cho, ficavam 
perdidas ou simplesmente acabavam. Assim a vida seguia seu rumo, coberta com uma grossa nuvem cinzenta. Nas tinas guardadas na cozinha, minha me lavava as roupas 
a mo, como nossa av tinha feito at morrer.
    Mil novecentos e quarenta e sete. E 1948. Eu gostava de brincar com o esfregador na tina de roupas, mas as mos dela estavam inchadas de tanto torc-las. Carregvamos 
os lenis para o quintal num grande cesto de vime e, quando eles eram pendurados no varal, eu carregava as pontas para que no ficassem sujas de terra. Adorava 
passar as mos em lenis limpos.
    Um dia, pouco antes de morrer, e estou dando agora um salto de uns sete anos  frente, a me disse que tinha visto uma criatura estranha nos lenis do quintal, 
com duas patinhas pretas, e deu a entender, arregalando os olhos, que se tratava de uma coisa demonaca. Percebi que estava ficando maluca e que no ia demorar para 
morrer. No demorou.
    Mas aquela noite foi muito antes de eu pensar que ela pudesse morrer, embora isso j tivesse acontecido com nossa av. Aos oito anos, achava que as pessoas voltavam; 
a morte ainda no me trazia um medo profundo. Foi talvez a me quem me trouxe o medo, ou meu pai, saindo para fazer seus bicos noturnos, entregando telegramas numa 
moto, aps cumprir seu horrio normal no correio, ou despachando a correspondncia no American Bank. Nunca entendi inteiramente as coisas extras que fazia, s sabia 
que o mantinham longe, s sabia que ele tinha dois trabalhos e que, aos domingos, saa com os Homens da Palavra de Deus para atravessar a parquia e distribuir ajuda 
s crianas pobres. Lembro disso porque, num domingo, pegou meus lpis de cor, meus nicos lpis de cor, para d-los a uma "criana pobre", ficando to amargamente 
desapontado com meu egosmo que me olhou com um sorriso de escrnio antes de me dar as costas e sair de casa.
    Onde se encontrava a fonte segura de lpis de cor num mundo assim? Muito, muito longe, alm do campo pedregoso do cansao e da preguia, num armarinho at onde 
nunca consegui arrastar algum, durante anos e anos, para comprar novos lpis de cor!
    Mas o pai no estava l e a luz vinha do aquecedor. Parei na porta do quarto. Podia ver o aquecedor. Podia ver alguma coisa perto do aquecedor, uma coisa branca, 
indefinida, branca e preta, brilhante. Sabia o que era, mas no sabia por que estava brilhando.
    Pisei no quarto; o ar quente pairava l dentro aprisionado pela porta, pelo basculante fechado em cima da porta. Do lado esquerdo, na cama, com a cabea virada 
para a parede, ela jazia. A cama estava onde estava agora, s que era velha, de ferro, vergada no centro e rangia quando a pessoa se escondia embaixo dela, vendo 
toda aquela poeira nas espirais das molas; realmente fascinante.
    Sua cabea estava meio levantada, o cabelo ainda no fora cortado nem vendido: era comprido, preto, caa pelas costas nuas. Ela estremecia com a tosse enquanto 
a luz do aquecedor exibia as veias grossas, sinuosas, que se reuniam em suas pernas. A calcinha cor-de-rosa lhe cobria as ndegas pequenas.
    Mas o que era aquilo que estava deitado perigosamente perto do aquecedor? Oh, Deus, pegaria fogo como as pernas das cadeiras que ficavam com aquele queimado 
preto quando algum as empurrava na direo do aquecedor e se esquecia delas. Havia um cheiro de gs no quarto e as chamas alaranjadas. Eu me encolhia contra a porta.
    J nem me preocupava mais se a me ia ficar furiosa por eu ter descido. Se me mandasse voltar para a cama, eu no ia voltar, no podia voltar, no conseguia 
me mexer.
    Por que a coisa brilhava?
    Era o que chamavam de Kotex, um chumao de fibras macias de algodo que a me prendia na calcinha com um alfinete de fraldas quando sangrava. Estava franzido 
no meio por ter sido usado e todo escuro de sangue,  claro. Mas brilhava. Por que o brilho?
    Parei na frente do aquecedor e, com o rabo do olho, vi quando ela se sentou na cama. A tosse era agora to ruim que teve de sentar.
    "Ligue a luz", disse ela com sua voz embriagada. "Puxe o abajur, Triana, ligue a luz."
    "Mas aquilo", repliquei, "mas aquilo!" Cheguei mais perto da coisa, apontei para o chumao de algodo com a marca Kotex, franzido no meio,  com sangue coagulado. 
Estava coberto de formigas! Era por isso que brilhava! Oh, Deus, veja isso, me! Formigas, formigas correndo de um lado para o outro em cima dele, formigas, voc 
sabe como elas vm e tomam conta de um prato esquecido fora do armrio, devoradoras, minsculas, uma quantidade enorme delas, impossvel de matar.
    "Me, olhe, est coberto de formigas, o Kotex!"
    Imagine se Katrinka visse aquilo, se Katrinka sasse engatinhando e encontrasse uma coisa assim, se qualquer pessoa visse aquilo! Cheguei cada vez mais perto.
    "Olhe!", eu disse.
    A me no parava de tossir. Fez sinal com o brao direito para eu deixar aquilo em paz, mas como se pode deixar uma coisa dessas em paz? Era um Kotex jogado 
de qualquer maneira no canto, coberto de formigas! Estava perto do aquecedor, podia pegar fogo, mas as formigas, quem pra as formigas? Podiam tomar conta de tudo. 
Por isso as pessoas isolavam completamente das formigas o velho mundo de 48 ou 49, jamais permitindo que levantassem a cabea. Afinal as formigas comiam os passarinhos 
mortos assim que eles caam na grama, depois faziam uma fileira que rastejava sob a porta e subia at o balco da cozinha  procura daquele melado que derramou.
    "Ah", foi uma exclamao de nojo. "Olhe para isso, me!" Oh, eu no queria encostar a mo naquela coisa.
    Ela se levantou, cambaleante, e avanou por trs de mim. Curvei-me apontando para o Kotex, contorcendo os traos de meu rosto.
    A me fazia fora para falar atrs de mim, para dizer pare, pare!
    "Deixe isso em paz", falou, e a a tosse foi to forte que pareceu estrangul-la. Ento ela me agarrou pelo cabelo e me deu um tapa.
    "Mas, me", eu disse, apontando para a coisa.
    Bateu-me outra vez, e outra, por isso me encolhi e levantei os braos para me proteger, sentindo um tapa atrs do outro me atingir o brao.
    - Pare com isso, me!
    Ca de joelhos no cho, no ponto onde o aquecedor lanava um flamejante reflexo no p e na cera velha dos tacos. Senti o cheiro do gs e vi o sangue, a grossa 
mancha de sangue coberta de formigas.
    Ela me bateu de novo. Estendi a mo direita. Gritei. Quase ca em cima da coisa e minha mo quase encostou nela. As formigas enchiam tudo, entravam num ritmo 
frentico, correndo sobre a mancha de sangue naquela velocidade das formigas.
    "Mame, pare!" Olhei em volta; no queria pegar aquilo, mas algum tinha de pegar.
    Ela se erguia ameaadora sobre mim, trmula, com a calcinha cor-de-rosa e fina esticada bem para cima da barriga pequena, com os seios de mamilos marrons caindo, 
com o cabelo num grande emaranhado no rosto, tossindo, me fazendo sinal furiosa para eu sair dali, para ir embora. Foi ento que levantou o joelho e o p descalo 
me deu um chute forte no estmago. Forte.
    Forte, forte.
    Nunca em toda minha vida eu passara por aquilo!
    No era dor. Era o fim de tudo.
    No conseguia respirar. No conseguia respirar. No estava mais viva. No conseguia alcanar ou encontrar o flego perdido. Senti a dor no estmago e no peito, 
mas no tive voz para gritar. Vou morrer, eu pensei. Eu ia morrer, ia morrer. Oh, Deus, o que ela tinha feito comigo! Voc me chutou, eu queria dizer. Voc me chutou, 
mas foi sem querer, s pode ter sido sem querer, me! No consegui respirar, quanto mais falar. Estava morrendo e meu brao roava no aquecedor quente, no ferro 
fervendo do aquecedor.
    Ela me agarrou pelo ombro. Dei um grito. Dei. Ofeguei e gritei, gritei, e gritava agora, como naquela noite em que o Kotex, fervilhando com as formigas, e a 
dor no estmago, e o vmito subindo no meu grito eram tudo que havia. Voc no fez por querer, no fez... No podia me levantar.
    "No. Ponha um ponto final nessa coisa!"
    Stefan.
    A voz dele. Etrea e alta.
    A casa fria da poca atual. Ser que menos assombrada?
    Stefan parou deprimido ao lado da cama de quatro colunas. Agora, 46 anos depois daquele momento, todos foram para o tmulo, mas eu e o beb, a menininha no andar 
de cima que cresceu to cheia de medo e to cheia de dio por mim, de mim que no conseguiria salv-la daquelas coisas e no salvei - ns e ele, nosso hspede, meu 
fantasma, vergamos todo nosso corpo sobre o caprichoso entalhe da coluna da cama de mogno.
    Sim, por favor, deixe tudo isso voltar, minhas colchas de renda, as cortinas, a seda, eu nunca... Minha me no fez por querer, no podia ter feito... aquela 
dor (absolutamente incapaz de respirar) que depois di, di, di - e a nusea... Eu no consigo me mexer!
    Vmito.
    "No! J chega", disse ele.
    E seu brao direito rodeou, segurou a coluna da cama, largando em segurana o violino no colcho grande e macio, em cima do acolchoado de penas. Finalmente as 
duas mos agarraram a coluna e ele comeou a chorar.
    - Uma coisa to insignificante - falei. - A me no me esfaqueou!
    - Eu sei, eu sei! - exclamou Stefan.
    - E pense nela - continuei -, nua daquele jeito, como parecia feia. E me chutou, me deu um chute forte com o p descalo. Estava bbada e meu brao queimava 
no aquecedor!
    - Pare! - ele implorou. - Triana, pare! - Levantou as duas mos e cobriu o rosto.
    - No pode fazer msica com isso - disse eu, chegando mais perto. - No pode fazer grande arte com uma coisa assim, to pessoal, to vergonhosa e vulgar, no 
pode!
    Ele chorava. Exatamente como eu devia ter chorado.
    O arco e o violino estavam pousados no acolchoado.
    Corri para a cama, agarrei os dois - violino e arco - e me afastei dele.
    Stefan ficou atordoado.
    Seu rosto estava molhado e branco. Arregalava os olhos. Por um instante, no conseguiu apreender inteiramente o que eu havia feito, mas compreendeu quando fixou 
o olhar no violino.
    Levei o violino at o queixo; sabia como fazer; levantei o arco e comecei a tocar. No pensei, no planejei, nem tive medo de fracassar; comecei a tocar, a deixar 
o arco, mal agarrado entre dois dedos, voar contra as cordas. Senti o cheiro da crina de cavalo e da resina do arco, senti os dedos esquerdos baterem para cima e 
para baixo no brao do instrumento, abafando a vibrao das cordas. Atirei-me furiosamente com o arco contra elas. E por entre as pancadas, por entre o golpear dos 
meus dedos, brotou uma melodia, uma msica coerente, uma dana, uma dana frentica e embriagadora, as notas se sucedendo muito depressa umas s outras, como se 
quisessem tocar por si mesmas. Era uma dana do diabo, como naquele atordoante piquenique h muitos anos, quando Lev danou enquanto eu tocava e tocava, enquanto 
meus dedos e o arco se moviam sem parar. Era assim, era pior, era uma cano, uma doida, dissonante e extremamente arrebatada cano rural, selvagem, selvagem como 
as canes da Alta Esccia e das montanhas sombrias, como as danas fantsticas e tenebrosas da memria e dos sonhos.
    Tomou conta de mim... "Gosto muito de voc, gosto muito de voc, mame, gosto muito de voc, gosto muito de voc." Era uma cano, realmente, verdadeiramente 
brilhante, uma cano estridente e palpitante sada de seu Stradivarius, jorrando indmita enquanto eu balanava de um lado para o outro, enquanto o arco serrava 
loucamente e meus dedos se debatiam. Adorei, adorei aquela msica rstica, inculta e misteriosa, minha msica.
    Ele estendeu a mo para o violino.
    - Devolva!
    Dei-lhe as costas. Tocava. Fiquei um instante imvel, depois puxei o arco para baixo num longo, abafado, doloroso gemido; toquei a mais triste, a mais lenta 
das frases musicais, doce e sombria, e nos meus olhos eu vestia a me, deixando-a bem arrumada, vendo-a no parque conosco, o cabelo castanho penteado, o rosto to 
bonito; nunca nenhuma de ns teve a sua beleza.
    Tudo com que eu ficara envolvida durante tantos anos ia perdendo o sentido enquanto tocava, mas no deixava de v-la chorando na grama. Ela queria morrer. Durante 
a guerra, quando eu e Rosalind ramos muito pequenas, andvamos sempre a seu lado, segurando sua mo. Num anoitecer, ficamos trancadas por engano no escuro museu 
do Cabildo. Ela no estava com medo. No estava bbada. Estava cheia de esperana e de sonhos. No havia morte. Fora uma aventura. Tinha um rosto sorridente quando 
o guarda chegou para nos socorrer.
    Oh, traga devagar o arco e deixe as notas cada vez mais graves, graves a ponto de assust-la, de faz-la temer que alguma outra coisa possa estar fazendo este 
som. Stefan se aproximou de mim. Dei-lhe um pontap! Chutei-o to exatamente como ela me chutara. Quando meu joelho subiu, ele foi rodopiando para trs.
    - D-me o violino! - exigiu, fazendo fora para recuperar o equilbrio.
    Eu tocava e tocava, to alto que nem conseguia ouvi-lo, afastando-me novamente dele, nada vendo alm da me: "gosto muito de voc, gosto muito de voc, gosto 
muito de voc."
    Ela dizia que queria morrer. Estvamos no parque, eu era menina e ela ia se afogar no lago. Estudantes j tinham se afogado no lago do parque, que era bastante 
fundo. Os carvalhos e os repuxos nos escondiam do mundo da avenida, dos bondes. Ela ia afundar naquela gua barrenta e se afogar.
     o que queria fazer, e uma desesperada Rosalind, a bonita Rosalind de 15 anos, com sua perfeita e acetinada moldura de cachos, implorava e implorava que no 
o fizesse. Eu j tinha seios debaixo do vestido, mas no suti. No usara nenhum at aquela poca.
    Quarenta anos depois, ou mais, estava l de novo. Tocava. Vergastava sem parar as cordas com o arco. Batia com o p. Puxava pelo som, torcendo as cordas de um 
lado para o outro, fazendo o violino gritar.
    No parque, perto do nojento mirante, onde os velhos mijavam e onde sempre se demoravam, olhando de lado (perto de l), dispostos a mostrar um pnis mole na mo 
(faa a vontade deles, no faz mal), perto de l eu estava com Katrinka e a pequena Faye nos balanos, naqueles balancinhos de madeira que eram para crianas muito, 
muito pequenas (com a barra de ferro na frente para elas no carem), mas ainda podia sentir o cheiro da urina ao empurrar as duas, uma de cada vez, um empurro 
em Faye, um empurro em Katrinka, e os marinheiros no me deixavam em paz, aqueles garotos, pouco mais velhos que eu, adolescentes da marinha que naquela poca estavam 
sempre no porto, garotos ingleses talvez, ou l do norte, eu no sei, garotos passeando na rua do Canal, fumando, s garotos.
    "Aquela  sua me? O que ela tem?"
    No respondi. Queria que fossem embora. Nem mesmo sabia o que dizer. S arregalava os olhos e empurrava os balanos.
    Meu pai nos forava a sair: tm de tir-la desta casa, tenho de tir-la daqui e dar uma limpeza neste lugar, ele dissera, isto est insuportvel e vo sair com 
ela. E todas ns sabamos que estava bbada, cheirando mal de to bbada e ele nos fez sair com ela (vou odi-la at morrer, disse Rosalind) e todas juntas a ajudamos 
a subir no bonde. Ela sacudiu a cabea, depois deixou a cabea cair, embriagada, quase dormindo enquanto o bonde balanava para a cidade alta.
    O que as pessoas pensaram da me, daquela senhora com suas quatro filhas? Devia estar usando roupas decentes, embora eu s conseguisse me lembrar do cabelo (saindo 
da moldura da testa, muito bem penteado para trs), dos lbios franzidos e do modo como acordava bruscamente, aprumava o corpo e caa de novo para a frente, olhos 
vidrados. A pequena Faye se agarrava a ela com fora, com fora, fora.
    A pequena Faye, encostada nas golas do casaco da me, a pequena Faye sem perguntas na cabea, e Katrinka solene, envergonhada, muda, cujo olhar j era assim 
parado, mesmo naquela tenra idade.
    "Aqui!", disse a me quando o bonde chegou ao parque. Todas ficamos junto dela ao descer do bonde pela porta da frente, pois estvamos mais perto da frente. 
Eu me lembro. A Igreja do Santo Nome na esquina e, do outro lado, o bonito parque com os parapeitos que o cercavam, os repuxos, a grama verde, verde, onde anos atrs 
ela sempre costumava nos levar.
    Mas havia alguma coisa errada. O bonde continuava parado. As pessoas nos bancos de madeira olhavam espantadas. Eu continuava na calada levantando os olhos. 
Era Rosalind. Rosalind num banco l atrs, olhando pela janela, fingindo que no estava conosco, ignorando a me, a me que chamava com uma voz to distinta que 
ningum jamais ia imaginar que estivesse bbada:
    - Rosalind, querida, vamos.
    O condutor esperava. Do jeito como ficavam os motorneiros naquele tempo, na janela da frente do carro, com os controles, com as duas manivelas. Esperava e todo 
mundo estava na expectativa. Agarrei a mo de Faye, que quase se metera no meio dos carros. De cara feia, loura, chupando o polegar, de rosto redondo e ar perdido, 
Rosalind assistia atoleimada a tudo aquilo.
    A me recuou por toda a extenso do carro. Rosalind no podia resistir. Tinha de se levantar e foi o que fez.
    Depois, no parque, quando a me ameaou se afogar, quando caiu soluando na grama, Rosalind implorou e implorou para ela no fazer aquilo.
    "Quantos anos voc tem?", perguntavam os garotos marinheiros. "Aquela  sua me? O que ela tem? Ei, vou ajud-la com aquela menina."
    "No."
    No queria a ajuda deles! No gostava do modo como me olhavam. Treze. No sabia o que queriam! No sabia qual era o problema deles para me rodearem daquele jeito, 
a mim e s duas crianas pequenas. L embaixo a me estava cada de lado, com os ombros tremendo. Podia ouvi-la soluar. Quando a dor ficava menos aguda, sua voz 
era bela e suave, mas agora a dor machucava muito porque Rosalind no quisera sair do bonde (porque a me estava bbada), porque meu pai a obrigara a sair de casa 
(porque ela estava bbada), porque ela queria morrer.
    - O violino, devolva! - Stefan berrava. - Me d o violino!
    Por que simplesmente no o pegava? No sabia. Nem me importava.
    Continuei com a jiga, a dana catica, meus ps se mexendo, saltitando como os ps da surda-muda Johnny Belinda no filme (sob as vibraes da rabeca que ela 
podia apenas sentir). Ps danantes, mos danantes, dedos danantes, dana selvagem, louca, ritmo dos campos da Irlanda, caos. Danava no cho do quarto, danava, 
tocava, jogava o arco para a esquerda e mergulhava com ele, os dedos escolhendo seu prprio caminho, o arco seu prprio tempo,  isso, fundo, fundo, como eles diziam 
no piquenique, vai fundo!
    Vai tocando, deixa rolar. Tocava e tocava.
    Ele me agarrou, me pegou. No era forte o bastante para me dominar.
    Recuei para a janela, abracei o arco e o violino, apertei.
    - Devolva - insistiu.
    - No!
    - No  capaz de toc-lo.  o violino que est fazendo isso; e  meu,  meu!
    - No.
    -  o meu violino, me d!
    - Prefiro esmag-lo!
    Prendi com fora o violino nos braos. No queria quebrar a ponte no tampo do instrumento, mas ele no podia imaginar a fora que eu fazia. Devo ter me resumido 
a cotovelos e olhos enormes, tudo segurando o violino.
    - No! - exclamei. - Toquei, toquei desse jeito antes, toquei minha msica, minha verso dela.
    - No fez nada disso, sua puta, est mentindo! Me d o violino agora, porra, eu j lhe avisei,  meu! No pode pegar uma coisa dessas!
    Eu tremia de cima a baixo e o encarava. Ele avanou, eu me encolhi no canto e aumentei o aperto.
    - Vou esmag-lo!
    - No teria coragem.
    - E qual  o problema?  uma coisa espectral, no ?  um fantasma como voc  um fantasma. Quero tocar de novo. Quero... apenas segur-lo. No pode tir-lo 
de mim...
    Levantei o violino e coloquei-o de novo sob o queixo. Sua mo avanou e chutei-o mais uma vez. Acertei-lhe as pernas quando tentava escapar, pus o arco nas cordas 
e toquei um grito selvagem, um longo e terrvel grito; depois comecei a tocar devagar, de olhos fechados, ignorando-o, segurando o violino com cada dedo e cada fibra 
do meu ser, um toque suave, lento, talvez uma cano de ninar para ela, para mim, para Roz, para minha magoada Katrinka e minha frgil Faye, uma cano da penumbra 
como o velho poema da me, sua voz macia lendo para ns antes da guerra acabar e do pai voltar para casa. Ouvia o tom crescer, o tom harmonioso, sonoro; ah, aquele 
era o toque, o verdadeiro toque - o modo de baixar o arco sem qualquer percepo consciente de presso sobre as cordas - e depois foi s uma frase depois da outra: 
"Me, gosto muito de voc, gosto muito de voc, gosto muito de voc." No existe guerra, mas ele nunca voltar para casa e ficaremos sempre juntas. As notas mais 
altas eram to finas e puras; tristes, mas to luminosas.
    No pesava nada, o violino, s machucava um pouco o osso de meu ombro e eu sentia uma tontura. Mas a cano era o compasso. No me interessavam as notas, nem 
a harmonia. S me interessavam as frases errantes de mgoa e melancolia, os doces lamentos galicos sem fim, um se plugando no outro, mas isso flua, meu Deus, flua, 
flua como... como o qu?, como sangue, como o sangue no trapo imundo do cho. Como sangue, o interminvel fluxo de sangue de um tero ou de um corao de mulher, 
eu no sei. Em seu ltimo ano, ela sangrava ms sim ms no, e o mesmo acontecera comigo no fim de minha vida frtil, j sem filhos, sem mais nada para nascer de 
mim (como sangue vivo) naquela idade. No faz mal.
    No faz mal.
    Era msica!
    Alguma coisa roou em meu rosto. Eram os lbios dele. Meu cotovelo subiu e atirou-o do outro lado da cama. Estava desconjuntado, desesperanado. Agarrava a coluna 
e me olhava furioso, lutando para se levantar.
    Parei, um tremular nas notas finais. Senhor, passamos a longa noite vagando de um lado para o outro, ou era s a Lua? Sim, a Lua nas cerejeiras e a grande, cega 
escurido daquele prdio ao lado, parede do mundo moderno que podia sombrear, mas nunca destruir este paraso.
    O pesar que eu sentia por ela, a pena, a pena dela no momento em que me chutou aqui nesta sala! Uma menina de oito anos! A pena que eu sentia estava fluindo 
com a ressonncia das notas no ar. Eu tinha apenas de levantar o arco. O impulso era natural.
    Encostado na parede l longe, ele estava com medo de mim.
    - Estou lhe avisando, vai se arrepender se no devolver o violino!
    - Voc chorava por mim? Ou por ela?
    - Devolva!
    - Ou meramente pela feira da histria? O que era?
    Era uma menina incapaz de respirar, em pnico, apertando a barriga, o brao roando no ferro quente do aquecedor aberto, oh, aquela mgoa era to pequena num 
mundo de horrores e, no entanto, de todas as memrias nenhuma foi mais secreta, mais terrvel, mais silenciada.
    - Hum... - disse eu, e depois: - Quero tocar.
    Comecei com brandura, percebendo como era simples fazer o arco deslizar suavemente sobre a corda de l e a corda de sol, percebendo como era possvel basear 
toda uma melodia numa nica corda grave ou deixar o som levemente estridente brotar e impregnar a msica; oh, chorar, chorar pela vida desperdiada. Eu ouvia as 
notas, deixava-as surpreender e expressar minha alma num golpe atrs do outro; sim, caiam sobre mim, deixem-me saber, deixem minha mente expandir-se para encontrar 
a si mesma. Ela no viveu outro ano depois que chorou no parque - nem um ano a mais; seu cabelo era comprido, castanho, e naquele ltimo dia ningum foi com ela 
at o porto.
    Acho que cantei enquanto tocava. Por quem voc chorava, Stefan, cantei. Era por ela, era por mim, era pela coisa baixa, pela coisa feia? Cantar fazia bem a meu 
brao, deixava-me os dedos exatos e flexveis, como patinhas batendo nas cordas. E a msica ia se construindo de ouvido, sem uma clave de f ou sol, um cdigo to 
antigo e inadequado, um script to pobre para o som. Eu podia comandar o tom e ao mesmo tempo ficar atnita e ser arrebatada por ele, como sempre fui arrebatada 
pela msica do violino - s que agora a coisa estava em minhas mos!
    Vi seu corpo no caixo. O rosto coberto de ruge como o de uma prostituta. O agente funerrio disse: "A mulher engoliu a lngua!" E meu pai nos disse: "Estava 
to desnutrida que o rosto ficou preto e cedeu, ele teve de colocar muita maquiagem. Oh, no! Olhe, Triana, isto no  certo, olhe, Faye nem vai reconhec-la."
    E de quem era aquele vestido? Um vestido vermelho-escuro, um vestido de cor magenta. Nunca tivera um vestido assim. Era de tia Elvia, e ela no gostava de tia 
Elvia. "Elvia disse que no conseguiu encontrar nada no armrio dela. Mas sua me tinha roupas. Tinha de ter roupas. Ser que no tinha roupas?"
    O instrumento era to leve, to fcil de manter no lugar, e era to fcil tirar de leve, de leve, de leve o fluxo de som familiar, acariciante, acessvel como 
era acessvel aos homens e mulheres das montanhas, que o aprendiam e danavam com ele na infncia, antes de aprender a ler, a escrever ou mesmo a falar. Eu tinha 
me entregado quilo, e aquilo a mim.
    O vestido de tia Elvia. Mas aquilo parecia uma abominao, no das piores, sem dvida, mas inesquecvel, uma derradeira e revoltante ironia, uma amarga, amarga 
imagem de displicncia.
    Por que no comprei roupas para ela, por que no lhe dei banho, no a ajudei, por exemplo, a ficar de p? O que havia de to errado comigo? A msica levava com 
ela a acusao e o castigo, numa corrente sem rupturas e coerente.
    "Ela tinha roupas?", perguntei asperamente ao meu pai. Uma combinao de seda preta, eu me lembro, quando se sentava sob o abajur com o cigarro na mo; uma combinao 
de seda preta nas noites de vero. Roupas? Um casaco, um velho casaco.
    Oh, Deus, deix-la morrer assim. Eu tinha 14 anos. Idade suficiente para pensar em ajud-la, em am-la, em cur-la.
    Que as palavras se dissipem.  o esprito da coisa, renunciar s palavras; que o grande e harmonioso som conte a histria.
    -  Devolva o violino! - Stefan gritou. - Ou vou lev-la comigo, estou lhe avisando!
    Parei, atordoada.
    - O que voc disse?
    Ele ficou calado.
    - Hum... - comecei a dizer, mantendo o violino ainda comodamente entre ombro e queixo. - Para onde - perguntei com ar sonhador -, para onde vai me levar?
    No esperei pela resposta dele.
    Toquei a melodia suave que no precisava absolutamente de estmulo consciente. As notas doces que brotavam sucediam-se to  vontade como beijos nas mos, no 
pescoo e nas bochechas de um beb, como se eu estivesse segurando a pequena Faye e a beijasse, beijasse, to pequena, meu Deus, me, Faye escorregou atravs das 
tabuinhas do bero, olhe! Eu a Peguei. Mas era Lily, no era? Ou era Katrinka sozinha no escuro com a pequena Faye quando cheguei em casa.
    Vmito no cho.
    E o que foi feito de ns?
    Para onde tinha ido Faye?
    "Acho... acho que talvez fosse bom voc comear a procurar", disse Karl. "Sua irm Faye j partiu h dois anos. No acho... no acho que ela v voltar."
    "Que ela v voltar." Voltar, voltar, voltar.
    Foi o que o mdico tinha dito quando Lily ainda estava sob a mscara de oxignio. "Ela no est voltando."
    Que a msica grite, que faa borbulhar e afrouxe o aperto de toda esta mgoa, dando-lhe uma nova forma.
    Abri os olhos, continuando a tocar, vendo coisas, um mundo brilhante, estranho e surpreendente, mas sem nomear as coisas que via, meramente entendendo suas formas 
como inevitveis e cintilantes no claro das janelas, como a feminina penteadeira de minha vida com Karl: sobre ela, o retrato de Lev e de seu bonito filho mais 
velho, o garoto alto com o cabelo claro de Lev e de Chelsea, o que se chamava Christopher.
    Stefan se atirou contra mim.
    Deitou a mo no violino, mas segurei com fora.
    -  Vai quebrar - disse eu, conseguindo livr-lo. Slido, leve, uma casca de coisa, to cheio da vibrao da vida quanto uma casca de caracol antes de se soltar 
ou ser abandonada. Quebrava mais fcil que vidro.
    Recuei at os vidros da janela.
    - Vou esmag-lo. E quem vai levar a pior nisso tudo?
    Ele estava fora de si.
    - No sabe o que  um fantasma - falou. - No sabe o que  a morte. Murmura sobre a morte como se ela fosse um bero de criana. Ela cheira mal,  abominvel, 
 podre. Seu marido, Karl,  um monte de cinzas agora. Cinzas! E sua filha, o corpo inchado de gases e...
    - No - respondi. - O violino est comigo e posso toc-lo.
    Ele se aproximou de mim, de cabea erguida, com a fisionomia um instante atenuada pela admirao. As sobrancelhas pretas e lisas ficaram livres de qualquer franzido 
e os olhos, sombrios e vibrantes como um aoite, me espreitaram.
    - Estou lhe avisando - disse ele, a voz ficando mais grave, mais dura. Eu nunca tinha visto seus olhos to abertos, to cheios de dor. - Est segurando uma coisa 
que vem dos mortos. Est segurando uma coisa que vem da minha esfera, que no  a sua. E se no devolv-la, vou lev-la comigo. Vou lev-la para meu mundo, para 
minhas memrias, para minha dor. Ento voc vai saber o que  o sofrimento, sua estpida infeliz, sua vagabunda rameira, ladra cheia de cobia, mulher desesperada 
e chocha; voc feriu todos os que a amavam, deixou Lily morrer, feriu-a muito, lembre dos quadris, o osso aparecendo, lembre do rosto quando ela levantou a cabea 
para olh-la e voc estava bbada, voc a deitou na cama e ela estava...
    - Levar-me para o reino dos mortos? Mas isto j no  o inferno?
    O rosto de Lily. Eu a jogara com muita fora na cama; as drogas tinham devorado todos os seus ossos. Na pressa, eu a machucara e ela levantou a cabea. ,me olhou, 
me viu, calva, machucada, com medo, uma criana que era chama de vela, bonita na doena e na sade; eu tinha bebido, meu Deus, vou queimar por isto no Inferno, para 
todo o sempre, pois eu mesma aticei as chamas de minha perdio. Prendi a respirao. No tinha feito isso, no tinha.
    - Mas fez, foi rude com ela naquela noite, empurrou-a, estava bbada! Voc que jurou nunca deixar uma criana passar o que voc tinha passado com a me alcolatra...
    Ergui o violino. Fiz o arco descer num grito seco sobre uma aguda corda metlica, a corda de mi. Talvez toda cano seja uma forma de grito, um grito organizado; 
ao se aproximar de certo timbre mgico o violino  to estridente quanto uma sirene.
    Ele no podia me deter, simplesmente no era forte o bastante; sua mo ondulava em cima da minha, ele no podia. Assombrado, espectral, o violino  mais forte 
que voc!
    - Voc rasgou o vu - gritou em tom de ameaa. - Estou lhe avisando. O que tem nas mos me pertence e nem ele nem eu somos deste mundo. Sabe muito bem disso! 
Ver  uma coisa, ir comigo  outra.
    - E o que vou ver quando for com voc? Tamanha dor que vou lhe devolver o violino? Entrou aqui me oferecendo antes exasperao que um simples desespero, e ainda 
acha que vou ter pena de voc?
    Ele mordeu o lbio e, para no depreciar o que tinha a dizer, hesitou:
    - Sim,  isso que vai ver, vai ver... o que distingue a dor... o que, o que so... eles...
    - E quem eram eles? Quem eram? To terrveis que puderam jog-lo alm da vida, com uma determinada aparncia e um violino na mo, para que se aproximasse de 
mim, como se viesse me trazer consolo, e me fizesse afundar e ver aqueles rostos em pranto... minha me, oh, voc! Eu o detesto... Minhas piores memrias...
    - Voc adorava se atormentar, inventava suas prprias imagens e poemas de cemitrios, bradava pela morte num tom de cobia. Acha que a morte  um mar de rosas? 
D-me o violino. Grite com suas cordas vocais, mas me d o violino!
    A me, num sonho, dois anos aps sua morte:
    "O que voc viu eram apenas flores, minha menina."
    "E voc no est morta?", gritei no sonho, mas logo percebi que a mulher era uma impostora. Soube pelo sorriso perverso, no era ela, no minha me, a me tinha 
realmente morrido. O simulacro foi cruel demais quando disse: "Todo o enterro foi uma farsa." Quando disse: "O que viu eram apenas flores."
    - Saia de perto de mim - murmurei.
    -  meu.
    - Ningum o convidou!
    - Voc me convidou.
    - Eu no o mereo.
    - Merece.
    - Inventei preces e fantasias, como voc disse. Depositei os tributos no tmulo, e tinham ptalas esses tributos. Cavei tmulos adequados a meu tamanho. Voc 
me reconduziu, me orientou para a coisa bruta, a coisa informe, e deixou minha cabea tonta. Voc me tirou o flego a pontaps! E agora eu posso tocar, posso tocar 
este violino!
    Desviei-me dele e toquei a cano, o arco subindo e descendo num garbo cada vez maior. Minhas mos sabiam! Sim, sabiam.
    - S consegue tocar porque  meu, porque no  real. Desista, vbora!
    Dei um passo atrs, tocando a melodia em tom bastante grave e spero, ignorando o repetido avano de suas mos desesperadas. De repente fiz uma pausa, tremendo.
    Tinha se formado o elo mgico entre minha mente e minhas mos, entre dedos e inteno, entre vontade e habilidade; Deus fosse louvado, acontecera.
    - Est vindo de meu violino porque o elo  meu! - falou.
    - No. O fato de no conseguir peg-lo de volta  bastante claro. Tenta, mas no consegue. Pode passar atravs das paredes. Pode toc-lo. Levou-o com voc para 
a morte, tudo bem. Mas agora no pode tir-lo de mim. Sou mais forte que voc. Estou com ele. E ele continua slido, olhe! Escute como toca! E se de alguma forma 
estivesse destinado a mim? J pensou nisso, criatura perversa e voraz? Ser que antes ou depois da morte amou suficientemente algum para pensar que talvez...
    -  uma afronta o que est dizendo - exclamou Stefan. - Voc no  nada,  puro acaso, um em centenas de outros, a prpria sntese da pessoa que aprecia tudo 
e nada cria, uma simples...
    - Oh, coisinha esperta! Mostrando um rosto to cheio de dor. Como o de Lily, como o da me.
    - Isto acontece por sua causa - murmurou. - No  justo, eu teria partido, teria ido embora se voc me pedisse. Voc me enganou!
    - Mas no queria partir, queria a mim, sabia me atormentar, s resolveria partir quando fosse tarde demais e eu j estivesse precisando de voc. Como teve coragem 
de rasgar assim minhas feridas? Mas agora o violino est comigo e sou mais forte que voc! Alguma coisa dentro de mim clamou por ele e no vai solt-lo. Posso tocar.
    - No, ele  parte de mim, tanto quanto meu rosto, meu casaco, minhas mos ou cabelo. Somos fantasmas, essa coisa e eu, e voc no faz a menor idia do que isso 
significa, no tem bagagem para compreender, no imagina o que significa nossa danao e no pode se colocar entre mim e esse instrumento. Eles...
    Mordeu os lbios; seu rosto dava a impresso de um homem que podia desmaiar a qualquer momento. Ficou muito branco, todo o sangue que no era sangue o abandonava. 
Abriu a boca.
    No pude suportar v-lo assim. No pude. Parecia ser meu derradeiro erro, o equvoco extremo, a ltima falta, ferir daquele jeito um Stefan que eu mal conhecia 
e que tinha saqueado. Mas no lhe devolveria o violino.
    Deixei meus olhos se enevoarem. Sentia um nada, a grande e fria brancura do nada. Nada. Ouvia msica em minha mente, uma repetio da msica que tocara. Curvei 
a cabea e fechei os olhos. Tocar de novo...
    - Ento, tudo bem - ele disse. Despertei daquele branco, olhei para Stefan e minhas mos apertaram o violino.
    - Fez sua escolha - ele continuou, com as sobrancelhas erguidas e o rosto cheio de espanto.
    - Que escolha?
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
  
  11
  
  
 A luz escureceu no quarto; as folhas lustrosas alm das cortinas perdiam sua forma. Os cheiros do quarto e do mundo no eram os mesmos.
    - Que escolha?
    - Vir comigo. Est em minha esfera agora, est comigo! Tenho foras e fraquezas, no tenho poder para golpe-la com a morte. Mas posso prend-la com encantamentos 
e mergulh-la no verdadeiro passado, com tanta certeza quanto um anjo pode faz-lo, com tanta certeza quanto sua prpria conscincia tambm pode. Voc me levou a 
isso, voc me obrigou.
    Um vento cortante varreu meu cabelo para trs. A cama desaparecera. As paredes tambm. Era noite, as rvores se agigantaram e depois sumiram. Estava frio, um 
frio spero, cortante, e havia fogo! Olhe, uma chama grande e sinistra contra as nuvens.
    - Oh, Deus, voc no me levou para l! - falei. - No para ver aquilo! Oh, Deus, aquela casa ardendo, aquele medo, aquele velho medo infantil do fogo! Ah. Vou 
esmagar este violino, vou reduzi-lo a cinzas...
    Pessoas gritavam, berravam. Sinos tocavam. Toda a noite estava animada de cavalos e carruagens, de pessoas correndo de um lado para o outro e de fogo, o fogo 
era imenso.
    O fogo estava num grande e comprido prdio retangular, de cinco pavimentos. Todas as janelas do ltimo andar vomitavam chamas.
    Era a multido de um tempo passado, homens de sobrecasaca, mulheres com o cabelo preso e saias de cintura muito alta, que saam de baixo dos seios e caam naturalmente. 
Todos estavam aterrados.
    - Meu Deus! - gritei. Fazia frio e o vento me aoitava o rosto. Cinzas caam sobre mim, fagulhas batiam no meu vestido. Pessoas corriam com baldes de gua. Pessoas 
gritavam. Vi pequenos vultos na janela da imensa casa; atiravam coisas para os grupos sombrios que se agitavam l embaixo. Um grande quadro veio dando cambalhotas 
contra o fogo, como um escuro selo postal, enquanto homens corriam para peg-lo.
    Toda a grande praa estava cheia de gente que assistia ao incndio, gritava, gemia, procurava ajudar. Cadeiras eram atiradas dos andares altos. Uma grande tapearia 
foi atirada com fora de uma janela e veio caindo como uma trouxa pesada.
    - Onde estamos? Diga.
    Observei as roupas dos que passavam correndo por ns. Os vestidos leves e vaporosos do incio do sculo passado, antes da chegada dos espartilhos, os homens 
com casacos de grandes bolsos, e olhe! At a camisa do homem sujo estendido na maa, queimado e coberto de sangue, tinha mangas-balo macias e grandes, todas pregueadas.
    Soldados usavam chapus de grandes abas, dobradas para cima na frente e nos lados. Grandes, desengonadas, carruagens rangentes chegavam o mais perto possvel 
do fogo; as portas eram desajeitadamente abertas e homens saltavam para ajudar. Era uma investida de homens comuns e cavalheiros.
    Perto de mim, um homem tirou o casaco pesado e colocou-o nos ombros de uma mulher arqueada, chorosa, cujo vestido era como um lrio invertido e comprido de seda 
murcha. A nudez da nuca dava uma impresso de indiferena e insensibilidade quando o casaco desceu para cobri-la.
    - No quer entrar? - perguntou Stefan, me olhando fixamente, tremendo. No estava imune ao que invocara! Tinha um ar receoso, mas estava com raiva. Eu ainda 
segurava o violino, jamais ia solt-lo. - Vamos l, no quer, no ? Olhe, est vendo?
    Gente esbarrava nele, nos empurrava. No pareciam reparar em ns, mas colidiam conosco como se tivssemos peso e ocupssemos espao em seu mundo, embora obviamente 
isso no acontecesse. Era como a essncia da iluso: uma sedutora solidez, vital como o bramido do prprio fogo. Pessoas corriam na direo do fogo e para longe 
dele; ento se aproximou um homem singular, pequeno, um homem com marcas de varola e cabelo grisalho, cheio de autoridade e com um leve fulgor de raiva, um homem 
de roupa molhada, mas vigoroso. Aproximou-se e cravou duramente em Stefan olhos pequenos, redondos, negros.
    - Meu Deus, sei quem voc  - eu disse. Por um instante ele ficou na sombra, de costas para as chamas, depois se deslocou e a luz atingiu em cheio sua testa 
franzida.
    - Stefan, por que estamos aqui? - perguntou o homem. - Por que isso de novo?
    - Ela pegou meu violino, Maestro! - respondeu Stefan, lutando para guiar o tremor das palavras. - Ela o pegou.
    O homenzinho sacudiu a cabea. Foi tragado pela multido quando recuou, com ar de desaprovao, sujeira na gravata de seda, meu anjo da guarda, meu Beethoven!
    - Maestro! - Stefan gritou. - Maestro, no me abandone!
    Era Viena. Ventava de fato e era outro mundo; no eram as dimenses ntidas de um sonho lcido, era vasto at as nuvens, e olhe, a gua sendo bombeada, os baldes, 
a enorme calada molhada refletindo o crepitar do fogo. Esto jogando gua e das janelas de cima vem uma desesperada, tumultuada sucesso de espelhos (at lustres) 
que fazem barulho l longe e que os homens nas escadas passam de mo em mo. Exploses de fogo de uma janela mais baixa. Uma escada cai. Gritos. Uma mulher se curva 
e berra.
    Centenas de pessoas correm, mas logo so empurradas para trs quando o fogo esguicha de todas as janelas inferiores. O prdio vai explodir em chamas. O telhado 
no alto dos cinco andares est sendo devorado pelo fogo! Um sopro de fuligem e fagulhas atinge meu rosto.
    - Maestro! - Stefan gritava em pnico. Mas o vulto desaparecera.
    Ele se virou, enfurecido, aflito, fazendo sinal para que eu o seguisse.
    - Vamos, quer ver o fogo, no ? Quer ver, deve ver a primeira vez que quase morri para salvar o que me roubou, venha...
    Passamos para dentro da casa.
    O vestbulo de teto alto estava cheio de fumaa. O conjunto de arcos se abria fantasmagoricamente sobre ns por causa da fumaa, mas era real, real como o ar 
de fuligem que nos sufocava.
    O cu pago, pintado l em cima, quebrado por um arco atrs do outro, estava cheio de deidades, lutando para serem vistas de novo, para chamejar em cores, msculos 
e asas. A escada era imensa, de mrmore branco, com bojudos corrimes. Viena, o barroco, o rococ, no to delicado quanto na atmosfera de Paris, no to severo 
quanto na Inglaterra, no, era Viena, quase russa em seus excessos. Olhe, a esttua que bateu no cho, o traje retorcido no mrmore, a madeira pintada. Viena, na 
prpria fronteira da Europa Ocidental, e aquele palcio, cuja grandiosidade superara tudo que ali se construra.
    - Sim, voc acertou, voc sabe - disse ele, com a boca tremendo. -
Meu lar, minha casa! A casa de meu pai. - Seu murmrio perdeu-se repentinamente no estouro e no estilhaar do pedestal.
    Tudo  nossa volta se enegrecia, as altas molduras do teto, forradas de um veludo vermelho-sangue, as orlas de ouro frisado, os trabalhos em madeira que eu via 
para onde quer que olhasse - madeira, madeira pintada de branco, de dourado, com entalhes no pesado estilo vienense, madeira que arderia normalmente, com o cheiro 
das rvores, como se no fosse madeira de tantas paredes preciosamente ornamentadas, como se no houvesse, nas estruturas retangulares de material perecvel que 
enchiam as paredes, murais com cenas da vida domstica ou de vitrias no tempo de guerra.
    O calor crestava a multido que vivia nas pinturas das paredes, as colunas claras e suaves, os arcos romanos. Olhe, mesmo os arcos so de madeira, madeira pintada 
para ter a aparncia de mrmore!  claro. Isto no  Roma.  Viena.
    Vidro se estilhaava. Estilhaos de vidro cortavam o ar, rodopiando, mergulhando, misturando-se s fagulhas ao nosso redor.
    Homens berravam descendo a escada, pernas vergadas, cotovelos para fora, carregando um enorme armrio de marfim, ouro e prata, quase o deixando cair, erguendo-o 
de novo entre gritos e palavres.
    Entramos na grande sala. Oh, Senhor, era tarde demais para aquela magnificncia! A coisa tinha ido longe demais, a chama estava apaixonadamente faminta.
    - Saia, Stefan, saia j! - De quem era aquela voz?
    Tossindo, por todo lado, homens e mulheres tossindo. Do modo como ela, minha me, tinha tossido, s que a fumaa agora estava aqui, a verdadeira, a densa e apavorante 
fumaa de um incndio. Movia-se para baixo, descia de seu natural estado flutuante sob os tetos.
    Vi Stefan - no aquele a meu lado, no aquele com a mo dura e cruel em meu ombro, no o fantasma que me agarrava com fora, prximo como um amante. Vi um Stefan 
vivo, memria expressa em carne e sangue, o colete com um extravagante colarinho alto, a camisa branca pregueada, tudo manchado de fuligem. Vi-o do outro lado do 
salo, quando quebrou o vidro de uma imensa estante, quando foi pegando os violinos e passando-os para um homem que os passava para outro, que por sua vez os entregava 
a um terceiro, j do lado de fora da janela.
    Ali, mesmo o ar era um inimigo, ameaador, enrolando-se em fumaa.
    - Depressa!
    Curvando o corpo para se proteger, os homens recolhiam o que podiam. Stefan ps um violino na frente de uma fantstica cadeira dourada. Gritou, praguejou. Alguns 
ajudavam do lado de fora das janelas, carregando o que podiam, inclusive muitas partituras de msica. Folhas se soltavam e rasgavam sob as rajadas de vento - toda 
aquela msica.
    Sobre os arcos, no teto alto e abobadado, os deuses e deusas pintados ficavam pretos e se contraam. A pintura de uma floresta se descascava das paredes. As 
fascas se erguiam numa grande, traioeira e bonita espuma contra as incrustaes nos medalhes de madeira branca.
    Uma grande lasca foi soprada para o revestimento do teto, como se atirada por um revlver, e a luz hedionda de uma labareda surgiu em toda a sua pureza.
    Agarrei-me a seu brao, apertei-me contra ele, empurrei a ns dois contra a parede, arregalando os olhos para aquela vida lngua de chama.
    Por todo lado telas enormes, com as molduras presas nas paredes, onde homens e mulheres de perucas brancas nos olhavam, todos ao mesmo tempo, com impotncia 
e frieza. Veja os quadros, aquele j comea a se enroscar, saltando da moldura, escute como os estalos so altos. E veja as cadeiras, torneadas com tanto engenho, 
as pernas curvas e sempre graciosas, tudo arruinado. E aquele buraco no alto vomitando fumaa, vomitando, formando anis, procurando levantar de novo a fumaa dos 
rolos, espalhando-os sob o teto para liquidar de vez o rococ dos Campos Elsios.
    Homens corriam para recolher os violoncelos, os violinos espalhados no tapete com motivos rosados, instrumentos largados de qualquer maneira, abandonados por 
gente que fugira com muita pressa. Uma mesa torta. Era um salo de baile, sim, veja o tipo de piso, as grandes travessas de comida ainda brilhantes, como se  espera 
de algum para tir-las de l. A fumaa descia como vu ao redor da mesa cada do banquete. Prataria, prataria, frutas.
    As velas do lustre pendurado no centro do salo eram fontes de cera quente. Derramavam-na sobre os tapetes, as poltronas, os instrumentos, at mesmo sobre o 
rosto de um rapaz que gritou, olhou para cima e fugiu segurando uma trompa de caa dourada.
    A multido l fora berrava como numa manifestao de protesto.
    - Homem, pelo amor de Deus! - algum gritou. - As paredes esto
entrando em chamas, as prprias paredes!
    Um vulto com capacete, pingando gua, passou correndo  nossa frente, e a umidade tocou as costas de minha mo direita. Vi o lampejo das botas brilhantes correndo 
pela sala. Ele atirou um grande lenol molhado para Stefan cobrir a cabea e se proteger, depois arrebatou um alade do cho e correu para a escada encostada na 
janela.
    - Vamos agora, Stefan! - gritou.
    O alade desapareceu, passado para outras mos. O homem tornou a se virar para a sala, com os olhos cheios d'gua, o rosto vermelho, os braos estendidos para 
o violoncelo que Stefan levantava para entregar a ele.
    Um grande estrondo ecoou pelo prdio.
    A luz era insuportavelmente brilhante, como se fosse o Juzo Final. O fogo rugia atrs de uma distante porta  esquerda. A janela mais ao fundo perdia suas cortinas 
num jato de chama e fumaa, as varas entortando, caindo no cho como lanas.
    Veja que belos instrumentos, milagres musicais de notvel percia artesanal, cuja perfeio ningum jamais conseguiu igualar, mesmo com o auxlio de toda a tecnologia 
de um mundo eletrnico. Algum tinha pisado naquele violino, algum tinha esmagado aquela viola, ah, uma coisa sagrada, quebrada!
    Tudo ia queimar!
    O lustre oscilou perigosamente na nvoa insalubre quando, acima dele, houve um ntido tremor em todo o teto.
    - Vamos agora! - ordenou o homem. Outro agarrou um pequeno violino, talvez um instrumento de criana, e escapuliu de um peitoril de janela; outro ainda, de cabelo 
farto, colarinho alto e pregueado, caiu de joelhos sobre os tacos dispostos como espinha de peixe, apoiando uma das mos na ponta do tapete. Tossia, asfixiava-se.
    O jovem Stefan, despenteado, com a casaca principesca coberta de centelhas quase apagadas, mas centelhas de verdadeira chama, atirou o reluzente lenol molhado 
sobre o homem que tossia.
    - Levante, levante! Vamos, Joseph, voc vai morrer se no sair daqui!
    Um estrondo encheu meus ouvidos.
    -  tarde demais! - gritei. - Ajude-o! No o abandone!
    Stefan, meu fantasma, continuava perto de mim, rindo, com a mo em meu ombro. A fumaa formava um vu entre ns e eles, uma nuvem atrs da qual permanecamos 
etreos, em segurana, monstruosamente isolados. O belo rosto de Stefan no era um dia mais velho que o rosto de sua outra imagem, mas o sorriso de zombaria que 
ele me atirava parecia uma pobre mscara para o sofrimento, um disfarce sem dvida ingnuo para uma dor to intolervel.
    Ento ele se virou, apontando para a imagem distante e ativa de si mesmo, um vulto molhado, gritando, que agora era arrastado da sala pelos dois homens que tinham 
entrado pela janela. O outro continuava tateando s cegas, arranhando o tapete - eu sei, eu sei, voc no consegue respirar. Vai morrer. Aquele que se chamava Joseph. 
Est morto, para ele  tarde demais. Meu Deus, olhe! Um caibro do telhado tinha cado entre ns.
    Estilhaos de vidro voavam das portas das tagres. Por todo lado viam-se os violinos e os reluzentes trompetes abandonados. Uma grande trompa. Uma bandeja de 
doces cada no assoalho. Taas brilhando, ou melhor, faiscando no claro.
    O jovem Stefan, j irremediavelmente agarrado, lutava contra seus salvadores, estendendo os braos, pedindo que o deixassem resgatar mais um (me larguem!), s 
mais um da prateleira da tagre.
    Procurava alcanar s mais um, s este, o Strad, o Strad longo. Estilhaos cintilantes de vidro foram varridos da prateleira quando, ao ser arrastado para fora, 
com a mo direita livre, ele o puxou. Conseguira peg-lo, e pegara tambm o arco.
    Podia ouvir o fantasma a meu lado tomar flego. Estaria ele afastando disso a sua prpria magia? Eu no podia me afastar.
    Um crepitar repentino estava consumindo o teto. Algum gritou no grande vestbulo atrs de ns. O arco, Stefan no podia perd-lo. Assim como no podia perder 
o violino. Ento um homem muito alto e musculoso, furioso e assustado, pegou Stefan com fora e atirou-o sobre o parapeito da janela.
    O fogo aumentava, exatamente como tinha acontecido, quando eu era criana, naquela terrvel casa da avenida, naquele lugar soturno de arcos mais simples e sombras 
mais prosaicas, dbil e banal eco americano daquela grandeza.
    O fogo devorava, fartava-se, crescia para se transformar numa caricatura de si mesmo. A noite estava vermelha, cintilante, e ningum estava seguro, nada estava 
seguro; o homem na fumaa tossia, morria, com o fogo cada vez mais perto. Perto de ns, os fantsticos sofs com orlas douradas explodiam em chamas e a tapearia 
se inflamava como se tocasse fogo em si prpria. Todas as cortinas eram tochas, todas as janelas eram portais que se abriam, sem contornos definidos, para um cu 
negro e vazio.
    Eu devia estar gritando.
    Parei, ainda agarrando o violino-fantasma, cuja imagem acabara de ser salva.
    No estvamos mais na casa. Graas a Deus.
    Estvamos na praa apinhada de gente. E como o horror iluminava a noite!
    Senhoras de vestido longo andavam afobadas de um lado para o outro, choravam, abraavam-se, apontavam.
    Achvamo-nos diante da fachada comprida e chamejante da casa, invisveis aos homens frenticos, de olhos gotejantes, que ainda corriam para resgatar objetos. 
A parede cairia sobre muitas cadeiras de veludo. Cairia sobre os sofs atirados pela janela, como uma avalanche, e os quadros, observe-os, molduras quebradas, esmagadas, 
grandes retratos...
    Stefan passou suavemente o brao a meu redor, como se estivesse com frio, a mo muito branca cobrindo a minha... que por sua vez cobria o violino. Mas no tentou 
solt-lo. Tremia encostado em mim. Estava absorto no espetculo. Seu murmrio foi doloroso, revelando uma comoo interior:
    - E assim voc a viu cair - sussurrou em meu ouvido, suspirando. - A ltima grande casa russa na bela Viena, uma casa que sobrevivera s armas e aos soldados 
de Napoleo, aos compls de Metternich e de seus espies, sempre vigilantes, a ltima grande casa russa a levar  mesa um nmero to grande de baixelas e a manter 
sua prpria orquestra completa, pronta a tocar as sonatas de Beethoven assim que a tinta secava, formada por homens que podiam executar Bach enquanto bocejavam ou 
Vivaldi com as testas suadas, noite aps noite. Tudo isso at uma vela, veja bem, uma simples vela tocar num pedao de seda e fazer brotar foras do Inferno para 
guiarem sua chama por cinqenta quartos. A casa de meu pai, a fortuna de meu pai, os sonhos de meu pai para seus filhos e filhas russos que, danando e cantando 
nesta fronteira entre Leste e Oeste, jamais tinham estado em Moscou.
    Ele se apertou contra mim, agitado, agarrando-me o ombro com a mo direita, pousando ainda a esquerda sobre minha mo, que cobria o violino e o corao.
    - Preste ateno nos outros palcios  sua volta, as janelas com arquitraves, est vendo? Sabe onde est? Est no centro do mundo da msica. Est onde Schubert 
logo ganharia fama em pequenas salas de concerto e morreria como um estalar de dedos e, pode ter certeza, sem jamais cruzar com minha sombra. O lugar onde Paganini 
ainda no se atrevera a ir com medo de ser rejeitado. Viena e a casa de meu pai. Est com medo do fogo, Triana?
    No respondi. Ele se magoava da mesma forma como me magoava. Machucava tanto que era como o calor.
    Chorei, mas meu choro era coisa to comum que talvez fosse melhor esquecer de relat-lo aqui ou em qualquer outro ponto da histria. Chorei. Chorei e vi as carruagens 
chegando para apanhar as pessoas aflitas. Vi mulheres de casacos de pele abertos, ondulando nas janelas dos carros. Vi as rodas grandes, mas delicadas, elegantes, 
e os cavalos barulhentos, se agitando no pandemnio.
    - Onde voc est, Stefan? Onde est agora? Saiu da sala, onde est?
No consigo ver voc, o Stefan vivo!
    Estava atordoada, sim, mas isolada com o meu fantasma, que s podia me mostrar imagens de coisas passadas. Eu sabia disso, mas em minha infncia um incndio 
como aquele me faria fatalmente gritar. Bem, a infncia se fora e o que eu estava vivendo agora era o pesadelo de uma mulher de luto, uma coisa para soluos baixos, 
para um despedaar de toda a energia interior.
    O vento gelado atiava as chamas e uma das alas da casa desmoronou, com paredes danando, janelas estourando, telhado explodindo em torrentes e fumaa preta. 
A grande estrutura lembrava uma enorme lanterna. A multido foi impelida para trs. Gente caa. Gritava.
    Um ltimo condenado pulou do telhado, pequeno recorte de membros escuros atirados no ar inflamado, amarelo. Gente gritava. Alguns se precipitaram para a coisinha 
preta e saliente que era o homem caindo. Indefeso, sem sada. Uma rajada de fogo ofuscou e jogou a multido para trs. As janelas do andar de baixo explodiram num 
buqu de labaredas.
    Outra grande chuva de fagulhas nos pegou, tocando em meu cabelo e em minhas plpebras. Protegi o violino espectral. Fagulhas voavam contra ns, densas, com um 
mau cheiro de destruio. Choviam sobre ns e sobre todos que estavam  nossa volta. Choviam sobre aquela viso, aquele sonho.
    Quebrar a viso.  um truque. Sempre soube quebrar esses sonhos claros. Antes que conseguissem me envolver com fora suficiente para eu achar que tinha morrido. 
Antes que eu fraquejasse e continuasse sonhando. (Quebre mais este!)
    Cravei os olhos nas pedras sujas do calamento. Bafo de excremento de cavalo. Meus pulmes sentiam a acidez do ar, a fumaa. Prestei ateno nos palcios retangulares 
 nossa volta, compridos, com vrios andares. Reais, reais as fachadas barrocas e, l em cima no cu, meu Deus, olhe o fogo nas nuvens! Somada a cada uma das vtimas 
- e quantas foram? - aquela imagem proporcionava a pior medida da catstrofe. Eu inalava o mau cheiro do fogo enquanto chorava. Pus nas mos as fagulhas que se apagavam 
sob o vento glacial. O vento feria minhas plpebras mais que as fagulhas.
    Olhei para Stefan, meu Stefan fantasma. Seu olhar seguia o meu, como se ele tambm estivesse fascinado por aquela viso infernal. Tinha os olhos vidrados, a 
boca quase aberta, os delicados msculos do rosto em movimento. Era como se lutasse desesperadamente contra o que via... Aquilo no podia, no podia mesmo ser alterado? 
A destruio tinha de acontecer?
    Surpreendido naquele momento de preocupao, ele se virou bruscamente e me olhou. S pena. E uma pergunta nos olhos: est vendo?
    A multido continuava tropeando em ns, sem jamais nos ver. No ramos parte da agitao, nem obstculo. Mas ramos duas criaturas que podiam enxergar e sentir, 
com perfeita solidariedade, tudo que existia naquele mundo.
    Um brilho sbito atraiu meu olhar, uma figura conhecida.
    - Mas l est voc! - gritei. Era o Stefan vivo, l longe, eu podia ver, o jovem Stefan do reino da vida, com o casaco de gola alta, vistoso e brilhante. Estava 
a uma distncia segura do fogo, com os instrumentos espalhados  sua volta. Um homem velho se inclinava para beijar o rosto de Stefan e secar suas lgrimas.
    O vivo Stefan segurava o violino, o resgatado violino, um jovem Stefan com roupas chamuscadas, imundas. A mulher que se aproximou vinha metida num casaco de 
seda verde, com bordas de pele, e envolveu-o no abrao de toda aquela roupagem.
    Alguns rapazes reuniam o precioso material que fora salvo.
    Fui atingida por uma forte rajada, como um vento que no viesse daquela viso.  um sonho, sim, acorde. Mas voc no pode. Sabe que no pode.
    -  claro que no, e ser que quer? - Stefan sussurrou, a mo fria sobre a minha, que segurava o verdadeiro violino... Mas o que era feito do outro, daquele 
de brinquedo, que o rapaz havia resgatado? Como estvamos nos relacionando com aquele violino?
    Ento alguma coisa brilhou ardentemente no canto de meu olho.
    O Maestro estava l, embora, assim como ns, tambm no estivesse vivo naquele mundo. Isolado da multido e terrivelmente ntimo de mim e de meu fantasma, chegou 
perto o suficiente para que eu pudesse ver os tufos de cabelo pouco grisalho brotando da testa pequena, o lbio esticado na boca sem cor e os olhos negros, penetrantes, 
danando sobre ns. Deus!, meu guardio, sem o qual eu no poderia sequer conceber a prpria vida!
    No queria que ningum me protegesse daquele encontro.
    - Stefan, por que isto agora? - indagou Beethoven, o pequeno homem que eu conhecia, que o mundo inteiro conhecia pelas estatuetas carrancudas e pelo rabisco 
dramtico dos desenhos, um homem feio e marcado pela varola, mas impetuoso e, assim como ns, fantasma. Seus olhos estavam cravados em mim, cravados no violino, 
cravados naquele alto espectro de um aluno seu.
    - Maestro! - implorou Stefan, abraado a mim com mais fora, enquanto o fogo continuava ardendo e os gritos, os sinos enchiam a noite. - Ela o roubou! Veja isso. 
Olhe. Roubou meu violino! Faa com que me devolva, Maestro, me ajude!
    Mas aquele homem baixo nos olhou fixamente, sacudiu a cabea como j fizera antes, e se virou com uma careta de desagrado, resmungando, revoltado com aquilo. 
Outra vez se afastou de ns, outra vez foi tragado pela multido, pela tremenda multido de gente falando e gritando caoticamente. Enfurecido, Stefan me agarrava, 
tentando se apoderar do violino.
    Que continuava comigo.
    - Virando-me as costas? Maestro! - ele gemeu. - Oh, Deus, o que fez comigo, Triana, para onde me levou! O que voc fez! Eu o encontro e ele me abandona...
    - Foi voc mesmo quem abriu esta porta - eu disse.
    Uma expresso to chocada. To desconcertada. Qualquer emoo, no entanto, deixava-o igualmente belo. Ele recuou fora de si, apertando as mos, apertando com 
forca, v os dedos esbranquiados quando ele as aperta, quando contempla, com olhos selvagens e atormentados, a casa despedaada, a imensa carcaa desmoronando.
    - O que voc fez? - gritou de novo, olhando fixamente para mim e
para o violino. Seus lbios tremiam, o rosto suava. - Est chorando por qu? Por mim? Pelo violino? Por voc? Por eles?
    Olhou de um lado para o outro; olhou para trs.
    - Maestro! - gritou, os olhos vasculhando a noite. Virou-se para mim, espichando os lbios, soluando. - Devolva o violino - sibilou. - Devolva! Em dois sculos 
nunca tinha visto algum que fosse, sem sombra de dvida, um espectro como eu. Nunca, at hoje! E o espectro que hoje encontrei era o Maestro, um espectro que simplesmente 
virou as costas para mim! Eu preciso do senhor, Maestro, preciso muito do senhor...
    Stefan afastou-se de mim, mas no intencionalmente; foi apenas a dana intil de seus gestos desesperados, dos olhares indagadores.
    - D-me o violino, sua bruxa! Agora est em meu mundo e sabe muito bem que todas as coisas so fantasmas.
    - Como voc e como ele - respondi, com a voz fraca, tmida, quase sumida, mas insistente. - O violino est em meus braos e no, no vou entreg-lo. No vou.
    - O que est querendo de mim? - Stefan gritou, esticando os dedos, arqueando os ombros. As sobrancelhas inexpressivas, negras e retas, s acentuavam a expressividade 
daqueles olhos embaixo delas.
    - No sei! - respondi gritando. Fiz fora para respirar e consegui e no precisava de ar e o ar no era o bastante e no fazia mal. - Quero o violino. Quero 
o dom. Toquei-o. Toquei-o em minha prpria casa, senti-me entregue a ele.
    - No! - Stefan urrou, como se estivesse  beira da loucura naquela esfera onde eu e ele estvamos sozinhos, ignorados por todos os seres de carne e osso que 
corriam, que gritavam.
    Ele se aproximou de cabea erguida e atirou os braos em volta de mim. Sua cabea caiu sobre meu ombro. E enquanto me segurava, enquanto eu sentia o cabelo sedoso 
cair desgrenhado em meu rosto, ergui os olhos. Ergui os olhos e vi atrs dele o jovem Stefan. A seu lado estava um Beethoven vivo, deprimido mas vigoroso e cheio 
de amor, todo descabelado, com as roupas sujas e amarrotadas. Segurava pelos ombros o jovem discpulo que chorava, que gesticulava com o violino na mo, como se 
o instrumento fosse uma batuta de maestro. Perto deles havia gente que, em pranto, caa de joelhos ou sentava nas pedras frias do calamento.
    A fumaa me enchia os pulmes, mas isso no me fazia mal. As fagulhas continuavam o incessante rodopio  nossa volta, mas no tinham fogo capaz de nos queimar. 
Ele me agarrava, tremendo, tomando cuidado para no esmagar o precioso objeto. Agarrava-me com deciso, escondendo a testa em meu ombro.
    Segurando com fora o violino, levantei a mo esquerda para lhe apoiar a cabea, para sentir um crnio sob o cabelo farto, macio, aveludado. Seus soluos eram 
um ritmo abafado, mas vibrante, contra mim.
    O fogo enfraqueceu, a multido se desvanecia; a escurido tornava-se fresca, mas no fria. Fresca e com o ar salgado do mar.
    Estvamos sozinhos, ou a uma grande distncia.
    O fogo tinha sumido. Tudo tinha sumido.
    - Onde estamos! - murmurei no ouvido dele, que parecia em transe, sempre agarrado a mim. Senti cheiro de terra, cheiro de coisas velhas, mofando, senti... Senti 
o mau cheiro dos mortos h pouco e dos mortos antigos, mas sobretudo um cheiro limpo de ar salgado que soprava, assim que eu os percebia, todos os outros cheiros.
    Algum tocava esplendidamente um violino. Algum expressava o puro fascnio do violino. O que era aquela descontrada veemncia?
    Seria o meu Stefan? Era algum que brincava de forma magnfica com o instrumento, com imenso domnio e autoconfiana, deslizando suavemente ou atirando-se de 
forma impetuosa pela melodia, mais provavelmente para fazer medo que lgrimas.
    Cortava a noite como a mais afiada das lminas; agudo, imprevisto na escurido.
    Aquela msica era exultante e turbulenta, cheia de raiva, talvez.
    - Stefan, onde voc est? Onde estamos agora? - meu fantasma s me agarrava com fora, como se ele prprio no quisesse ver ou saber. Deu um suspiro fundo, como 
se a msica frentica no lhe tocasse o sangue, no galvanizasse seus membros espectrais, como se no fosse capaz de atra-lo para a morte como atraa a mim.
    Ventos suaves do mar nos atingiam de novo; novamente o ar ficou cheio da umidade marinha. Senti esse cheiro e compreendi o que via ao longe:
    Era uma grande multido com velas nas mos. Eram vultos de cabea coberta, vultos de traje a rigor, com chapus altos, reluzentes e negros; eram vultos com longos 
vestidos, roando suavemente no cho; eram dedos, enfiados em luvas pretas, protegendo as pequenas chamas que tremiam. Aqui e ali as luzes se concentravam e iluminavam 
todo um grupo de rostos atentos, vidos. E a fragilidade que tomara conta da msica explodiu de repente na energia de um dilvio, de um assalto.
    - Onde estamos? - perguntei. Aquele cheiro da morte, da putrefao da morte. Estvamos metidos entre mausolus e anjos de pedra. - So tmulos, veja, tmulos 
de mrmore! Estamos num cemitrio. Quem est tocando? Quem so essas pessoas?
    Ele apenas chorava. Por fim, levantou a cabea e olhou atordoado para a distante multido. S naquele momento a msica pareceu comov-lo, despert-lo.
    O distante solo de violino irrompera numa dana, cujo nome eu no conseguia lembrar, uma dana rural que trazia sempre consigo alguma advertncia sobre a destruio 
inerente  entrega completa aos impulsos da natureza.
    Ele no se virou quando falou; s me soltou um pouco e olhou sobre o ombro:
    - De fato estamos no cemitrio. - Estava cansado e farto de chorar.
Apertou-me de novo, com bastante cuidado para no danificar o violino.
Nada em seus gestos ou postura indicava que fosse tentar peg-lo  fora. Contemplava, como eu, a multido distante. E parecia inalar a fora dos pulos de dana 
da msica.
    - Mas isto  Veneza, Triana - sussurrou, tocando de leve em minha orelha e gemendo baixo como uma coisa ferida. -  o cemitrio do Lido. E quem voc acha que 
est tocando aqui? Tocando por capricho, tocando para impressionar, tocando por exaltao enquanto a cidade est sob o domnio de Metternich, repleta de espies 
do estado dos Habsburgo, que jamais deixaro acontecer outra revoluo ou outro Napoleo; um governo de censores e tiranos. Quem acha que est tocando aqui e, de 
certo modo, insultando a Deus? Quem est num solo sagrado com uma msica que ningum santificaria?
    - Sim, sobre isso estamos de acordo - murmurei. - Ningum a santificaria. - As notas traziam os inevitveis calafrios e tambm tive vontade de tocar, de levantar 
meu violino e participar daquilo, como se estivesse realmente no meio de uma dana rural e os violinistas pudessem dar um passo  frente. Que arrogncia!
    Surgia como lmina aquela cano, mas com que ligeireza e percia, com que intensidade e delicada fora! Deslizavam, sob seu apelo, os movimentos de dana. Senti 
um aperto no corao, como se aquele violino estivesse me implorando, implorando como Stefan fizera pelo instrumento que eu ainda segurava, implorando por alguma 
coisa muito mais preciosa, implorando por tudo, por todas as coisas.
    Arranquei meus olhos do amontoado de velas e rostos. Anjos de mrmore no protegiam ningum da noite extremamente mida. Estendi a mo direita e toquei num tmulo 
de mrmore com fachada e porta de entrada. Isto no  sonho.  to slido quanto era Viena. Isto  um lugar. O Lido, ele dissera, a ilha ao largo da cidade de Veneza.
    Levantei os olhos para ele, que baixou os seus. Parecia carinhoso, ou quase, e maravilhado. Acho que sorriu, mas no tenho certeza. A luz das velas era muito 
fraca e estava longe. Ele se curvou e beijou-me nos lbios. Foi o mais doce arrepio.
    - Stefan, pobre Stefan - sussurrei, sem parar de beij-lo.
    - Voc o ouve, no , Triana?
    - Sim, ouo! Ele vai me aprisionar - respondi, enxugando o rosto. O vento era bem menos frio que em Viena. Aquele vento no cortava, era apenas fresco, e s 
transportava superficialmente a corrupo do cemitrio e do fundo do mar. Na verdade o mau cheiro do mar parecia se desdobrar no mau cheiro dos tmulos, declarando 
que ambos eram apenas naturais.
    - Quem  o virtuose? - perguntei, beijando-o de novo, conscientemente. No houve resistncia. Estendi a mo e toquei o osso de sua testa sob as sobrancelhas 
de cetim, a crista por onde elas se estendiam to cerradas e retas. Cabelo macio, escovado, muito fino e liso e negro. Farto mas no espesso. E as pestanas danando 
descontradas na palma de minha mo.
    - Quem est tocando assim? - perguntei. -  voc? Podemos andar atravs da multido? Quero v-lo.
    - Oh, no sou eu, querida, no, embora pudesse desafi-lo tranqilamente com o violino, como voc logo vai descobrir. Mas venha, veja por si mesma, veja. Ali 
estou eu. Um espectador. Um dos que lhe prestam culto. Junto das velas, ouvindo e estremecendo como todo mundo. E o gnio toca por amor  vibrao que provoca em 
ns, por amor ao espetculo do cemitrio e de suas velas. Quem acha que ele , quem eu viria escutar, to longe de Viena, me aventurando por perigosas estradas da 
Itlia? Veja meu cabelo sujo, meu casaco estragado. Por quem eu faria essa longa jornada? Por quem a no ser pelo homem que chamavam "o Diabo", o possudo, o Maestro, 
Paganini!
    O Stefan vivo entrou em foco, rosto vermelho, os olhos captando duas idnticas chamas de vela, embora ele no segurasse nenhuma, as mos enluvadas se contorcendo 
- dedos da mo direita em volta do pulso esquerdo. Ouvia.
    - Voc est vendo - disse o fantasma a meu lado, afastando-me o rosto de sua imagem viva -, est vendo... que h uma diferena.
    - Entendo - disse eu. - Quer realmente que eu veja essas coisas, que compreenda.
    Ele sacudiu a cabea como para rejeitar o que era duro demais, chocante demais.
    - E eu que nunca olhei para elas - respondeu gaguejando.
    A msica continuou, suave, e a noite ficou mais densa, abrindo uma nova gradao de luz.
    Virei-me. Procurei ver os tmulos, a multido. Mas algo inteiramente diferente tomara o lugar deles.
    Ns dois, o fantasma e a viajante (ou amante, torturadora, ladra, no importa o que eu fosse), ns dois ramos espectadores invisveis, sem localizao. Como 
sempre, sentia o violino seguro em minhas mos. E sentia agora minhas costas firmemente contra o peito de Stefan; e sentia meus seios, entre os quais o violino permanecia 
de modo reverente, cobertos pelos braos dele. Seus lbios estavam em meu pescoo, como palavras soletradas contra a carne.
    Olhei para a frente.
    - Quer que eu veja...?
    Deus me ajude.
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
  
  12
  
  
 Era um canal estreito; a gndola tinha virado do Canale Grande na faixa de gua poluda, verde-escura, entre os conjuntos de palcios dispostos lado a lado, com 
arcos mouriscos nas janelas, sangrados de toda a cor pela escurido. A soberba, o esplendor amontoado das grandes fachadas criavam razes na gua, com arrogncia, 
com glria: Veneza. Sob a luz dos lampies, as paredes de cada lado do canal brotavam saturadas, vidradas de limo, como se Veneza tivesse se erguido das profundezas, 
expondo  luz da Lua, com sinistra ambio, todo um apodrecimento noturno.
    Naquele momento, compreendi pela primeira vez a utilidade da gndola, a sutil e tremenda convenincia daquela barca comprida, de proa alta, para vencer com rapidez, 
sob o balano de suas lanternas fracas, as distncias entre os diques de pedra.
    O jovem Stefan estava sentado na gndola, numa conversa impetuosa com Paganini.
    O prprio Paganini parecia arrebatado. Com o grande nariz adunco e os olhos enormes, salientes, que lhe foram atribudos em inmeras telas, Paganini era uma 
presena ardente, onde a emoo ultrapassava com facilidade a feira para se transformar em puro magnetismo.
    Na janela invisvel que nos debruava sobre aquele mundo, o fantasma a meu lado estremeceu. Beijei os dedos que se enroscavam em meu ombro.
    Veneza.
    De uma janela alta, por entre persianas que oscilaram e se abriram como um perfeito quadrado amarelo na noite, uma mulher atirou flores. Enquanto a luz se derramava 
pelas flores que caam para o virtuose, ela gritou. Suas palavras vibraram num crescendo peculiarmente italiano:
    - Abenoado Paganini, capaz de tocar sem recompensa para os prprios mortos! - A frase fechou como um colar do incio at o meio; depois a respirao recuou 
na expresso "para os prprios mortos".
    Outros deram eco ao mesmo grito. Persianas se abriam l em cima. Do alto de um telhado, vultos que corriam com cestos nas mos atiravam rosas na gua esverdeada 
 frente da barca.
    Rosas, rosas, rosas.
    Risos brotavam dentre o limo e a umidade das pedras; as portas estavam cheias de ouvintes escondidos. Vultos rondavam nas vielas e um homem disparou pela ponte 
sob a qual a barca passava. Bem no meio da ponte, uma mulher se inclinou, revelando os seios na luz da lanterna em movimento.
    - Vim para estudar com o senhor. - Stefan, na gndola, dirigia-se a
Paganini. - Vim com as roupas do corpo e sem a bno de meu pai. Quis escut-lo com meus prprios ouvidos, e o que ouvi no era a msica do diabo; para o inferno 
aqueles que dizem isso. Havia sem dvida um encantamento ancestral, absolutamente autntico, eu acho, mas o diabo no estava nisso.
    Uma grande cascata de riso veio do vulto de Paganini, mais inclinado na gndola, com o branco dos olhos brilhando na escurido. Uma mulher se agarrava a ele, 
com uma corcunda crescendo do seu lado esquerdo, mostrando apenas um punhado de cachos ruivos que lhe caam pelo casaco.
    - Prncipe Stefanovsky - falou o grande italiano, o dolo, o amor romntico das mocinhas, o tpico violinista  maneira de Byron -, ouvi falar do senhor e de 
seu talento, de sua casa em Viena, onde o prprio Beethoven apresenta sua obra, onde Mozart, em tempos idos, vinha lhe dar aulas. Sei como so vocs, os ricos da 
Rssia. Tiram seu ouro de um cofre sem fundo nas mos do czar.
    - No se engane a meu respeito - replicou Stefan num tom suave, respeitoso, desesperado. - Mas sem dvida tenho dinheiro para pagar muito bem por suas lies, 
Signore Paganini. Tenho meu prprio violino, um Stradivarius, que trato com o maior carinho. No me arrisquei a traz-lo, pois viajei dias e noites por estradas 
de correio para chegar at aqui, e vim sozinho. Mas tenho dinheiro. Meu primeiro passo  esta nossa conversa, para saber se me aceita como discpulo, se me v como 
um digno...
    - Oh, prncipe Stefanovsky, devo ensinar-lhe a histria dos czares e de seus prncipes? Seu pai no vai permitir que estude com Niccol Paganini, um campons. 
O destino do senhor  o servio do czar, como sempre aconteceu na sua famlia. A msica  um passatempo na sua casa; oh, no leve isso a mal. Sei que o prprio Metternich 
- inclinou-se para sussurrar no ouvido de Stefan -, esse ditadorzinho feliz, toca violino, e bem. J toquei para ele. Mas um prncipe querer se tornar o que eu me 
tornei? Prncipe Stefanovsky, eu vivo disso, de meu violino! - Apontou para o estojo de madeira polida, extremamente parecido com um pequeno caixo, onde estava 
o violino. - E o senhor, um belo e jovem russo, deve viver da tradio russa e pelo dever russo. As tropas o esperam. As honras. O servio na Crimia.
    Gritos de louvor vindos do alto. Archotes na doca. Mulheres, num farfalhar de roupas, subindo precipitadamente numa nova ponte flutuante. Mamilos rosados na 
noite, corpetes abaixados, e franzidos como embrulhos, para exibi-los.
    - Paganini, Paganini!
    Rosas de novo caindo sobre o homem. Olhando atentamente para Stefan, ele as limpava da roupa. A grande corcova da mulher a seu lado, coberta com uma capa, mostrou 
de relance a mo branca, enfiada no escuro entre as pernas de Paganini, dedos brincando, como se aquelas partes ntimas fossem uma lira, quando no um violino. Ele 
nem mesmo parecia reparar.
    - Acredite, eu quero seu dinheiro - disse Paganini. - Preciso dele. Sim, toco para os mortos, mas o senhor sabe da minha vida atormentada, dos processos, das 
encrencas. O problema  que sou um campons, meu prncipe, e no desistirei dos triunfos itinerantes para me aprisionar com o senhor numa sala de visitas em Viena. 
Ah, a crtica vienense, os entediados vienenses, os vienenses que no deram a Mozart sequer seu po com manteiga; Mozart, o senhor o conheceu? No, no pode continuar 
comigo. Sem dvida a essa altura, por ordem de seu pai, Metternich j mandou algum procur-lo. Ainda vou acabar sendo acusado de alguma traio infame por causa 
disto.
    Stefan estava arrasado, de cabea baixa, o rosto abatido pelo choque. Os olhos fundos cintilaram com a luz refletida da gua, parada mas brilhante.
    Um interior:
    Sala em Veneza, mal conservada, com infiltraes devido  umidade, as paredes escuras, mofadas, o teto muito alto, amarelado, com plidos fragmentos de uma daquelas 
multides pagas que, ainda na flor da idade, haviam queimado to recente e intensamente no rico palcio vienense de Stefan. A cortina comprida, que emaranhava um 
retalho de encardido e poeirento veludo borgonha com um cetim verde-escuro, pendia de um alto suporte; do lado de fora da janela estreita, vi a parede cor de ocre 
do palcio vizinho, to prxima que se poderia estender a mo pela viela e bater nas slidas persianas verdes de madeira.
    A cama por fazer estava coberta por tnicas decoradas como tapearias e amarrotadas camisas de linho, com dispendiosas rendas Reticella. As mesas tinham pilhas 
de cartas com os lacres de cera rompidos. Aqui e ali, havia tocos de velas. Por todo lado, buqus de flores murchas.
    Mas olhe:
    Stefan tocava! Estava no meio da sala, sobre o encerado brilhante de um assoalho veneziano. No tocava este nosso violino espectral, mas um outro instrumento, 
embora feito indubitavelmente pelo mesmo Maestro. E em volta de Stefan, danava Paganini, executando variaes que zombavam do tema de Stefan. Era um desafio, um 
jogo, um dueto, uma luta talvez.
    Stefan interpretava o sombrio Adagio, de Albinoni, em sol menor, para cordas e rgo. Mas o transformava num solo nico de violino, tocando as partes de diferentes 
instrumentos. A casa destruda fechava-o, sem dvida, num crculo de dor; atravs da msica, numa imagem tnue, vi o palcio ardendo no frio de Viena e toda a sua 
beleza convertida num monte de cinzas. A msica lenta, desdobrando-se com firmeza, dominava a tal ponto Stefan que ele nem parecia enxergar o vulto que pulava a 
seu lado.
    Que msica! Atingia, talvez, o mximo de dor que pode ser declarada com perfeita dignidade. No trazia acusao. Falava da sensatez e de uma tristeza cada vez 
maior.
    Senti as lgrimas chegarem, lgrimas que eram como mos a aplaudir, prova de minha solidariedade ao menino-homem que estava ali de p, enquanto o gnio italiano 
fazia, em volta dele, seus movimentos de esgrima.
    Paganini desfiava um tema atrs do outro do Adagio para precipit-los na trama de um capricho, uma animao de dedos disparando pelas cordas, rpidos demais 
para serem rastreados. Depois, com impecvel preciso, desacelerava para se emparelhar  frase exata que Stefan, na melancolia de seu andamento, acabava de atingir. 
A percia de Paganini lembrava feitiaria, era o que sempre diziam, mas nada sugeria desarmonia no conjunto do quadro: a figura solitria, majestosamente esguia, 
que tocava fechada em sua dor, e Paganini, o danarino, que parodiava ou rasgava o vu com o brilho de suas linhas meldicas. No havia conflito, o que havia era 
algo inteiramente novo, esplndido.
    Os olhos de Stefan estavam fechados, a cabea tombada, as mangas bufantes manchadas, talvez de chuva, a fina renda punto in aria rasgada nos punhos e viam-se 
marcas de lama nas botas. Mas o brao era perfeito em suas cadncias. Nunca as sobrancelhas pretas e retas pareceram to lisas, to belas e, quando passou a executar 
a parte do rgo da msica famosa, achei que meu corao se partiria por ele. Mesmo Paganini teve de tomar flego, antes de resvalar para aquele momento de mxima 
tortura meramente para tocar com Stefan, para fazer-lhe eco, para gritar mais alto que ele, e mais baixo, mas com honra.
    Os dois pararam e o vulto mais alto, com jeito de garoto, baixou os olhos para o outro com extrema admirao.
    Paganini pousou cuidadosamente o violino nas cobertas e nos travesseiros enfeitados com bordas sobre a cama por fazer, toda de dourados e de um azul-marinho 
muito escuro. Os grandes olhos arregalados eram generosos e o sorriso demonaco. Apesar da exuberncia, no entanto, o homem parecia acessvel. Esfregava as mos.
    - Sim, talentoso, sim, voc  talentoso! 
    "Voc nunca tocar assim." Era meu capito-fantasma me sussurrando no ouvido, mesmo quando todo o seu corpo se grudava ao meu e me implorava consolo.
    No respondi. Que o filme rolasse.
    - Vai me dar aulas, ento - retrucou Stefan, num italiano to perfeito quanto o de Salieri, compositor notvel para alemes e ingleses, e de outros naturais 
da Itlia que sempre viveram no estrangeiro.
    - Dar aulas, sim, sim, vou. E se tivermos de sair deste lugar, sairemos, embora eu saiba o que isto significa para mim nos dias de hoje, com a ustria to empenhada 
em manter a minha Itlia sob domnio. Mas me diga uma coisa...
    - O qu?
    O homem baixo, com olhos enormes, deu uma risada e andou de um lado para o outro, os saltos dos sapatos estalando no assoalho encerado, os ombros quase curvados. 
As sobrancelhas compridas faziam uma curva nas pontas, como se tivessem sido retocadas a lpis, o que, alis, no acontecera.
    - O que, meu caro prncipe, vou ensinar ao senhor? Pois j toca, sim, j  perfeitamente capaz de tocar. O senhor sabe tocar. O que teria eu para oferecer a 
um discpulo de Ludwig van Beethoven? Uma leviandade italiana, uma ironia italiana, talvez?
    - No - disse Stefan num murmrio, os olhos fixos nas passadas do homem. - Coragem, Maestro, para pr de lado qualquer outra coisa! Oh, que pena, que pena que 
meu professor no possa ouvi-lo!
    Paganini fez uma pausa e contraiu os lbios.
    - Est se referindo a Beethoven.
    - Surdo, agora surdo demais at para as notas mais altas e lancinantes, surdo demais - falou Stefan em voz baixa.
    - E ele no pode lhe dar coragem?
    - No, o senhor entendeu mal! - Stefan segurava o violino emprestado com que tocara, examinava-o.
    - Sim,  um Stradivarius, um presente que ganhei, magnfico como o que o senhor tem, no? - perguntou Paganini.
    - Sem dvida, talvez melhor, no sei - respondeu Stefan, voltando ao assunto anterior. - Beethoven pode ensinar qualquer um a ter coragem. Mas agora  um compositor, 
a surdez obrigou-o a isso, como o senhor sabe. Ela atacou seus ouvidos at impedi-lo de tocar; aprisionou-o com papel e tinta, seu nico meio de fazer msica.
    - Ah - continuou Paganini -, quanto a isso tivemos muito mais sorte. Gostaria muito de v-lo, pelo menos uma vez, mesmo  distncia. Ou gostaria muito que ele 
me visse tocar. Mas se seu pai se tornar meu inimigo, jamais pisarei em Viena. E Viena ... bem, depois de Roma h... Viena. - Paganini suspirou. - No posso correr 
o risco de perder Viena.
    - Cuidarei de tudo! - disse Stefan a meia voz. Ele se virou, olhou pela janela estreita, moveu os olhos de um lado para o outro pelas paredes de pedra. O lugar 
parecia miservel em comparao com as esmeradas galerias que tinham se desfeito em fumaa, mas era perfeitamente veneziano. Almofadas de veludo vermelho empilhadas 
no cho, fantsticos sapatos de cetim jogados por todo lado, a extravagncia exposta, derramando todo o seu romantismo.
    - Eu sei - declarou Paganini por fim. - Entendo... Se Beethoven ainda estivesse tocando no Argentine, no Schnbrunn, viajando para Londres, sendo caado pelas 
mulheres, poderia ser como eu, poderia estar voltado no tanto para a composio, mas para o centro do palco, para o lugar do homem solitrio com sua msica, para 
a execuo.
    - Sim. - Stefan virou-se para ele. - O senhor compreendeu, e  a execuo que me interessa.
    -  lendrio o palcio de seu pai em So Petersburgo. Ele logo vai estar morando l. Ser capaz de virar as costas para tantos confortos?
    - Nunca vi esse palcio, e Viena, como j disse,  minha cidade natal. Um dia acordei de um cochilo no sof ouvindo os improvisos que Mozart tocava no piano; 
achei que meu corao ia estourar. Hoje vivo em funo do som do violino, e no quero, como meu grande Maestro, escrever notas para mim ou para os outros.
    - Tem a fibra necessria para ser um bomio - comentou Paganini, s esfriando um pouco o sorriso. - Realmente tem, mas no posso imaginar uma coisa dessas. Vocs, 
russos... No vou...
    - No, no me rejeite.
    - No vou rejeit-lo. Mas resolva esta coisa primeiro em sua casa.  o que precisa fazer! V buscar o violino de que me falou, aquele que salvou do incndio, 
e traga com ele a bno de seu pai. No sendo assim seremos perseguidos pela crueldade dos ricos. Vo me acusar de ter desviado de seus deveres o filho de um embaixador 
do czar. Sabe que podem fazer isso.
    - Devo ter a permisso de meu pai - disse Stefan, como se anotasse mentalmente a tarefa.
    - Sim, e deve ter o Strad, o Strad longo de que me falou. Traga-o. No tenho a menor inteno de tir-lo do senhor. Conhece meus instrumentos! Mas quero tocar 
nesse violino. E quero ouvi-lo tocar com ele. Venha com o violino e com a autorizao de seu pai. Os outros detalhes ns podemos resolver. Poder viajar comigo.
    - Ah! - Stefan afundou os dentes no lbio. - Promete, Signore Paganini? Tenho suficiente dinheiro, mas no fortuna. Se est pensando em carruagens russas e...
    - No, no, meu garoto. Voc no entendeu. Estou dizendo que vou deix-lo ir comigo e estar onde eu estiver. No pretendo ser seu lacaio, prncipe. Sou um andarilho! 
 isto o que eu sou, percebe? E um virtuose! As portas se abrem para mim graas  msica que toco; no preciso reger, compor ou dedicar uma partitura. No preciso 
de montagens imensas com sopranos gritando e violinistas entediados no fosso da orquestra. Sou Paganini! E voc ser Stefanovsky!
    - Vou pegar, vou pegar o violino, vou pegar a autorizao de meu pai! - disse Stefan. - A aprovao dele no ser problema.
    Deu um sorriso largo. O pequeno Paganini avanou e cobriu-lhe o rosto de beijos, num estilo italiano talvez, ou puramente russo.
    - Valente e belo Stefan.
    Inebriado, Stefan devolveu-lhe o precioso violino. Depois olhou para as mos e viu seus muitos anis, todos com pedras preciosas. Rubis, esmeraldas.Tirou um 
deles e estendeu o brao.
    - No, filho. No quero. Tenho de sobreviver, de tocar, mas no precisa me subornar para eu manter minha palavra.
    Stefan segurou Paganini pelos ombros e deu-lhe um beijo no rosto. O homenzinho estourou numa gargalhada.
    - E aquele violino, tem de traz-lo. Ah, preciso ver este instrumento
que chamam de Strad longo, preciso toc-lo!
    Viena mais uma vez:
    A limpeza era um trao intil para lembrar o passado. Cada parquete do assoalho, cada cadeira com entalhes em madeira ou pintada de branco e dourado estavam 
imaculados. Reconheci de imediato o pai de Stefan, quando ele sentou na cadeira perto do fogo, erguendo os olhos para o filho, com um cobertor de pele de urso russo 
nas pernas. Como antes, os estojos dos violinos estavam por toda parte, embora aquele no fosse o esplndido palcio que tinha se incendiado, mas um salo menos 
suntuoso de uma residncia temporria.
    "Sim, onde minha famlia tinha se instalado at que a mudana para So Petersburgo fosse providenciada. Eu voltara agitado. Antes de cruzar os portes da cidade 
tinha tomado um banho e mandado as roupas para uma lavanderia. Olhe, escute."
    Sua aparncia ficou bem diferente depois que ele se vestiu com a exuberncia das modas da poca: um elegante casaco preto com belos botes, um cintilante colarinho 
branco com gravata de seda, nenhuma trana ou rabicho, cabelo lustroso e ainda comprido, como chegou de viagem, como se fosse um distintivo marcando seu prximo 
desligamento de todo aquele mundo, como o cabelo dos cantores de rock de nossos dias que gritam com a mesma fora as palavras Cristo e Proscrito.
    Estava com medo do pai, o homem idoso que lhe franzia a testa perto do fogo:
    - Um virtuose, um violinista nmade! Depois que abri as portas da minha casa para os grandes msicos lhe ensinarem, voc acha que colocaria o p na estrada com 
aquele endemoniado, maldito italiano? Um... um vigarista que brinca com os dedos em vez de tocar as notas! No teria o descaramento de se exibir em Viena! Que os 
italianos, que inventaram os castrati para cantar cascatas de notas, arpejos e crescendos interminveis, engulam Paganini!
    - Pai, me escute. O senhor tem cinco filhos.
    - Ah, no vai fazer isso! - disse o pai, com a peruca Lenten, de cabelos brancos, rolando at os ombros do robe de cetim. - Pare! Como se atreve, voc, meu filho 
mais velho! - Mas o tom era carinhoso. - Sabe que o czar logo ordenar seu primeiro servio militar. Ns servimos o czar! Agora mesmo, dependo dele para nos instalarmos 
de novo em So Petersburgo! - Impediu que o tom ganhasse aspereza, encheu-o de clemncia, como se a diferena de idade entre os dois lhe concedesse a sabedoria de 
ter pena do filho. - Stefan, Stefan, seu dever  para com a famlia e o imperador; no transforme em mania os brinquedos que lhe dei de presente!
    - Nunca pensou em nossos violinos, em nossos pianos como brinquedos. Trouxe os melhores instrumentos para Beethoven, quando ele ainda podia tocar...
    Sobre o torneado branco da grande cadeira francesa, tpica da era dos Habsburgo em largura e volume, o pai inclinou-se para a frente, virando depois o ombro 
para uma grande estufa ornamentada que subia pela parede at as inevitveis pinturas do teto. Na abertura da lareira, atrs de estonteantes arabescos dourados, o 
fogo ardia sob a cintilao da moldura esmaltada de branco e polida.
    Eu sentia tudo, tudo, como se eu e meu guia fantasmagrico estivssemos realmente naquela sala, bem prximos daqueles que vamos de forma to ntida. Cheiros 
de massas na cozinha, grandes e amplas janelas; ali, ate os vapores eram limpos, como o nevoeiro  limpo longe do mar.
    - Sim - disse o pai, lutando obviamente para persuadir, para ser amvel. - Trouxe-lhe realmente o maior de todos os msicos para lhe dar aulas, para lhe dar 
prazer, para dar brilho  sua infncia. - Abanou os ombros. - Eu mesmo gostava de tocar o violoncelo com eles, sabe muito bem disso! Dei tudo a voc,  sua irm 
e irmos, como tudo me deram aqueles que, antes do incndio, estavam nos grandes retratos pendurados nas paredes. Teve sempre as melhores roupas, cavalos nos nossos 
estbulos, os livros dos melhores poetas, e sim, Beethoven, o pobre, o trgico Beethoven. Eu o mantenho sempre por perto para voc, para mim e pelo que ele . Mas 
no  isso que importa, meu filho - continuou. - Voc est sujeito s ordens do czar. No somos comerciantes vienenses! No exploramos tabernas e cafs cheios de 
falatrio e maledicncia! Voc  o prncipe Stefanovsky, meu filho! Vo mand-lo primeiro para a Ucrnia, como fizeram comigo. E ter de cumprir um determinado nmero 
de anos de servio antes de ocupar um cargo mais essencial no governo.
    - No! - exclamou Stefan, recuando.
    - Oh, no torne as coisas to difceis para voc! - insistiu o pai, fatigado. O cabelo grisalho caa ao redor do rosto abatido. - Perdemos muita, muita coisa; 
tivemos de vender praticamente tudo que foi resgatado para deixar esta cidade, a nica cidade onde eu sempre fui feliz.
    - Pai, alguma coisa de bom isso pode trazer. No posso, no vou desistir da msica por qualquer imperador prximo ou distante. No nasci na Rssia. Nasci no 
lugar onde Salieri tocava, onde Farinell vinha cantar. Eu lhe imploro. Quero meu violino. S me d o violino, isso basta. Deixe que eu v sem um tosto e, se lhe 
perguntarem, diga que no pde impedir que eu seguisse o caminho que to decididamente escolhi. Nenhuma desgraa cair sobre o senhor. D-me o violino e vou embora.
    Houve uma mudana sutil e ameaadora no rosto do pai. Houve um rumor de passos nas proximidades. Mas um s prestava ateno no outro.
    - No perca a calma, meu filho.
    O pai se levantou, deixando cair no tapete a manta de urso. Estava magnfico no robe de cetim com forro de pele; jias brilhantes lhe cobriam os dedos. Era alto 
como Stefan, aparentemente sem nenhum sangue campons. Talvez s o nrdico misturado com o eslavo fizessem gigantes assim, do tipo de Pedro, o Grande. Autnticos 
prncipes.
    O pai aproximou-se dele, depois se virou para examinar os belos instrumentos envernizados arrumados sobre as credencias. Luxuriantes jardins rococs decoravam 
as portas de cada uma dessas arcas e, atrs, as paredes estavam forradas de painis sedosos, com longas tiras pintadas de dourado que subiam para os quadros do teto 
abobadado.
    Uma orquestra de cordas. Tremi s em olhar para o conjunto daqueles instrumentos. No distinguiria o violino que estava segurando de qualquer outro que vi ali.
    O pai respirou fundo. O filho estava  espera, obviamente educado para no chorar como faria junto de mim, como fazia agora comigo, naquela invisibilidade de 
onde observvamos tudo. Ouvi-o suspirar, mas logo a viso assomou novamente, com nitidez, diante de ns.
    - No pode, meu filho - declarou o pai -, sair rodando pelo mundo com aquele homem vulgar. No pode. E no pode pegar seu violino. Fico de corao partido por 
ter de lhe dizer isso. Mas voc est delirando e daqui a um ano vir me pedir perdo.
    Stefan olhava para o violino que ia herdar e mal conseguia controlar a voz:
    - Pai, mesmo se no nos entendemos, o instrumento  meu, eu o tirei da sala pegando fogo, eu...
    - Filho, o violino est vendido, como esto vendidos todos os instrumentos feitos por Stradivari, como esto vendidos os pianofortes e o cravo onde Mozart tocava. 
Foi tudo vendido, eu lhe garanto.
    Senti o choque que o rosto de Stefan deixou transparecer. O fantasma na escurido informe a meu lado estava triste demais para amortecer a cena com uma zombaria. 
Agarrou-se a mim com mais fora, tremendo como se a nuvem fervente daquela imagem fosse demais para ele. No pde, no entanto, pux-la de volta para seu caldeiro 
de mgicas.
    - No... no, no vendidos, no os violinos, no o... no o violino que eu... - Sua boca se esbranquiava, se contorcia, enquanto as sobrancelhas pretas e retas 
se juntavam no desafio de uma testa franzida. - No acredito no que est dizendo, por que, por que est mentindo para mim?
    - Dobre a lngua, que voc  meu filho predileto - falou o homem alto, de cabelos grisalhos, com uma das mos pousada na cadeira. - Vendi o que tive de vender 
para sair do inferno dessa situao e voltar para nossa casa em So Petersburgo. As jias de sua irm, as jias de sua me, as telas, Deus sabe o que mais! Para 
salvar para vocs alguma coisa do que tnhamos e que devia ser preservado a qualquer custo. Vendi os violinos h quatro dias para Schlesinger, o comerciante. Vai 
lev-los quando partirmos. Foi gentil o bastante para...
    - No! - Stefan gritou, pondo a cabea entre as mos. - No, no o meu violino! - clamou. - O senhor no pode vender meu violino, no pode vender o Strad longo!
    Virou-se com o olhar frentico, procurando os tampos compridos e pintados das credencias, onde os violinos estavam cuidadosamente pousados em almofadas de seda, 
procurando os violoncelos apoiados em cadeiras e as telas arrumadas  espera da mudana.
    - J lhe disse que est feito! - gritou o pai. Virando-se para a esquerda, ele encontrou sua bengala de prata, que ergueu na mo direita, primeiro pelo cabo, 
depois pelo meio.
    Vi quando os olhos de Stefan acharam o violino, vi quando correu para o instrumento.
    Desejei de todo o corao que o pegasse, sim, pegue-o, salve-o desta tremenda injustia, dessa estpida armadilha do destino,  seu,  seu... Stefan, pegue-o!
    "E nesse momento voc o tira de mim." Na insondvel escurido, ele me beijou o rosto, mas estava arrasado demais para lutar comigo. "Veja o que acontece."
    - No toque nele, no o tire da! - o pai avanou na direo do filho. - Estou lhe avisando! - Brandiu a bengala de um lado para o outro. O cabo ornamentado 
pairava como uma clava.
    - No teria coragem de esmagar esse Strad! - desafiou Stefan.
    Uma fria tomou conta do pai. Tomou conta dele, com essas palavras, ante a estupidez da suposio de Stefan, ante a extenso da discrdia.
    - Voc, meu orgulho... - disse ele, baixando a cabea enquanto dava, com firmeza, um passo atrs do outro. - O predileto de sua me, o querubim de Beethoven, 
voc acha que eu quebraria aquele instrumento com isto! Toque nele e ver o que vou fazer!
    Stefan estendeu o brao para o violino, mas a bengala caiu em seus ombros. Ele oscilou sob o golpe, recuando, quase se dobrando em dois. E de novo foi atingido 
pela bengala de prata, desta vez do lado esquerdo da cabea. O sangue lhe jorrou da orelha.
    - Pai! - gritou.
    Eu estava fora de mim em nosso refgio invisvel, louca para investir contra o pai, para faz-lo parar - maldito, no vai bater outra vez em Stefan, no vai 
bater, no vai!
    - Ele no  nosso, j lhe disse - gritou o pai. - Mas voc  meu, voc  meu filho, Stefan!
    Stefan estendeu vivamente a mo e a bengala chicoteou no ar.
    Devo ter gritado, mas aquilo estava bem alm de qualquer possibilidade de interveno. A bengala atingiu com tanta fora a mo esquerda de Stefan que ele arquejou 
e encolheu bruscamente a mo contra o peito, fechando os olhos.
    No viu o golpe descendo sobre sua mo direita, que tentava proteger a mo ferida. A bengala acertou-lhe nos dedos.
    - No, no, no minhas mos, minhas mos, pai!
    Barulho de ps correndo pela casa. Gritos.
    A voz de uma jovem.
    - Stefan!
    - Voc me desafia! - disse o velho. - Voc se atreve! - Com a mo
esquerda agarrou a lapela do casaco do filho, do filho que tinha o rosto contorcido de dor e no podia se defender. Atirou-o para a frente, para que suas mos cassem 
sobre o tampo da credencia e golpeou novamente seus dedos com a bengala.
    Fechei os olhos. "Abra-os, veja o que ele est fazendo. H instrumentos feitos de madeira e h os que so feitos de carne e sangue. Veja o que ele est fazendo 
comigo."
    - Pai, pare com isso! - exclamou a mulher. Eu a via pelas costas, uma criatura frgil, trmula, com pescoo de cisne e braos nus no vestido Imprio de seda 
dourada.
    Stefan deu um passo atrs, revelando o atordoamento, a agonia. E continuou recuando, arregalando os olhos para o sangue que corria dos dedos golpeados.
    O pai conservava a bengala erguida para atingi-los de novo.
    Mas agora era o rosto de Stefan que se alterava; parecia impossvel ter havido um dia compaixo naquela mscara de raiva e desejo de vingana.
    - Faz isso comigo! - Ele agitou as mos inteis, sangrentas. - Faz isso com minhas mos!
    Atnito, o pai tambm recuou, mas a expresso de seu rosto continuava cada vez mais dura e inflexvel. As portas da sala estavam cheias de gente que olhava, 
irmos, irms, criados, eu no sabia.
    - Para trs, Vera! - gritou o velho para a jovem que tentou acudir.
    Stefan voou contra o pai, usando o que sobrava para usar, o joelho. Chutou o homem com fora contra o esmalte quente da estufa; depois levantou a bota para lhe 
dar um pontap no meio das pernas. As mos do velho soltaram a bengala e ele caiu de joelhos, tentando se proteger.
    Vera gritou.
    - Faz isso comigo! - exclamou Stefan. - Faz isso comigo, faz isso
comigo! - O sangue jorrava de suas mos.
    O chute seguinte atingiu o homem sob o queixo, derrubando-o como um saco de batatas sobre o tapete. Stefan deu um novo pontap; desta vez a bota atingiu de lado 
a cabea do pai. O chute foi repetido.
    Virei para o lado. No queria ver, no queria. "No, por favor assista comigo." Foi to carinhoso, to suplicante. "Ele est morto, voc sabe, morto ali no cho, 
mas naquele momento eu no sabia. Veja, chutei-o de novo. Olhe. O joelho no se levanta, embora o golpe o atinja no mesmo lugar onde o soco de sua me acertou. Dei 
um pontap no estmago, veja... Talvez j estivesse morto desde o chute no queixo, eu nunca soube."
    Parricida. Parricida. Parricida.
    Homens avanaram, mas Vera se virou bruscamente, estendendo as mos para bloquear a passagem.
    - No, no vo encostar um dedo em meu irmo!
    Isso deu a Stefan um instante para desviar os olhos do corpo do pai, e nesse instante, com as mos ainda pingando sangue, correu para a porta mais prxima, atropelando 
e tirando do caminho criados atnitos, descendo ruidosamente a escada de mrmore.
    As ruas. Isto  Viena?
    Conseguiu em algum lugar uma capa e ataduras para as mos. Era um vulto furtivo, resvalando junto aos muros. A rua era antiga, tortuosa.
    "Oh, nobre prostituta, o que acha disso? Eu tinha algum dinheiro no bolso. Mas os modernos tinham iluminado Viena. E eu matara meu pai. Matara meu pai."
    Era Graben, hoje desaparecido (soube por causa do serpentear das ruas), o lugar onde Mozart tinha vivido, um bairro de contnua agitao durante o dia. Mas era 
de noite, tarde da noite. Stefan esperou nas sombras at aparecer um homem (um brusco irromper de rudo) que sara de uma taberna.
    O homem trancou a porta, deixando l dentro um mundo aconchegante, cheio de falatrio e risos, da fumaa dos cachimbos, do cheiro de caf e cerveja.
    - Stefan! - sussurrou, atravessando a rua e pegando Stefan pelo brao. - Saia de Viena. Pode levar um tiro a qualquer momento. O prprio czar deu a ordem a Metternich, 
por escrito. A cidade est cheia de soldados russos.
    - Eu sei, Franz - disse Stefan, chorando como uma criana. - Eu sei.
    - E suas mos, o que houve com elas? - o homem perguntou.
    - Oh, nada grave, nada de muito grave. Esto tortas, destrancadas, quebradas, fora do lugar. O mal est feito, acabou. - Continuou imvel, olhos erguidos para 
uma pequena faixa de cu. - Oh, Senhor Deus, como isso pde acontecer, Franz, como? Como pude chegar a este ponto? Um ano atrs estvamos todos juntos no salo de 
baile, tocvamos. At o Maestro estava l, dizendo que gostava de ver o movimento dos nossos dedos! Como?
    - Stefan, me diga... - pediu o jovem chamado Franz. - No chegou a mat-lo, no ? Esto mentindo, criando uma imagem... Alguma coisa aconteceu, mas Vera diz 
que eles tm, injustamente...
    Stefan no conseguiu responder. A boca estava contorcida, os olhos apertados. No teve coragem de responder. Soltou-se da mo do amigo e correu, a capa ondulando 
com fora atrs dele, as botas estalando nas pedras arredondadas do calamento.
    Correu, correu e ns o seguimos. At que se tornou um ponto na noite, at que as estrelas fecharam o seu arco sobre tudo e a cidade desapareceu.
    Aquilo era um bosque escuro, mas um bosque novo, juvenil, com pequenas rvores, ainda mal cobertas de folhas, e com folhas fazendo rudo ao serem esmagadas pelas 
botas de Stefan. Atravs de muitos livros e de muita msica, eu conhecia os Bosques de Viena desde os tempos de escola, e conhecia bem. L na frente havia um lugarejo 
para onde Stefan avanou furtivamente, apertando a imundcie das mos cheias de ataduras e sangue, fazendo uma careta de vez em quando por causa da dor, mas procurando 
ignor-la. Entrou pela rua principal, chegando a uma pequena praa. Era tarde, todas as lojas estavam fechadas e as ruazinhas, to graciosamente antiquadas, pareciam 
sadas de um livro de gravuras. Apertou o passo, mas no se desviou do caminho. Deparou-se, ento, com o porto de um pequeno ptio, um porto sem ferrolhos. Entrou 
sem que ningum o visse.
    Como parecia insignificante aquela arquitetura rural em comparao com os palcios onde tnhamos testemunhado tantos horrores.
    No ar fresco da noite, impregnado do aroma dos pinheiros e das estufas queimando docemente, Stefan ergueu os olhos para uma janela iluminada.
    Um estranho canto vinha l de dentro, um terrvel berreiro, mas muito feliz, cheio de prazer. Um homem surdo cantava.
    Eu conhecia aquele lugar, conhecia atravs de desenhos, sabia que era o lugar onde Beethoven tinha vivido e composto. Quando nos aproximamos, vi o que Stefan 
viu ao subir a pequena escada: o Maestro l dentro, balanando na escrivaninha, mergulhando a pena no papel, sacudindo a cabea, batendo o p e rabiscando as notas, 
parecendo delirar em seu precioso e seguro canto do universo, onde os sons podiam ser combinados como os homens de bons ouvidos jamais aconselhariam ou sequer tolerariam.
    O cabelo do grande homem estava manchado, matizado de um tom grisalho que eu no vira antes, o rosto marcado de varola estava muito vermelho, mas a expresso 
era descontrada e pura, sem qualquer franzido de ressentimento. Balanou de um lado para o outro; anotou. Cantava aquela marcha dolorosa, bem marcada, que certamente 
confirmava um caminho para ele.
    O jovem Stefan aproximou-se da porta, abriu-a e entrou, espreitando sobre os ombros do Maestro, com as mos enfaixadas atrs das costas dele. Ento deu um passo 
 frente e caiu de joelhos segurando o brao de Beethoven.
    - Stefan! - O grito foi alto e spero. - Stefan, o que  que h?
    Stefan curvou a cabea, irrompeu em lagrimas e, de repente, num movimento involuntrio, ergueu a mo enfaixada, avermelhada, como para alcanar e tocar no Maestro.
    - Suas mos! - disse o Maestro num tom frentico. Levantou-se, derrubando o tinteiro quando estendeu o brao sobre a escrivaninha. O caderno de conversao, 
no, o quadro-negro, foi isso que procurou. Eram os companheiros de seus anos de surdez, atravs dos quais falava com as pessoas.
    Mas ento baixou os olhos horrorizado e viu que ambas as mos de Stefan estavam incapacitadas para pegar uma caneta ou um giz. O jovem continuava ajoelhado, 
aflito, implorando perdo com tremores e movimentos de cabea.
    - Stefan, suas mos, o que fizeram com voc, meu Stefan?
    Stefan levantou a mo pedindo que ele falasse baixo, levantou-a em desespero. Mas era tarde demais. Em seu pnico protetor, Beethoven fizera outros correrem 
para a sala.
    Stefan tinha de escapar. Abraou o Maestro por um instante, beijou-o com fora na boca e correu para uma porta dos fundos no momento exato em que a porta a seu 
lado se escancarou.
    Fugiu mais uma vez, enquanto Beethoven ficou urrando de dor.
    Um pequeno quarto: uma cama de mulher.
    Com suas calas justas e uma camisa limpa, Stefan estava deitado, enroscado, a cabea mergulhada no travesseiro, a boca aberta, o rosto suado mas quieto.
    Ela, uma mulher robusta com traos de menina, atarracada, muito parecida comigo, mas jovem, amarrava novas ataduras em suas mos. Sem dvida sentia um extremo 
carinho por aquele semblante imvel, pelas mos machucadas que segurava. Mal conseguia conter as lgrimas. Era uma mulher que o amava.
    - Deve sair de Viena, prncipe - falou naquele alemo suave e cultivado dos vienenses. - Tem de sair!
    Ele no se mexeu. Seus olhos deixaram entrar um pouco de luz ou talvez tenham apenas deixado escapar um pedacinho de branco. Era como o rosto da morte, mas ele 
respirava.
    - Stefan, escute o que estou dizendo! - A voz da moa ganhou um tom de intimidade. - Vo enterrar seu pai amanh, com grande pompa. O corpo ser depositado na 
tumba de Van Meek, e voc sabe o que querem fazer... Pretendem enterrar o violino com ele.
    Primeiro Stefan abriu os olhos, fitando a vela ao lado da mulher, prestando ateno no prato de cermica onde j se formara uma poa de cera. Depois virou a 
cabea e olhou para ela. A cabeceira da cama, onde se recostava, era uma tabua de madeira grossa e ordinria. Sem duvida, era o lugar mais pobre a que j nos levara. 
Um quarto modesto, no sobrado de uma loja, talvez.
    - Enterrar o violino - disse ele, fitando-a com olhos sem brilho. - Berthe... voc disse...?
    - Sim, ficar enterrado com ele at seu assassino ser encontrado e os restos mortais serem levados para a Rssia.  inverno agora, no poderiam fazer a viagem 
at Moscou. E apesar de tudo que aconteceu, Schlesinger, o comerciante, deu o dinheiro para a coisa. Como voc v, eles esto lhe armando uma cilada. Acham que vai 
aparecer para salvar o violino.
    -  uma estupidez - respondeu Stefan. - Uma loucura. - Sentou-se na cama, erguendo o joelho, fazendo o p protegido pela meia marcar mais uma cova no velho colcho. 
O cabelo acetinado caa despenteado pelos ombros. - Uma cilada! Enterrar o violino num caixo com ele!
    - Psiu, no grite, no seja tolo! Acham que vai querer roub-lo antes do enterro. Se isso no acontecer, vo deix-lo no tmulo at que resolva ir busc-lo. 
 nesse momento que vo lhe deitar as garras. Se voc no aparecer, talvez deixem o violino muito tempo com seu pai, pelo menos at o dia em que o encontrem e o 
executem pelo crime. Foi um ato cruel; seus irmos e sua irm esto muito transtornados, embora nem todos estejam com ms intenes com relao a voc.
    - Sei que no... - murmurou, com ar pensativo, lembrando possivelmente de sua fuga. - Berthe!...
    - No pode imaginar o que os irmos de seu pai falaram contra voc. Foi deles essa idia de vingana. O violino devia ser enterrado com o pai que voc matou 
para que nunca, nunca mais pudesse toc-lo. A imagem que fazem de voc  de um fora-da-lei que roubaria o violino de Schlesinger.
    -  o que eu faria - sussurrou.
    Um barulho assustou os dois. A porta se abriu e um homenzinho de rosto redondo apareceu, um sujeito baixo e um tanto gordo, com uma pelerine preta e a camisa 
de linho geralmente usada pelas classes superiores. Parecia russo aquele homem de rosto to cheio e olhos pequenos. Podia-se ver nele um russo de hoje. Carregava 
no brao uma grande capa preta, um traje novo que estendeu numa cadeira. A capa tinha um capuz.
    Atravs de pequenos culos com aros prateados, viu o rapaz na cama e viu a moa, que sequer se virou para cumpriment-lo.
    - Stefan - disse, tirando a cartola e alisando para trs os restos de cabelo grisalho que lhe cobriam a cabea avermelhada -, esto vigiando a casa. Esto em 
cada rua. E Paganini, chegaram a abord-lo na Itlia com perguntas sobre a participao que tivera nisso. Ele negou que o conhecesse; disse que jamais se encontrara 
com voc.
    - No podia fazer outra coisa - murmurou Stefan. - Pobre Paganini. Por que est me contando isso, Hans? No me interessa.
    - Stefan, trouxe uma capa para voc, uma grande capa com capuz, e algum dinheiro para tir-lo de Viena.
    - Onde o conseguiu? - Berthe perguntou alarmada.
    - No importa - falou o homem, olhando-a de relance, com um certo desprezo. - Mas acredite que nem todos da famlia so impiedosos.
    - Vera, minha irm. Vi como se comportou. Quando tentaram me agarrar, ela se ps na minha frente. Oh, a extrema generosidade de minha irm!
    - Vera acha que deve ir embora, para a Amrica, para a corte portuguesa no Brasil, para qualquer lugar onde suas mos possam se recuperar e onde possa viver. 
Aqui no existe mais vida para voc! O Brasil fica muito longe, mas h outros pases. A Inglaterra, por exemplo. V para Londres, mas saia do imprio dos Habsburgo, 
 sua nica opo. At ns, ao ajud-lo, estamos correndo perigo.
    - Esqueceu de tudo que ele fez por voc? - indagou a jovem, furiosa. - No vou abandon-lo. - Cravou os olhos em Stefan, que tentou acarici-la com as mos enfaixadas, 
mas logo parou, como um animal com as patas no ar, os olhos bruscamente embotados de dor ou puro e simples desespero.
    - No,  claro que no - interveio Hans. - Ele  nosso rapaz, nosso Stefan, como sempre foi. S estou dizendo que bastam alguns dias para eles o encontrarem. 
Viena no  assim to grande. E com as mos desse jeito, o que Stefan pode fazer? Por que se demora?
    - Meu violino - declarou Stefan num tom embargado de dor. -  meu e no est comigo.
    - Por que voc no vai peg-lo? - disse a mulher, para o homem baixo e um tanto gordo, olhando-o de relance. Ainda enrolava a gaze na mo esquerda de Stefan.
    - Eu? Pegar o violino?
    - Por que no entra naquela casa? J fez isso antes. V dar uma olhada nas mesas de confeitos. Nos docinhos especiais. Deus sabe que quando h um funeral em 
Viena  um milagre que outras pessoas no morram de tanto comer doces. Entre com os padeiros para ver se tudo est bem com o buf,  bastante simples. Depois v 
na ponta dos ps para o andar de cima, entre na cmara do morto e pegue o violino. Eles o detm? Diga que est  procura de algum da famlia para pedir notcias, 
voc gostava muito do rapaz. Todos sabem disso. Apanhe o violino!
    - Todos sabem disso - repetiu. Essas palavras perturbaram o homem, que foi at a janela e olhou para a rua. - Sim, todos sabem que era com minha filha que Stefan, 
sempre que queria, passava as horas de farra.
    - E me dava belos presentes por isso, coisas que ainda guardo e guardarei at o dia do meu casamento! - ela falou, com aspereza.
    - Seu pai tem razo - disse Stefan. - Tenho de ir. No posso continuar pondo vocs dois em perigo. Podem pensar em vir aqui, em vigiar...
    - Nada disso - ela replicou. - No h criado da casa ou comerciante ligado  famlia que no goste de voc. Todos o colocam num pedestal. E tambm as mulheres 
francesas, esses trastes que chegaram com o conquistador, tm um fraco por voc. Por isso esto sendo vigiadas, pois todos sabem da fama que tem entre elas. Assim 
como sabem que a filha do padeiro ficava em segundo plano... Mas  verdade o que diz meu pai, voc tem de ir. Eu j tinha lhe dito isso, lembra? Precisa ir embora 
de Viena. Se no partir, ser apanhado numa questo de dias.
    Stefan estava mergulhado em pensamentos. Procurava apoiar seu peso na mo direita, mas logo percebeu o erro e tombou contra a madeira da cabeceira da cama. O 
teto era inclinado, a janela era minscula no meio da parede grossa. Stefan parecia to cheio de vigor no meio de tudo aquilo. Comprido demais, exasperado demais, 
brilhante e impetuoso demais para um cmodo to pequeno.
    Jovem imagem de meu fantasma, que cruzava amplos espaos e caminhava por avenidas largas.
    A filha se virou para o pai.
    - Entre na casa e pegue o violino!
    - Est delirando! - respondeu o homem. - A paixo a fez perder a cabea. No passa da filha estpida de um padeiro.
    - Um padeiro que sonhava ser um nobre cavalheiro, com seu nobre caf na Ringstrasse. Voc, que no se atreve sequer...
    -  claro que no - retrucou Stefan com autoridade. - Alm disso, Hans no saberia distinguir um violino do outro.
    - J est colocado no caixo! - disse ela. - Eles me contaram. - Puxou o pano com os dentes, rasgando-o em dois, e deu outro n apertado sob o pulso de Stefan. 
As ataduras j estavam ensangentadas. - Pai, v peg-lo.
    - No caixo! - Stefan sussurrou, cheio de desprezo. - Do lado dele!
    Eu teria fechado meus olhos e ajudado Stefan, mas no tinha esse nvel de controle sobre os corpos fsicos daquele tempo. Alm disso, j pegara o violino, aquele 
do qual estavam falando. Estava em meus braos e pensei: ento o instrumento, o instrumento que perseguimos numa histria sangrenta estava nessa poca, em torno, 
digamos, de 1825, colocado num caixo! Teria sido espargido com gua benta ou isso s ia acontecer na hora dos ltimos sacramentos e da missa de rquiem, dentro 
de uma igreja vienense com doces anjos dourados?
    At eu sabia que o homem no conseguiria pegar o violino. Mas ele  lutava para se defender, diante dos dois e de si mesmo, rodando no quarto, andando de um lado 
para o outro, com reflexos de luz nos culos e espichando os lbios.
    - Ora, mas como? No se pode entrar livremente num quarto onde um prncipe jaz, com todo aparato, em seu caixo...
    - Berthe, ele est certo - Stefan falou calmamente. - Seria abominvel se eu deixasse seu pai correr o risco. Alm do mais, quando poderia fazer isso? Como conseguiria 
subir de peito aberto, tirar o violino dos braos do morto e escapar sem que ningum o visse?
    Berthe encarou o pai, o cabelo preto lhe emoldurando a palidez do rosto, os olhos suplicantes, mas espertos. Tinha longas pestanas e lbios grossos, fartos.
    - H horas, tarde da noite - disse ela -, em que o quarto vai estar quase vazio. Voc sabe, quando as pessoas forem dormir. As poucas que ficarem, dizendo os 
rosrios, fecharo com toda a probabilidade os olhos no meio das oraes. Ento, pai, o senhor entra para cuidar das mesas de doces. Nesse momento, at a me de 
Stefan vai estar dormindo.
    - No! - exclamou Stefan, mas a idia tinha encontrado um terreno frtil. Levantou a cabea, ansioso, absorvido pelo plano. - Ir at o caixo, pegar o violino, 
o violino que est com ele, o meu violino...
    - Voc no pode fazer isso - falou Berthe, com o pavor estampado no rosto. - No dispe de dedos para peg-lo. No pode chegar perto da casa.
    Stefan ficou calado. Olhou rapidamente em volta, curvou-se de novo para olhar as mos e ergueu bruscamente o corpo por causa da dor. Viu as roupas que estavam 
 sua espera. Viu a capa.
    - Diga-me, Hans - perguntou de repente -, diga-me a verdade, foi Vera quem me mandou o dinheiro?
    - Sim, e sua me sabe, mas vou pagar por isso se fizer comentrios. No faa alarde desta generosidade para qualquer outra pessoa que venha a lhe ajudar. Se 
o fizer, nem sua irm nem sua me tero a possibilidade de me proteger.
    Stefan sorriu amargamente e concordou com a cabea. O pequeno Hans empurrou os culos para cima do nariz achatado e perguntou:
    - Sabia que sua me odiava seu pai?
    -  claro - respondeu Stefan -, mas a dor que lhe causei agora foi muito pior que tudo que meu pai fez, no acha?
    No esperou que o homem encontrasse uma resposta. Passou os ps pelo lado da cama.
    - Berthe, no posso calar as botas.
    - Onde vai? - ela perguntou, contornando rapidamente a cama para ajud-lo. Ajudou-o a calar cada bota e depois ajudou-o a ficar de p. Deu-lhe a grande capa 
preta, de l, nova e limpa, fornecida sem dvida pela irm.
    O homenzinho gorducho ergueu os olhos para ele, cheio de pena e tristeza.
    - Stefan, h soldados cercando a casa. Os guardas russos e a guarda
particular de Metternich esto l. H policiais por todo lado. Escute o que
estou dizendo.
    Aproximou-se e tocou na mo ferida de Stefan, que estremeceu, encolhendo a mo machucada. O homem ficou imvel, envergonhado e se desculpando.
    - No  nada, Hans. Voc foi muito generoso. Eu lhe agradeo. Deus saber proteg-lo, pois no foi voc, afinal, quem matou meu pai. E minha me ps sua bno 
sobre todas as nossas aes, eu sei. Esta era a melhor capa de meu pai, forrada com pele de raposa russa, est vendo? Ela pensou realmente em mim. Ou ser que foi 
Vera quem lhe deu a capa?
    - Foi Vera! Mas escute o que estou dizendo. Parta esta noite de Viena. Se for apanhado na casa, no ter direito sequer a um julgamento! Tomaro providncias 
para que seja morto antes de falar qualquer coisa ou antes que algum possa dizer que viu seu pai espanc-lo.
    - J estou sendo julgado - disse Stefan, tocando na capa com a mo enfaixada. - Eu o matei.
    - Siga meu conselho e parta de Viena. Procure um cirurgio que possa cuidar de seus dedos. Talvez ainda possam ser salvos. Existem outros violinos para um homem 
que toca como voc. Atravesse o mar, v para o Rio de Janeiro, para a Amrica do Norte. Ou v para o Oriente, para Istambul, por exemplo, onde ningum lhe far perguntas. 
No tem amigos na Rssia? No conhece os amigos de sua me?
    Stefan balanou a cabea, sorrindo.
    - Todos, sem exceo, so primos do czar ou seus filhos bastardos - retrucou com um riso breve. Era a primeira vez, naquela vida fantasmagrica, que eu via o 
jovem Stefan rir de verdade. Por um instante pareceu despreocupado e, como costuma acontecer nesses momentos com as pessoas, a felicidade tomou conta de todos os 
traos do seu rosto e transformou-o num homem perfeitamente radiante.
    Estava profundamente grato ao homenzinho que se agitava a seu lado. Suspirou e olhou ao redor do quarto. Parecia o gesto de despojamento de algum que podia 
morrer de uma hora para outra e olhava para todas as coisas, mesmo as mais simples, com amorosa ateno.
    Berthe amarrou os babados do peito da camisa e levantou-lhe as golas, ajeitando-as sobre o pescoo. Deu tambm o lao na gravata branca, de seda. Depois pegou 
um cachecol preto, de l, que enrolou em seu colarinho, levantando o cabelo penteado, brilhante, e deixando-o cair de novo. Um cabelo comprido, mas aparado.
    - Deixe-me cort-lo... - ela disse. Mais um disfarce?
    - No... no precisa. Ningum vai me ver embaixo da capa e do capuz. No posso perder mais tempo. Olhe,  meia-noite. Provavelmente o longo velrio j comeou.
    - No pode fazer isso! - ela gritou.
    - Mas farei! Vo me denunciar?
    A idia deixou atnitos a ela e ao pai. Os dois balanaram a cabea, silenciosa e obviamente assegurando que no o fariam.
    - Adeus, querida, pena que no tenha nada para lhe dar, nenhuma lembrana para deixar com voc...
    - Est me deixando com tudo que eu poderia querer - ela respondeu com brandura. Havia resignao em sua voz. - Deu-me algumas horas preciosas, com que outras 
mulheres s podero sonhar e das quais s podero saber lendo nas histrias.
    Stefan sorriu outra vez. Nunca, em nenhuma circunstncia, eu o vira to perfeitamente  vontade. E me perguntei se as mos que sangravam no doam, pois as ataduras 
j estavam em mau estado.
    - A mulher que ps minhas mos no lugar - falou para Berthe, insistindo no assunto - ficou com meus anis em pagamento, com todos eles. No pude impedi-la. Em 
seu quarto, Berthe, tive um ltimo lugar aconchegante para passar a noite e um ltimo momento de descanso. Vou embora, Berthe, me d um beijo. Hans, no posso lhe 
pedir uma bno, mas um beijo sim.
    Os trs se abraaram. Stefan estendeu os braos, como se pudesse levantar a capa com as mos naquele estado, mas Berthe correu para peg-la e, junto com o pai, 
colocou-a em seus ombros, enfiando-lhe o capuz na cabea.
    Eu morria de medo. Sabia o que estava por vir. E no queria ver.
    
    
  
  13
  
  
 Vestbulo de uma grande casa. Os inevitveis ornamentos do barroco alemo, madeira dourada, dois murais, um defronte ao outro, um homem, uma mulher, com perucas 
empoadas.
    Stefan tinha conseguido entrar com as mos enfiadas na capa. E ainda falara severamente em russo com os guardas, que ficaram confusos, desorientados na frente 
daquele homem bem vestido que viera apresentar os seus respeitos  famlia.
    - Herr Beethoven est aqui? Est aqui agora? - perguntou Stefan num russo estridente. Um divertimento. Os guardas s falavam alemo. Por fim apareceu um dos 
homens da guarda pessoal do czar.
    Stefan fez o jogo com perfeio, sem mostrar as mos enfaixadas, executando uma profunda mesura russa, a capa arrastando  sua volta nos ladrilhos do cho, o 
lustre no alto iluminando o vulto sombrio, quase monstico.
    - Vim a mando do conde Raminsky de So Petersburgo - falou em russo -, para apresentar minhas condolncias. - A segurana e o porte foram perfeitos. - Vim tambm 
transmitir uma mensagem a Herr van Beethoven. Herr Beethoven comps um quarteto para mim, que me foi enviado pelo prncipe Stefanovsky. Ah! Peo que me conceda alguns 
momentos com meu bom amigo. No tinha a inteno de incomodar a famlia a uma hora dessas, mas fui informado que a viglia se prolongaria por toda a noite e que 
poderia vir.
    Stefan j estava a caminho da porta.
    Um grande ar de formalidade tomou conta dos guardas russos, sendo imediatamente adotado pelos oficiais alemes e pelos criados de cabeleira postia.
    Os criados foram atrs dos guardas, depois passaram  frente para abrir as portas.
    - Herr Beethoven j foi para casa h algum tempo, mas posso acompanh-lo at o aposento onde o prncipe repousa - respondeu o agente russo, com bvio temor daquele 
mensageiro alto e majestoso. - Talvez eu devesse acordar...
    - No. Como j expliquei, no quero incomodar ningum a esta hora - replicou Stefan, olhando ao redor como se nada lhe fosse familiar nos espaos suntuosos da 
casa.
    Comeou a subir a escada; a pesada capa com forro de peles danava graciosamente logo acima dos calcanhares das botas.
    - A jovem princesa foi minha amiga de infncia - disse ele, olhando
pelo ombro para o guarda russo que acelerava o passo para acompanh-lo. - Virei visit-la numa hora mais adequada. Quero apenas deitar os olhos sobre o velho prncipe 
e fazer uma prece.
    O guarda russo comeou a falar, mas tinham chegado  porta certa. Era tarde demais para palavras.
    A cmara morturia. Imensa, as paredes repletas daqueles arabescos brancos entre bordas douradas que faziam os aposentos de Viena se parecerem muito com creme 
batido; pilastras ascendendo com rendilhados dourados; uma longa fileira de janelas externas, cada uma com seu arco arredondado sob uma moldura dourada, refletindo-se 
nos espelhos do lado oposto; nos fundos do aposento, portas duplas, como aquelas por onde entramos.
    O caixo jazia sobre uma grande plataforma, protegida por cortinas de um magnfico veludo pregueado. Bem ao lado da urna, numa pequena cadeira dourada instalada 
sobre a plataforma, havia uma mulher de cabea inclinada, dormindo. Sua nuca exibia uma nica volta de contas pretas e o vestido tinha o estilo Imprio, de cintura 
alta, embora fosse rigorosamente um vestido de luto preto.
    Toda a plataforma estava empilhada e cercada por belos buqus de flores. Espalhadas por todo o aposento, jardineiras de mrmore abrigavam solenes ramalhetes 
de lrios e uma profuso de rosas melanclicas, que se tornavam parte da espantosa decorao.
    Cadeiras de estilo francs, pintadas de branco, estavam dispostas em fileiras e o suntuoso estofamento de tecido adamascado num tom verde-escuro ou vermelho 
contrastava vivamente com as toscas molduras brancas fabricadas na Alemanha. Velas ardiam, isoladas, em candelabros ou no grande lustre que pendia do teto, um volumoso 
objeto de vidro e dourados, semelhante ao que cara na casa de Stefan, cheio de crostas de cera pura e branca.
    Mil e uma chamas palpitavam timidamente no silncio.
    Nos fundos do aposento, havia uma fileira de monges. Rezavam o rosrio em latim, sotto voce, em unssono. No levantaram os olhos quando o vulto encapuzado entrou 
e caminhou na direo do caixo.
    Num comprido sof dourado mulheres dormiam, a mais nova, de cabelos pretos, nitidamente com os traos de Stefan, encostando a cabea no ombro da outra. Ambas 
vestiam ricos vestidos pretos e, naquele momento, tinham arriado os vus. Um pingente se destacava no pescoo da mais velha, cujo cabelo era branco e prateado. A 
mais moa se mexeu como se estivesse discutindo com algum, mas no acordou, nem mesmo quando Stefan passou na frente dela, embora a alguma distncia.
    "Minha me."
    O meloso guarda russo no se atreveu a deter o altivo aristocrata que se aproximava, decidido, do esquife.
    Junto  porta aberta, com perucas de rabicho e uniformes pr-napolenicos de cetim azul, os criados tinham os olhos foscos, como se fossem bonecos de cera.
    Stefan parou diante da plataforma. Dois degraus acima, na pequena cadeira dourada, a mulher dormia com o brao no caixo.
    "Minha irm Vera. Minha voz treme? Olhe como ela pranteia a morte do pai. Vera! E olhe dentro do caixo."
    Nossa viso levou-nos para perto. Fui inundada pelo perfume das flores, o aroma profundamente embriagador dos lrios e de outras espcies. Velas de cera, o mesmo 
tnue e penetrante aroma da pequena capela da rua Prytania da minha infncia, aquela cpsula de santidade e salvao onde nos ajoelhamos com a me no parapeito cheio 
de ornamentos, ante as exuberantes palmas-de-santa-rita em cima do altar, suplantando em muito nossos pequenos ramos de lantanas.
    Tristeza. Oh, corao, tamanha tristeza.
    S podia pensar naquilo que via na minha frente, em mais nada. Torcia para que a tentativa de Stefan desse certo, mas estava petrificada de medo. A figura encapuzada 
subiu calmamente os primeiros dois degraus da plataforma. Era insuportvel a batida de meu prprio corao. Nenhuma das minhas memrias podia suplantar aquela dor, 
aquele mal, aquele medo do que estava por acontecer, medo da crueldade e de ver sonhos se estilhaando.
    "Olhe para meu pai. Veja o homem que destruiu minhas mos."
    O cadver tinha uma aparncia cruel, embora estivesse mirrado, murcho, insignificante. A morte acentuara os ngulos, fizera sulcos profundos no rosto, alm de 
tornar os traos eslavos mais evidentes. Talvez o nariz estreito se devesse ao trabalho do agente funerrio, que tambm avermelhara demais os lbios com ruge, lbios 
cados, sem o sopro de vida que os faria dar aquele meio sorriso que o morto exibira to facilmente antes de ser dominado pela raiva ou estar prximo dela.
    Um rosto muito pintado e o corpo excessivamente coberto de peles, jias, veludo e fitas coloridas, suntuoso  maneira russa, onde tudo deve brilhar para expressar 
valor. As mos, com todos os seus anis, jazendo como uma coisa pastosa no peito, seguravam um crucifixo.
    Mas ao lado dele, aninhado no cetim, encontrava-se o violino, o nosso
violino, sobre o qual pendia a mo adormecida de Vera.
    - Stefan, no! Como vai conseguir peg-lo? - sussurrei em nossa vigilante escurido. - Ela est encostando nele. Stefan!
    "Ah, como receia por minha vida quando contempla este velho quadro! Voc no me devolve o violino, mas me veja agora morrer por ele."
    Tentei virar a cabea. Ele me obrigou a olhar. Arraigados no meio da cena, nada nos seria poupado. Apesar de nossa forma invisvel, senti seu corao bater, 
como senti o aperto, o tremor e o suor de sua mo quando ele me virou a cabea.
    - Olhe - foi tudo que pde me dizer. - Olhe para mim durante os ltimos segundos de minha vida.
    O vulto de capa e capuz subiu os dois ltimos degraus da plataforma e baixou a cabea. Os olhos sombrios, fatigados, vtreos contemplaram o cadver do pai. Ento, 
saiu de baixo da capa aquela mo com ataduras e sem polegar, que levantou o instrumento e o arco, trazendo-os para o peito, onde foram rapidamente escorados pela 
outra mo mutilada.
    Vera acordou.
    - Stefan, no! - murmurou, fazendo um gesto desesperado para ele ir embora, movendo bruscamente os olhos de um lado para o outro, como uma advertncia.
    Ele se virou.
    Vi a movimentao. Os irmos chegaram pelas portas das outras cmaras. Um homem se precipitou para afastar a irm em pnico. Ela ainda estendeu os braos para 
Stefan. Dava gritos estridentes.
    - Assassino! - gritou o homem que atirou a primeira bala. Ela no atingiu apenas o peito de Stefan, mas tambm o violino. Ouvi a madeira estilhaar.
    Stefan estava dominado pelo terror.
    - No, no faa isso! - gritou Stefan. - No! - Ele e o violino foram atingidos por um tiro atrs do outro. Houve um movimento de fuga. Stefan correu para o 
centro do aposento, enquanto continuavam a criv-lo de balas, balas que vinham agora no apenas de cavalheiros muito bem vestidos, mas tambm dos guardas, balas 
que despedaavam o violino e a ele.
    Estava rubro o rosto de Stefan. Mas nada parecia deter a figura que contemplvamos. Nada.
    Vimos sua boca aberta lutando para respirar, os olhos se estreitarem, a capa flutuando quando ele se precipitou pela escada. E vimos o arco e o violino a salvo 
em seus braos, sem sangue, sem sangue! Mas ningum procurava salvar aquela forma que se evaporava de suas mos - e olhe agora!
    As mos.
    As mos estavam livres, inteiras e no precisavam de ataduras. Tinham novamente dedos perfeitos e longos, que agarravam com fora o violino.
    Stefan curvou a cabea quando atravessou a porta da frente - eu me assustei. A porta estava trancada e ele nem tinha reparado. O estampido das armas, os gritos 
cresceram numa saraivada de dissonncias e depois morreram atrs dele.
    Stefan corria pela rua escura, os ps batendo com fora nas pedras brilhantes e irregulares do calamento. De vez em quando baixava os olhos para certificar-se 
de que o violino e o arco estavam a salvo em sua mo. De repente deu  corrida toda sua energia juvenil e a velocidade aumentou. Correu, correu at deixar para trs 
as pedras arredondadas das ruas do centro da cidade.
    As luzes eram uma mancha no escuro. Seria mesmo neblina o que rodeava aqueles lampies? Casas despontavam numa escurido sem relevos.
    Finalmente parou, incapaz de ir mais adiante. Com a capa enrolada atrs, servindo de almofada para a cabea, tomou flego apoiado num muro lascado, onde a tinta 
descascava, fechando os olhos por um instante. O violino e o arco estavam em segurana e ilesos em seus dedos sem cor. Respirou vrias vezes profundamente, olhando 
para os lados, muito nervoso, para ver se algum o perseguia.
    A noite no tinha ecos. Vultos se moviam no escuro, mas vagos demais, longe demais das luzes sobre uma porta ou outra. Ser que Stefan reparava na bruma que 
fazia anis pelo cho? Isso era comum no inverno de Viena? Grupos de vultos o contemplavam. Acharia ele que no passavam de vagabundos rondando pela noite da cidade?
    Correu mais uma vez.
    Atravessou a grande, cintilante Ringstrasse, com fileiras de lampies e as multides extremamente indiferentes da madrugada. S parou de novo quando j estava 
a caminho do campo aberto, e foi ento que, pela primeira vez, viu suas mos restauradas, mos sem ataduras, curadas... junto do violino. Levantou-o contra o cu, 
contra a luz dos foscos lampies da cidade e viu que o instrumento no fora danificado. Estava inteiro, sem um arranho. O Strad longo. Dele! Com o arco que tanto 
amava!
    Olhou para trs, para a cidade que tinha abandonado. Da lombada onde se achava, podia v-la entregar docemente suas opacas luzes de inverno s nuvens cada vez 
mais baixas. Estava confuso, exaltado, atnito.
    E nos tornamos materiais. Os cheiros dos bosques de pinheiros e o ar frio, misturados  distante fumaa das chamins das lareiras, nos cercavam.
    Estvamos no bosque, no muito longe de Stefan, mas excessivamente distantes para consolar aquela imagem de mais de cem anos atrs, parada ali, com o vapor da 
respirao escapando no frio, segurando com extremo cuidado o instrumento. Seus olhos espreitavam o mistrio que deixara para trs.
    Algo estava terrivelmente errado; ele sabia disso. Algo estava to monstruosamente errado que ele foi tomado por uma tremenda apreenso.
    Meu Stefan esprito, meu guia e companheiro, deu um gemido baixo, mas no a figura distante. A figura distante conservava a nitidez das cores, conservava uma 
vibrante materialidade e examinava as roupas em busca das feridas. Examinou a cabea e o cabelo. Tudo intacto. No lugar.
    - Ele  um fantasma, foi o que se tornou desde o primeiro tiro - falei eu, suspirando ligeiramente -, mas no sabe disso!
    Levantei os olhos para meu Stefan, depois para aquele vulto ao longe que, pela expresso do rosto e falta de pose, parecia o mais inocente, o mais desamparado, 
o mais jovem dos dois. O espectro do meu lado engolia em seco, mas seus lbios estavam midos.
    - Voc morreu naquela cmara - declarei.
    Senti uma dor muito aguda correr por dentro de mim e s tive vontade de am-lo, de conhec-lo completamente com minha alma, de abra-lo. Virei-me e beijei-o 
no rosto. Ele curvou a cabea para ganhar mais beijos, encostando a testa fria e dura na minha, e ento apontou o distante e recm-nascido fantasma l embaixo.
    O distante e recm-nascido fantasma examinava as mos curadas e o violino.
    - Requiem aiternam dona eis Domine - disse meu companheiro num tom amargo.
    - As balas estraalharam voc e o violino - retruquei.
    O distante Stefan levantou a cabea e comeou a avanar freneticamente pelo meio das rvores. Olhava a toda hora para trs.
    - Meu Deus, est morto, mas no sabe.
    Meu Stefan, com a mo em meu pescoo, apenas sorriu.
    Uma jornada sem um mapa ou destino.
    Ns o seguamos na louca caminhada; ali estava a hedionda bruma da "terra desconhecida" de Hamlet.
    Fui presa de um violento calafrio. Em minha memria, achava-me ao lado do tmulo de Lily... Ou seria o de minha me? Isso acontecia naquele tempo monstruoso, 
sufocante, antes do remorso comear, quando tudo  horror. Olhe para ele, est morto e vaga, vaga.
    Atravs de aprazveis cidadezinhas alems, com tetos inclinados e ruas tortuosas, ns o seguimos. Estvamos de novo sem corpo e ancorados apenas na perspectiva 
que compartilhvamos. Ele atravessava grandes campos desertos e entrava de novo na floresta de luzes dos lugarejos. Ningum o via! Mas ele podia escutar o sussurro 
dos espritos se reunindo e tentava ver o que se movia em cima, embaixo, ao lado.
    Manh.
    Ao descer a rua principal de uma pequena cidade, aproximou-se do balco do aougueiro e falou com o homem, que no pde v-lo nem ouvi-lo. Depois tocou no ombro 
de uma mulher que cozinhava l dentro, tentou sacudi-la, mas embora Stefan visse o prprio gesto com suficiente clareza, ainda que no meio de um profundo conflito 
entre vontade e fato, a mulher nada sentiu.
    Chegou um padre, usando uma batina preta, comprida, e dando bom dia aos primeiros fregueses. Stefan segurou-o, mas o padre no pde v-lo nem ouvi-lo.
    Ficou descontrolado diante da barulhenta multido da aldeia, depois austero, tentando desesperadamente raciocinar.
    Agora, com maior clareza, viu os mortos rondando por perto. Viu o que s podiam ser fantasmas, to irregulares e fragmentadas eram suas formas humanas. Fitou-os 
como um vivo teria feito: apavorado.
    Fechei com fora os olhos; via o pequeno retngulo do tmulo de Lily. Via os punhados de terra batendo no caixozinho branco. "Triana, Triana, Triana!", gritava 
Karl, enquanto eu repetia sem parar: "Estou com voc!" E Karl dizia: "Ainda no acabei meu trabalho, est incompleto, veja, Triana, no existe livro, no foi concludo, 
no... Olhe, onde esto os papis? Me ajude, est tudo perdido..."
    No, afaste-se de mim.
    Contemple este vulto olhando para as outras sombras que se aproximavam, como se sua roupagem vistosa as atrasse. Ele tinha medo e examinava as faces evanescentes. 
De vez em quando, gritava num tom de splica os nomes dos mortos que tinha conhecido na infncia; depois, com uma expresso desvairada, os olhos rodando nas rbitas, 
caa em silncio.
    O barulho que fazia no era ouvido por ningum.
    Gemi, e quem estava a meu lado me agarrou com fora, como se tambm para ele fosse difcil suportar a viso de sua prpria alma indefesa, enfiada na capa, ntida 
e bela, com um cabelo que cintilava, no meio de uma multido to pouco recortada na sombra quanto ele prprio, que assistia  cena comigo.
    L embaixo, Stefan foi aos poucos se acalmando. As lgrimas hesitavam, dando aos olhos a grandiosa e lustrosa autoridade que possuem as lgrimas imveis. Levantou 
o violino, fitou-o. Encostou-o no ombro.
    Comeou a tocar. Fechou os olhos e deixou que seu terror se extravasasse numa dana louca, que teria arrancado aplausos do prprio Paganini. Foi um protesto, 
um lamento, um canto fnebre e, lentamente, abrindo os olhos enquanto o arco se movia, enquanto a msica apoderava-se impetuosamente de mim e de meu fantasma, percebeu 
que ningum que estivesse vivo na praa daquele lugarejo, ou em qualquer outro lugar, perto ou longe dali, poderia v-lo ou ouvi-lo.
    Por um momento parou e quase desvaneceu. Segurando o violino com a mo direita e o arco com a esquerda, ergueu os punhos at os ouvidos e curvou a cabea, mas 
quando o colorido se escoou dos contornos de seu corpo, ele estremeceu de cima a baixo e arregalou os olhos. O ar  sua volta rodopiou com espritos cada vez mais 
visveis.
    Ele balanou a cabea e torceu a boca como uma criana chorando.
    - Maestro, Maestro! - exclamou. - O senhor est isolado em sua surdez e eu estou isolado de toda escuta! Maestro, estou morto! Estou to sozinho, agora, Maestro, 
quanto o senhor! Maestro, eles no podem me ouvir! - As palavras foram gritadas.
    Passaram-se dias?
    Anos?
    Agarrei-me ao Stefan que me guiava naquele mundo sombrio. Tremendo, embora no estivesse realmente frio, contemplei o vulto caminhar de novo, aproximando de 
vez em quando o violino da orelha e tocando frenticas seqncias de notas, para logo parar, num acesso de raiva, cerrando os dentes, sacudindo a cabea.
    Viena de novo, talvez. Eu no sabia. Uma cidade italiana? Podia ser Paris. Eu no sabia. O estudo e a imaginao tinham misturado demais em minha mente os detalhes 
daquela poca.
    Ele caminhava.
    O cu se tornava menos uma referncia de algo natural que um dossel para uma existncia  margem da natureza, um grande tecido negro, um vu de luto, com estrelas 
cuidadosamente espalhadas, como diamantes, sobre sua superfcie. Talvez lembrasse, depois do alvorecer, uma cortina turva.
    O caminhante parou num cemitrio de tmulos exuberantes. Estvamos de novo invisveis, perto dele. Olhou para os tmulos, leu as inscries, e aproximou-se da 
tumba de Van Meck. Leu o nome do pai. Limpou a grossa crosta de barro e musgo que cobria a lpide.
    O tempo no se prendia mais aos grandes ou pequenos relgios. Tirou seu relgio do bolso e olhou, mas o mostrador no tinha mais qualquer significado para ele.
    Outros espritos se juntaram na spera escurido, curiosos, atrados por seus movimentos firmes e colorido brilhante. Ele examinava seus rostos.
    - Pai? - murmurou. - Pai?
    Os espritos recuaram, como bales no vento agrupados em vagos conjuntos, bales que podiam ser puxados para a direita ou para a esquerda com um simples golpe 
nas cordas que os prendiam  terra.
    Naquele momento, a percepo plena tomou conta de seu rosto. Estava morto, mais do que definitivamente morto. No meramente morto, mas com certeza isolado de 
qualquer outro fantasma do seu tipo!
    Esquadrinhava o ar e a terra em busca de outro espectro consciente como ele - to arrojado, to cheio de angstia. Nada encontrava.
    Ser que agora enxergava as coisas como eu e meu Stefan?
    "Sim, eu e voc estamos vendo agora o que vi naquele momento - o que vi, sabendo apenas que estava morto, mas sem saber qual era o sentido de ainda caminhar 
pela terra, sem saber o que podia fazer com a desgraa daquela condenao. Sabia apenas que me deslocava de um lugar para outro, que nada me atava, nada me constrangia, 
nada me consolava. Sabia apenas que me tornara ningum!"
    Vagamos para uma pequena igreja, no meio da missa. Uma igreja de estilo alemo, mas de uma simplicidade anterior ao domnio de Viena pelo rococ. Arcos gticos 
ascendiam dos flores das colunas. As pedras eram largas e sem polimento. No passava de uma parquia de gente do campo, onde a quantidade de cadeiras era muito 
pequena, quase nada.
    Sua aparncia espectral no se alterara. Ele ainda era uma imagem vigorosa e policromtica.
    Vamos a distante cerimnia no altar, sobre o qual havia um dossel vermelho-sangue, sustentado por santos gticos: imagens corrodas, esqulidas, venerveis, 
desajeitadamente postadas ali como escoras.
    Na frente do alto crucifixo, o padre ergueu a hstia branca, redonda e consagrada, a substncia mgica, o corpo e o sangue miraculosamente palatveis. Pude sentir 
o cheiro do incenso. Sininhos tocavam. Os fiis murmuravam em latim.
    O fantasma de Stefan olhava friamente para eles, trmulo, como ficaria um homem condenado  forca na frente dos estranhos que fossem assistir  sua execuo. 
S que no havia forca.
    E ele voltou para o vento l for, para subir uma encosta, para fazer a caminhada que eu imaginava quando ouvia o Segundo Movimento da Nona de Beethoven, a marcha 
insistente. Cada vez mais para o alto por entre os bosques; ele caminhava sempre subindo. Achei que estava vendo neve e depois chuva, mas no tinha certeza. Em certo 
ponto, as folhas pareceram rodopiar  sua volta e ele parou sob uma ducha de folhas amarelas. Mais adiante, cruzou a estrada fazendo sinais para uma carruagem, mas 
a carruagem no tomou conhecimento dele.
    - Como a coisa comeou? - perguntei. - Como encontrou um caminho? Como se transformou neste monstro poderoso e obstinado que me tortura? - Na escurido que nos 
cobria, senti o rosto dele, e sua boca.
    "Oh, pergunta desalmada! Voc est com meu violino. Fique quieta, veja! Ou me d agora o instrumento! Acho que ainda no viu o bastante para se convencer que 
ele  meu, que s pertence a mim, que fui eu que,  custa de meu prprio sangue, cruzei com ele a linha divisria e o trouxe para esta esfera. Voc se apodera dele 
e eu no consigo libert-lo. Os deuses, se existem, so maus, ou no permitiriam que acontecesse uma coisa dessas. O Deus do Cu  um monstro. Tire suas lies do 
que v."
    - Tire voc, Stefan - retruquei, agarrando o violino ainda com mais
fora.
    Na intensa escurido onde perambulvamos, ele ainda conservava os braos a meu redor, a testa em meu ombro. E a falta desesperada que sentia do violino veio 
 superfcie. Gemeu, como se confessasse a dor num cdigo muito ntimo, que incluiu suas mos sobre as minhas e os dedos tocando na madeira, nas cordas do instrumento, 
mas sem procurar pux-lo. Senti os lbios se moverem nos meus cabelos, encontrarem a curva da orelha, e mais - senti-o se apertar contra mim, ansioso, mas trmulo, 
indeciso. O calor cresceu dentro de mim; parecia bastar para aquecer a mim e a ele.
    Olhei de novo para o jovem esprito que vagava.
    Caa neve.
    O jovem esprito contemplava a neve e via que ela no tocava em sua capa, nem em seu cabelo. Os flocos pareciam passar voando; ele levantava as mos para peg-los. 
Sorria.
    Seus ps faziam um rangido ao avanar sobre a neve. Mas seria isto uma coisa realmente provocada por ele ou mera sensao que proporcionava a si mesmo atravs 
da vontade e da expectativa? A capa comprida, com o capuz jogado para trs, era uma sombra escura na neve que o vento espalhava, e os olhos dele piscavam, ante o 
dilvio branco e silencioso que vinha do cu.
    De repente um fantasma o assustou, uma mulher, nevoenta caminhante que sara da floresta com a mortalha e o sudrio do tmulo, disposta sem dvida a amea-lo. 
Stefan lutou contra ela, mas ficou impressionado. Embora tenha conseguido afugent-la com uma nica pancada do brao, teve arrepios de medo e saiu correndo. A neve 
se tornava mais espessa; por um instante, achei que no conseguiria mais v-lo, mas logo ele apareceu, ntido, melanclico, em nossa frente.
    De novo o cemitrio, cheio de tmulos grandes e pequenos. Stefan parara junto dos portes. Espreitava o que havia l dentro. Viu um espectro errante, rondando 
de um lado para o outro, falando sozinho como um humano demente. Era uma coisa cheia de filamentos, de cabelo eriado e membros ondulantes.
    Esticou o brao e empurrou o porto. Teria sido apenas sua imaginao? Ou continuava forte o bastante para fazer aquela coisa material se mexer? No levou a 
especulao alm deste ponto. Meramente ultrapassou as grades altas, pontiagudas, e avanou pela trilha fria, onde a neve ainda no chegara, embora todas as folhas 
cadas estivessem quebradias, avermelhadas e amareladas.
    A frente, havia um pequeno grupo de vivos na beira de um tmulo humilde, cuja lpide no passava de uma simples pirmide. Choraram e finalmente foram embora, 
com exceo de um deles, uma mulher idosa que, a caminho do porto, encontrara um lugar para sentar na beira de uma sepultura mais ricamente adornada, ao lado da 
esmerada esttua de uma criana morta! Uma criana morta! Fiquei extasiada.
    A criana morta era de mrmore e tinha uma flor na mo. Vi minha filha sendo novamente sepultada - uma rpida viso; no havia esttua no tmulo de Lily e seu 
cemitrio ficava em outro sculo. Mas nosso fantasma errante estava ali parado, contemplando a distante figura de luto. A mulher usava um pequeno chapu preto, com 
fitas compridas de cetim, e uma saia muito armada, de uma poca bem  frente dos dias em que Vera, num vestido estreito, precipitara-se por uma sala para salvar 
o irmo.
    Ser que o fantasma percebia que tinham se passado dcadas? Ele meramente fitou a mulher e avanou para a frente dela, testando sua invisibilidade e balanando 
a cabea em profunda meditao. J teria se resignado ao extremo horror de uma existncia sem sentido?
    De repente seus olhos caram sobre o tmulo ao redor do qual o grupo de vivos tinha se reunido! Viu o nome isolado gravado na pirmide.
    Eu tambm vi.
    Beethoven.
    Quem estava nos tmulos deve ter acordado com o grito que brotou dos lbios do jovem Stefan! Mais uma vez, agarrando o instrumento com uma das mos e o arco 
com a outra, levou os punhos  cabea.
    - Maestro! Maestro! - bradou repetidas vezes.
    A mulher de luto nada ouviu, nada percebeu. No viu o fantasma se atirando no cho barrento, cavando a terra com as mos, deixando o violino tombar.
    - Maestro, onde est o senhor? Para onde foi? Quando o senhor morreu? Estou sozinho! Maestro,  Stefan, me ajude. Seja meu defensor diante de Deus! Maestro!
    Agonia.
    Angor animi.
    O Stefan a meu lado tremia, e a dor em meu peito se espalhou como fogo pelo corao e pulmes. O rapaz estava estirado no cho na frente do tmulo abandonado, 
entre as flores que a mulher tinha deixado l. Soluava. Batia com o punho na terra.
    - Maestro! Por que no fui para o inferno?  isto o inferno? Maestro,
onde esto os fantasmas dos condenados,  isto a condenao? Maestro, o
que eu fui fazer? Maestro... - agora era o remorso, o puro remorso. - Maestro, meu amado Maestro, meu amado Beethoven.
    Os soluos eram secos e mudos.
    A mulher de luto no parava de olhar para a lpide com o nome Beethoven. Atravs de seus dedos, muito devagar, passavam as contas de um rosrio simples, preto 
e prateado. O tipo grave de rosrio usado pelas freiras quando eu era pequena. Vi seus lbios se moverem. Tinha um rosto estreito, eloqente, e quase fechava os 
olhos enquanto rezava. Os clios eram grisalhos, pouco visveis, e o olhar fixo, como se estivesse realmente meditando sobre os Mistrios Sagrados. Qual deles, naquele 
momento, estaria sendo contemplado por aqueles olhos?
    Ela no ouvia gritos de ningum; estava sozinha aquela humana; e estava sozinho o esprito. E as folhas se espalhavam, amarelas, em volta deles. E as rvores 
apontavam braos fracos e nus para o cu intil.
    Por fim, Stefan recuperou o controle. Ficou de joelhos, depois em p e apanhou o violino, livrando-o dos pedaos de folha e da terra que havia nele. Tinha a 
cabea curvada, numa perfeita confisso de dor.
    A mulher parecia estar rezando h um tempo infinito. Quase pude ouvir suas preces. Dizia suas Hail Marys em alemo. Chegara  conta 54,  ltima Hail Mary, ou 
Ave-Maria, da ltima dcada. Olhei para a esttua de mrmore a seu lado. Estpida, estpida coincidncia, ou estaria a cena sendo apresentada daquela maneira, com 
a criana de mrmore e a mulher de luto, graas  conivncia do meu fantasma? E o rosrio, um rosrio como o que eu e Rosalind tnhamos destroado durante uma briga 
aps a morte de nossa me: " meu!"
    "No seja to presunosa e tola. Isto foi exatamente o que aconteceu! Acha que arranquei de sua mente as desgraas que me desnorteavam a alma e me transformavam 
no que eu sou? Estou lhe mostrando quem sou eu, sem nada inventar. Existe tanta agonia dentro de mim que no h lugar para a imaginao; ela foi soterrada por um 
destino que devia ensin-la a ter medo e compaixo. Devolva meu violino!"
    - Voc aprendeu a ter compaixo com esse destino? - perguntei. -Voc que quer enlouquecer as pessoas com sua msica?
    Seus lbios tocaram no meu pescoo, a mo pousou com fora em meu brao.
    O jovem fantasma sacudia as folhas da capa com forro de peles, vendo com olhos vidrados elas carem no cho, exatamente como poderia fazer um homem vivo. E ento 
se virou de novo para o nome:
    Beethoven.
    Estendeu o brao para pegar o violino e o arco. Desta vez, quando levantou o instrumento e comeou a tocar, escolheu um tema familiar, um tema que eu sabia inteiramente 
de cor, o primeiro tema musical que tinha decorado na vida. Era a melodia principal do primeiro e nico Concerto de Beethoven para violino e orquestra - aquela fascinante, 
fascinante e animada cano que parecia repleta demais de felicidade se levarmos em conta o Beethoven das sinfonias hericas e dos quartetos msticos, uma melodia 
que mesmo uma palerma sem talento como eu conseguiu decorar numa nica noite, quando viu um velho gnio execut-la.
    Stefan a interpretava suavemente, exprimindo no a dor, mas uma pura e simples homenagem ao Maestro. Para o senhor, Maestro, a msica que comps, esta viva melodia 
escrita para o violino quando o senhor era jovem, antes de ser atingido pelo horror do silncio, que o isolou do mundo e o obrigou a compor num vcuo onde toda msica 
era monstruosa.
    Eu podia ter cantado a melodia com ele. Com que perfeio ascendia das cordas e como aquele distante fantasma se deixava levar, o corpo oscilando de forma quase 
imperceptvel, o arco ondulando para dentro e fora do tema, apoderando-se das partes orquestrais para faz-las voltar ao solo, exatamente como fizera, muito tempo 
atrs, com outro trecho de msica para Paganini ouvir.
    Por fim ele chegou  parte que chamam de "cadncia", quando o violinista deve pegar dois temas, ou todos os temas, e toc-los juntos, quando os temas colidem 
ou se entrelaam numa orgia de inveno. Soube desencade-la - vigorosa, brilhante, mas cheia de doce serenidade. Seu rosto estava tranqilo, resignado. Ele tocava, 
tocava e, gradualmente, fui sentindo meu prprio corpo fraquejar nos braos de Stefan. Percebi que finalmente compreendia o que eu mesma tentara lhe dizer:
    A saudade  sbria. A saudade no grita. A saudade s vem muito tempo depois do horror ante a viso do tmulo, do horror na cabeceira da cama. A saudade  sbria 
e  impassvel.
    Calma. Ele chegara ao fim. A nota ficou pairando no ar, depois morreu. S a floresta continuou cantando, em surdina, como lhe era habitual, a msica de minsculos 
instrumentos orgnicos, variados demais para serem contados: pssaros, folhas, o grilo sob a samambaia. O ar estava nublado, brando, mido, pegajoso.
    - Maestro - ele murmurou -, possa a Luz Eterna Brilhar Sobre o
Senhor... - Enxugou o rosto. - Possa sua alma e as almas de todos os Fiis que se Foram descansar em Paz.
    A mulher de luto se levantou devagar, sob o peso do chapeuzinho preto e da enorme saia, do assento ao lado da criana de mrmore. Foi na direo dele! Podia 
v-lo! E de repente lhe estendeu os braos.
    - Obrigada, belo rapaz - agradeceu em alemo -, que tocou com tanta perfeio e sentimento!
    Ele se limitou a olh-la.
    Estava com medo. O jovem fantasma estava com medo. Olhava perplexo para ela. No se atrevia a falar. A mulher passou a mo no rosto dele e falou de novo:
    - Um jovem to abenoado. Obrigada pelo que me deu neste dia, inesquecvel dentre tantos outros. Tambm amo esta msica. Sempre a amei. Quem no gosta da msica 
de Beethoven  um covarde.
    Ele parecia incapaz de responder.
    A mulher retirou-se de modo corts, desviando os olhos para devolver a Stefan sua privacidade e seguindo seu caminho pela trilha.
    - Obrigado, senhora! - ele gritou por fim.
    A mulher se virou, saudou-o com a cabea e disse:
    - Ah, talvez eu tenha feito, neste dia to especial, minha ltima visita a este campo! Voc sabe, muito em breve vo transferir o tmulo. Ele ser colocado no 
novo cemitrio, ao lado de Schubert.
    - Schubert! - murmurou Stefan.
    Levou um choque, mas se controlou.
    Schubert morrera jovem. Mas como ele, segregado simulacro de um homem vivo, vagando pelo ter, poderia saber de uma coisa dessas?
    Aquilo no precisava ter sido dito em voz alta. Agora todos sabiam, todos ns - o jovem fantasma, a mulher da recordao, o fantasma que me segurava e eu. Schubert, 
artfice de tantas canes, tinha morrido jovem, trs anos ou menos depois de visitar Beethoven no leito de morte.
    Estupefato, o jovem fantasma viu-a deixar o cemitrio.
    - E assim a coisa comeou! - sussurrei olhando para o fantasma visvel, para o poderoso fantasma. - O que levou aquele esprito  visibilidade? Posso aceitar 
a mulher sentada ao lado da criana de mrmore, mas como explicar o dom misterioso e secreto que permitiu que ela cruzasse a fronteira da morte? Sabe a resposta? 
Alguma vez j refletiu sobre lies desse tipo?
    Ele no iria me responder.
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
  
  14
  
  
 Ele no deu resposta.
    O atemorizado e jovem fantasma esperou at a mulher estar fora de vista e ento, afastando-se um passo do tmulo, levantou a cabea para o trecho de cu que 
podia ver, um cu de inverno em Viena, quase um nevoeiro sujo. Depois, com ar solene, lanou mais um olhar para a tumba.
    Ao seu redor, mais densa e maliciosamente que antes, agrupavam-se mortos desgrenhados, desorientados. Oh, a viso daqueles espritos!
    "Vejo algum a quem possa apelar? Acha que sua Lily vaga nesta escurido, ou seu pai, sua me? No. Olhe agora para o meu rosto. Veja o que o reconhecimento 
traz e o isolamento cristaliza. Onde esto os mortos iguais a mim, sejam quais forem seus pecados e o meus? Nem mesmo monstros executados por crimes indiscutveis 
se apresentam para me apertar a mo. Fico  parte de todos esses, de todas essas aparies que voc v. Olhe para meu rosto. Olhe e veja como a coisa comeou. Olhe 
com raiva."
    - Voc  que tem de encarar tudo isso - gritei. -  assim que voc evolui!
    Vi-o s por um instante. Um vulto parado. O rosto mais duro, um desprezo pelos mortos informes que perambulavam, os olhos frios cados sobre o tmulo.
    Crepsculo.
    Outro cemitrio surgira  nossa volta; era novo, com tmulos mais grandiosos, com mais ostentao, e certamente em algum lugar se encontrava o mausolu - ah, 
sim, l estava, dedicado a Schubert e Beethoven, a disposio das esttuas esculpidas na pedra sugerindo uma amizade entre os dois, embora eles mal tivessem se conhecido 
em vida. Diante dos monumentais pedregulhos, o jovem e visvel Stefan tocava uma impetuosa sonata de Beethoven, elaborando o vaivm de sua execuo. Era assistido 
por uma multido de mulheres jovens, enfeitiadas, uma delas chorando.
    Chorando. Podia ouvi-la chorar. Podia ouvi-la chorar; isso se misturava ao grito do violino e a face do fantasma to dolorosa quanto a dela. Enquanto a mulher 
apertava as mos contra o corpete do vestido, corno se a dor a sufocasse, ele fazia o violino sangrar as notas mais longas, o que levava ao desmaio as outras mulheres 
que o contemplavam.
    Lembravam os adoradores de Paganini no Lido. E aquele mgico violinista, agora completamente trajado conforme as modas do final do sculo e sem dvida annimo 
para elas, continuava tocando para os vivos e os mortos, erguendo os olhos para fitar a mulher que chorava.
    - Voc precisou da dor dessa mulher, nutriu-se dela! - falei. - Foi da que tirou sua fora. Parou com sua extravagante, doida, rangente cano de mortos e tocou 
uma melodia generosa para que pessoas como ela pudessem v-lo.
    "Est falando sem pensar e est errada. Generosidade, no me diga! Quando fui generoso? E voc? Est sendo generosa ficando com o meu violino?  generosidade 
o que sente quando contempla este espetculo? No me alimentei da dor da mulher, mas sua dor lhe abriu os olhos e os olhos me viram, assim como os olhos das outras 
tambm se abriram. A cano brotou de mim, de meu talento, um talento que nasceu como coisa natural em minha vida e que naturalmente se adestra e se cultiva. Voc 
no tem esse dom. E pegou o violino! Est me roubando exatamente como meu pai, exatamente como o fogo que ia queimar o violino queria roub-lo de mim!"
    - E do princpio ao fim dessa sua choradeira continua agarrado a mim. Sinto seus lbios. Sinto os beijos. Sinto os dedos em meus ombros. Por qu? Por que o carinho 
enquanto cospe raiva no meu ouvido? Por que esta mistura de amor e dio? O que tenho de bom para lhe dar, Stefan? J disse, encare voc mesmo sua prpria histria. 
No vou lhe devolver um instrumento que vai usar para enlouquecer as pessoas. Pode me mostrar o que quiser. No vou devolver.
    Ele sussurrou em meu ouvido.
    "Isso a faz pensar em seu falecido marido? Quando as drogas o deixaram impotente e ele ficou to humilhado? Lembre da expresso dele, da fisionomia transtornada, 
do brilho frio dos olhos. Ele a odiou. Voc sabia que a doena estava finalmente em marcha.
    "No abrao voc porque a ame. Com ele tambm era assim. Abrao porque voc est viva. Seu marido a considerava uma tola dentro de uma bela casa que ele enchia 
de bugigangas, de pratos de Dresden, de escrivaninhas gravadas com desenhos extravagantes, com tampa de correr e incrustaes de bronze dourado; ele erguia o cristal 
da Frana diante dos seus olhos e limpava os lustres; entulhava sua cama de almofadas com brocados nas pontas.
    "E somando isso  sua vocao para o herosmo, voc engolia, engolia o fato de ter se casado com aquele homem enfermo, um homem frgil, e ter deixado sua querida 
irmzinha Faye sair vagando pelo mundo. No a levou a srio, no a impediu. No a viu pegar o dirio do pai e virar, virar, virar as pginas! No a viu olhando do 
fundo do sto para a porta do quarto onde voc e Karl, seu novo marido, estavam deitados na cama. No viu o constrangimento, quando ela se sentiu deslocada na prpria 
casa paterna por aquele novo drama - Karl, o homem rico que voc alimentava to exatamente como eu tenho alimentado sua angstia. No a viu mergulhar numa depresso 
de rf quando se defrontou com as palavras de frustrao, julgamento e condenao que o pai escrevera. No enxergou a dor de Faye!"
    - Voc enxerga a minha? - indaguei, tentando lhe tirar a mscara. - Enxerga minha dor? Afirma que seu sofrimento  maior, pois abateu seu pai com as prprias 
mos. Sem dvida, no tenho talento para crimes desse tipo, assim como no tenho talento para o violino. Mas com certeza compartilhamos o talento para sofrer e para 
o luto, assim como compartilhamos a paixo pela grandeza, pelo extremo mistrio da msica. Acha que pode extorquir compaixo de mim me forando a entrar em recordaes 
insuportveis de Faye? Voc me d averso, coisa morta! Sim, eu vi a dor de Faye, sim! Eu vi, eu vi e deixei que partisse, deixei, deixei-a ir, deixei que fosse 
embora! Tinha me casado com Karl. E isso magoava Faye. Ela precisava de mim!
    Chorando, tentei me soltar. Mas no pude me mexer. S consegui proteger o violino e afastar a cabea. Queria chorar sozinha. Queria chorar para sempre. S queria 
chorar, s queria os sons que eram eternamente, que seriam para sempre o eco do choro, como se o choro fosse o nico som que trouxesse verdade ou mrito.
    Stefan me beijou sob o queixo e desceu pelo pescoo. Seu corpo falava da ternura de uma nsia, falava da doura e de uma pacincia dcil, os dedos pegaram meu 
rosto num gesto reverente e, como que envergonhado, ele curvou a cabea. Disse meu nome com uma voz sufocada:
    "Triana!"
    - Vi a energia que conseguiu tirar do amor - declarei -, do amor pelo Maestro. Quando comeou a enlouquecer as pessoas, a faz-las sentir o sofrimento? Ou ser 
que essa reviravolta ocorreu especialmente para mim, Triana Becker, a mulher sem nada de especial e sem talento que mora no chal branco da avenida; certamente no 
fui a primeira. A quem voc presta servios? Por que me desperta dos sonhos que tm aquela beleza de mar? Acha que est servindo ao homem cuja lpide lhe trouxe 
uma dor to pungente que o fez adquirir forma material?
    Ele gemeu como se estivesse me implorando para parar.
    Eu ainda no terminara.
    - Acha que estava servindo ao Deus a quem rezava? Quando comeou a produzir dor se a dor disponvel no era aguda o bastante para produzir voc? 
    Outra cena tomava forma. Bondes chocalhando nos trilhos. Uma mulher de vestido longo deitada nas curvas sensuais de um canap - chamemos Arte Moderna. A moldura 
da janela tinha aquele traado livre que caracterizava a poca. Do lado havia uma vitrola, com a agulha bojuda em silncio e o prato cheio de p.
    Era Stefan quem tocava.
    A mulher ouvia com lgrimas brilhando, oh, sim, as indispensveis lgrimas, as eternas lgrimas, no importa, afinal, que as lgrimas sejam to freqentes nesta 
narrativa quanto qualquer palavra trivial usada no dia-a-dia. Que a tinta vire lgrimas. Que o papel amolea com elas.
    A mulher ouvia com lgrimas brilhando e contemplava o jovem de casaco curto, corte moderno, que tocava um instrumento celestial. Stefan no abrira mo do cabelo 
acetinado e escorrido que jogava de um lado para o outro, embora a essa altura j soubesse que podia perfeitamente alterar sua aparncia.
    Uma melodia exuberante, cujo nome eu no sabia, talvez uma composio do prprio Stefan. Caa na dissonncia que j marcava as primeiras msicas de nosso sculo. 
Trazia umas espirais de som e uma pulsao, um trovejante protesto da natureza e da morte. Ela chorava com a cabea recostada numa almofada de veludo verde. Era 
uma criatura elegante, uma pintura de vidraa mesmo com o vestido simples, os sapatos de ponta, os pequenos e delicados anis de cabelo ruivo.
    Stefan parou, pousou o fino armamento perto de si e fitou a mulher com ternura. Depois se aproximou, para sentar-se a seu lado nas curvas do canap. Beijou-a. 
Assim como acontecia comigo, Stefan lhe era visvel e palpvel. E o cabelo liso caa sobre ela da mesma maneira como agora, nos vagos limites da escurido onde assistamos 
 cena, caa sobre mim.
    Conversou com a mulher num alemo mais atual, mais fcil para meus ouvidos.
    - H muitos anos - dizia ele -, o grande Beethoven teve uma amiga, uma pessoa tristonha, chamada Antoine Brentano. Tinha um extremo carinho por ela. Beethoven, 
que amava tanta gente, tambm a amou. Psiu... no d crdito s mentiras que inventaram sobre ele. Beethoven amou muitas mulheres. E quando madame Brentano estava 
sofrendo, ele penetrava em sua casa vienense sem dar uma palavra a ningum. Sentava-se ao piano e tocava horas a fio para consol-la. As melodias corriam pelas salas, 
abrandando, suavizando-lhe a dor. E ento ele se retirava assim como tinha vindo, em silncio, sem um nico aceno. Ela o amava por isso.
    - Como eu amo voc - retrucou a jovem.
    J estaria morta; h muito tempo talvez. Ou seria muito velha.
    - Conseguiu enlouquec-la?
    "No sei! Veja. Ser que no admite a profundidade disto?"
    Ela ergueu os braos nus e passou-os em volta do fantasma, em volta de alguma coisa slida, aparentemente masculina, aparentemente apaixonada por ela, ardente 
para sua carne mimada, ardente para as lgrimas que foram lambidas por uma lngua espectral. O gesto de Stefan foi to subitamente monstruoso que todo o quadro escureceu.
    Lamber os olhos dela, as lgrimas salgadas, lamber os olhos. Pare com isso!
    - Solte-me! - exclamei. Empurrei-o. Chutei-lhe os ps com o salto do sapato. Joguei a cabea para trs e ouvi o som de meu crnio batendo no dele. - Solte-me!
    "Me d o violino e solto voc! Olhos. Os olhos de Lily ainda esto numa jarra? Deixou que a desfigurassem, se lembra, e por qu, para ter certeza que no foi 
voc quem a matou por algum ato de negligncia ou de estupidez? Olhos. Lembra? Olhos, os olhos de seu pai; estavam abertos quando ele morreu e a tia Bridget lhe 
disse: no quer fech-los, Triana? Tentou lhe explicar que era uma honra fechar os olhos dele e mostrou como voc devia pr a mo..."
    Lutava, mas no conseguia me soltar.
    Ento entrou uma msica, repleta de tambores, uma coisa brbara e lgubre, ainda que l atrs se erguesse o som do violino.
    "Deu pelo menos uma olhada nos olhos de sua me no dia em que a deixou partir para a morte? Ela morreu de um ataque, sua menina tola! Podia ter sido salva, no 
estava velha, s estava com uma nusea mortal da vida, de voc, daquelas filhas imundas e do marido, assustado como uma criana!"
    - Pare!
    Vi bruscamente meu captor. Estvamos visveis. A luz se acumulava  nossa volta. Ele se afastara de mim. Eu segurava o violino e fixava os olhos nele.
    - V para o inferno com todas as suas vises! - gritei. - Sim, sim, confesso que matei todos eles, um por um, pode me condenar! Se Faye est morta, cada na 
laje de uma calada, a responsvel sou eu! Sim, sou eu! Mas o que faria se eu lhe devolvesse o violino? Ia fazer mais algum perder a cabea? Ia comer suas lgrimas? 
Tenho averso a voc. Minha msica era minha alegria. Minha msica era pura transcendncia! O que  a sua alm de mesquinharia e maldade?
    - E por que no? - ele respondeu, chegando perto, agarrando-me pelo pescoo, fincando as mos traioeiramente em minha garganta. No tolerava ser tocada naquele 
ponto delicado ao redor da nuca, mesmo por algum que eu amasse. Mas no me dei por vencida diante do truque; procurei me livrar.
    - Teria o vigor necessrio para me matar? - perguntei. - Carrega tambm, neste vcuo onde caminha, o poder de matar como matou seu pai? Faa isso. Talvez estejamos 
s portas da morte e voc seja o deus que segura a balana para me pesar o corao.  assim que se d o ajuste de contas?  assim que se faz o balano das coisas 
que acalentei na vida?
    - No! - ele estava abalado, chorando de novo. - No. Olhe para mim! No v o que sou? No v o que aconteceu comigo? No entende? Estou perdido. Estou sozinho. 
Qualquer um que caminhe no vazio no mesmo passo que eu caminha sozinho como eu! Ns, que somos assombraes visveis e poderosas, porque certamente deve haver mais 
algum alm de mim, no podemos comungar um com o outro... Trazer sua Lily? Eu o faria se pudesse! Sua me? No estalo de um dedo, se soubesse como: sim, venha, console 
a filha que pranteou a me a vida inteira, e to inutilmente. Com voc, viajando com voc para esta dor do passado, com voc do lado de fora da casa que ardia, a 
casa de meu pai, vi pela primeira vez a sombra de Beethoven! O fantasma dele! Ele apareceu por sua causa, Triana!
    - Ou porque queria det-lo, Stefan - repliquei, abrandando a voz. - Porque queria disciplinar sua magia, seu poderoso e natural encantamento. O violino  apenas 
madeira e voc  carne como eu sou carne, no importa que s um esteja vivo. O problema  que voc  feito de imperdovel cobia...
    - No! - ele sussurrou. - No cobia. Nunca.
    - Me deixe em paz. No me importa se isto  loucura, sonho, feitiaria. Quero ir para bem longe de voc!
    - No pode.
    Senti a mudana. Estvamos nos dissolvendo. S o violino tinha forma em meus braos. Desaparecemos de novo. No tnhamos mais individualidade. O cenrio surgiu; 
a msica lgubre nos atingiu.
    Havia um homem de joelhos, tapando os ouvidos com as mos, mas o violino de Stefan no o deixava em paz. Suplantava os homens seminus, com pele de caf, que 
batiam tambores e no tiravam os olhos do maligno violinista, algum que eles temiam, mas que acompanhavam marcando o ritmo.
    Outra cena espocou. Uma mulher batendo com o punho na pertinaz forma fantasmagrica de Stefan e ele tocando sem parar uma melodia fnebre, chorosa.
    Depois apareceu um ptio de escola com grandes rvores frondosas. As crianas danavam, formavam um anel em torno de Stefan, o violinista. Era como se ele estivesse 
tocando uma flauta mgica. Uma professora gritava, procurando tirar as crianas de perto dele, mas o incessante cantabile do violino me impedia de ouvir o que ela 
dizia.
    E o que era aquilo agora? Vultos se abraando no escuro, sussurros me atingindo o rosto. Vi Stefan sorrir, mas a mulher que se entregava a ele tapou aquele vislumbre 
da sua expresso.
    "Am-las, faz-las perder a cabea, no final era sempre a mesma coisa, pois elas morriam! E eu no. Eu no. O violino  meu tesouro imortal e se no devolv-lo 
vou arranc-la desta vida, vou mergulh-la de vez, para sempre, neste meu inferno."
    Mas tnhamos chegado a algum lugar. As manchas no escuro desapareceram. Corria um teto sobre nossas cabeas. Era um corredor.
    - Espere, olhe! Essas paredes brancas... - disse eu, tremendo de
apreenso e com uma terrvel sensao de dj vu. Conheo isso.
    Azulejo branco, encardido, e l estava o timbre demonaco do violino. Agora j no parecia msica, mas uma tortura dissonante, brutal.
    -        Vi este lugar num sonho - falei. - As paredes de azulejos brancos, olhe, esses armrios de metal! Olhe, os grandes motores! E o porto, olhe!
    Por um instante precioso, diante do porto enferrujado, voltou a beleza extasiante do sonho, o sonho que tivera no apenas a tenebrosa galeria subterrnea, com 
aquele porto e o tnel, mas tambm o belo palcio de mrmore e, antes disso, o grandioso mar. Os espritos que danavam na espuma no me pareceram abjetos como 
os espectros que, horrorizados, tnhamos visto, mas coisas livres e saudveis, florescendo na luminosidade pura do rolo das ondas. Ninfas da prpria vida. Rosas 
no cho. "Vou v-las agora."
    Mas tudo que via era o porto levando ao tnel escuro. E enquanto as mquinas zumbiam, ele tocava o violino no tnel. E ningum falava. E ali estava o homem 
morto, no, no, estava morrendo agora, olhe, morrendo, os pulsos sangrando!
    - Ah, foi voc que o levou a este ponto, no foi? E isto  para eu aprender que devo lhe entregar o violino? Nunca!
    "S trouxe  superfcie a msica que ele prprio tinha na cabea. Eu a resgatei! No passou de um jogo. De voc eu teria arrancado toda a msica do Maestro e 
do Pequeno Gnio Mozart, mas voc gostou muito do que eu tocava. A msica no era ddiva para voc, sua mentirosa! A msica era autopiedade. A msica mantinha uma 
relao incestuosa com a morte! J enterrou em sua mente a irmzinha Faye? Depositou-a sem um nome num necrotrio? J preparou para ela um funeral vistoso, espalhafatoso? 
Com o dinheiro de Karl poder comprar uma bela urna para sua irm, uma irm to deprimida e sozinha sob a sombra do pai morto, sua irmzinha, vendo seu novo marido 
tomar o lugar dele na casa, sim, uma chama abenoada que voc abandonou com tanta facilidade!"
    Virei-me no aperto invisvel dos braos dele. Atirei com fora meu joelho contra seu corpo, talvez com a mesma fora com que ele chutara o prprio pai. Empurrei-o 
com as duas mos. Vi um lampejo de seu rosto.
    Todas as imagens nos abandonaram. No havia mais azulejos brancos ou zumbido de mquinas. At o mau cheiro tinha desaparecido, e tambm a msica. A ausncia 
de ecos nos informou que estvamos num lugar fechado.
    Deu um salto para longe aquele Stefan que se aproximara de mim em Nova Orleans. Foi como se estivesse caindo. Mas logo se atirou de novo contra meu corpo, esticando 
as mos para o violino.
    - No, no vai peg-lo. - Chutei-o de novo. - No vai, no vai mesmo! No vai fazer isso com mais ningum, o violino est em minhas mos. O prprio Maestro lhe 
perguntou por que ainda rondava neste mundo. Por qu, Stefan? Voc me deu a msica, sim, e me deu a perfeita absolvio para confiscar a origem dessa ddiva.
    Ergui o violino e o arco em ambas as mos. Levantei o queixo.
    Stefan levou os dedos aos lbios.
    - Triana, estou implorando. J nem sei mais o que voc est dizendo. Nem o que eu estou dizendo. Mas lhe imploro. O violino  meu. Morri por ele. Pego o violino 
e vou para bem longe de voc. Abandono voc. Triana!
    Era uma calada de pedra sob meus ps? Que fantasia lcida nos cercaria agora? O que mais seria revelado? O contorno de prdios na bruma. O cortar do vento.
    - Chegue de novo perto de mim, em carne e osso, e juro que esmago o violino na sua cabea!
    - Triana! - ele exclamou, chocado.
    - Prefiro quebrar esta coisa. Pode ter certeza.
    Segurei com mais fora o violino e o arco. Quando os brandi na direo de Stefan, ele perdeu o equilbrio e cambaleou para trs, ferido, com medo.
    - No, no faa isso - suplicou. - Triana, por favor, por favor, me
devolva o violino. No sei como o pegou. No sei que justia  essa, que ironia. Voc me enganou. Voc o roubou de mim. Triana! Oh, Deus, voc, justamente voc!
    - Por que justamente eu, meu querido?
    - Porque voc... voc tem ouvidos para todas as melodias e todos os temas...
    - Sem dvida voc me trouxe melodias e temas. Recordaes tambm. Achei muito caro o custo do espetculo.
    Ele balanou a cabea num protesto frentico e intil.
    -  como se seu ouvido desse uma nova vida s canes, um novo vigor. Levantei os olhos do lado de fora da janela, vi a sua expresso, senti o que voc chama 
de amor e no consigo lembrar...
    - Acha que essa ttica vai me comover? J disse que tenho minha absolvio. No me assombra mais. Tirei o seu violino como se tivesse tirado seu pnis. Mesmo 
que nem todas as regras do jogo sejam conhecidas, o fato  que ele est em minhas mos e voc no tem fora suficiente para resgat-lo.
    Baixei a cabea. Era uma calada dura. Era um ar frio.
    Eu corria. Era o barulho de um bonde?
    Sentia o impacto, nas solas de meus sapatos, das pedras da calada. A atmosfera era desagradvel, spera, glacial. No conseguia ver nada alm do cu esbranquiado, 
das rvores esqulidas e sem folhas, dos prdios que lembravam, com suas transparncias, fantasmas enormes.
    Corria, corria. As articulaes dos ps me doam; os dedos dos ps estavam dormentes. O frio fazia meus olhos desperdiarem as primeiras lgrimas. O peito doa. 
Correr, correr para fora deste sonho, para fora desta viso. Encontre a si mesma, Triana.
    De novo o barulho de um bonde, luzes. Parei, o corao martelava.
    De repente minhas mos ficaram to frias que comearam a doer. Agarrei o violino e o arco com a mo esquerda, soprei ar quente nos dedos da mo direita para 
aquec-los e, ao aproximar os dedos da boca, senti os lbios rachados, glidos. Deus! Era o frio do Inferno. O vento atravessava minhas roupas.
    Eram ainda as roupas simples e leves que eu estava usando quando Stefan me carregou. Uma tnica de veludo, seda.
    - Acorde! - gritei. - Procure se situar. Volte para seu lugar! D um fim a este sonho. Acabe com ele!
    Quantas vezes eu j voltara da fantasia, do devaneio, do pesadelo para me descobrir a salvo em minha cama de quatro colunas, em meu quarto octogonal com o trfego 
da avenida correndo l fora? Se isto  loucura, quero-a longe de mim!
    Seria melhor viver com toda a agonia de Stefan!
    Mas era slido demais!
    Surgiram edifcios modernos. Um bonde com reboque deu volta nos trilhos e se aproximou, lustroso, lembrando os bondes atuais de Nova Orleans. Vi uma coisa brilhante 
bem  minha frente; era apenas um quiosque, aberto apesar do inverno, os postigos repletos de revistas coloridas.
    Quando corri em sua direo, meu p tropeou no trilho do bonde. Eu conhecia aquele lugar. Ca e s salvei o violino me jogando de lado, fazendo o cotovelo bater 
no calamento.
    Fiquei de p.
    J vira antes o letreiro que apareceu l em cima.
    HOTEL IMPERIAL. Era a Viena de meu prprio tempo, da minha prpria poca, a Viena de hoje. Eu no podia estar l, no, impossvel! No podia despertar em qualquer 
lugar, s no lugar onde o sonho comeava.
    Bati com os ps, dancei em crculos. Acorde!
    Mas nada se alterou. O dia raiava, a vida ia voltando  Ringstrasse. Stefan desaparecera por completo e cidados comuns caminhavam nas caladas. O porteiro saiu 
de dentro do hotel, o fantstico hotel que hospedara reis e rainhas, alm de celebridades como Wagner e Hitler (para o inferno com os dois) e Deus sabe quem mais 
nos quartos majestosos que um dia eu vira de relance. Deus,  isso mesmo. Estou aqui. Voc me deixou aqui.
    Um homem falou comigo em alemo.
    Eu cara sobre o quiosque, derrubando a parede de revistas. Ficamos estatelados, todos ns, os rostos nas revistas e a mulher estabanada, vestindo uma absurda 
seda de vero, segurando um violino e um arco.
    Mos firmes me pegaram.
    - Por favor, desculpe - falei em alemo. E logo em ingls. - Sinto muito, muito, sinto muitssimo, no pretendia... Oh, por favor...
    Minhas mos. No podia mex-las. Minhas mos estavam congelando.
    - O jogo  esse? - gritei, sem me importar com os rostos ao meu redor.
    - Faz-las congelar at morrer, fazer comigo o que seu pai fez com voc! Bem, no vai conseguir!
    Queria bater em Stefan. Mas s conseguia ver pessoas bastante comuns, sem nenhuma pretenso de ser nada alm de perfeitamente reais.
    Levantei o violino. Levantei-o at o queixo e comecei a tocar.
    Mais uma vez. Desta vez para sondar, desta vez para saber, desta vez para elevar minha alma e descobrir se um mundo real a receberia. Ouvi a msica, fiel a meus 
desejos mais ntimos e inocentes, ouvia-a brotar com amor e confiana. Numa nvoa, o mundo real era como o mundo real devia ser numa nvoa: quiosque, pessoas reunidas, 
um pequeno carro parando perto de mim.
    Tocava. No me preocupava. Minhas mos ficavam mais quentes com a execuo, pobre Stefan, pobre Stefan. Minha respirao soltava vapor no ar frio. Tocava, tocava. 
A dor sensata no procura se vingar da vida.
    De repente meus dedos se enrijeceram. Eu estava com muito frio, realmente com muito frio.
    - Por que a senhora no entra? - perguntou o homem ao meu lado. Outros se aproximaram. Vi uma jovem com o cabelo penteado para trs. - Entre, entre - diziam.
    - Mas entrar aonde? Onde estamos? Quero minha cama, minha casa, acordaria se soubesse como voltar para minha cama e minha casa.
    Nusea. Aquele mundo estava escurecendo como num crepsculo e eu estava ficando dormente de frio, estava perdendo a conscincia.
    - O violino, por favor, o violino, no o peguem - falei. No podia sentir minhas mos, mas podia v-lo, podia ver sua madeira de valor inestimvel. Havia luzes 
na minha frente, danando como as luzes sabem fazer na chuva, s que no havia chuva.
    - Sim, sim, querida. Deixe-nos ajud-la. Voc segura o violino. Ns a seguramos. Voc est bem agora.
    Um homem idoso estava parado na minha frente, fazendo sinais, comandando quem me rodeava. Um senhor de respeito, um senhor europeu de cabelos grisalhos e barba, 
mas com uma fisionomia estranha, como se viesse do remoto, do mais remoto passado de Viena, antes das guerras terrveis.
    - Deixem o violino comigo - pedi.
    - O precioso instrumento no sair de seus braos, querida - respondeu a mulher. - Chamem o mdico imediatamente. Vamos levant-la. Devagar, tomem cuidado com 
ela! Vamos cuidar de voc, meu bem.
    A mulher guiou-me atravs de portas de molas que iam se fechando sozinhas. Um choque de luz e calor. Nusea. Vou morrer, mas no acordarei.
    - Onde estamos? Que dia  hoje? Minhas mos, preciso aquec-las, preciso de gua quente.
    - Vamos cuidar de voc, menina, tudo bem, fique tranqila, vamos ajud-la.
    - Meu nome  Triana Becker. De Nova Orleans. Telefonem para l. Chamem o advogado da famlia, Grady Dubosson. Peam que ele me ajude. Triana Becker.
    - Vamos telefonar, meu bem - declarou o senhor de cabelos grisalhos. - Vamos cuidar de tudo. Agora descanse. Podem lev-la. Deixem-na segurar o violino. No 
a machuquem.
    - Sim... - disse eu, achando que a luz da vida ia se apagar de repente, achando que aquilo j era a prpria morte, a morte que vinha num emaranhado de fantasia, 
esperanas irrealizveis e prodgios srdidos.
    Mas a morte no veio. E eles foram carinhosos, gentis.
    - Estamos a seu lado, querida.
    - Sim, mas quem so vocs?
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
  
  15
  
  
 A sute real. Vasta, branca e dourada, as paredes forradas com brocados num tom castanho. No alto, crculos beges de gesso. Uma beleza to calmante. Os inevitveis 
arabescos de creme batido ao longo dos tetos, um grande ornamento oval em cada canto. A cama era moderna em tamanho e solidez. Filigranas de ouro galopavam acima 
dela. Colchas brancas se acumulavam sobre mim - uma sute para a Princesa de Gales ou uma milionria doida.
    Estava semi-adormecida, um sono ralo, fatigado demais, uma teia de ansiedade impedindo uma queda voluptuosa, um sono melindroso no qual cada voz  aguda e roa 
os poros da pele.
    O aquecimento era moderno e gostoso. O calor se derramava de aquecedores ocultos, ou muito discretos, e enchia toda a enorme extenso do quarto. Para abrir as 
janelas, repletas de adereos suntuosos, seria preciso primeiro abrir as vidraas, depois abrir de novo as vidraas - tinham vidraas duplas, o que ajudava a manter 
do lado de fora o frio de Viena.
    - Madame Becker, o conde Sokolosky deseja que fique hospedada aqui.
    - J lhe disse o meu nome? - perguntei. No me lembrava de ter mexido antes os lbios. Olhando para o lado, vi o duplo castial de ouro. Dois globos de luz ardiam 
brilhantes contra o gesso e pendiam enfeites do metal cintilante. - A generosidade do cavalheiro no  necessria - falei, tentando articular bem as palavras. - 
Por favor, se no se importa, telefone para o homem de quem falei... Grady Dubosson, meu advogado.
    - J demos todos os telefonemas, madame Becker. Esto lhe mandando recursos em dinheiro. E mr. Dubosson est vindo a seu encontro. Suas irms lhe mandam lembranas. 
Esto muito aliviadas por saber que est a salvo aqui.
    H quanto tempo estava l? Dei um sorriso. Tinha me ocorrido a cena fascinante de uma antiga verso cinematogrfica de A Christmas Carol, de Dickens. Alastair 
Sim, o ator britnico, fazia um Scrooge saltitante, que acordava um homem diferente na manh de Natal. "No sei quanto tempo fiquei entre os espritos." Feliz, final 
feliz.
    Havia uma escrivaninha branca, uma cadeira com um tom azul muito escuro no forro de seda e na madeira dos ps, uma planta de hastes bastante altas. As finas 
persianas da janela estavam abertas para deixar entrar a luminosidade cinzenta.
    - Mas o conde implora que seja sua hspede. Ouviu-a tocar o Stradivarius.
    Arregalei os olhos.
    O violino!
    Estava a meu lado, estendido na cama. Minha mo repousava sobre as cordas e o arco. Era marrom-escuro e, aninhado no travesseiro perto de mim, brilhava contra 
o linho branco.
    - Sim, est a, senhora - apontou a mulher num perfeito ingls, enriquecido ainda pelo sotaque austraco. - Bem a seu lado.
    - Sinto muito por estar dando esse trabalho.
    - A senhora no d trabalho algum. O conde tem contemplado o violino, sem encostar nele,  claro. No o faria sem a sua permisso. - O sotaque austraco era 
realmente mais suave que o alemo, mais fluido. - O conde coleciona esses instrumentos e implora que seja sua hspede. Seria uma honra para ele, madame. Quer alguma 
coisa para jantar?
    Stefan estava no canto.
    Sombrio, arqueado, lvido, como se toda cor tivesse dele se esvado, me olhando. Um vulto desbotado pela bruma.
    Suspirei. Sentei na cama, apertando o violino contra mim.
    - No evapore, Stefan, no se torne um deles! - falei.
    Sua fisionomia, com um ar de tristeza e derrota, no se alterou. Era uma imagem borrada e trmula, encostada na parede, a face se destacando contra o lambri 
damasco, os ps cruzados no assoalho. Uma imagem pousada na nvoa e na sombra.
    - Stefan! No deixe isso lhe acontecer. No v embora.
    Olhei para os lados, procurando os mortos desaparecidos, as sombras sinistras, as almas insensatas.
    - Est falando comigo, madame Becker? - indagou a mulher alta, olhando por sobre o ombro.
    - No,  s um fantasma - respondi. Por que no acabar logo com isso? Por que no dizer? Provavelmente, entre aqueles gentis austracos, eu j tinha me qualificado 
como uma louca do mais alto grau. E da? - No estou falando com ningum, a no ser,  claro, a no ser que esteja vendo um homem ali naquele canto pouco  vontade, 
preocupada com a cortesia, sem saber o que fazer comigo.
    Ela procurou, mas no viu ningum. Voltou a me olhar. Sorriu. Estava pouco  vontade, preocupada com a cortesia, sem saber o que fazer comigo.
    - E apenas o frio, os ensaios, a viagem - eu disse. - No preocupe o conde, meu anfitrio, com isso. Meu advogado est vindo?
    - Tudo est sendo feito pela senhora - retrucou a mulher. - Sou Frau Weber. Este  nosso zelador, Herr Melniker.
    Apontou para a direita. Era uma bela mulher, garbosamente alta, com o cabelo preto puxado num coque para longe do rosto jovem. Herr Melniker era um rapaz de 
olhos frios e azuis, que me olhou ansiosamente.
    - Madame...
    Frau Weber tentou faz-lo calar com uma inclinao de cabea e um aceno da mo, mas ele insistiu.
    - Madame, a senhora sabe como entrou na ustria?
    - Tenho um passaporte. Meu advogado vai traz-lo.
    - Sim, madame. Mas como chegou at aqui?
    - No sei.
    Virei-me para Stefan, sombrio, tomado pelo desespero, o rosto sem cor. S os olhos, ao me encararem, ganharam vida.
    - Frau Becker, no est lembrada de uma coisa que a senhora... - O homem parou.
    - Talvez ela deva comer algo agora - disse Frau Weber -, quem sabe uma sopa. Temos uma excelente sopa, e vinho. No gostaria de tomar um pouco de vinho?
    Ela se calou. Os dois ficaram imveis. Stefan s olhava para mim.
    Pancadas chegando cada vez mais perto. Um homem que mancava usando uma bengala. Eu conhecia o som. E no tive m impresso das batidas no cho, dos passos arrastados, 
das pancadas... pancadas.
    Estiquei o corpo. Frau Weber se apressou a arrumar os travesseiros em minhas costas. Baixei os olhos e me vi usando um bluso acolchoado de seda, amarrado no 
pescoo e, embaixo dele, uma tnica muito fina de flanela branca. Um despojamento na roupa. Estava modesta.
    Vi minhas mos vazias e, me dando conta de que largara o violino, agarrei-o bruscamente, segurei-o contra o peito.
    Meu trgico fantasma no fez qualquer movimento precipitado. Nem se mexeu.
    - Madame, no se assuste. Quem est na sala de estar  o conde.
Poderia, por favor, deix-lo entrar?
    Vi-o atravs das portas abertas, portas bege, com um forro grosso de couro, portas duplas, talvez para abafar qualquer som quando quisessem isolar um aposento 
do outro. L estava com a bengala de madeira. Era o homem de cabelos grisalhos, com barba branca e bigode, que eu vira na calada l embaixo, uma figura antiquada 
mas sem dvida agradvel, evocando to divinamente o Velho Mundo, lembrando velhos e venerveis atores dos filmes em preto-e-branco.
    - Voc est bem, minha filha? - perguntou, graas a Deus em ingls. Estava muito distante. Como eram grandes aqueles espaos, grandes como os espaos do palcio 
de Stefan.
    Rajadas de vento. Labaredas. O Velho Mundo.
    - Sim, estou bem, obrigada - respondi. - E satisfeita por falar ingls. Meu alemo  pssimo. Agradeo a gentileza que est tendo comigo. No quero, de maneira 
alguma, representar um peso para o senhor.
    Bastava dizer isso. Grady podia pagar as despesas. Grady podia esclarecer tudo.  uma das vantagens de ter dinheiro; as explicaes ficam por conta dos outros, 
Karl tinha me ensinado isso. Mas como eu podia dizer que no precisava da hospitalidade, da boa vontade daquele homem? Se bem que era preciso esclarecer alguns detalhes 
importantes e delicados.
    - Entre, por favor - falei. - Sinto muito, sinto...
    - Do que est se desculpando, minha filha? - ele perguntou.
    Mancando, aproximou-se da cama. S ento vi a plataforma onde a cama se encontrava, com arabescos gravados na madeira. E vi tambm, l atrs, o lustre do outro 
aposento. Sim, o Hotel Imperial era um palcio.
    O homem usava uma espcie de medalho em volta do pescoo e um casaco de veludo preto, que estava torto nos ombros. A barba branca parecia escovada.
    Stefan no se movia. Eu olhava para Stefan, Stefan me olhava. Mgoa e frustrao. Percebia, pelo ngulo da cabea, seu jeito de se apoiar na parede, como se 
as poucas partculas que lhe sobravam tambm pudessem experimentar a fadiga, quem sabe at experiment-la principalmente agora, quando estavam unidas de forma mais 
precria. Seus lbios se mexiam um pouco enquanto ele me olhava. Um rosto falando com outro rosto. O dele falando com o meu.
    Herr Melniker correra para pegar uma grande cadeira para o conde, com estofamento de veludo azul, uma das muitas cadeiras com pernas douradas e brancas espalhadas 
pelos inevitveis motivos rococs do assoalho.
    O conde sentou-se a uma distncia conveniente.
    E um aroma agradvel chegou at mim.
    - Chocolate quente - exclamei.
    - Sim - respondeu Frau Weber, colocando a xcara nas minhas mos.
    -  muito gentil. - Apertei o violino com o brao esquerdo. - Deixe, por favor, o pires ali.
    O velho homem me fitava com ar de adorao e fascnio, do modo como os homens idosos me olhavam quando eu era uma menina pequena, do modo como uma velha freira 
tinha me olhado no dia da minha primeira comunho. Eu me lembrava bem de seu rosto enrugado, da expresso extasiada... Foi no velho Hospital da Misericrdia, aquele 
que deitaram abaixo. Estava com o antigo hbito, toda vestida de branco, e me dissera: "Voc est pura no dia de hoje, to pura." Tinham me levado para visitar os 
hospitais; era o que acontecia na poca com quem fazia a primeira comunho. Onde eu colocara aquele rosrio?
    Vi a xcara de chocolate tremendo em minha mo. Virei a cabea para a direita, para Stefan.
    Tomei um gole; estava na temperatura ideal. Tomei a xcara inteira do chocolate cremoso, adoado com chantilly. Sorri.
    - Viena... - exclamei.
    - Possui um tesouro fabuloso, minha filha - replicou o homem unindo as sobrancelhas.
    - Oh, senhor, eu sei,  um Stradivarius, um Strad longo, e este arco, que tambm  feito de pau-de-pernambuco.
    Stefan contraiu os olhos. Mas no tinha meios de reagir. "Como tem coragem?"
    - No, senhora, no estou me referindo ao violino, embora jamais tenha visto um instrumento to especial, muito mais perfeito que qualquer um dos violinos que 
comprei ou que me foram oferecidos. Estou me referindo ao talento que revelou em sua interpretao, ao modo como tocava l fora,  msica que nos fez sair do hotel. 
Foi um... um cndido xtase. O tesouro  esse.
    Eu estava com medo.
    "Devia estar. Afinal, como conseguiria fazer isso sozinha? Sem a minha ajuda? Voltou para seu prprio mundo com o instrumento? No  possvel, no tem talento. 
Viajou nos navios de meu encantamento e agora vai rastejar de novo. Voc no  nada."
    -  o que vamos ver - respondi a Stefan.
    Os outros trocavam olhares. Com quem eu estava falando no canto vazio do quarto?
    - Digamos que  um anjo - disse eu, erguendo os olhos para o conde e apontando para o canto. - Est vendo ali em p, o anjo?
    O conde passou os olhos pelo quarto. Eu tambm. Vi, pela primeira vez, a fantstica penteadeira com espelhos mveis, do tipo que uma senhora adoraria ter, muito 
mais requintada que aquela que eu tinha em casa. Vi a cor de ferrugem e o azul pastel dos tapetes orientais. Vi, outra vez, as finas e claras persianas que tapavam 
a janela, sob a vistosa ondulao dos recortes nos brocados de seda.
    - No, minha querida - retrucou o conde. - No estou vendo. Posso lhe dizer meu nome? Permite que eu seja tambm o seu anjo?
    - Talvez devesse - respondi, tirando os olhos de Stefan e me concentrando no conde. O homem tinha uma cabea volumosa e o cabelo solto. J mostrava aquela brancura 
de prola da idade avanada, mas os olhos, azuis como os do jovem Melniker, conservavam um tom ardente e perspicaz sob os clios brancos. - Talvez... Gostaria que 
o senhor fosse um anjo bom, pois acho que aquele anjo  mau.
    "Como pode dizer tantas mentiras? Roubou meu tesouro. Partiu meu corao. Juntou-se s fileiras dos que me fizeram sofrer assim."
    De novo, nenhum movimento nos lbios do fantasma, assim como a postura abatida tambm no se alterava, aquele ar miservel e indolente da fraqueza, da coragem 
perdida.
    - Stefan, no sei como ajud-lo. Se ao menos soubesse o que fazer, o
que fazer...
    "Ladra."
    Os outros murmuraram.
    - Frau Becker - falou a mulher -, este cavalheiro  o conde Sokolosky. Perdoe-me por no ter feito uma apresentao adequada. Ele mora aqui em nosso hotel h 
muito, muito tempo e est muito feliz em t-la conosco. Os aposentos em que nos encontramos raramente so abertos ao pblico, por isso podemos reserv-los para uma 
ocasio como esta.
    - Que ocasio?
    - Querida - o conde interrompeu-a, mas com muita gentileza e a liberdade calma, sem malcia, da idade avanada. - Tocaria de novo para mim?  impertinncia de 
a minha parte fazer este pedido?
    "No!  apenas intil, absurdo!"
    - Oh, no agora - o conde se apressou a acrescentar. - Agora est
doente, precisa se alimentar, descansar, esperar que seus amigos venham ao seu encontro. Quando se sentir melhor. Se pudesse tocar s um pouco
mais... daquela msica para mim. Daquela msica.
    - E como o senhor descreveria essa msica, conde? - perguntei.
    "Vamos, diga a ela, seno como ela vai saber?"
    - Silncio! - Olhei irritada para Stefan. - Se o violino  seu, por que no consegue resgat-lo? Por que ele continua em meu poder? Oh, no importa, perdoe-me, 
perdoe tudo isso. Perdoe esse modo de falar em voz alta com imagens inventadas e de sonhar estando acordada...
    - No, no faz mal nenhum - replicou o conde. - No fazemos perguntas aos que so talentosos.
    - Sou assim to talentosa? O que o senhor ouviu?
    Stefan sorriu com agressivo desprezo.
    - Sei o que eu ouvia quando estava tocando - falei, me desculpando -, mas me diga, se no se importa, o que o senhor escutou. O conde assumiu um ar meditativo.
    - Uma coisa extraordinria. E absolutamente original.
    Deixei-o falar.
    - Uma coisa clemente? - continuou. - Uma coisa mista, cheia de xtase e amarga dureza. - Fez uma pausa antes de prosseguir. - Foi como se Bartk e Tchaikovsky 
tivessem entrado dentro da senhora e se transformado numa s pessoa, o Moderno amvel e o Moderno trgico. Havia, em sua msica, um mundo se abrindo para mim... 
o mundo de muito tempo atrs, anterior s guerras, quando eu era menino, quando era novo demais para guardar lembranas to sublimes. Mas consegui me lembrar daquele 
mundo. Consegui.
    Enxuguei o rosto.
    "V em frente, diga a ele, no acha que pode repetir a dose, no ? No sabe fazer. Eu sei. Voc no pode."
    - Ser que no? - desafiei Stefan. Ele empinou o corpo, cruzou os braos. No meio de sua raiva, cintilou um contorno mais ntido.
    - Oh,  sempre uma oportunidade de criar agonia, no ? Pequena ou grande, no importa. Olhe-se no espelho, como voc brilha agora! Agora que me encheu a cabea 
de dvidas! E se seu prprio desafio estiver me dando foras?
    "Nada pode lhe dar a fora necessria. O violino, que por ora est alm de meu poder,  madeira sem vida em suas mos,  galho seco,  um instrumento obsoleto 
que no pode tocar."
    - Frau Weber - falei.
    Ela me contemplava com ar de espanto, atirando um olhar ansioso no canto do quarto, aparentemente vazio, e voltando depressa a me fitar com um aceno protetor 
da cabea, um ar de desculpas.
    - Sim, Frau Becker.
    - Teria um penhoar que eu pudesse vestir, algo discreto e solto? Quero tocar agora. Minhas mos esto quentes, esto muito quentes.
    - Talvez seja cedo demais - disse o conde. Inclinando-se pesadamente sobre a bengala, e tateando pela mo de Melniker, precisava fazer fora para ficar de p. 
Transbordava de expectativa.
    - Sim, sim, est aqui - anuiu Frau Weber apanhando a pea de roupa que estava nos ps da cama, um largo e simples penhoar branco de l.
    Virei-me na cama e pisei no cho. Estava descala, mas a madeira do assoalho era quente. Com a barra da tnica de dormir me batendo nos ps, ergui a cabea para 
o teto, apreciando sua esplndida moldura, seus ornamentos, experimentando o fascnio daquele teto no majestoso quarto de sonho.
    Segurava o violino.
    Fiquei de p. Frau Weber ps o penhoar em minhas costas e enfiei cuidadosamente o brao direito na manga comprida, folgada; depois, trocando de mo o violino 
e o arco, introduzi o brao esquerdo no lugar adequado.
    Havia chinelos ali, mas no os quis. O cho era macio.
    Caminhei na direo das portas abertas. No parecia adequado tocar no quarto, deparar-me no quarto com a revelao ou com a derrota.
    Entrei na espaosa sala de estar e, deslumbrada, virei-me para apreciar o retrato colossal da Grande Imperatriz Maria Theresa. Escrivaninha, cadeiras, sofs 
magnficos. Flores. Olhe! Todas essas flores viosas. Como as flores dos mortos.
    Fiquei olhando as flores.
    - So de suas irms, madame. No abri os cartes, mas sua irm
Rosalind telefonou. Sua irm Katrinka tambm. Foram elas que me pediram para lhe dar um chocolate quente.
    Sorri, depois dei um risinho curto.
    - Nenhuma outra irm tentou falar comigo? - perguntei. - No lembra de algum outro nome? Uma irm chamada Faye?
    - No, senhora.
    Fui para a mesa do centro onde estava o grande vaso de flores e examinei os botes amontoados, desordenados. No sabia o nome de uma nica planta, uma nica 
espcie, nem mesmo das flores que pareciam corriqueiros lrios cor-de-rosa e que estendiam seus tentculos grossos e cobertos de plen.
    O velho conde caminhara at o sof, com a ajuda do rapaz. Ao me virar e olhar para a direita, descobri que Stefan se deslocara para a porta do quarto.
    "V em frente, para o fracasso! Vai se reduzir a p. Vai se reduzir a p e ser levada pelo vento. Quero ver isso. Quero ver voc desistir por vergonha!"
    - Oh, Deus - exclamei, levando aos lbios a mo direita e com mais
reverncia do que os franceses dizem Mon Dieu. Era uma verdadeira prece. - Qual  o primeiro passo? Qual  a frmula, o mtodo? Como a gente lida com o que no sabe?
    "No desista!", foi a intromisso de outra voz.
    Chocado, Stefan se virou. Vi a raiva explodir em seu rosto.
    Virei-me de um lado para o outro na sala. Vi o conde, maravilhado, vi a confusa Frau Weber, o tmido Melniker e vi o fantasma que se aproximava, que estava realmente 
abrindo as portas que conduziam  sala. Pelo que sei, os outros viram as portas se abrindo, mas no puderam ver o fantasma. Devem ter pensado que era uma corrente 
de ar.
    O fantasma veio caminhando a passos largos, com as mos atrs das costas. Segundo dizem, era assim que andava quando estava vivo. Vinha sujo, como se tivesse 
sado do tmulo, com rendas manchadas, esfarrapadas, e at fragmentos do gesso da mscara morturia no rosto.
    A porta da sala de estar ficou aberta para o vestbulo. Vi os vivos se reunindo ali.
    Maestro. Partiu-se o corao de Stefan. Suas lgrimas chegaram.
    Oh, senti tanta pena de Stefan!
    Apesar do tom de voz familiar, o Maestro foi decidido e implacvel.
    - Stefan,  irritante que me faa vir aqui para isto! Que me faa vir at esta poca para isto! Triana, toque o violino para mim. Simplesmente toque.
    Vi o vulto pequeno e obstinado atravessar o aposento.
    - Oh, acho que  uma esplndida loucura ver o senhor aqui! - retruquei. - Ou talvez seja meramente a inspirao.
    O fantasma se acomodou numa cadeira e me olhou furioso.
    - Conseguir mesmo me ouvir? - perguntei.
    - Oh Deus, Triana! - falou com gestos bruscos. - No continuo surdo depois de morto! No fui para o Inferno. No teria vindo aqui se estivesse surdo. - Seu riso 
foi alto e spero. - Era surdo quando estava vivo. No estou vivo agora. Como podia estar? Agora toque o violino. Faa isso. Para faz-los tremer! Para faz-los 
pagar por cada palavra rude que ouviu, por cada culpa. Ou faa pelo que quiser. - Aprumou-se. - No importa a razo. Uma forma extravagante de vingana ou de amor. 
Falar com Deus ou com a parte mais refinada de si mesma. Apenas toque a msica.
    Stefan chorava. Eu olhava de um para o outro. Os seres humanos que estavam no quarto no me interessavam. Achei que nunca mais iam me interessar.
    Mas logo percebi que era antes de mais nada para eles que eu tinha de tocar.
    - Vamos, toque - disse Beethoven, num tom mais compassivo. - No pretendi parecer to rspido. Pode acreditar. Stefan, voc  meu discpulo rfo.
    Stefan tinha virado a cabea para o batente da porta, tinha levantado o brao para apoiar a testa contra ele. Tinha levado embora a expresso de seu rosto.
    A desconcertada audincia mortal esperava.
    Olhei para o rosto de um por um, tentando enxergar os mortais e no os fantasmas. Meu olhar atravessou o aposento e viu aqueles que aguardavam no vestbulo. 
Herr Melniker adiantou-se para fechar a porta.
    - No, deixe aberta.
    Comecei.
    Aquele instrumento leve, perfumado e sagrado no parecia diferente. O arteso que o moldara no poderia saber que estava criando, a partir das cascas das rvores, 
um objeto mgico, assim como no poderia imaginar quanto poder estava libertando da madeira que se curvava sob o calor e  qual ele procurava dar uma determinada 
forma.
    Que eu volte  capela, me! Que eu volte a Nossa Me do Perptuo Socorro. Que eu me ajoelhe com voc ali, na inocente escurido, antes da dor. Que eu segure 
sua mo e no lhe diga como lamento que tenha morrido, mas simplesmente e apenas que a amo, que a amo agora. Dou-lhe meu amor nesta cano, como as canes que sempre 
cantvamos na procisso de maio, as canes que voc amava. E Faye, Faye voltar para casa, Faye de algum modo vir para conhecer seu amor, ela vir, eu creio, minha 
alma o sabe.
    Oh, me, quem podia pensar que a vida tinha tanto sangue dentro dela? Quem podia imaginar? Afinal, s nos preocupamos com o que nos atinge. Toco para voc, toco 
sua cano, toco a cano de sua sade e vigor, toco para o pai, para Karl, e um dia terei o poder de tocar para o prprio sofrimento. Anoitece agora e estamos neste 
refgio sereno, entre santos conhecidos. As ruas estaro cheias de uma luz suavemente declinante quando estivermos voltando para casa, eu e Rosalind pulando na sua 
frente, olhando para trs, vendo seu rosto sorridente, oh, quero me lembrar disto, quero sempre me lembrar desses olhos grandes, muito castanhos, desse sorriso repleto 
da mais pura sensao de segurana. Me, no ia acontecer nada e ningum ia fazer nada, no ? Foi a perda de todas ns. A culpa existir sempre; resta saber se 
haver alguma possibilidade de conseguirmos, um dia, enxergar alm dela.
    Veja, erga os olhos para esses galhos de carvalho que passariam a minha vida inteira se enroscando no alto! Olhe para as lajotas cheias de musgo por onde andamos! 
Olhe para o cu, naquele tom prpura que s em nosso paraso ele pode ter! E sinta o calor dos lampies, do aquecedor a gs, do retrato do pai no console da lareira, 
"Papai na Guerra".
    Agora compreendemos e nos enroscamos, afundando para sempre na cama. Que no  um tmulo. Agora eu sei que o sangue pode vir de muitas coisas. H sangue e sangue. 
Estou sangrando por vocs, sim, estou sangrando (e no de m vontade) como vocs sangraram por mim.
    E que todo esse sangue se rena...
    Baixei o instrumento. Estava molhada de suor. Tinha um formigamento nas mos e meus ouvidos estavam atormentados com o barulho das mos que batiam palmas.
    O velho conde ficou de p. Os que estavam no vestbulo tinham se amontoado na sala.
    - Toda essa msica est se perdendo no vento - disse o conde.
    Procurei os fantasmas. No estavam l.
    - Vamos, temos de grav-la.  uma msica natural, no foi aprendida.  um dom especialssimo, que no cobrou o preo habitual.
    O conde me beijou no rosto.
    - Onde est voc, Stefan? - murmurei. - Maestro?
    No vi ningum, s as pessoas reunidas a meu redor.
    Ento a voz de Stefan em meu ouvido; sua respirao em meu ouvido. "Ainda no acertamos as contas, sua menina m, roubando meu violino! Este talento no  seu! 
No . Isto  bruxaria."
    - No, no, voc est errado - retruquei -, no foi bruxaria, foi uma coisa sem ponto de apoio, sem esforo, solta como os pssaros noturnos que voam, no crepsculo, 
numa grande rajada que passa embaixo da ponte. E voc, Stefan, foi meu professor.
    O conde me beijava. Ser que tinha ouvido minhas palavras?
    "Mentirosa, mentirosa, ladra."
    Fiz um crculo com a cabea. No havia dvida. O Maestro tinha desaparecido por completo. No me atrevia a cham-lo de volta. No me atrevia a tentar, mesmo 
porque no sabia como evoc-lo, assim como no sabia evocar Stefan.
    - Maestro, ajude-o - sussurrei.
    Encostei a cabea no peito do conde. Senti o cheiro da pele antiga, um cheiro agradvel, de uma velhice familiar. Lembrava a pele de meu pai antes dele morrer. 
Senti o doce perfume do talco que sem dvida estava sob as roupas. Seus lbios eram midos, macios como o cabelo grisalho.
    - Maestro, no deixe o Stefan aqui, por favor...
    Agarrava o violino. Segurava-o com fora com ambas as mos. Com fora, fora.
    - Est tudo bem, minha querida menina - falou o conde. - Oh, o que voc nos deu!
    
    
  
  16
  
  
 O que voc nos deu. O que foi aquilo, aquela orgia de som, aquele transbordamento to natural que no me fez duvidar? Aquele transe onde eu podia me deixar levar, 
vendo meus dedos saltitarem com avidez, encontrando as notas e as deixando escapar com certos golpes da minha vontade?
    O que era este dom, deixar a msica me cercar  medida que ela se desdobrava, v-la crescer, tombar sobre mim, me envolver com o carinho de quem veste um beb 
para deit-lo no bero? Msica. Toque. No pense. No duvide. Mas se voc pensa e duvida, no acalente a dvida nem a preocupao. Apenas toque. Toque do modo como 
quer tocar e descubra o som.
    Absolutamente deslumbrada por estar em Viena, minha querida Rosalind chegou com Grady Dubosson. Antes de irmos embora, puseram  nossa disposio o Theater an 
der Wien, e pude tocar naquele lugar pequeno, mas cheio de adornos e cores, onde Mozart tinha tocado, onde A flauta mgica fora apresentada. Um prdio onde Schubert 
tinha vivido e composto, um teatrinho apertado, mas glorioso, com os balces dourados se empilhando, de forma ngreme e perigosa, at o teto. Depois tocamos na grandiosa 
e austera Casa de pera de Viena, a poucos passos do hotel, e o conde nos levou para conhecer sua casa de campo, uma enorme e velha construo de um s pavimento, 
o mesmo tipo de casa de campo possuda outrora por um irmo do Maestro, que assinava como "Johann van Beethoven, proprietrio rural" e a quem Beethoven, numa carta, 
tinha to engenhosamente respondido: "Ludwig van Beethoven, proprietrio cerebral".
    Dei um passeio nos Bosques de Viena, uma doce e melodiosa floresta. Eu era uma estrela viva ao lado de minha irm.
    Na Amrica, os intelectuais falavam da obra de Karl. O livro sobre So Sebastio estava em provas numa tima editora, pela qual Karl tinha um grande apreo. 
Houve imediata aceitao.
    Estava livre do problema do livro. Tudo sara a contento; Karl no poderia ter desejado um resultado melhor.
    Roz e Grady viajavam comigo.A msica me pertencia e os concertos vinham um atrs do outro. Grady passava os dias no telefone, tratando dos contratos.
    O dinheiro ia para fundaes voltadas para os que haviam morrido injusta e barbaramente nas guerras. Antes de mais nada os judeus, por uma simples questo de 
justia ou em memria de minha bisav, que rejeitara a identidade judaica para viver como catlica na Amrica. Ajudvamos tambm vrias obras de caridade.
    Fizemos a primeiras gravaes em Londres.
    Mas antes disso houve So Petersburgo, Praga e os inmeros concertos feitos casualmente na rua, dos quais eu estava sempre vida como uma garota de escola de 
danas que rodopiasse sob cada lampio. Eu os adorava.
    Sempre que me sentia abatida, rezava as contas do rosrio de meus anos de infncia, doces anos, banhada pelas amenas sombras dos mortos. S levava em conta os 
Mistrios felizes. "E o Anjo do Senhor revelou-se a Maria, e ela concebeu do Esprito Santo."
    Fazia isso com um intrpido e imaculado vigor infantil, que desconhecia a derrota.
    Em Nova Orleans, a produo do livro de Karl foi cara, a impresso de cada ilustrao a cores supervisionada pessoalmente pelos melhores especialistas nas publicaes 
do gnero.
    Passava minhas noites provando timos lenis. E ao despertar, contemplava cidades esplndidas.
    Sutes reais entraram na ordem do dia para mim e Rosalind. Glenn logo se juntou a ns. Havia mesas rolantes, forradas com toalhas de linho que iam at o cho, 
atravancadas com servios de prata e garfos pesados. Vagvamos nos limites das grandes escadarias, dos compridos corredores com tapetes orientais.
    Mas nunca deixei o violino escapar. No podia segur-lo eternamente, seria loucura, mas nunca tirava os olhos dele. Fitava-o sentada na banheira, temendo que 
a qualquer momento fosse arrebatado por alguma mo invisvel e jogado num vcuo.
     noite me deitava a seu lado. Enrolava uma, duas, trs vezes o violino e o arco num macio cobertor de l, um cobertor de beb, que ficava preso a meu corpo 
por correias de couro que eu no mostrava a ningum. Na maior parte do dia ele ficava em meus braos ou ao lado de minha cadeira.
    No havia alterao no violino. As pessoas que o examinaram declararam que era um instrumento sem preo, autntico. Pediam para toc-lo, mas eu no podia permitir. 
O que, alis, no era considerado um comportamento egosta, mas apenas o exerccio de um direito.
    Quando Katrinka e Martin, seu marido, nos encontraram em Paris,  compramos casacos e vestidos finos para ela, alm de livros de bolso de todo gnero e sapatos 
de salto alto que nem eu nem Roz teramos coragem de usar. Mandamos Katrinka manter o equilbrio pelo grupo. Katrinka riu.
    Ela enviava para as filhas, Jackie e Julie, pacotes e mais pacotes de coisas lindas. Parecia ter se livrado de um grande e trgico fardo. Do passado, pouco ou 
nada foi dito.
    Glenn procurava livros antigos e gravaes de estrelas do jazz europeu. Rosalind no parava de rir. Martin e Glenn foram juntos a velhos e famosos cafs, como 
se pudessem realmente encontrar Jean Paul Sartre se olhassem com cuidado. Martin ficou muito tempo grudado no telefone, fechando o recibo de sinal de uma casa que 
estava vendendo em Nova Orleans, at eu lhe implorar, em nome de todos, que assumisse a gerncia de nossa interminvel jornada.
    Grady estava aliviado; como sempre, precisvamos muito dele.
    Risos. Leopold e o pequeno Wolfgang teriam algum dia se divertido assim? No vamos esquecer daquela menina, daquela irm que diziam tocar to bem quanto o irmo 
de prodigioso talento. Ela preferira se casar e gerar crianas em vez de sinfonias e peras.
    Ningum poderia ser mais feliz que ns com o p na estrada.
    O riso era mais uma vez nosso idioma natural.
    E por causa de tanto riso, quase nos expulsaram do Louvre. No era que no gostssemos da Mona Lisa; gostvamos, mas estvamos empolgados demais, explodindo 
de vida demais. Podamos ter beijado os estranhos, mas isto seria censurvel e fomos mais sensatos: abraamos e beijamos um ao outro.
    Glenn caminhava  nossa frente, sorrindo encabulado e depois rindo tambm, porque era felicidade demais para se desprezar.
    Em Londres, meu ex-marido, Lev, chegou com a esposa, Chelsea (que um dia fora minha amiga e agora era praticamente uma irm), os gmeos de cabelo preto (srios, 
bem-comportados) e o alto, louro e belo filho mais velho, Christopher. Chorei ao ver este rapaz, cujo riso me fazia pensar em Lily.
    Lev sentava na primeira fila das salas de concerto para me ver tocar. E eu tocava por Lev, pelos dias felizes. Mais tarde, ele ia dizer que tudo lembrava a embriaguez 
daquele piquenique de anos atrs, embora fosse mais arriscado, mais ambicioso, mais plenamente concretizado. Eu estava deslumbrada com o amor antigo. Com o amor 
perene. Lev trouxe para a coisa um clima acadmico e sutil.
    Combinamos que voltaramos a nos encontrar em Boston.
    Aquelas crianas, aqueles garotos cheios de vida, pareciam ser, de alguma forma, descendentes meus, descendentes da antiga perda, da antiga luta e do renascimento 
de Lev. Eu fizera parte de tudo isso. No podia encar-los como sobrinhos?
    Dei um concerto atrs do outro. Em Manchester, Edimburgo, Belfast. Sempre em benefcio dos judeus que sofreram com a guerra, dos ciganos, dos catlicos em luta 
na Irlanda do Norte, dos que sofriam da doena que matara Karl ou do cncer do sangue que matara Lily.
    Pessoas nos ofereciam outros violinos. No tocaramos este excelente Strad num evento especial? Aceitaramos este Guarneri? No gostaramos de adquirir este 
Strad curto com um timo arco Tourte?
    Eu aceitava os presentes. E comprava outros violinos. Olhava-os com uma curiosidade febril. Como soariam? Qual seria a sensao de toc-los? No podia tirar 
pelo menos uma notinha do Guarneri? De cada um deles? Olhava-os, empacotava-os e os carregava conosco, mas nem encostava a mo neles.
    Em Frankfurt, comprei outro Strad, um Strad curto, excelente, comparvel ao meu, mas no me atrevi a tanger as cordas. Achava-se  venda e no havia ningum 
que cuidasse dele; foi muito caro, mas o que era o dinheiro em minha gloriosa e ilimitada prosperidade?
    Violinos e arcos viajavam com as bagagens. Mas o Strad longo, o meu Strad, esse eu levava nos braos, primeiro enrolado em veludo e finalmente numa capa especial, 
juntamente com o arco. Jamais o confiaria a uma maleta. Carregava-o na capa para todo lado.
    Procurava os fantasmas.
    Via a luz do sol.
    Minha madrinha, tia Bridget, encontrou-se conosco em Dublin. O frio no lhe agradou e a fez voltar a toque de caixa para o Mississippi. Foi muito engraado.
    Tia Bridget gostava muito da msica, batia palmas, batia os ps enquanto eu tocava, o que deixava os outros na sala, galeria, auditrio, teatro, onde quer que 
fosse, um tanto chocados. Mas tnhamos um acordo. Eu queria que ela fizesse isso.
    Muitos primos e outras tias vieram se juntar a ns na Irlanda e depois em Berlim. Fiz a peregrinao at Bonn e tive um calafrio na porta da casa de Beethoven.
    Encostei a cabea nas pedras frias e chorei como Stefan havia chorado no tmulo.
    Muitas vezes eu citava os temas do Maestro, as melodias do Pequeno Gnio ou do Russo Maluco e neles mergulhava para abrir minhas prprias comportas. Os crticos, 
porm, nunca ou raramente reparavam, tamanha era a minha dificuldade de passar qualquer coisa que no sasse exclusivamente dentro de mim. Tocava absolutamente sem 
qualquer controle ou disciplina.
    Era um xtase contnuo, que nada alterava. Qualquer tolo era obrigado a aceitar a coisa como ela era; seria preciso estar muito transtornado para encar-la com 
prudncia ou a ela adicionar qualquer dor preconcebida.
    Havia momentos especiais. Quando a chuva fina caa em Covent Garden, quando eu caminhava em crculos ao luar, quando os carros me esperavam atravessar parados 
no sinal e os faris fumegavam na bruma, como se tambm eles respirassem, tudo que eu podia fazer era ser feliz. Nada para questionar. Sentir cada momento pelo que 
ele era. Sentir. Talvez um dia, de um ponto de observao distante e privilegiado, pudesse me lembrar. Tudo pareceria to fantstico, colorido e celestial quanto 
as visitas  capela, quanto estar nos braos da me enquanto ela virava as pginas do livro de poemas, quanto estar perto de um abajur que no traz qualquer perigo 
de fogo porque a casa est vazia.
    Fomos a Milo. A Veneza. A Florena. O conde Sokolosky juntou-se a ns em Belgrado.
    Eu tinha uma simpatia toda particular pelas casas de pera. No era preciso que me pagassem para tocar nelas, bastava que me garantissem o espao. Eu mesma sabia 
me recompensar, pois cada noite era diferente, imprevisvel; cada noite era uma alegria e a dor ficava confinada, com toda a segurana, dentro da alegria. Cada noite 
era gravada por tcnicos que esticavam fios finos pelo palco e corriam de um lado para o outro com microfones e fones de ouvido.
    Gostava de ver o rosto de quem me aplaudia. Quando a msica chegava ao fim, olhava e procurava ver realmente cada face, encontrar o calor de cada face, sem perder 
nenhuma. No escapulia correndo para me encolher, para me fechar na dor, na timidez, num passado que seria uma concha e eu um caracol, fraco demais para ficar muito 
tempo fora dela, preso demais a um velho rastro de feira, cheio demais de averso por si mesmo.
    Uma costureira em Florena aprontou-me belas saias de veludo, soltas, e tnicas leves, de tima seda, com mangas-balo que deixavam meus braos livres quando 
eu tocava. Roupas que no ofendiam o rigor nem lhe quebravam o encanto, mas disfaravam o excesso de peso que eu tanto odiava. De qualquer modo, nas matrias que 
a TV exibia sobre mim e que as pessoas me obrigavam a ver, eu parecia um borro de cabelo e cores somado a um borro de som. Glorioso.
    Mas quando chegava a hora, quando pisava na frente das luzes, quando olhava para a escurido onde o palco mergulhava, sabia que os sonhos eram meus.
    Sem dvida, a msica era s vezes sombria. O rosrio tem os Mistrios Alegres, Gloriosos e Dolorosos. Me, durma. Fique quieta. Cubra-se bem. Lily, feche os 
olhos. Pai, agora acabou,  o que diz sua respirao e as meninas de seus olhos. Feche-os. Meu Deus, ser que podem ouvir minha msica?
    Estava procurando um palcio de mrmore muito especial e custei a perceber, enquanto passava por tantos teatros em Veneza, Florena ou Roma, que o palcio de 
mrmore de meus estranhos sonhos devia ser uma casa de pera. A suspeita surgiu com a memria da escadaria central. Era uma estrutura, um desenho que eu via se repetir 
em todas aquelas salas esplndidas, construdas com pompa e abnegao. Um lance central de degraus subia at uma plataforma, onde se bifurcava,  esquerda e  direita, 
para levar ao mezanino uma compacta multido coberta de jias.
    Onde ficava aquele palcio nos sonhos, to cheio de diferentes padres de mrmore que poderia rivalizar com a prpria Baslica de So Pedro? O que significava 
o sonho? O fato de Stefan me deixar ver a cidade do Rio de Janeiro, cenrio do ltimo crime que cometera antes de se aproximar de mim, o fato de ter encontrado um 
espinho agudo em minha alma relacionado com aquele lugar fora apenas mais um transbordamento de sua alma atormentada? Ou seria uma trama adicional, emendada s memrias 
dele por minha prpria fantasia, onde um esplndido mar coberto de espuma engendrava incontveis fantasmas danantes?
    No vi em lugar algum uma casa de pera como aquela, com aquele emaranhado de beleza.
    Em Nova York, apresentei-me no Lincoln Center e no Carnegie Hall. Tocava sem interrupes, sem estar sujeita a uma grade de intervalos. Mesmo que se esgotasse 
o tempo previsto para uma determinada performance, eu podia continuar tocando, tornando cada vez mais complexo o fluxo da melodia. Isso dava maior profundidade a 
cada execuo e a possibilidade de tratar cada tema com mais fluidez.
    No suportava, no entanto, ouvir meus discos. Martin, Glenn, Rosalind e Katrinka cuidavam dessas coisas. Rosalind, Katrinka e Grady tratavam dos contratos, dos 
compromissos.
    Minhas fitas ou discos eram um artigo incomum. Ofereciam a msica de uma mulher sem educao musical, incapaz de ler qualquer coisa numa partitura alm de d-r-mi-f-sol-l-si
-d, algum que nunca tocava duas vezes a mesma composio, muito provavelmente porque seria incapaz de repeti-la. E era isto que os crticos estavam sempre prontos 
a salientar. Como dar valor a realizaes desse tipo, improvisaes que, no tempo de Mozart, s poderiam ser conservadas se fossem registradas com papel e tinta, 
mas que hoje eram gravadas e preservadas para sempre, com a mesma reverncia prestada  "msica sria"!
    "Realmente nada de Tchaikovsky, realmente nada de Shostakovich! Realmente nada de Beethoven! Realmente nada de Mozart!"
    "Quem gosta de uma msica pastosa, aucarada como um xarope de mel, poder sem dvida saborear as improvisaes de miss Becker. Alguns, porm, ho de querer 
da vida algo mais que xaropadas."
    "Ela  autntica; provavelmente manaco-depressiva em termos tcnicos, epiltica talvez, s seu mdico poderia dizer com certeza. Obviamente no sabe como faz 
o que faz, mas o efeito, sem a menor dvida,  hipntico."
    Os elogios eram eletrizantes (naturalidade pura, gnio da msica, feiticeira, maga) e igualmente distantes das razes da msica dentro de mim, do que eu sabia, 
do que eu sentia. Vinham, no entanto, como beijos no rosto, causando ondas de emoo no squito de pessoas que me acompanhavam. Muitas citaes eram estampadas na 
embalagem de nossos discos e fitas, que agora vendiam milhes de cpias.
    Mudvamos de um hotel para outro. Por capricho, para atender a um convite, por distrao s vezes, por pura extravagncia.
    Grady nos advertira contra esse estilo esbanjador. Mas teve de admitir que as vendas dos discos j haviam ultrapassado a renda deixada por Karl. A renda j quase 
dobrara graas aos investimentos, mas os discos tambm podiam continuar vendendo cada vez mais.
    No havia por que economizar. No tnhamos preocupaes. Katrinka se sentia segura! Quando voltaram a Nova Orleans, Jackie e Julie foram para as melhores escolas; 
depois comearam a sonhar com a Sua.
    Acabamos em Nashville.
    Eu queria ouvir os rabequistas da msica country e tocar para eles. Procurei o gnio do country, a jovem Alison Krauss, de cuja msica eu gostava muito. Queria 
deixar flores na sua porta. Talvez ela reconhecesse o nome Triana Becker.
    Meu som, no entanto, tinha to pouco de country quanto de galico. Era um som europeu, um som vienense e russo, um som herico, um som barroco; era uma mistura 
de todos esses sons adicionada ao clima de arrebatamento dos msicos clssicos de cabelos longos. No importa que o visual desses homens tenha sido adotado por hippies 
que se pareciam com Jesus Cristo - eu pertencia aos antigos.
    Era uma violinista.
    Era uma virtuose.
    Tocava o violino. O lugar dele era em minhas mos. Eu o amava. Amava. Amava.
    No precisava encontrar a brilhante Leila osefowicz, nem Vanessa Mae, nem minha queridssima Alison Krauss. Nem o grande Isaac Stern. No tinha nervos para esse 
tipo de coisa. S precisava dizer a mim mesma: eu sei tocar.
    Eu sei tocar. Talvez um dia eles ouam Triana Becker.
    Risos.
    Soavam pelos quartos de hotel onde nos reunamos para beber champanhe, para comer sobremesas cheias de chocolate e creme chantilly, e onde  noite eu me deitava 
no cho, olhando para o lustre do modo como gostava de fazer em casa. E toda manh, toda noite...
    ... Toda manh ou noite, ligava para casa e perguntava se havia alguma notcia de Faye, minha irm perdida, minha querida irm perdida. Fiz referncia a ela 
quando dei entrevistas nas escadarias dos teatros de Chicago, Detroit, San Francisco...
    -... nossa irm Faye. H dois anos no temos notcias dela.
    O escritrio de Grady em Nova Orleans recebia trotes de pessoas que no eram Faye e que no a tinham visto. No sabiam descrever com preciso seu corpinho de 
propores graciosas, o sorriso efervescente, os olhos amveis, as mozinhas to fortemente, to cruelmente marcadas com polegares pequenos por aquele lcool que 
envenenara o lquido escuro onde ela lutara para sobreviver, to mida, to frgil.
    s vezes eu tocava para Faye. Andava com a pequena Faye num cho de lajotas, nos fundos da casa da avenida St. Charles. Faye estava com o gato nos braos, distrada, 
sorridente, irresistvel duende esquecendo da mulher embriagada do lado de dentro, das brigas cheias de gritos, do barulho da mulher vomitando atrs de uma porta 
de banheiro. Tocava para Faye que andava no ptio e gostava de ver a chuva secando nas lajotas ao sol. Faye que conhecia segredos como esse, enquanto os outros brigavam 
e faziam acusaes.
    s vezes a viagem ficava difcil para quem me acompanhava. Porque eu no conseguia parar de tocar o Strad longo. Estava maluca, disse Glenn. Chamaram o dr. Guidry. 
Em certo ponto, meu cunhado Martin sugeriu que me fizessem alguns testes para saber se eu estava usando drogas. Katrinka gritou com ele.
    No havia drogas. No havia vinho. Havia msica.
    Era como uma reprise do violinista de The Red Shoes. Eu tocava, tocava, tocava at todo mundo na sute adormecer.
    Certa vez tive de ser retirada do palco. Uma operao de resgate, acho, pois eu no parava, no parava, e as pessoas no paravam de clamar por bis. Desmaiei, 
mas logo voltei a mim.
    Descobri um filme magistral, Immortal Beloved, em que o grande ator Gary Oldman parecia ter captado aquele Beethoven que eu cultuara a vida inteira e que tinha 
visto de relance em minha loucura. Eu olhava dentro dos olhos do grande Gary Oldman. Ele captava a transcendncia. Captava o herosmo com que eu sonhava, o isolamento 
que conhecia, a perseverana que transformara no meu ofcio de cada dia.
    - Vamos encontrar Faye! - disse Rosalind. Nos sales-restaurantes dos hotis, repassvamos juntas todas as coisas boas que tinham acontecido. - Voc tem feito 
tanto barulho que Faye no pode deixar de ouvir. Ela voltar! E agora vai querer ficar conosco...
    Katrinka comeou de repente a fazer gracejos pesados e a contar piadas. Agora, nada conseguia lhe quebrar o entusiasmo: nem os impostos, nem as contas, nem o 
envelhecimento, nem a morte, nem onde as meninas poderiam fazer um curso universitrio, nem se o marido estaria ou no gastando demais o nosso dinheiro - nada a 
perturbava.
    Porque no meio de tanto sucesso e liberalidade tudo podia ser acertado ou resolvido.
    Era o Sucesso Moderno. Um sucesso que s pode ser conhecido em nosso tempo, suponho eu, quando as pessoas nos quatro cantos do mundo podem gravar, ver e ouvir 
(tudo ao mesmo tempo) as improvisaes de uma violinista.
    Estvamos convencidos de que Faye devia compartilhar isso conosco. De certa forma, em algum lugar, ela j estava integrada a nosso grupo, pois no parvamos 
de lhe estender a mo. Faye, venha para casa. Faye, no se faa de morta. Faye, onde est voc? Faye,  muito divertido andar nas limusines e os quartos so lindos; 
 divertido abrir caminho entre a multido at a entrada do palco,  divertido.
    Faye, a platia nos d amor! Faye, agora o frio acabou para sempre.
    Certa noite, numa varanda em Nova York, parei atrs da estatueta de um grifo; se no me engano foi quase no ltimo andar de um hotel, Ritz ou Carlton, no sei. 
Via o Central Park l embaixo. O vento era frio como em Viena. Pensava na me. Lembrei de uma vez em que me pedira para rezar o rosrio com ela. Falou ento de seu 
vcio de beber, um assunto que nunca mencionou com qualquer outra pessoa. Disse que era uma nsia no sangue, uma coisa que j vinha do pai dela, e do pai do pai 
dela. Reze o rosrio. Fechei os olhos e lhe dei um beijo. "A Agonia no Jardim".
    Na rua, naquela noite, toquei para ela.
    Logo completaria 55 anos. Outubro estava perto e esta seria a minha idade.
    E finalmente (como eu sabia que ia acontecer) o inevitvel momento chegou.
    Como Stefan fora gentil, como fora perfeitamente impulsivo e insensato ao redigir aquilo com sua mo to especial de fantasma! Ser que entrara no corpo de um 
ser humano para escrever?
    Ningum nos dias de hoje tem uma caligrafia to perfeita, desdobrada em fortes e sucessivos golpes de uma pena antiga, molhada numa suntuosa tinta roxa e... 
gravada num pergaminho, nada mais nada menos, ou, se quisermos, no tipo mais adequado de papel vegetal que podemos atualmente encontrar para se parecer com um pergaminho.
    Ele no guardava segredos.
    "Stefan Stefanovsky, seu velho amigo, tem o prazer de convid-la para um concerto beneficente no Rio de Janeiro. Esperando contar com sua presena, lembra que 
a senhora e famlia tero todas as despesas pagas no hotel Copacabana Palace e se coloca, desde j,  sua inteira disposio para maiores detalhes ou providncias. 
Por favor, quando lhe for conveniente, ligue a cobrar para os nmeros abaixo."
    Katrinka tratou dos detalhes ao telefone.
    - Em que teatro? Teatro Municipal?
    Parece moderno, assptico, pensei.
    "Eu lhe daria Lily se pudesse."
    - Voc no quer ir, no ? - perguntou Roz, que tomara a quarta cerveja e j estava alegre e alta, com o brao  minha volta. Apoiada nela, eu cochilava e olhava 
pela janela. Estvamos em Houston, sem dvida uma cidade tropical, com um teatro de pera, um grande bale e platias muito calorosas, que aceitavam sem reservas 
as nossas performances.
    - Eu no iria - replicou Katrinka.
    - No ir ao Rio de Janeiro? - exclamei. - Mas  um lugar lindo. Karl queria ir. Para completar a pesquisa do livro. Seu santo, So Sebastio, seu...
    - rea acadmica - comentou Roz.
    Katrinka riu.
    - Bem, o livro dele  assunto encerrado - disse Glenn, marido de Roz. - Est sendo distribudo agora. Grady diz que tudo est correndo esplendidamente bem.
    Ele empurrou os culos para cima do nariz, sentou e cruzou os braos.
    Olhei o bilhete. Ir ao Rio.
    - Posso ver o que seu rosto est dizendo; no v!
    Apenas contemplava o convite; minhas mos estavam suadas e trmulas. A caligrafia dele, seu nome completo.
    - Por que esto dizendo isso? - perguntei. - Qual  o problema?
    Troca de olhares.
    - Ela no lembra agora, mas vai lembrar - falou Katrinka.
    - A mulher que lhe escreveu, sua velha amiga de Berkeley, aquela que disse...
    - Que Lily tinha reencarnado no Rio? - perguntei.
    - Sim - disse Roz -, vai ficar angustiada se for l. Lembro quando Karl quis ir. Voc disse que sempre teve vontade de conhecer aquela cidade, mas simplesmente 
no conseguiria suportar, est lembrada? Ouvi quando contou a Karl...
    - No me lembro de ter contado - respondi. - S me lembro que no fomos, e ele queria ir. Agora quem quer sou eu.
    - Triana - replicou Martin -, no vai encontrar a reencarnao de Lily em parte alguma.
    - Ela sabe muito bem - interveio Roz.
    O rosto de Katrinka estava cheio de uma deprimente e bem conhecida aflio. Eu no queria ver aquilo.
    Katrinka tivera muita intimidade com Lily. Naquela poca, Roz no esteve conosco em Berkeley e em San Francisco. Mas Katrinka tinha estado na cabeceira da cama, 
ao lado do caixo, no cemitrio - tinha passado por tudo aquilo.
    - No v - insistiu Katrinka numa voz pastosa.
    - Vou por outra razo - respondi. - No creio que Lily esteja l. Acho que, se ela renasceu, certamente no precisa de mim. Ou j teria...
    Parei. As dolorosas e odiosas palavras dele voltavam:
    "Ficou com cimes, cimes porque sua filha se revelou a Susan e no a voc, admita! O raciocnio foi esse. Por que Lily no a procurou? Perdeu a carta, nunca 
respondeu, mesmo sabendo que Susan estava sendo sincera, mesmo sabendo que ela gostava muito de Lily e que acreditava realmente..."
    - Triana?
    Levantei a cabea. Roz tinha nos olhos um antigo brilho de medo, medo como o que conhecemos nos maus tempos, antes de termos tudo que queramos na nossa frente.
    - No, no se preocupe, Roz. No estou  procura de Lily. Este homem... Devo alguma coisa a ele - falei.
    - A quem, a esse tal de Stefan Stefanovsky? - perguntou Katrinka. - As pessoas com quem falei no sabem sequer quem  ele. Falei que o convite era srio, mas 
no tm a menor idia do tipo de homem que...
    - Eu o conheo bem - respondi. - No se lembra? - Levantei da mesa. Peguei o violino, que nunca ficava a mais de dez centmetros de mim e estava pousado ao lado 
da cadeira.
    - O violinista de Nova Orleans! - exclamou Roz.
    - Sim, chama-se Stefan.  quem ele . E quero ir. Alm disso... dizem que  um lugar lindo.
    Por que no? No era o lugar do sonho? Lily teria sabido escolher o Paraso.
    - Teatro Municipal... Um nome sem graa - comentei. Algum j ouvira falar daquele teatro?
    -  uma cidade perigosa - insistiu Glenn. - Matam uma pessoa para roubar os tnis. Est cheia de pobres que constroem seus barracos nas encostas dos morros. 
Copacabana? Tudo ali foi construdo h dcadas...
    -  bonito - murmurei.
    As palavras no foram ouvidas. Segurei o violino. Tangi as cordas.
    - Oh, por favor, no comece a tocar agora, vou perder o juzo - disse Katrinka.
    Dei uma risada. Roz tambm.
    -  bonito, mas no a toda hora - Katrinka apressou-se a declarar.
    - Est bem. Mas quero ir. Tenho de ir. Stefan me pediu.
    Disse que no precisavam me acompanhar, mas todos embarcaram comigo para o Brasil. Ao entrar no avio, j estavam ansiosos para ver o mundo extico e lendrio 
da floresta tropical, das praias imensas, do Teatro Municipal, um nome que parecia indicar apenas um determinado auditrio urbano.
     claro que no era nada disso.
    Voc sabe.
    O Brasil no  outro pas.  outro mundo, onde os sonhos assumem formas diferentes, as pessoas se comunicam todo dia com espritos e santos e deuses africanos 
se fundem em altares dourados.
    Voc sabe o que eu descobri.  claro...
    Estava com medo. Os outros viam. Percebiam. O medo me fazia pensar em Susan, pensar sem parar em Susan, no apenas na carta, mas no que me dissera depois da 
morte de Lily. Depois da morte de minha filha, ela me disse que Lily sabia que ia morrer. Sempre quis proteger Lily daquele segredo, mas ela tinha dito a Susan: 
"Sabe de uma coisa, eu vou morrer." E ria, ria. "Eu sei porque minha me sabe, e minha me est com medo."
    Mas lhe devo isso, Stefan. Devo a seus assaltos sombrios a prpria essncia da minha energia. No posso recusar isso a voc.
    Forava o sorriso. E no revelava meus pensamentos. Falar normalmente de uma criana morta no era uma coisa to difcil. H muito tempo tinham parado de me 
perguntar como eu chegara a Viena. No estabeleciam qualquer relao com o violinista louco.
    Assim, fomos em frente. Havia risos de novo, e o medo por baixo, como o medo das sombras no fundo escuro da casa quando a me bebia, quando os bebs dormiam 
suando de calor, quando eu tinha medo que a casa pegasse fogo e eu no conseguisse tir-los dali, e nosso pai que estava fora, eu no sabia onde, e meus dentes batiam, 
embora fizesse calor e os mosquitos rondassem na escurido.
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
  
  17
  
  
 Estvamos sonolentos, entorpecidos pelo longo vo para o sul, que cruzou o equador e sobrevoou o Amazonas a caminho do Rio de Janeiro, mas ficamos deslumbrados 
quando as vans que nos levavam atravessaram um tnel comprido e escuro, sob as matas tropicais da montanha do Corcovado. Tamanho esplendor, o Cristo de granito l 
em cima, com os braos abertos! Tinha de ver aquele Cristo antes de irmos embora.
    Agora eu sempre carregava o violino numa nova capa de veludo roxo, com forro almofadado, uma proteo mais segura para andar no ombro. Poderamos ver sem pressa 
todas as maravilhas do lugar, como o morro do Po de Acar e os velhos palcios dos Bragana que foram para l com medo de Napoleo, no sem motivo, pois ele lanava 
suas armas contra Portugal, assim como contra a Viena de Stefan.
    Alguma coisa encostou no meu rosto. Percebi um suspiro e cada plo de meu corpo ficou em p. No me mexi. A van dava solavancos.
    Quando samos do tnel, o ar era fresco; o cu imenso e de um profundo azul.
    Assim que mergulhamos no movimento de Copacabana, senti arrepios nos braos, como se Stefan estivesse a meu lado. Senti alguma coisa roar em meu rosto e apertei 
a capa de veludo, macia e segura, que guardava o violino. Tentei repelir aquele capricho dos meus nervos e descobrir o que havia  minha volta.
    Copacabana era repleta de altos edifcios, lojas ao longo das caladas, camels, homens e mulheres de negcios com passo firme, turistas passeando. Tinha a vibrao 
da Ocean Drive em Miami Beach, da rea central de Manhattan ou da Market Street, de San Francisco, ao meio-dia.
    - Mas as rvores! - comentei. - Olhe, por todo lado, essas rvores enormes!
    Erguiam-se retas, viosas, abrindo-se em leques de grandes folhas verdes, desenhando uma sombra lmpida e gostosa no meio do calor tropical. No imaginava que 
pudesse haver coisas to verdes e exuberantes numa cidade to povoada. E aquelas rvores estavam por todo lado, brotando do p das caladas, impassveis sob as sombras 
que os edifcios projetavam na rua.
    - Amendoeiras, miss Becker - explicou nosso guia, um rapaz alto e magro, muito plido, com cabelo amarelo e cristalinos olhos azuis. Chamava-se Antnio. Falava 
com o sotaque que eu ouvira no sonho. Era portugus.
    Estvamos l. Estvamos certamente no lugar do mar espumante e do palcio de mrmore. Mas como se revelariam?
    Senti um grande choque de calor quando chegamos  praia; as ondas no estavam muito altas, mas aquele era exatamente o mar de meus sonhos. Podia ver seus limites 
mais distantes de um lado e de outro, os braos esticados das montanhas que o separavam das muitas outras praias da cidade do Rio de Janeiro.
    Antnio, nosso guia de voz amvel, falou das inmeras praias que se estendem para o sul, ao longo do Atlntico, mas essa era especial, porque ficava numa cidade 
de 11 milhes de habitantes. Montanhas se erguendo abruptamente da terra. Quiosques, com teto de sap, vendendo refrigerantes ao longo da praia. Por todo lado, nibus 
e carros disputando espao, disparando quando encontravam uma brecha. E o mar, o mar era um vasto oceano verde e azul, realmente sem limites, e sabamos que existem, 
alm do horizonte, outros morros que no podamos ver. Aquele mar era o mais belo porto criado por Deus.
    Rosalind estava extasiada. Glenn tirava fotos. Katrinka fitava um tanto apreensiva a fileira interminvel de homens e mulheres que, vestidos de branco, andavam 
na extensa faixa de areia bege. Eu nunca encontrara uma praia to ampla, to bonita.
    L estava a calada decorada, que vira de relance nos sonhos. O estranho desenho, percebi ento, era um cuidadoso mosaico.
    Nosso guia, Antnio, falou do homem que pavimentara com aqueles mosaicos as caladas da comprida avenida Atlntica, que acompanhava a praia. Queria que fossem 
vistos do ar. Falou dos muitos pontos que devamos conhecer, falou da quentura do mar, da festa de rveillon e do carnaval, dizendo que tnhamos de voltar nesses 
dias especiais.
    O carro virou  esquerda e o hotel surgiu  nossa frente. O Copacabana Palace  um grandioso prdio no velho estilo, todo branco, com sete andares e um amplo 
terrao no segundo piso, sobre uma impecvel fileira de arcos romanos. Sem dvida, o salo de convenes e os sales de baile achavam-se atrs daqueles enormes arcos. 
O agradvel revestimento branco da fachada tinha um ar de dignidade britnica.
    Era o barroco, um fraco e ltimo eco do barroco. Muitos edifcios modernos se erguiam ao seu redor, mas sem afet-lo.
    No meio da rampa circular que levava  portaria do hotel, havia amendoeiras com folhas grandes, largas e muito verdes, mas nenhuma dessas rvores atingia um 
tamanho excessivo; era como se a prpria natureza as conservasse numa escala humana. Olhei para trs. As rvores se estendiam em ambas as direes do bulevar. Eram 
as mesmas encantadoras rvores das ruas movimentadas.
    Era impossvel apreciar devidamente tudo aquilo. Eu estremecia, segurando o violino.
    E olhe, o cu sobre o mar, com que rapidez ele se transforma, como as vastas massas de nuvens se movem depressa! Oh, Deus, como o cu se revolve!
    "Gosta daqui, meu bem?"
    Fiquei rgida. Ensaiei um pequeno riso defensivo, mas logo percebi que ele me tocava. Como se tivesse encostado os ns dos dedos em meu rosto. Senti alguma coisa 
me dar um puxo no cabelo. Detestei aquilo. No encoste a mo em meu cabelo comprido.  um vu. No me toque!
    - No comece a ter maus pensamentos! - disse Roz. - Isto  lindo!
    Entramos no clssico acesso circular e fizemos a volta diante da entrada principal. A recepcionista saiu para nos receber. Era uma inglesa muito bonita, chamada 
Felice, que foi educada e fascinante desde o primeiro momento. Os ingleses sempre me pareceram uma espcie preservada da moderna obsesso com a eficincia, que avilta 
o resto do mundo.
    Saltamos da van e recuei um pouco pela rampa para ter uma viso completa da fachada do hotel.
    Vi a janela sobre o principal arco do salo de convenes.
    -  meu quarto, no ?
    - Oh, sim, miss Becker - assentiu Felice. - Fica bem no centro do prdio, bem no meio do hotel.  a sute presidencial, como nos pediu. E temos sutes no mesmo 
andar para todos os seus hspedes. Vamos, sei que deve estar cansada.  tarde da noite para a senhora, e aqui estamos ao meio-dia.
    Rosalind danava de alegria. Katrinka j dera uma olhada na joalheria das proximidades, onde se encontravam as valiosas esmeraldas do Brasil. Reparei que o hotel 
tinha alas com outras lojas. Havia uma pequena livraria cheia de ttulos em portugus. Aceitava American Express.
    Um exrcito de boys caiu sobre nossas bagagens.
    - Est fazendo muito calor - comentou Glenn. - Vamos, Triana, vamos entrar.
    Era como se eu tivesse congelado.
    "Por que no, querida?"
    Olhava para a janela, para a janela que vira no sonho quando encontrei Stefan pela primeira vez. Sabia que, olhando por aquela janela, veria a praia e as ondas, 
ondas agora tranqilas, mas que talvez no demorassem a se erguer para criar aquela espuma. Nada do que eu imaginara fora exagero.
    Fomos levados para dentro do hotel. No elevador, fechei os olhos. Senti-o do meu lado e sua mo me tocou.
    - E ento? Por que escolheu exatamente este lugar? - sussurrei. - Por que aqui  melhor?
    "Por causa dos aliados, minha querida."
    - Triana, pare de falar sozinha - pediu Martin. - Todos vo pensar que est realmente louca.
    - E o que isso importa agora? - disse Roz.
    Cuidaram de ns, nos guiaram, nos distriburam pelos quartos, nos deram refrescos e palavras amveis.
    Entrei no living da sute presidencial. Fui de imediato para a pequena janela quadrada. J a conhecia. Conhecia o jeito de abrir. Abri.
    - Aliados, Stefan? - perguntei num tom muito baixo, como se estivesse murmurando Ave-Maria-cheia-de-graa. - E quem seriam eles, e por que aqui? Por que vi este 
lugar na primeira vez em que nos encontramos?
    Nenhuma resposta, s o puro sopro da brisa, a brisa que nada podia macular, que passou por mim para inundar o quarto, transbordar sobre o mobilirio convencional 
e sobre o tapete escuro, a brisa que comeava a jorrar alm da imensa praia, alm dos vultos sombrios que se moviam devagar nas areias ou na tranqila, suave rebentao. 
As nuvens pendiam majestosamente do cu.
    - Voc conhece tudo que eu sonhei, Stefan?
    " o meu violino, meu amor. No quero mago-la. Mas tenho de recuper-lo."
    Os outros estavam ocupados com as bagagens, com as janelas, com as vistas que cada um conseguia ver; carrinhos de servio foram trazidos para a sute.
     o ar mais puro, pensei, o mais refinado que j respirei em toda a vida. Deixei os olhos resvalarem pela gua at a ngreme montanha de granito que se erguia 
bruscamente do azul. Vi perfeitamente o brilho do horizonte.
    Felice, a recepcionista, aproximou-se de mim. Apontou para os rochedos distantes. Deu seus nomes. Os nibus roncavam l embaixo, entre ns e a praia. Que mal 
havia? Os bluses brancos, de manga curta, eram usados por tanta gente que pareciam o traje tpico do pas. Vi peles de todas as cores. Atrs de mim, suaves vozes 
em portugus entoavam a sua cano.
    - Quer que eu pegue o violino? Talvez possa...
    - No, ele fica comigo - respondi. Ele riu.
    - Ouviu isso? - perguntei  inglesa.
    - Ouve alguma coisa? Oh, depois de fechar as janelas, o quarto  muito silencioso. Tenho certeza de que vai gostar.
    - Foi uma voz, um riso.
    - No pense naquelas coisas - disse Glenn, tocando em meu cotovelo.
    - Ah, quero realmente que me desculpe - falou uma voz. Virei-me e vi uma bela mulher de pele escura, cabelos ondulados, olhos verdes cravados em mim. A mistura 
racial ultrapassava todas as fronteiras j imaginadas da beleza. Era alta e tinha os braos nus, o cabelo comprido como Cristo, o sorriso feito de dentes brancos 
e de um batom vermelho-sangue.
    - Desculpar?
    - Oh, no precisamos falar nisso agora - respondeu Felice apressadamente.
    - Saiu nos jornais - explicou a deusa de cabelo ondulado, suspendendo as mos como se implorasse perdo. - Miss Becker, a senhora est no Rio. As pessoas acreditam 
em espritos e gostam muito da msica que toca. Suas fitas tm entrado aos milhares no pas. Aqui as pessoas tm uma vida espiritual muito intensa e no pretendem 
lhe fazer mal.
    - O que saiu nos jornais? - Martin perguntou. - Que ela est hospedada neste hotel? Do que est falando?
    - No, todo mundo j imaginava que a senhora ficaria neste hotel -explicou a mulata alta, de olhos verdes. - Estou me referindo  triste histria de que veio 
aqui  procura da alma de sua filha, miss Becker... - Estendeu a mo. Apertou a minha.
    Ao calor do toque, os arrepios cruzaram cada circuito de meus nervos. Achei que ia desmaiar quando olhei no fundo de seus olhos.
    Havia nisso tudo alguma coisa horrivelmente eletrizante. Horrivelmente  a palavra certa.
    - Miss Becker, nos perdoe, mas no pudemos abafar os rumores. Sinto muito por este incmodo. Os reprteres j esto l embaixo...
    - Bem, eles tero de ir embora - declarou Martin. - Triana precisa dormir. Nosso vo durou mais de nove horas. Ela precisa dormir. O concerto  amanh  noite, 
um intervalo quase insuficiente...
    Virei-me e olhei para o mar. Sorri, depois virei para trs e segurei as mos da jovem.
    - Vocs so um povo mstico - falei. - Um povo catlico, africano, e
ndio tambm; de uma profunda riqueza espiritual, pelo que ouvi dizer. Como se chamam os rituais, aqueles que as pessoas praticam? No estou me lembrando...
    - Macumba e candombl - respondeu ela encolhendo os ombros, grata por meu perdo. Felice, a britnica, permanecia  distncia, transtornada.
    Onde quer que nos encontrssemos, e por mais alegria que houvesse, tenho de admitir que sempre existia algum transtornado  minha volta. Agora era aquela inglesa, 
com medo que eu fosse alvo das mais impossveis afrontas.
    "Impossveis? E sua filha, acha que ela est aqui?"
    -  voc quem diz - respondi a meia voz, de olhos baixos. - Essa moa no  sua aliada, no tente me fazer acreditar nisso.
    As pessoas se retiraram. Martin esperou-as sair.
    - O que acha que devo dizer queles malditos reprteres?
    - A verdade - respondi. - Uma velha amiga disse que Lily tinha reencarnado neste lugar. - Virei-me de novo para a janela e para o gostoso sopro do vento. - Oh, 
Deus, veja este mar, veja! Se Lily tivesse mesmo de voltar, o que no acredito, por que no num lugar como este? E j reparou como eles falam? Naqueles ltimos anos, 
Lily gostava muito de umas crianas brasileiras que moravam perto de ns, eu j tinha lhe contado isso?
    - Eu as conheci - disse Martin. - Estava l. Aquela famlia tinha vindo de So Paulo. Mas no quero que fique deprimida com essas coisas.
    - Diga a eles que estamos procurando Lily, mas no pretendemos encontr-la em qualquer ser humano. Fale alguma coisa simptica, algo que ajude a encher o auditrio 
onde vamos tocar. V at l.
    - Todos os ingressos foram vendidos - declarou Martin. - No quero deix-la sozinha.
    - S vou conseguir dormir quando escurecer. Isto  demais, grandioso demais, absolutamente esplndido. Voc est cansado, Martin?
    - No, no muito. Por qu, o que quer fazer?
    Eu pensei. Rio...
    - Quero subir a floresta tropical - falei -, ir at o alto do Corcovado. Veja como o cu est claro. No temos tempo de fazer isso antes do anoitecer? Quero 
ver o Cristo l em cima, com os braos abertos. Gostaria que pudssemos v-lo daqui.
    Martin tomou as providncias pelo telefone.
    -  um pensamento agradvel - disse eu - achar que Lily pudesse voltar a viver e merecesse uma vida longa num lugar como este. - Fechei os olhos e pensei nela, 
em minha luminosa menina, calva e sorridente, aconchegada em meus braos, a golinha branca do vestido xadrez virado para cima. "Fofura", era assim que a chamvamos 
por causa do adorvel corpinho redondo. Tinha ficado gorducha com os esterides.
    Ouvi seu riso to claramente como se ela estivesse cavalgando no peito de Lev, que estava deitado na grama fria de um jardim florido, em Oakland. Naquele dia, 
Katrinka e Martin  que tinham nos levado. A foto estava em algum lugar, talvez com Lev - Lev deitado de costas e Lily sentada em seu peito, o rostinho redondo sorrindo 
para o cu. Katrinka tinha tirado muitas fotos, maravilhosas fotos.
    Oh, Deus, pare com isso.
    Risos.
    "No pode tornar as coisas mais fceis, no, no pode. Di demais e voc acha que talvez Lily a deteste, pois deixou-a morrer. Talvez sua me pense a mesma coisa. 
E aqui est voc, na terra dos espritos."
    - Tira sua fora deste lugar?  um tolo. O violino  meu. Prefiro queim-lo a deixar que caia em suas mos.
    Martin chamou o meu nome. Sem dvida estava parado atrs de mim, vendo-me falar com as paredes, ou talvez o vento abafasse as palavras.
    O carro estava pronto. Antnio nos aguardava. Ia nos levar ao terminal do bondinho. Tnhamos dois guarda-costas, ambos policiais de folga, contratados para nossa 
segurana. O trenzinho nos levaria atravs da floresta tropical. Depois seria preciso subir alguns degraus at o pedestal do Cristo, no cume da montanha.
    - Tem certeza que no est cansada demais para isso? - perguntou Martin.
    - Estou entusiasmada. Adoro este ar, este mar, tudo  minha volta...
    Sim, Antnio respondia, dava tempo de fazer o passeio. Ainda tnhamos cinco horas de luz do dia. Mas olhe, as nuvens, o cu estava escurecendo, no era um dia 
dos melhores para o Corcovado.
    -  o meu dia - disse eu. - Vamos. Me deixe ir na frente com voc - falei com Antnio. - Quero ver tudo.
    Martin e os dois guarda-costas entraram atrs.
    Mal tnhamos comeado a andar quando reparei nos inevitveis reprteres, carregados de cmeras, amontoados na porta. Havia um pequeno grupo numa acerba discusso 
com Felice, a recepcionista inglesa, que no deu conta de que estvamos a uma distncia para poder ouvir.
    Eu no sabia muita coisa sobre o trem do Corcovado, exceto que era antigo, como os bondes de madeira de Nova Orleans, e que era puxado montanha acima como os 
eltricos com cremalheira de San Francisco. J tinha ouvido, acho, que s vezes era perigoso viajar nele. Mas nada disso tinha importncia.
    Saltamos correndo da van para o trem, que ia sair naquele momento da estao. A bordo, s alguns grupos dispersos de pessoas, que pareciam na maior parte europeus. 
Ouvi gente falando em francs, espanhol e, como no podia deixar de ser, no melodioso e anglico portugus.
    - Meu Deus - exclamei -, vamos realmente penetrar na floresta.
    - Sim - assentiu Antnio, o guia -, a floresta acompanha toda a subida da montanha.  uma bela floresta, mas no  a floresta nativa...
    - Continue. - Maravilhada, estiquei os braos para a terra nua, procurando tocar nas samambaias alojadas nas fendas. Viajvamos muito perto da encosta. Estiquei 
o pescoo e vi as rvores se debruando sobre os trilhos.
    Os outros passageiros conversavam e sorriam.
    - Aqui havia uma plantao de caf, mas um dia chegou ao Brasil um homem rico, achando que a floresta tropical devia ser trazida de volta. Ele a replantou. Esta 
 a nova floresta, que no tem mais de 50 anos, mas  a floresta tropical do Rio,  a nossa floresta. Fez isso por ns. Tudo que est vendo foi cuidadosamente replantado 
por ele.
    Parecia to selvagem e imaculado quanto qualquer outro paraso tropical que eu j tivesse visto. Meu corao saltava do peito.
    - Voc est aqui, seu filho da puta? - murmurei para Stefan.
    - O que voc disse? - perguntou Martin.
    - Estou falando comigo mesma, rezando meu rosrio, dizendo as Ave-Marias por nossa boa sorte. Mistrios Gloriosos: "Jesus se Levanta dos Mortos."
    - Oh, voc e suas Ave-Marias!
    - O que est querendo dizer? Olhe, a terra  vermelha, absolutamente vermelha! - No parvamos de subir; atravs de profundos cortes na montanha, fazendo lentamente 
uma curva atrs da outra e sempre nos mantendo no mesmo nvel das rvores midas, densas, sonolentas.
    - Ah, estou vendo a neblina chegar - falou Antnio com um sorriso triste e num tom de desculpas.
    - No faz mal - repliquei. - Assim tambm  fascinante, de qualquer maneira  fascinante, voc no acha? Quando fao isto, quando avano por uma montanha em 
direo ao cu e ao Cristo, posso livrar minha mente de outras coisas.
    - Isso  bom - comentou Martin, que acendera um cigarro. Katrinka no estava l para mandar que o jogasse fora. Antnio no fumava, mas no se importava e pareceu 
educadamente surpreso quando Martin lhe perguntou se no era proibido fumar.
    O trem fez uma parada; pegou uma mulher sozinha com vrios embrulhos. Tinha a pele negra e usava sapatos moles e feios.
    - Quer dizer que isto  como um bonde?
    - Oh, mais ou menos - cantou a voz de Antnio. - H pessoas que trabalham l em cima, gente que vem das redondezas. Esta deve ter vindo de um lugar muito pobre...
    - Favelas - disse Martin. - J ouvi falar, no queremos entrar em nenhuma.
    - No ser preciso.
    Risos de novo. Obviamente mais ningum ouviu.
    - Ento, est completamente sem foras, no ? - sussurrei. Empurrei a janela para baixo. Debrucei-me na janela aberta, ignorando as advertncias de Martin. 
Vi os galhos cobertos de folhas se aproximando, senti o cheiro de terra. Falava no vento. - No pode se tornar visvel, no pode fazer com que mais ningum o escute, 
no ?
    "Estou guardando o melhor de mim para voc, meu amor, voc que deu passos corajosos para os claustros de minha alma, quando eu ainda tocava em seu quarto, cantando 
suas vsperas, fazendo tanger, dentro de mim, um carrilho que eu mesmo ainda no ouvira. Por voc serei um obreiro de novos milagres."
    -  um mentiroso, um trapaceiro - falei sob o barulho do trem. -
Fazendo companhia a fantasmas esfiapados?
    O trem parou novamente.
    - Aquele prdio... - perguntei. - Olhe, h uma bonita casa ali  direita, o que  aquilo?
    - Ah, bem, sim... - Antnio deu um sorriso. - Podemos v-la na descida. Acho melhor telefonar. - Puxou um pequeno celular. - Se quiser, mando a van subir e nos 
encontrar ali. Antigamente era um hotel. Hoje est abandonado.
    - Oh, sim - falei -, preciso ver isso. - Olhei para trs, mas tnhamos feito a curva. Subamos mais e mais.
    Finalmente chegamos  ltima parada, onde havia uma multido de turistas esperando para voltar. Pisamos na plataforma de cimento.
    - Ah, sim, bem... - disse Antnio. - Agora vamos subir a escadaria para o Cristo.
    - Subir a escadaria! - Martin proclamou.
    Atrs de ns, os guarda-costas caminhavam lado a lado, abrindo os palets caqui, de modo que ns e todo mundo podamos ver os coldres nos ombros e os revlveres 
pretos. Um deles deu-me um sorriso amvel e respeitoso.
    - No  to mau - comentou Antnio. - So muitos e muitos degraus, mas no so contnuos, sabem como , h lugares onde se pode parar a cada... como se diz?... 
a cada estgio. E podemos comprar alguma coisa gelada para beber. Quer mesmo levar o violino sozinha? No quer que eu...
    - Ela sempre o leva sozinha - declarou Martin.
    - Tenho de ir at o topo - avisei. --Uma vez, quando era criana, vi isto num filme, o Cristo com os braos abertos. Como se estivesse num crucifixo.
    Tomei a frente.
    Como era gostoso, as pessoas descontradas e andando devagar, as pequenas lojas vendendo bugigangas e latas de refrigerantes, gente sentada preguiosamente nas 
mesinhas de metal espalhadas aqui e ali. Tanta coisa doce naquele belo calor, embora a neblina agitasse a montanha com rolos brancos.
    - So nuvens - disse Antnio. - Estamos nas nuvens.
    - Majestoso! - gritei. - Veja que parapeito, de tamanho bom gosto. Italiano, no ? Martin, veja, aqui tudo  misturado, o velho e o novo, o europeu e o que 
veio de fora da Europa...
    - Sim, este parapeito  muito antigo e os degraus, olhe, no so ngremes.
    Cruzamos um patamar atrs do outro.
    Caminhvamos agora numa atmosfera branca, perfeitamente densa. Podamos enxergar um ao outro, podamos ver nossos ps e o cho, praticamente mais nada.
    - Oh, isto no  o Rio - retrucou Antnio. - No, no, tem de voltar quando estiver fazendo sol. No vai ver nada.
    - Onde fica o Cristo, em que direo? - perguntei.
    - Miss Becker, estamos exatamente embaixo da esttua. Recue um pouco e olhe para cima.
    - Para ver que estamos nos cus - eu disse.
    "E nos Infernos."
    - Para mim  tudo nvoa - falou Martin, mas me atirou um sorriso
amistoso. - Voc tem razo,  um pas fantstico, uma cidade fantstica.
Apontou para a direita, onde surgira um grande buraco, por onde pudemos ver a metrpole l embaixo, maior que Manhattan ou Roma, esparramada em nossa frente. A abertura 
se fechou.
    Antnio apontou para cima.
    E subitamente aconteceu um milagre, pequeno, comum, mas maravilhoso. O gigantesco Cristo de pedra apareceu no meio da nvoa branca, a poucos metros de ns, a 
face bem l no alto, os braos rigidamente abertos, no para abraar, mas para serem crucificados; depois a imagem sumiu.
    - Ah, bem, continuem olhando - Antnio apontou de novo.
    Uma brancura imaculada cobria tudo, e ento, de repente, por entre ntidos fiapos de bruma , a imagem apareceu de novo. Tive vontade de chorar, comecei a chorar.
    - Cristo, Lily est aqui? Diga-me! - sussurrei.
    - Triana - Martin chamou.
    - Todos tm o direito de rezar, mas no quero que ela esteja aqui. - Recuei. Quando as nuvens se abrissem e fechassem de novo, queria ver melhor aquele meu Deus.
    - Ah, apesar do dia nublado, talvez no seja to mau quanto pensei - disse Antnio.
    - Oh, no,  divino! - exclamei.
    "Acha que isto vai ajud-la? Acha que ser como naquela noite, quando tirou o rosrio de baixo dos travesseiros depois que a deixei?"
    - Ser que ainda existe em sua mente algo que possa esconder? - falei quase sem mexer os lbios, quase transformando as palavras num murmrio sem sentido. - 
No tirou nenhuma lio de nossa sombria jornada? Ou ser que j est completamente desnaturado, como aqueles espectros, aquela escria que costumava andar atrs 
de voc? Eu no devia estar vendo o Rio que voc conhece, no ? Voc desejava ardentemente que eu ficasse absorvida por minhas memrias. Est ressentido por eu 
estar gostando tanto daqui? Por que continua escondido? A fora est em declnio e voc tem raiva, raiva...
    "Estou  espera do momento supremo de sua humilhao."
    - Ah, eu devia ter imaginado - murmurei.
    - Gostaria que no rezasse as Ave-Marias em voz alta - disse Martin cautelosamente. - Isso me faz lembrar de minha tia Lucy, que nos obrigava a ouvir o rosrio 
no rdio, toda tarde, s seis horas, ajoelhados durante 15 minutos nos tacos do assoalho!
    - Isto  muito catlico - comentou Antnio, rindo. Estendeu os braos, tocou no meu ombro e no de Martin. - Vai chover, meus amigos. Se querem chegar ao hotel 
antes da chuva, temos de tomar o trem agora. Esperamos as nuvens se abrirem mais uma vez. O grande e severo Cristo tornou a aparecer.
    - Se Lily estiver em paz, Senhor - falei -, no precisa me dizer nada.
    - Espero que no acredite nessa merda - disse Martin.
    Antnio ficou chocado. Obviamente no podia saber com quanta nfase as pessoas de meu crculo familiar imediato me repreendiam diria e continuamente.
    - Acredito que, onde quer que Lily esteja neste momento, ela no precisa de mim. Acredito que o mesmo se aplica a todos os mortos.
    Martin no ouviu.
    Mais uma vez o Cristo aparecia l em cima, os braos duros como se estivesse no crucifixo, na ponta do rosrio.
    Corremos para o trem.
    Nossos guarda-costas, reclinados no parapeito, amassaram as latas de refrigerante e, jogando-as rapidamente no recipiente de lixo, vieram atrs de ns.
    A bruma estava mida quando chegamos ao trem.
    - Saltamos na primeira parada? - perguntei.
    - Oh, sim, no podemos deixar passar - respondeu Antnio. - Mandei o carro nos esperar l.  uma estrada muito ngreme, mas  mais fcil descer que subir. Com 
o carro no precisamos nos apressar e no far mal se chover,  claro. Mas lamento que o cu no esteja limpo...
    - Adoro o cu assim.
    Quem costumava usar aquela primeira parada do trem? A parada que ficava ao lado do hotel abandonado?
    Havia um estacionamento. Alguns, sem dvida, preferiam a estrada e subiam em carrinhos potentes que ficavam estacionados ali; depois tomavam o trem para o cume. 
Alm dos carros, no existia nada para servir de abrigo a uma pessoa.
    O vasto hotel cor de terra parecia slido, mas seu estado era de completo abandono.
    Eu olhava fascinada para ele. As nuvens ali no estavam to baixas e pude ter a vista da cidade e do mar que aquelas janelas tapadas um dia dominaram.
    - Ah, que lugar...
    - Sim, bem... - disse Antnio. - Houve planos, muitos planos, e talvez... Veja! Ali, olhe atravs da cerca.
    Vi uma trilha de jardim, vi um ptio, contemplei os descascados postigos cor de terra que cobriam as janelas, vi o terrao com ladrilhos. Fazia pensar... Eu 
podia, realmente podia... Se quisesse...
    Um impulso cresceu dentro de mim, algo que no sentira em qualquer outro ponto de nossas viagens, o impulso de construir um belo refgio naquele lugar, para 
vir de vez em quando, de Nova Orleans, respirar o ar daquela floresta. Parecia no haver sobre a terra lugar mais bonito do que o Rio de Janeiro.
    - Vamos - alertou Antnio.
    Passamos o hotel. Um grosso parapeito de cimento nos protegia de um precipcio. Mas podamos ver agora a grande altura do prdio e como se debruava sobre o 
vale. Fiquei emocionada com tamanha beleza. L embaixo, as bananeiras iam mergulhando em linha reta, descendo a encosta da montanha. Pareciam estar presas a uma 
mesma raiz ou tronco e seguir-lhe o curso. Por todo lado a opulncia da vegetao nos alcanava e as rvores balanavam sobre nossas cabeas. Atrs de ns, do outro 
lado da estrada, a floresta era ngreme, escura e exuberante.
    - Isto  o Cu.
    Fiquei em silncio. Para que todos tivessem essa certeza. S um momento. Perguntas eram desnecessrias. Era uma questo de gestos. Os homens se afastaram, fumando 
seus cigarros, conversando. No podia ouvi-los. Ali o vento no soprava como no pico. As nuvens desciam, mas rarefeitas e devagar. Tudo estava quieto, calado. Viam-se 
l embaixo milhares e milhares de casas, edifcios, ruas, e mais adiante a delicada, a plcida beleza da infinita gua azul.
    Lily no estava l. Lily se fora, to certamente quanto o esprito do Maestro se fora, to certamente quanto a maioria dos espritos se vo, como o esprito 
de Karl, como to certamente o esprito da me. Lily tinha coisas melhores a fazer do que se aproximar de mim, para me consolar ou me atormentar.
    "No tenha tanta certeza."
    - Tenha cuidado com seus truques - sussurrei. - J aprendi com voc a jogar com a dor. Posso fazer isso de novo. No me engana com facilidade, j devia saber 
disso.
    "O que vai ver congelar seu sangue. Vai largar o violino, vai implorar para eu peg-lo, vai deix-lo cair! Vai se afastar de tudo que tem admirado! No est 
preparada para tanto."
    - Acho que estou - repliquei. - No esquea que eu os amava muito, que conheci todos eles muito bem, at nos menores e ltimos detalhes dos leitos de morte. 
Os rostos e formas esto perfeitamente gravados em minha memria. No tente fazer uma cpia deles. S aumentaria o fosso entre ns.
    Ele suspirou. Houve um abandono, um recuo, uma nsia que me arrepiou os braos e a nuca. Acho que ouvi o rudo de um choro.
    - Stefan, tente, tente no se agarrar a mim ou a...
    "Maldita seja. V para o Inferno!"
    - Stefan, por que me escolheu? No havia outros que amassem como eu a morte, ou a msica?
    Martin tocou em meu brao. Apontava. A alguma distncia alm da estrada, Antnio nos chamava.
    Era uma longa descida. Os guarda-costas continuavam vigilantes.
    A nvoa, agora, era bastante mida, mas o cu clareava. Talvez fosse assim que acontecesse. A nvoa se mistura com a chuva e se torna transparente.
    Em nossa frente havia uma clareira e, ao longe, uma velha fonte de concreto. O que vi em seguida parecia ser um monte de sacos plsticos jogados fora, talvez 
sacolas de supermercado ou de drogaria. Formavam um crculo e eram de um azul muito forte. Nunca vira sacos daquela cor.
    - So as oferendas - explicou Antnio.
    - De quem?
    - Das pessoas da macumba e do candombl. Est vendo? Cada saco contm uma oferenda para um deus. Um tem arroz, outro alguma outra coisa, milho, por exemplo. 
Repare que formam um crculo, est vendo? Havia velas aqui.
    Estava fascinada. Mas no fui invadida por qualquer sentimento do sobrenatural, apenas pelo espanto diante da obra de seres humanos, diante do prodgio da f, 
do prodgio da prpria floresta criando uma pequena capela verde para a estranha religio brasileira, to mesclada com santos catlicos que ningum jamais conseguiu 
destrinchar seus variados rituais.
    Martin fazia perguntas. H quanto tempo tinham estado l? O que aquilo significava?
    Antnio lutava com as palavras... Um ritual de purificao.
    - Isso salvaria voc! - murmurei. Falava com Stefan,  claro.
    No houve resposta.
    Ao nosso redor s a floresta, que cintilou quando a nuvem de chuva pairou sobre ela. Apertei com fora os braos ao redor da capa do violino, para que no entrasse 
qualquer umidade, e fitei os tocos das velas e o crculo dos estranhos sacos de plstico fortemente azuis. E por que no sacos azuis? Por que no? Os candeeiros 
dos templos na Roma antiga eram diferentes dos candeeiros de uma residncia? Sacos azuis de arroz, de milho... para espritos. O crculo ritual. As velas.
    - Vocs sabem, uma pessoa fica... no centro - dizia Antnio, revirando seu ingls. - Talvez para ser purificada.
    Nenhum rumor de Stefan. Nenhum sussurro. Olhei atravs do emaranhado verde acima de mim. A chuva me cobria silenciosamente o rosto.
    -  hora de ir embora - avisou Martin. - Voc tem de dormir, Triana. No esquea de nossos anfitries. Tm a incrvel pretenso de apanh-la cedo no hotel. Parecem 
extremamente orgulhosos desse Teatro Municipal.
    -  uma casa de pera - explicou Antnio, num tom suave - e bastante grande. Muitas pessoas gostam realmente de conhec-lo. E no concerto vai estar apinhado 
de gente.
    - Sim, sim, quero ir cedo - respondi. - Est coberto de mrmore, um belo mrmore, no ?
    - Ah, ento j sabe alguma coisa sobre ele  - disse Antnio.  esplndido.
    O carro nos levou de volta debaixo de chuva.
    Antnio riu e confessou que, embora servisse h anos de guia em excurses como aquela, nunca tinha visto a floresta tropical debaixo de chuva.1* Tambm para 
ele aquilo era um verdadeiro espetculo. Eu estava rodeada de beleza e no sentia mais medo, pois achei que sabia o que Stefan pretendia fazer. E um pensamento, 
quase um plano, ia tomando forma em minha mente.
    Ele me ocorrera pela primeira vez em Viena, quando toquei para as pessoas do Hotel Imperial.
    No ia dormir.
    A chuva caa forte sobre o mar.
    Tudo ficou cinzento e depois escuro. Luzes brilhantes definiam os amplos limites da avenida, em Copacabana.
    Talvez tenha cochilado um pouco no quarto com ar refrigerado, pintado em tons pastel, vendo a luz pardacenta do abajur ofuscar as janelas.
    Fiquei horas deitada naquele quarto da sute presidencial. Sob plpebras mal fechadas, espreitava um pedao de mundo, que parecia real, onde um relgio fazia 
tique-taque.
    Passara os braos em volta do violino e me enroscara sobre ele. Segurava-o como minha me me segurava, como eu segurava Lily, como eu e Lev, e eu e Karl, nos 
aninhvamos um no outro.
    Um dia, em pnico, quase peguei o telefone para chamar Lev, o marido de que to estupidamente abrira mo, o marido que j estava legalmente casado com outra. 
No, aquilo s o faria sofrer, ele e Chelsea.
    Pense nos trs garotos. Alm disso, o que me fez pensar que Lev voltaria? Ele no deixaria Chelsea e os filhos. No devia fazer isso, e eu no devia mais pensar 
no assunto, muito menos esperar que a coisa acontecesse.
    Karl, fique comigo. Karl, o livro est em boas mos. Karl, o trabalho est feito. Trouxe de volta o vulto fatigado e confuso da escrivaninha. "Descanse, Karl, 
todos os papis esto em ordem agora."
    Houve uma pancada alta.
    Acordei.
    Devia ter adormecido.
    Atrs das janelas, o cu era limpo e negro.
    Uma janela tinha se escancarado no living ou na sala de jantar da sute. Eu a ouvia balanar, bater. Era a janela do living, a janela que ficava bem no centro 
do hotel.
    De meias curtas, com o violino nos braos, atravessei o quarto escuro, entrei no living e senti o golpe forte e purificador do vento. Olhei para fora.
    O cu estava limpo e salpicado de estrelas. A areia era dourada sob as luzes eltricas que cobriam toda a extenso da avenida.
    O mar rugia na vastido da praia.
    O mar rolava em ondas vtreas, incontveis, caindo umas sobre as outras. Por um instante, sob as luzes, o enrolar de cada onda ficou quase verde, mas de repente 
a gua se tornou escura e a grande dana das figuras de espuma despontou em minha frente.
    Vi acontecer uma, duas vezes. Vi acontecer  minha direita,  esquerda. Olhe! Estava acontecendo por toda a praia, com cada onda.
    Observava grandes conjuntos de danarinos, um atrs do outro. Iam se erguendo a cada onda, com os braos estendidos para a costa, ou para as estrelas, ou para 
mim, eu no sabia.
    s vezes a onda era to extensa, de espuma to densa, que se abria em oito ou nove formas geis e graciosas, com cabeas, braos, cinturas que se curvavam antes 
de afundarem e o prximo grupo rolar sobre eles.
    - Vocs no so as almas dos condenados ou dos que receberam a salvao - eu disse. - Oh, vocs so apenas belas! Belas como na noite em que as vi num sonho 
proftico. Como a floresta tropical na montanha, como as nuvens cruzando a face de Deus.
    "Lily, voc no est aqui, minha querida, j no est presa a qualquer lugar, nem mesmo a um lugar to bonito quanto este. Eu ia sentir se voc estivesse aqui, 
no ia?"
    E veio de novo aquele pensamento, aquele plano quase terminado - aquela prece quase concebida para rechaar Stefan.
    Puxei uma cadeira e sentei perto da janela. O vento jogava meu cabelo para trs.
    Cada onda engendrava os danarinos, e era sempre diferente, cada grupo de ninfas era diferente, como eram diferentes meus concertos (se existia um padro comum 
a todos eles, s os gnios da teoria do caos poderiam dizer). De vez em quando um danarino chegava muito alto, como se um par de pernas o estivesse preparando para 
um longo salto.
    Vi aquilo at de manh.
    No precisava dormir para tocar. E de qualquer modo estava louca. Ficar ainda mais louca s poderia ajudar.
    Amanheceu e a veloz agitao recomeou. As pessoas encheram a rua, as lojas abriram as portas, apareceram os nibus. Gente nadava nas ondas. Continuei na janela, 
com a capa do violino jogada no ombro.
    Um barulho me assustou.
    Virei-me num salto. Mas era apenas o boy que acabara de entrar. Trazia um buqu de rosas nos braos.
    - Bati vrias vezes, madame.
    - No faz mal, no ouvi por causa do vento.
    - H jovens l embaixo. A senhora significa tanto para eles. Vieram de muito longe para v-la. Desculpe, madame.
    - No se preocupe, no me incomodo. Vou segurar as rosas e acenar. Vo me reconhecer quando me virem com as rosas. E eu vou conhec-los.
    Fui at a janela.
    O sol brilhava na gua. Num instante os descobri, trs moas altas e magras, dois rapazes. Esquadrinhavam a fachada do hotel, usando as mos para proteger os 
olhos do sol. Um deles viu. Viu a mulher com franja e cabelos castanhos segurando as rosas vermelhas.
    Levantei a mo para acenar. Dei adeus, adeus. Vi-os pular de um lado para o outro.
    - H uma msica brasileira, um clssico - falou o boy. Ele no parava de mexer no pequeno refrigerador ao lado da janela. Conferia a temperatura e o que havia 
para beber.
    Os garotos l embaixo saltavam de alegria. Atiravam beijos.
    Sim, beijos.
    Eu atirava beijos.
    Recuei. Atirando beijos at sentir que a coisa tinha perdido a graa. Ento fechei a janela. Virei para o lado com as rosas nos braos e o violino como uma corcunda 
nas costas. Meu corao saltava pela boca.
    - A msica... - disse ele. - Acho que tambm era famosa na Amrica. Diz assim: "Rosas, rosas, rosas."
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
  
  18
  
  
 Era o corredor com a chave grega em mosaico no cho, as largas e grossas volutas de ouro, o mrmore marrom.
    - Muito bonito, sim, oh, Deus - exclamou Roz -, nunca tinha visto um lugar assim. Tudo isso  mrmore? Olhe, Triana, o mrmore vermelho, o verde, o branco...
    Eu sorria. Sabia. Via.
    - Estava guardado a sete chaves em sua memria - sussurrei para meu secreto fantasma. - Quando correu para minha cama no tinha a menor inteno de me obrigar 
a ver isso, no ?
    Os outros devem ter achado que eu estava cantarolando. Stefan no me respondeu. E senti uma pena terrvel dele. Oh, Stefan!
    Estvamos parados embaixo da escada.  esquerda e  direita ficavam as figuras de bronze. Os parapeitos eram de um mrmore verde e lmpido como o mar sob o sol 
da tarde, os corrimes eram quadrados, grossos, os degraus se ramificavam como provavelmente acontece em todos os teatros de pera. Comeamos a subir e vimos l 
de cima as portas de entrada, trs portas com pesadas vidraas sob bandeiras raiadas em semicrculo.
    - As pessoas viro realmente hoje  noite?
    - Sim, sim - respondeu Mariana, a mais mida -, elas viro. A lotao est esgotada. J temos gente esperando do lado de fora. Por isso  que entramos por baixo, 
pela porta lateral. E temos uma surpresa para voc, uma surpresa especial.
    - O que pode ser mais grandioso que isto? - perguntei.
    Subimos juntas a escada. Katrinka ficou subitamente deprimida, triste. Vi seus olhos encontrarem os de Roz.
    - Se ao menos Faye estivesse aqui! - disse ela.
    - No diga isso - falou Roz. - S vai faz-la pensar em Lily.
    - Senhoras - declarei -, fiquem tranqilas, quando estou acordada no paro de pensar em Lily e em Faye.
    Katrinka ficara de repente abalada e Martin se aproximara para pr os braos em volta dela, para no deixar que insistisse no assunto, para de alguma forma, 
enquanto fingia lhe prestar apoio, envergonh-la e disciplin-la.
    Quando viramos e comeamos a subir pelo lado esquerdo, vi o grande mezanino e as trs magnficas janelas envidraadas.
    A voz baixa de Mariana me dava os nomes das pinturas, exatamente como fizera no sonho. Caminhando a meu lado, a simptica Lucrcia sorria e tambm fazia comentrios, 
pois cada pintura tinha um significado na msica, na poesia ou no teatro.
    - E ali, l embaixo, h murais naquele salo - comentei.
    - Sim, sim, e no da outra ponta, voc tem de ver...
    Parei vendo o sol se derramar por aqueles retratos pintados em vidro, apreciando as beldades rechonchudas e seminuas, cercadas por grinaldas e cortinas, erguendo 
emblemas que indicavam sua significao.
    Levantei, levantei bem a cabea e vi as pinturas l no alto. Achei que minha alma estava morrendo silenciosamente dentro de mim e s importava agora o que tinha 
importncia no sonho. No importava como tinha chegado quele lugar nem por qu, s que o lugar existia. Algum o tirara do nada e l estava o lugar dos sonhos, 
tranqilo  nossa espera, com sua fantstica grandeza.
    - Gosta dele? - Antnio perguntou.
    - Mais do que conseguiria dizer - respondi com um suspiro. - Veja, ali em cima, as placas redondas na parede, os rostos de bronze, aquele  Beethoven.
    - Sim, sim - disse Lucrcia num tom gracioso -, esto todos a, os grandes compositores de pera. Verdi, est vendo? Ah, est vendo Mozart? Est vendo ali o... 
o... dramaturgo...
    - Goethe.
    - Mas vamos, no queremos que se canse. Podemos lhe mostrar mais alguma coisa amanh. Venha ver nossa surpresa especial.
    Risos ao redor. Katrinka enxugou o rosto, olhando furiosa para Martin. Glenn sussurrou para Martin deix-la em paz.
    - Eu mesmo fiquei a noite inteira acordado pensando em Faye - retrucou Glenn. - Deixe que ela chore.
    - Acho que agora voc  que est querendo chamar ateno - disse Martin.
    Peguei a mo de Katrinka. Senti que ela se agarrava a mim.
    - Que surpresa? - perguntei a Lucrcia e Mariana. - O que , minhas queridas?
    Descemos juntos a magnfica escada, entre o brilho das vidraas e do mrmore, entre detalhes e mais detalhes de ouro, tudo incorporado a um dossel de esplndida 
harmonia. Era uma coisa feita pelo homem, mas parecia rivalizar com o prprio mar com seus fantasmas inquietos, saltitantes, com a prpria floresta sob a chuva, 
onde as bananeiras desciam, desciam, desciam pelas encostas.
    - Por aqui, venham todos, venham por aqui... - comandou Lucrcia. - Vo ter uma incrvel surpresa.
    - Acho que sei o que  - disse Antnio.
    - Mas no  s isso que est pensando.
    - Em que est pensando? - perguntei.
    - Oh, no mais belo restaurante do mundo, e fica aqui, embaixo do teatro de pera.
    Acenei com a cabea e sorri.
    O palcio persa.
    Tivemos de sair do teatro para entrar no restaurante e, de repente, nos vimos cercados pelo azulejo azul vitrificado, pelas colunas com touros abatidos, de patas 
amarradas, por Dario na fonte matando o leo, por todas aquelas prateleiras onde os copos cintilavam como cintilavam os cristais nas estantes do palcio em chamas 
de Stefan.
    - Agora, se no se importam, deixem-me chorar - disse Roz. -  minha vez de chorar. Olhem, esto vendo a luminria persa? Oh, Deus, quero ficar aqui para sempre.
    - Sim, na floresta - murmurei. - No velho hotel em runas, uma parada antes dos ps do Cristo.
    - Que chore  vontade - replicou Martin de mau humor, olhando para a esposa.
    Mas Katrinka estava radiante.
    - Oh,  majestoso! - disse ela.
    - A inteno era reproduzir o palcio de Dario, esto vendo?
    - Olhe, as pessoas comem tranqilamente no meio de tudo isso - disse Glenn em voz baixa. - D uma olhada nas mesas, esto tomando caf e comendo tortas.
    - Tambm queremos tomar caf e comer tortas.
    - Mas primeiro vou mostrar a verdadeira surpresa. Venham por aqui - disse Lucrcia fazendo sinal. Eu j sabia o que era.
    J sabia quando passamos o velho balco de madeira trabalhada e entramos no corredor. Ouvi os enormes motores.
    - Fornecem a refrigerao e o aquecimento do prdio - explicou. - So muito velhos.
    - Deus, aqui cheira mal - comentou Katrinka.
    Vi o azulejo branco, passamos pelos armrios de metal. Circundamos os grandes motores, com suas antigas e gigantescas hlices, como os motores dos velhos navios. 
Continuamos seguindo; a conversa ao nosso redor era amena e agradvel.
    Vi o porto.
    - Nosso segredo! - disse Mariana. -  um tnel subterrneo!
    - Verdade?  isso mesmo? - exclamei, rindo com prazer, confirmando minha expectativa. - Onde vai dar?
    O porto se aproximava. Minha alma doa. A escurido estava l, do outro lado das barras enferrujadas de ferro onde pousei a mo direita, e de onde a tirei suja, 
suja.
    Havia um brilho de gua no cho de cimento.
    - Vai dar num palcio. Num palcio que fica bem do outro lado da rua. Antigamente, quando o teatro de pera comeou a funcionar, era possvel ir e vir pelo tnel 
secreto.
    Encostei a testa nas barras de ferro.
    - Adoro isto, no vou voltar para casa - disse Roz. - Ningum me far voltar. Triana, quero dinheiro para ficar aqui.
    Glenn sorriu e balanou a cabea.
    - Pode pegar o dinheiro, Roz - assenti. Olhei no escuro.
    - O que est vendo? - perguntou Katrinka.
    - No sei!
    - Bem,  frio, mido e h alguma coisa pingando - falou Lucrcia.
    Ser que ningum via o homem estendido com os olhos abertos e o sangue escorrendo dos pulsos? Ningum via o alto fantasma de cabelo preto, de braos cruzados, 
recostado na parede escura, encarando todos ns?
    Ningum via nada? S Triana Becker, a louca?
    "Continue. V em frente. Suba esta noite no palco. Toque meu violino. Mostre sua feitiaria perversa."
    O moribundo se ajoelhou, atordoado, perplexo, o sangue pingando no ladrilho. Depois ficou de p para se juntar ao companheiro, quele fantasma que o fizera perder 
o juzo e depois se aproximara de mim, aquele fantasma que trouxera  superfcie a msica dele, composta com as memrias mais ntidas de sua alma, uma alma de tecido 
delicado, que fora obrigada a deixar que tudo transbordasse.
    No. Fora um indcio de pnico.
    Os outros conversavam. Era hora das tortas, do caf, do descanso.
    Sangue. Correndo dos pulsos do morto. Correndo pela cala quando ele tropeou em minha direo.
    Ningum mais via.
    Olhei atrs do cadver que cambaleava. Vi agonia no rosto de Stefan. To jovem, to perdido, to desesperado. Com tanto medo de, mais uma vez, sofrer uma completa 
derrota.
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
  
  19
  
  
 Eu sempre ficava sria antes de um concerto. Por isso ningum reparou. Ningum disse uma palavra. Havia tanta generosidade e opulncia... Velhos camarins, banheiros 
com bonitos azulejos art deco, murais com nomes desconhecidos e murais cujo significado j tinham feito a gentileza de me explicar.
    A tranqilidade tomou conta de mim. Sentei com o violino no grande e incrvel templo de mrmore. Esperei. Ouvi o grande teatro comeando a encher. Um leve trovo 
na escadaria. O rumor crescente das vozes.
    De repente ouvi a pancada de meu corao, vaidoso e vido... para tocar.
    E o que vai fazer aqui? O que for possvel, pensei. Ento se repetiu um pensamento, uma imagem que talvez eu devesse aprisionar em minha mente, como a pessoa 
aprisiona um Mistrio do Rosrio para diz-lo e afugent-lo depois - a imagem da Coroa de Espinhos. Nada que Stefan pudesse fazer conseguiria me debilitar. Mas o 
que era aquele terrvel e doloroso amor por ele, aquela tristeza terrvel, aquela pena dele, to profunda, to incmoda quanto a pena que eu sentira de Lev, de Karl 
ou de qualquer um dos outros?
    Encostei minha cabea na cadeira de veludo, deixando a nuca rolar na moldura de madeira e segurando a capa do violino. Gesticulei dizendo que no queria gua, 
nem caf, nem alguma coisa para comer.
    O auditrio j estava cheio, dizia Lucrcia.
    - Recebemos muitos donativos.
    - E recebero mais - retruquei. -  um lugar magnfico; nunca deixem que entre em runa. No este teatro, com tanta criatividade.
    Com as vozes ligeiramente em surdina, Glenn e Roz no paravam de falar sobre a mistura do colorido tropical com o formato barroco, sobre a combinao de esvoaantes 
e sofisticadas ninfas europias com uma arrojada complacncia ao nvel dos mrmores, dos desenhos decorativos, dos pisos de parquete.
    - Gosto muito... das roupas de veludo que est usando - comentou a amvel Lucrcia. - O poncho e a saia so duas peas muito bonitas, miss Becker.
    Concordei com a cabea e murmurei um agradecimento.
    Agora estava na hora de atravessar os fundos do palco, um espao melanclico, imenso, sombrio. Estava na hora de escutar meus ps batendo no tablado e levantar, 
levantar a cabea para as cordas, as roldanas, as cortinas no alto, as rampas, os homens olhando com ateno para baixo, e crianas, sim, at crianas l em cima, 
como se tivessem entrado furtivamente no teatro e se escondido ali.  direita e  esquerda as pavorosas coxias estavam cheias de grandes cenrios de pera. Colunas 
pintadas. Tudo que se via, por mais que parecesse real, verdadeira pedra, era apenas pintura.
    E assim o mar era verde quando a onda quebrava e o parapeito de mrmore, tambm pintado de verde, parecia muito com o mar.
    Espiei pela cortina.
    O primeiro piso estava lotado. Cada poltrona de veludo vermelho continha um ocupante impaciente. Programas (meras anotaes sobre o fato de ningum saber o que 
eu ia tocar, como ia tocar ou quando ia parar, coisas assim), programas vibravam no ar. E as jias refletiam as luzes do lustre. E trs grandes balces se erguiam 
um sobre o outro, todos transbordando de vultos que avanavam com dificuldade para seus lugares.
    Havia gente formal, vestida de preto, havia vestidos alegres, havia gente com roupas de trabalhador, l no alto.
    Nos camarotes  esquerda e  direita do palco estavam as autoridades a quem eu fora apresentada, embora no me lembrasse de um nico nome. Nada havia a lembrar 
e eu no esperava fazer mais do que me propusera a fazer, mais do que aquilo que s eu podia fazer:
    Tocar a msica. Tocar durante uma hora.
    D isso a eles. Depois iro se derramar pelo mezanino. Vo falar sobre a "sofisticada virtuose", como eu passara a ser conhecida, ou sobre a americana de estilo 
selvagem, ou sobre a mulher atarracada, coberta com um veludo brilhante, lembrando muito uma criana prematuramente envelhecida, arranhando as cordas como se lutasse 
com a msica que tocava.
    Nenhum vestgio de um tema. Nenhum vestgio de uma direo. S aquele pensamento em minha mente, um pensamento que brotava de algum lugar sob a forma de msica.
    S a admisso, por meu mais profundo eu, do que j estava espalhado dentro de mim, daquelas Contas do Rosrio de minha vida, daqueles estilhaos de morte, culpa, 
arrebatamento e raiva, daqueles cacos de vidro sobre os quais eu me deitava toda noite e que me faziam acordar com cortes nas mos. Aqueles meses de msica eram 
um intervalo de sonho que nenhum ser humano poderia esperar que durasse, que nenhum ser humano tinha direito de esperar do Cu.
    Sorte, fortuna, fama, destino.
    Atrs da beirada da enorme cortina do palco, contemplei os rostos na primeira fila.
    - E esses sapatos de camura, esses sapatos pontudos, eles no machucam? - perguntou Lucrcia.
    - E um momento pssimo para mencionar isso - falou Martin.
    - No,  apenas uma hora no palco - respondi.
    O rumor do teatro abafava nossas vozes.
    - D-lhes 45 minutos - disse Martin -, e ficaro mais do que satisfeitos. Todo o dinheiro est indo para a fundao que mantm a casa.
    - Qual , Triana - replicou Glenn num tom indolente -, no h ningum que no queira dar palpite.
    - Pode crer, irmo - assenti com um riso baixo.
    Martin no ouvira. Estava tudo bem. Katrinka sempre ficava tremendo nesses momentos. Roz tinha se instalado l atrs, na coxia. Montara como um caubi numa cadeira, 
com o encosto para a frente, cruzando os braos sobre ele e abrindo confortavelmente as pernas enfiadas na cala preta. Era assim que ia me ouvir. Por fim, toda 
a famlia recuou para as sombras.
    Uma calmaria parecia ter envolvido os tcnicos.
    Senti o ar frio produzido pelas mquinas na parte de baixo.
    Gente to bonita, rostos to bonitos, indo do mais louro ao mais negro, rostos com uma configurao de traos que eu nunca vira em parte alguma. E tantos rostos 
de gente jovem, de gente muito jovem, como o grupo que trouxera as rosas.
    No havia orquestra para alertar e, de repente, sem pedir autorizao a ningum, sem qualquer aviso, sem ningum para me ver no escuro alm do homem da iluminao 
com o spot superior, caminhei para o centro do palco.
    Meus sapatos fizeram um som cavernoso nas tbuas empoeiradas.
    Caminhei devagar, dando tempo para o spot descer e cair sobre mim.
    Fui at a beira do palco e olhei para os rostos enfileirados  minha frente.
    Ouvi o silncio cair sobre o teatro, como se todo rudo tivesse sido urgentemente dragado dali.
    Com algumas tosses, com alguns sussurros finais, todo barulho cessou.
    Virei-me e ergui o violino.
    E ento, com um choque, percebi que no estava absolutamente no palco, mas no tnel. Podia cheir-lo, podia senti-lo, podia ver. As grades estavam bem ali.
    Agora seria a grande luta. Curvei a cabea contra o que sabia que era o violino, no importava o feitio que o tirava da frente de meus olhos, no importavam 
os sortilgios que me arrastavam para aquele tnel sujo, com sua gua empoada.
    Levantei o arco que eu sabia que tinha de estar em minha mo.
    "Coisas-fantasmas? Os brinquedos de um esprito? Como voc sabe?"
    Iniciei com um grande golpe para baixo, caindo no que se tornara para mim o estilo russo, de longe o mais doce e o que abria um espao maior para a tristeza.
    Naquela noite, aquele estilo teria de expandir e carregar a onda de melancolia. Ouvi as notas claras, cintilantes, caindo como moedas no escuro.
    Mas via o tnel.
    Uma criana caminhava em minha direo atravs da gua, uma criana de cabea calva, com um vestido rodado e cheio de enfeites.
    - Voc est condenado, Stefan - murmurei sem mexer os lbios. - Toco para voc, minha bonita filha.
    - Mame, me ajude.
    - Toco para ns, Lily.
    Ela estava parada no porto, apertando o rostinho contra a ferrugem das grades de ferro, agarrando-as com os dedinhos gorduchos. Seu lbio se espichou.
    - Mame! - gritou angustiada. Balbuciou como fazem os bebs e as
crianas pequenas. - Mame, sem ele eu nunca a teria encontrado! Mame, preciso de voc!
    Mau, esprito mau. A msica entrou num tom de protesto e sedio. Deixe passar, deixe a raiva passar.
    Sabe muito bem que  mentira, seu esprito idiota, no  minha Lily.
    - Mame, ele me trouxe para voc! Me, ele me encontrou. Me, no faa isto comigo, mame!
    - Mame! Mame!
    A msica se precipitava, embora meus olhos estivessem arregalados para um porto que eu sabia que no estava l, para uma imagem que eu sabia que no estava 
l, mas que era to dolorosamente perfeita que me deixava sem flego. Fiz fora para respirar. Fiz o ar entrar com um golpe do arco. Toque sim, toque por Lily, como 
se Lily estivesse realmente ali, como se Lily pudesse voltar, como se pudssemos virar as pginas e, sim, voltar como se a coisa no estivesse acabada.
    Karl apareceu. Caminhou devagar na direo de Lily. Pousou as mos em seus ombros. Meu Karl. J magro devido  doena.
    - Triana - disse ele num murmrio spero. Sua garganta j fora machucada pelos tubos de oxignio que ele tanto odiava e que, por fim, passaria a recusar. - Triana, 
como pode ser to insensvel? Posso vagar, sou um homem, j estava morrendo quando nos encontramos, mas esta  sua filha.
    No estava l! No estava, embora a msica fosse real. Podia ouvi-la e parecia que jamais eu conseguira chegar quelas alturas. Subia a montanha, como se a montanha 
fosse o Corcovado, e olhava por entre as nuvens.
    Mas ainda os via.
    E agora meu pai estava ao lado de Karl.
    - Meu bem, desista. No pode fazer isso.  muito feio,  pecado,  errado. Triana, desista. Desista. Desista!
    - Mame - falou minha menina com uma careta de dor. O vestido rodado, cheio de enfeites, foi o ltimo vestido que passei para ela, para ela no caixo. Meu pai 
tinha dito que iam...
    No... As nuvens atravessam agora a face do Cristo e no importa se Ele  a Palavra Encarnada ou uma esttua feita amorosamente de pedra, no interessa, o que 
interessa  a postura - os braos abertos, para receber os pregos ou para abraar, no sei...
    Assombrada, vi minha me. Moderei o andamento; estava implorando alguma coisa a eles, estava falando com eles, estava acreditando neles, cedendo a eles?
    Ela se aproximou do porto de ferro, com o cabelo preto puxado para trs do jeito que eu gostava, com os lbios apenas tocados pelo mais esbranquiado batom, 
exatamente como se fosse real. Havia, no entanto, um dio sinistro em seus olhos. dio.
    - Voc  egosta, voc  perversa,  detestvel! - ela disse. - Acha que me fez de tola? Acha que no me lembro? Cheguei chorando naquela noite, assustada, e 
voc tambm estava com medo, agarrada a meu marido no escuro, e ele me disse para ir embora, e voc me ouvia chorar. Acha que mesmo a me pode perdoar isso?
    De repente um soluar assustado brotou de Lily. Ela se virou e levantou os punhos.
    - No bata na mame!
    Oh, Deus. Tentei fechar os olhos, mas Stefan estava bem ali, em minha frente, com as mos no violino.
    No podia arranc-lo de mim, nem sacudi-lo, nem fazer com que eu errasse alguma nota. Continuei tocando aquele caos, aquele horror, aquela...
    "Aquela verdade, diga logo. Diga logo. So pecados comuns, s isso, ningum est dizendo que espatifou-os com uma bomba. Voc no  uma criminosa a ser caada 
em ruas escuras, nem algum que goste de perambular entre os mortos. So pecados comuns, e  isso que voc , comum e suja, pequena, sem este talento que roubou 
de mim, sua vagabunda, sua puta! Devolva o que me pertence."
    Lily soluava. Correu para ele, bateu nele. Puxou-lhe o brao.
    - Pare com isso, deixe minha me em paz. Mame! - Ela sacudia os
braos.
    Por fim olhei bem nos olhos dela, olhei bem nos olhos dela e toquei aqueles olhos, toquei, sem levar em conta o que ela dizia, e ouvi as vozes de todos eles, 
vi-os caminhar, e levantei a cabea. No tinha uma sensao de andamento, s de que a msica se movia.
    No vi o teatro que to desesperadamente queria ver; no vi o grupo de fantasmas que to desesperadamente ele colocara  minha frente; olhei para o alto, olhei 
para longe e contemplei a floresta tropical em sua chuva celestial. Vi as rvores sonolentas, vi o velho hotel, vi e toquei sua msica e a msica dos galhos chegando 
at as nuvens, do Cristo com os braos abertos, das arcadas do velho hotel, das janelas com postigos amarelos manchados de chuva e chuva e chuva.
    Toquei tudo isso, e depois o mar, oh, sim, o mar, no menos assombroso, aquele mar se agitando, engrossando, reluzente, aquele mar impossvel com seus danarinos-fantasmas.
    -  isso que vocs so! Oh, se fossem mesmo reais...
    - Mameee! - ela gritou. Gritou como se estivesse sendo insuportavelmente ferida por algum.
    - Triana, pelo amor de Deus! - exclamou meu pai.
    - Triana - disse Karl. - Que Deus a perdoe.
    Ela gritou de novo. No pude suportar aquela melodia do mar, aquela convocao das ondas triunfantes, e ela se fundiu novamente em raiva, saudade e exaltao; 
oh, Faye, onde voc est, como pde ir embora; oh, Deus, Pai, voc nos deixou sozinhas com a me, mas no vou... no vou... Mame...
    Lily gritava de novo!
    Eu ia perder o juzo.
    A msica se encapelava.
    A imagem. Houve um pensamento, um simples pensamento no de todo formado, um pequeno pensamento. Ocorreu naquele instante, veio acompanhado de uma feia viso 
do sangue brilhando no pano branco, no pano cado ao lado do aquecedor chamejante, sangue menstrual, sangue coalhado de formigas, e do talho sangrando na cabea 
de Roz quando eu bati a porta depois que o rosrio rompeu, e do sangue que eles no paravam, no paravam de tirar do pai, de Karl, de Lily, e Lily chorando, Katrinka 
chorando, e o sangue da cabea da me quando ela caiu, o sangue, o sangue nas roupas de cama e no colcho quando ela no usava absolutamente nada e sangrava, sangrava 
sem cessar.
    E o pensamento era o seguinte:
    Voc no pode negar os erros. No pode negar o sangue que est em suas mos ou em sua conscincia! No pode negar que a vida est cheia de sangue, que a dor 
 sangue, que o erro  sangue.
    Mas h sangues e sangues.
    S um certo sangue vem das feridas que infligimos a ns mesmos e uns aos outros. Flui brilhante e acusador, ameaa levar consigo a prpria vida do ferido, este 
sangue... Como cintila, como se comemora este sangue sagrado, sangue que foi Sangue de Nosso Senhor, que foi o Sangue dos Mrtires, o sangue no rosto de Roz e o 
sangue em minhas mos (o sangue dos erros).
    Mas h outro sangue.
    H o sangue que flui de um tero de mulher. E que no  o sinal da morte, mas a marca de uma fonte grande e frtil - um rio de sangue que pode, eventualmente, 
formar de sua substncia seres humanos completos;  um sangue vivo, um sangue inocente, e isso era tudo que havia naquele pedao de pano - miservel, imundo e fervilhando 
de formigas - s aquele sangue, fluindo, fluindo, como se uma mulher estivesse deixando escapar toda sua fora secreta e misteriosa de gerar filhos, todo o poderoso 
fluido que pertence a ela e s a ela.
    E era com este sangue que eu sangrava naquele momento. No com o sangue das feridas que ele me infligia, no com o sangue de seus golpes e chutes, no com o 
sangue de seus dedos arranhando e tentando pegar o violino.
    Era com esse sangue que eu tocava, deixando que a msica fosse esse sangue, jorrasse como esse sangue. Este era o sangue que eu imaginava no clice erguido durante 
a Missa, na hora da Consagrao; o sangue vigoroso, doce e feminino, o sangue inocente que podia, na poca certa, formar o recipiente de uma alma, este sangue dentro 
de ns, o sangue que engendra, o sangue que cria, o sangue que reflui e flui, sem sacrifcio ou mutilao, sem perda ou runa.
    Escutava agora minha prpria msica. Escutava e parecia que a luz ao meu redor tinha ficado absurdamente mais forte. Eu no queria uma luz to brilhante, mas 
quanto fascnio naquela luz, uma luz que subia at os refletores que eu sabia existirem no alto!
    Abrindo os olhos, no vi apenas o grande salo cheio de filas e filas de rostos. Vi tambm Stefan, a luz estava bem atrs dele, que me estendia os braos.
    - Olhe, Stefan! - falei. - Olhe para trs, Stefan! Stefan!
    Ele se virou. Havia um vulto na luz, um vulto baixo, atarracado, fazendo sinal para Stefan com grande impacincia: venha! Dei  msica um ltimo impulso.
    "Stefan, v! A criana perdida  voc! Stefan!"
    Eu no podia mais tocar.
    Stefan cravou os olhos em mim. Praguejou. Mostrou-me os punhos cerrados. Mas sua expresso se alterou. Sofreu uma completa, aparentemente inconsciente transformao, 
e ele me encarou com olhos arregalados, assustados.
    A luz ficou bem mais fraca quando ele se aproximou, a luz virou uma sombra sinistra e continuou se esvaindo enquanto ele pairava sobre mim. Acabou se transformando 
numa escurido no mais substancial que as sombras nas coxias.
    A msica estava acabada.
    Vi a platia se levantar em bloco. Outra vitria. Como, meu Deus? Como? Trs fileiras de p bastariam para remunerar aquela algazarra do violino, que era minha 
nica linguagem.
    O salo tremia com os aplausos.
    Outra vitria.
    Nenhuma viso ou rudo daqueles fantasmas imaginrios.
    Algum se aproximara para me tirar do palco. Eu fitava os rostos, acenando com a cabea. No decepcione, arrebate a platia com os olhos, em toda a extenso 
do teatro, da esquerda  direita. Erga os olhos para os balces mais altos, depois para os camarotes, no levante os braos num gesto de vaidade, apenas se curve, 
torne a se curvar e murmure agradecimentos. Eles vo entender. Agradecimentos de minha alma sangrando.
    Vi-o num ltimo e fosco lampejo de luz, perto de mim, confuso, curvado, quase invisvel, sumindo. Uma coisa infeliz, miservel. Mas o que era aquele ofuscamento? 
Aquela estranha surpresa em seus olhos? Ele se fora.
    Fui agarrada mais uma vez por outras pessoas, oh, felizarda, garota de sorte, ser possuidora de mos to prestativas, to generosas. Oh ventura, fortuna, fama 
e destino!
    "Stefan, voc podia ter entrado na luz. Stefan, voc devia ter ido!"
    Chorei, chorei nos bastidores.
    O que todo mundo considerou absolutamente normal. As cmeras disparavam, os reprteres escreviam. Era total a paz do meu corao ante aqueles que eu perdera... 
Com exceo de Faye... e de Stefan.
    
    
    
    
    
    
    
  
  20
  
  
 Fui at o teatro Amazonas, em Manaus, porque era um lugar especial, que eu tinha visto num filme. Fitzcarraldo era o nome do filme, feito por um diretor alemo, 
Werner Herzog, hoje falecido. Na poca infernal que se seguiu  morte de Lily, eu e Lev passamos uma noite calma no cinema, sem brigar, um fazendo realmente companhia 
ao outro.
    No me lembro da trama, s da casa de pera, das histrias que ouvira sobre o boom da borracha e do luxo do teatro, que era esplndido, embora nada na terra 
pudesse se comparar quele palcio no Rio de Janeiro.
    Tinha de dar imediatamente outro concerto. Era preciso. Tinha de ver se os fantasmas voltariam. Tinha de ver se a coisa estava acabada.
    Houve uma pequena controvrsia antes de partirmos para o estado do Amazonas.
    Grady telefonou e insistiu para que voltssemos a Nova Orleans.
    No nos dizia por qu, mas repetia sem parar que devamos voltar para casa. Por fim, Martin pegou o fone e, com seu jeito quase desaforado, exigiu que ele explicasse 
o motivo daquilo.
    - Olhe, se Faye est morta, pode nos dizer. Simplesmente diga. No
precisamos voar at Nova Orleans para saber da notcia. Conte agora.
    Katrinka estremeceu.
    Aps uma longa pausa, Martin tapou o fone.
    -  sua tia Anna Belle.
    - Gostamos muito dela - disse Roz -, vamos lhe mandar um monte de flores.
    - No, ela no morreu. Ela diz que Faye lhe telefonou.
    - Tia Anna Belle? - indagou Roz. - Tia Anna Belle fala com o Arcanjo Miguel quando est tomando banho. Pede que ele a ajude a no cair na banheira e quebrar 
novamente os quadris.
    - Passe o telefone - pedi.
    Todos se aproximaram.
    Era o que eu suspeitava. Tia Anna Belle, j ento com mais de 80 anos, achou que tinha recebido uma chamada no meio da noite. Nenhum nmero para contato. Nem 
lugar de origem.
    - Disse que mal podia ouvir a menina, mas tinha certeza que era Faye. Mensagem? No havia nenhuma.
    - Quero ir j para casa - declarou Katrinka.
    Discuti muito com Grady. Uma voz truncada, supostamente de Faye, nenhum recado, nenhuma origem, nenhuma informao. A conta de telefone? A caminho. Mas a conta 
estava uma baguna porque tia Anna Belle perdera seu carto e algum em Birmingham, no Alabama, fizera uma poro de chamadas com ele.
    - Bem, mande algum tomar conta disso - falou Martin. -  preciso ficar atento ao telefone de tia Anna Belle e ao telefone de Triana, para o caso de Faye ligar.
    - Vou para casa - disse Katrinka.
    - Para qu? - perguntei. Pousei o fone no gancho. - Para ficar dia e noite sentada ao lado do telefone, achando que ela vai ligar?
    Minhas irms me olharam.
    - J sei - murmurei. - No sabia antes, mas agora sei. Estou com muita raiva dela.
    Silncio.
    - Por ela ter feito o que fez.
    - No diga nada de que venha a se arrepender mais tarde - retrucou Martin.
    - Talvez seja mesmo Faye - interveio Glenn. - Escutem, estou muito curioso e pronto para ir embora. No me importo de voltar para a avenida St. Charles 2524 
e esperar um telefonema de Faye. Eu vou. Vocs continuem a viagem. S acho que no estou disposto a fazer companhia a tia Anna Belle. Triana, v para Manaus. Com 
Martin e Roz.
    - Sim, vai ser o ltimo lugar - concordei. - Gosto muito desta terra, e j que viemos at aqui... vou at Manaus. Preciso ir.
    Katrinka e Glenn acabaram ficando.
    Martin ficou para organizar o concerto beneficente em Manaus. Roz tambm me fez companhia, e ningum se esquecia de Faye. O vo para Manaus durou trs horas.
    O teatro Amazonas era uma jia - menor, sem dvida, que a grandiosa construo de mrmore no Rio, mas esplndido, e muito estranho, com folhas de caf gravadas 
em ferro, com as poltronas de veludo que eu vira em Fitzcarraldo, com os murais dos ndios. Um abrao envolvente do barroco com a arte e a tradio nativas, associados 
pelo arrojado e doido baro da borracha que construiu o teatro.
    Parecia que,  semelhana de Nova Orleans, tudo, ou quase tudo, naquele pas era feito por alguma personalidade singular e excntrica, no por uma conscincia 
ou fora coletiva.
    Foi um concerto fantstico. Nenhum fantasma apareceu. Absolutamente nenhum. E agora a msica obedecia a um comando. Mesmo quando se tornava mais emaranhada, 
eu podia sentir o comando fluindo, no se afogando nela. Eu tinha um fio condutor. E no temia os tons mais profundos.
    Havia uma igreja de So Sebastio numa praa. Enquanto a chuva caa, fiquei uma hora sentada l dentro, pensando em Karl e numa poro de coisas, pensando como 
a msica tinha sado, como agora eu podia realmente me lembrar do que tinha tocado, ou pelo menos ouvir um plido eco do que tinha tocado.
    No dia seguinte, passeei com Roz pelo porto. A cidade de Manaus era to extica quanto o prprio teatro de pera; lembrava o porto de Nova Orleans nos anos 40, 
quando eu era muito pequena e nossa cidade era um verdadeiro porto, onde havia, em cada doca, navios como aquele que eu estava agora vendo.
    Balsas transportavam centenas de trabalhadores de volta aos lugarejos onde moravam. Camels vendiam coisas para os marinheiros levarem no bolso, como pilhas 
de lanterna, fitas cassete e canetas esferogrficas. Nos tempos de minha infncia, vendiam-se isqueiros com decalques de mulheres nuas. Era o artigo mais barato 
que se podia comprar junto ao prdio da alfndega.
    Nenhum telefonema dos Estados Unidos.
    Era de mau agouro? Era bom? Nada significava?
    Em Manaus, o rio Negro corria  nossa frente. Na volta, vimos do avio o encontro das guas pretas e brancas que formam o Amazonas.
    Havia um bilhete  nossa espera quando entramos no Copacabana Palace. Abri sem a menor dvida de que leria uma notcia trgica. Achei que ia desmaiar e senti 
um enjo no estmago.
    Mas no dizia respeito a Faye.
    Fora escrito com mo firme, numa velha e trabalhada caligrafia, numa caprichosa caligrafia do sculo XVIII:
    
  Preciso v-la. Suba at o velho hotel. Prometo que no tentarei machuc-la. Seu Stefan.
    
    Desconcertada, fitava o bilhete. 
    - V para a sute - pedi a Roz.
    - Que est havendo com voc?
    No deu tempo de responder. Com o violino na capa, jogado no ombro, tive de descer correndo a rampa do hotel para pegar Antnio, que acabara de nos trazer do 
aeroporto.
    Embarcamos sozinhos no trem, sem guarda-costas, mas o prprio Antnio era um homem de respeito e no tinha medo de ladres. No havia, alis, nenhum de tocaia. 
Mesmo assim, ele fez uma ligao no celular. Um dos guarda-costas subiria a montanha para se encontrar conosco no hotel. Estaria l em poucos minutos.
    Viajei em rigoroso silncio. Vrias vezes abri o bilhete. Relia as palavras. Era a letra de Stefan, era a assinatura de Stefan.
    Meu Deus.
    Saltamos na parada do hotel, a ltima antes do Cristo, e pedi que Antnio me esperasse na margem da linha, na plataforma onde as pessoas tomavam o trem. Disse 
que no tinha medo de ficar sozinha naquela floresta. Alm disso, ele me ouviria gritar se eu precisasse de ajuda.
    Subi passo a passo a encosta e me lembrei, de repente, com um sorriso apertado, do Segundo Movimento da Nona de Beethoven. Acho que o escutei em minha cabea.
    Stefan estava no muro de cimento  beira do precipcio. Usava aquelas indefinveis roupas negras. O vento lhe agitava o cabelo. Parecia vivo, slido, um homem 
comum apreciando a vista: a cidade, a selva, o mar.
    Parei a uns trs metros dele.
    - Triana - disse, se virando. S irradiava ternura. - Triana, meu amor. - Jamais vira uma expresso to pura em seu rosto.
    - Qual  o truque, Stefan? - perguntei. - O que  isso agora? Ser que alguma fora malfica lhe ensinou a maneira de tirar o violino de mim?
    Eu o ofendera. Foi como se o golpeasse bem no meio dos olhos. Quando ele se recuperou vi mais uma vez, sim, mais uma vez suas lgrimas brotarem. O vento lhe 
dividia em camadas de fios o cabelo negro e comprido; as sobrancelhas se juntaram quando curvou a cabea.
    - Tambm estou chorando de novo - falei. - Achei que o riso tinha se tornado nossa linguagem, mas agora vejo novamente as lgrimas. O que posso fazer para cont-las?
    Stefan fez sinal para eu chegar mais perto.
    No podia recusar, e foi ento que senti seu brao em volta de meu pescoo. Mas ele no fez qualquer movimento para se apoderar daquela capa de veludo que eu 
puxara para o peito e que abraava com carinho.
    - Stefan, por que no foi embora? Por que no entrou na luz? No viu a luz? No viu quem estava l, acenando, esperando para gui-lo?
    - Sim, eu vi. - Ele recuou.
    - Ento, o que o mantm aqui? Por que novamente tanta vitalidade? Quem paga agora por isto com memrias ou pranto? O que est fazendo? Empostando sua educada 
voz de tenor, sem dvida adestrada em Viena, to requintada como seu estilo ao violino...
    - Silncio, Triana... - Era um tom humilde. Sereno. Seus olhos estavam apenas calmos, pacientes. - Nunca paro de ver a luz, Triana. Vejo sempre. Vejo agora. 
Mas Triana... - Seus lbios tremeram.
    - O que foi?
    - Triana, e se, se quando eu entrar naquela luz...
    - Deus, v! Pode ser pior que o purgatrio que me mostrou? No acredito. Eu vi. Senti o calor. Eu vi.
    - Triana, e se, se quando eu for, o violino for junto comigo?
    Demorou um segundo para se fazer a conexo, para um olhar nos olhos do outro. Ento eu tambm vi a luz, que no era parte de qualquer coisa em volta dela. O 
final da tarde conservava seu claro radiante, a floresta sua tranqilidade. A luz s aderia a ele e vi seu rosto se alterar de novo, transcender a raiva, a exaltao, 
o pranto ou pura e simplesmente a confuso.
    Finalmente eu tinha resolvido. E ele sabia.
    Ergui a capa com o violino e o arco, estendi os braos e pousei o instrumento nas mos dele.
    Stefan ainda levantou as mos para dizer no, no!
    - Talvez no! - murmurou. - Triana, tenho medo.
    - Eu tambm, jovem Maestro. E tambm ficarei com medo quando
morrer.
    Ele se virou, olhou para longe de mim, como se encarasse um mundo que eu no conseguiria avaliar. Vi apenas uma radincia, uma crescente claridade que no agredia 
meus olhos nem minha alma, que s me fazia sentir amor, um amor intenso e confiante.
    - Adeus, Triana - disse ele.
    - Adeus, Stefan.
    A luz se fora. Fiquei parada na estrada, na floresta tropical, junto ao hotel em runas. Fiquei olhando para as paredes manchadas, para a cidade l embaixo, 
de arranha-cus e casebres, estendendo-se por quilmetros e quilmetros de montanhas e vales.
    O violino se fora.
    A capa estava vazia em minhas mos.
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
  
  21
  
  
 No fazia sentido chamar a ateno de Antnio para o fato de o violino ter desaparecido. Nosso guarda-costas chegara com a van.
    Eu segurava a capa como se o violino ainda estivesse l dentro. E descemos a montanha em silncio. O sol se derramava pelas janelas que se abriam entre as altivas 
folhas verdes, atirando flechas purificadoras sobre a estrada. O ar fresco tocava-me o rosto.
    Meu corao transbordava de alguma coisa que eu no sabia o que era. No exatamente. Amor, oh sim, amor, amor e espanto, sem dvida, mas no s isso, alguma 
coisa mais, um certo medo de tudo que se estendia  frente, medo da capa vazia do violino, medo por mim mesma e medo por todos que eu amava e todos que agora dependiam 
de mim.
    Remo vagos pensamentos racionais enquanto corramos pelas ruas do Rio. Quando chegamos ao hotel, era quase noite. Escapuli da van, acenando para meus leais 
companheiros, e entrei. No parei sequer no balco para ver se havia algum recado.
    Minha garganta estava apertada. No conseguia falar. S tinha uma coisa a fazer. Perguntar a Martin sobre os outros violinos que levvamos conosco, o Strad curto 
que tnhamos comprado ou o Guarneri. E ver o que acontecia.
    Oh, coisas pequenas, amargas, que deixam pendente o destino de toda uma alma e todo o universo conhecido por essa alma. No queria ver os outros. Mas tinha de 
me encontrar com Martin, tinha de encontrar os violinos.
    Quando as portas do elevador se abriram, ouvi todos eles falando muito alto, rindo.
    Por um instante no consegui interpretar aquele barulho.
    Atravessei o corredor e bati na porta da sute presidencial.
    - Sou eu, Triana, abram!
    Foi Glenn quem puxou a porta. Estava em delrio.
    - Ela est aqui, est aqui! - gritou.
    - Veja, querida - disse Grady Dubosson -, simplesmente a colocamos no avio e a trouxemos para c. S esperamos que carimbassem o passaporte.
    Vi seu perfil contra a janela distante, a cabea pequena, o corpo pequeno, o pequeno sopro de um ser, Faye. S Faye era assim mida, assim delicada, e tinha 
aquele perfeito equilbrio de formas, como se Deus gostasse tanto de fazer duendes ou crianas pequenas e meigas quanto coisas crescidas.
    Faye usava a jaqueta jeans desbotada e a inevitvel, a caracterstica saia branca. O cabelo ruivo estava cortado curto. No podia ver seus traos no claro do 
crepsculo que entrava pela janela.
    Faye correu para os meus braos.
    Fechei os braos em volta dela e apertei. Como era pequena, realmente pequena, talvez com a metade de meu peso! To pequena que poderia ser esmagada como um 
violino.
    - Triana, Triana, Triana! - ela gritava. - Voc pode tocar violino. Pode tocar. Tem o dom!
    Eu a observava. No conseguia falar. Queria am-la, queria saud-la, queria que flusse de mim um calor como aquele que a luz trouxera para Stefan na estrada 
da floresta. Mas naquele instante me limitei a contemplar o rostinho esperto, os belos e cintilantes olhos azuis, e a pensar: est a salvo, no est morta, no est 
no tmulo, est aqui e est ilesa.
    Novamente estvamos todos juntos.
    Roz aproximou-se com espalhafato, jogando os braos em torno de mim, mas logo baixou a cabea e a voz.
    - Eu sei, eu sei, eu sei, devamos estar furiosos, devamos gritar com
ela, mas Faye est de volta, est bem, envolveu-se em alguma aventura perigosa, mas voltou para casa! Triana, ela est aqui. Faye est conosco.
    Concordei com a cabea. E desta vez, ao abraar Faye, beijei seu rosto delicado. Senti sua cabecinha, pequena como uma cabea de criana. Senti a leveza, a fragilidade, 
mas tambm uma terrvel energia dentro dela, nascida da gua turva do tero, da casa escura, da me cambaleante, do caixo que baixou na terra.
    - Eu a amo - sussurrei. - Faye, eu a amo.
    Ela recuou com um passo de dana. Como gostava de danar. Uma vez, quando as quatro irms, que estavam separadas, se encontraram na Califrnia, ela danou em 
crculos e deu pulos de contentamento ao nos ver reunidas. Como estvamos reunidas agora, quando ela saltitava em volta do quarto. Acabou pulando sobre a mesinha 
de madeira, a mesa do caf - no era a primeira vez que a via fazer esse truque. Sorriu, os olhinhos flamejantes, o cabelo ruivo na luz que vinha da janela.
    -        Triana, toque o violino para mim. Para mim. Por favor. Para mim.
Para mim.
    Nenhum arrependimento? Nenhuma desculpa? Nenhum violino.
    - Martin, quer pegar os outros instrumentos? O Guarneri. Acho que o Guarneri est afinado e pronto para tocar. H tambm um bom arco no estojo.
    - Mas o que aconteceu ao Strad longo?
    - Devolvi-o - murmurei. - Por favor, no discuta comigo agora. Por favor.
    Ele saiu resmungando.
    S ento vi Katrinka, aflita, de olhos vermelhos, sentada no sof.
    - Estou feliz por t-la de volta - comentou com um timbre torturado, selvagem. - Mas voc no sabe... - Como Trink tinha sofrido.
    - Faye tinha de ir. Estava na hora de sair pelo mundo! - falou Glenn com a fala arrastada, generosa. Virou-se para Roz. - Faye tinha de fazer o que fez. O importante 
 que est em casa. Ela conseguiu.
    - Oh, no precisamos discutir o assunto esta noite - retrucou Roz. - Toque para ns, Triana, mas no uma daquelas horrveis danas de bruxas, essas eu no suporto 
mais.
    - No vamos nos colocar no lugar dos crticos - disse Martin fechando a porta. Trazia o violino Guarneri. Era o que mais se aproximava de meu Strad.
    - Vamos, toque alguma coisa para ns, por favor - falou Katrinka com a voz entrecortada, o deslumbramento nos olhos, irremediavelmente magoada e aliviada quando 
olhava para Faye.
    Faye continuava em cima da mesa, me olhava. Parecia haver uma frieza em torno dela, uma dureza, algo que no indicava qualquer preocupao conosco, algo que 
talvez dissesse: "Minha dor era maior do que imaginam." Era exatamente isso que temamos quando ligvamos apavorados para os necrotrios e dvamos sua descrio. 
Quem sabe ela no estaria apenas querendo dizer: "Minha dor foi to grande quanto a de vocs."
    Estava ali, viva.
    Peguei o novo violino. Acabei rapidamente de afin-lo. A corda do mi estava muito frouxa. Rodei a cravelha. Suavemente. Aquele instrumento no era to bom quanto 
meu Strad longo, nem to conservado, mas fora muito bem... restaurado, como se costuma dizer. Estiquei o arco.
    E se no houvesse msica?
    Senti um n na garganta. Olhei para a janela. Acho que tive vontade de ir at l e contemplar o mar, sentindo a alegria da volta de Faye, sem ter de encontrar 
uma maneira de dizer que no fazia mal que tivesse sumido, sem ter de discutir quem era a culpada, quem estava cega, quem pouco ligava.
    Em especial, no gostaria de saber se conseguiria tocar.
    Mas esse tipo de coisa nunca acontecia em funo de uma opo minha. Pensei em Stefan na floresta.
    "Adeus, Triana."
    Ajustei a corda de l, depois o r e o sol. Agora podia fazer isso sem ajuda. Na realidade, com um nico toque j consegui atingir quase o tom perfeito.
    Estava pronto. At agora o violino tinha correspondido. Lembrei-me do dia em que me fora apresentado e tocado para mim. Era um som mais baixo, mais difuso que 
o som do Strad, um pouco parecido com o som de violo, talvez mais vigoroso. No conhecia as particularidades dos violinos daquele tipo. O objeto do meu amor era 
o Strad.
    Faye se aproximou e levantou a cabea.
    Acho que quis dizer alguma coisa, mas no pde, como eu tambm no pude. Voc est viva, pensei outra vez, est conosco e temos a chance de lhe dar segurana.
    - Quer danar? - perguntei.
    - Sim! - disse Faye. - Toque Beethoven para mim! Toque Mozart! Toque qualquer um deles!
    - Toque uma msica alegre - falou Katrinka -, voc sabe, uma daquelas canes bonitas e felizes.
    Eu sabia.
    Levantei o arco. Meus dedos desceram rapidamente, avanando sobre as cordas, o arco disparou. Era a cano feliz - alegre, livre, feliz cano que brotou animada 
e exuberante, que brotou perfeita do violino, to perfeita, to vibrante, to diferente aos meus ouvidos devido  troca da madeira, que eu quase dancei. Rodava arrebatada 
pelo instrumento, jogando o corpo para a frente, para os lados, e s de uma forma vaga, pelo canto do olho, vendo-as danar: Roz, Katrinka e Faye, minhas irms.
    Eu tocava, tocava. A msica flua.
    
    
    
    E naquela noite, quando elas dormiam, quando os quartos estavam silenciosos, quando mulheres altas, esbeltas, caminhavam  venda no bulevar, peguei o violino, 
o arco e fui at a janela que ficava bem no meio do hotel.
    Vi l embaixo o espetculo das ondas fantsticas. Vi-as danar como ns tnhamos danado.
    Toquei para elas - com segurana e desembarao, sem medo e sem raiva. Toquei para elas uma cano de agonia, uma cano de jbilo, uma cano de glria.
                                             
    
    Fim
    
    Concluso: 14 de maio de 1996
    1:50
    segunda concluso: 20 de maio de 1996
    9:25
    ltimo repasse: 7 de janeiro de 1997
    2:02
    
    
    Anne Rice




















Este livro foi composto pela
Art Line Produes Grficas Ltda.
Rua Visconde de Inhama, 64 - Centro - RJ
e impresso na Editora JPA Ltda.
Av. Brasil, 10.600 - Rio de Janeiro - RJ
em maro de 1999,
para a Editora Rocco Ltda.
















      1 * Geralmente, em ingls, a floresta tropical  chamada de rainforest, floresta chuvosa. (N. do T.)

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VIOLINO

ANNE RICE
